terça-feira, 18 de agosto de 2026

Livro analisa artes gráficas da histórica editora José Olympio, FSP

 Naief Haddad

Padrões e Variações: Artes Gráficas na Livraria José Olympio Editora, 1932-1962

  • Preço R$ 160
  • Autoria Carla Fernanda Fontana
  • Editora Edusp (440 págs.)

Artes Gráficas e Literatura: Livraria José Olympio Editora, Anos 1930-1960

Nascido em Batatais, no interior de São Paulo, José Olympio ainda não tinha completado 18 anos quando conseguiu um emprego na seção de livros da tradicional Casa Garraux, na capital paulista. No final da década de 1910, era o encarregado de limpar as estantes, entre outros afazeres.

Tomou gosto pela vida de livreiro e virou balconista. Em 1931, abriu sua própria loja na cidade e, no ano seguinte, editou seu primeiro livro. Surgia a Livraria José Olympio Editora.

Transferiu o negócio para o Rio de Janeiro, onde ampliou o número de publicações. As vendas cresciam, o prestígio também. Em 1937, o Anuário Brasileiro de Literatura, uma publicação voltada para o mercado editorial, referiu-se a José Olympio como "o maior editor nacional".

O editor José Olympio ao lado dos poetas Carlos Drummond de Andrade (à esq.) e Manuel Bandeira - Divulgação

Entre os primeiros autores da editora, estavam Rachel de Queiroz e José Lins do Rego. Mais tarde, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado e um longo etc. Não há como pensar na literatura do país no século 20 sem considerar a José Olympio, casa que hoje integra o grupo Record.

A reunião dos principais romancistas, poetas e cronistas da segunda fase do modernismo brasileiro consagrou a editora, mas não só. Havia, desde o início do projeto, um cuidado gráfico incomum para a época. As capas da José Olympio se tornaram "o símbolo da renovação incorporada ao gosto do público", escreveu o crítico Antonio Candido em 1989.

Os projetos visuais das três primeiras décadas dessa trajetória são o tema do recém-lançado "Padrões e Variações - Artes Gráficas na Livraria José Olympio Editora", da editora e designer Carla Fernanda Fontana. Ao longo de cinco anos, ela pesquisou quase 2.500 edições, além de documentos e reportagens sobre essas publicações.

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Além do livro, uma exposição na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), na USP, apresenta uma seleção de capas, ilustrações, esboços e artes-finais. A curadoria também é de Fontana.

Um dos protagonistas do livro e da mostra da BBM é o artista paraibano Tomás Santa Rosa, que foi do Nordeste para o Rio de Janeiro, então capital do país, em um percurso semelhante ao de diversos autores do catálogo da editora.

Santa Rosa ficou muito associado ao universo gráfico da José Olympio graças ao requinte visual das suas criações e à presença constante nas capas –nos 22 anos em que esteve ligado à editora, preparou quase 300 layouts.

"Ele soube traduzir visualmente a literatura daquela época. Era próximo de todos esses escritores, eles conviviam no Rio", diz Fontana. Entre seus amigos, estavam Lins do Rego e Jorge Amado.

Em "Roteiro de Arte", livro de 1952, Santa Rosa indicou como seria uma capa ideal. Deveria ter "um título sóbrio, legível, bem distribuído de modo a cobrir o espaço visual com clareza e propriedade". Abominava o "colorido gritante".

Capa antiga do livro "Os Corumbas" com fundo bege e retângulo verde central. No retângulo, título em letras grandes e pretas, nome do autor acima e ilustração em preto e branco de dois rostos humanos estilizados. Na parte inferior, nome da editora Livraria José Olympio Editora.
Capa criada por Santa Rosa para 'Corumbas', romance de Amando Fontes editado pela José Olympio em 1935 - Reprodução

Alguns achados da pesquisa redimensionam a produção de Santa Rosa. Fontana constatou que pelo menos 11 capas, até então de autoria desconhecida, foram desenhadas pelo artista, uma conclusão alcançada pelo acesso a recibos com prestação de serviços.

Entre elas, estão as de "O Conde e o Passarinho", de Rubem Braga, de 1936, e "Claro Enigma", de Drummond, de 1951.

Fontana detalha as marcas do estilo de Santa Rosa e os projetos em que se envolveu. Mostra, por outro lado, que outros artistas contribuíram para a identidade visual da José Olympio, em especial Luis Jardim, Raul Brito, G. Bloow e Poty –todos eles, além de Santa Rosa, são contemplados na exposição.

Embora seja autor de mais de 300 capas da editora, o pernambucano Jardim é pouco lembrado, mesmo entre aqueles que estudam o design gráfico no país. Ele criou, por exemplo, as capas de "Fazendeiro do Ar", de Drummond, de 1954, e de "Primeiras Estórias", de Rosa, de 1962.

Além das capas, a pesquisadora se deteve nos livros ilustrados do catálogo da José Olympio. Nessa seara, tanto o livro quanto a exposição ressaltam a coleção dedicada às obras completas de Dostoiévski, que começou em 1944.

Além de Santa Rosa e Jardim, o projeto teve participação de artistas como Oswaldo Goeldi, Danilo di Prete, Marcelo Grassmann e Livio Abramo.

Gravura em preto e branco mostra rosto feminino de expressão intensa, com olhos grandes e marcados. Atrás, duas velas acesas iluminam flores e folhas detalhadas. A composição sugere ambiente simbólico ou ritualístico.
Ilustração de Axel de Leskoschek para 'O Eterno Marido', livro de Dostoiévski editado pela José Olympio em 1944 - Reprodução

CEO que demitiu 900 pessoas via Zoom é mandado embora, diz emissora, FSP

 Christian Policeno

São Paulo

O executivo indiano que ficou conhecido por demitir 900 funcionários em chamada de vídeo do Zoom, Vishal Garg, foi demitido do cargo de CEO da própria empresa, a Better Home & Finance, na segunda-feira (3). A informação foi noticiada pela CNN Business.

De acordo com o veículo, Garg afirmou ter sido enganado por Daniel Lewis, executivo que tomou seu lugar na companhia na semana seguinte à sua saída. "Ele disse que gostava da estratégia da empresa. Ele nos elogiou no X e usou isso para entrar no nosso conselho e ganhar nossa confiança", disse Garg à CNN.

A Better Home & Finance é uma companhia americana de tecnologia financeira voltada para o mercado imobiliário e hipotecas. Controladora da Better.com, a empresa tem como foco auxiliar a compra, o financiamento e outros serviços relacionados ao mercado imobiliário.

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Vishal Garg: ex-CEO da empresa do setor imobiliário - Founder & Better/LinkedIn

O executivo demitiu os 900 funcionários no dia 1º de dezembro de 2021."Se você está nessa chamada, você é parte de um grupo azarado que está sendo demitido. Seu contrato aqui será imediatamente rescindido", disse Garg à época, em vídeo obtido pela CNN Business.

Christian Chapman, um dos demitidos, com mais de 20 anos de empresa, classificou o momento como surreal. "Foi uma daquelas coisas que você não acredita que vai acontecer", disse Chapman à época, em entrevista à CNN Business.

Chapman disse que Garg nem esperou todos os funcionários se logarem e anunciou a demissão em massa em três minutos.

Os demitidos faziam parte de equipes como recrutamento, diversidade e inclusão e representavam 9% da força do quadro de funcionários.

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Na ocasião, Garg disse na videochamada que as demissões foram motivadas pelo desempenho e pela produtividade dos funcionários e pela busca por eficiência de mercado. "Não quero fazer isso. A última vez que fiz isso, chorei", afirmou ele durante a ligação.

O executivo chegou a se desculpar pelo jeito como conduziu a demissão, porém, no mesmo mês, a empresa afastou Garg com "efeito imediato", por decisão do conselho administrativo da companhia.

No mês seguinte, em janeiro de 2022, Garg voltou ao cargo de CEO da empresa. Na ocasião, Garg se consultou com um coach corporativo e afirmou que refletiu sobre sua liderança durante o período em que ficou afastado.

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Wilson Gomes Janones desafia a esquerda a abandonar a 'campanha fofa' - FSP

 André Janones anunciou no X que está de volta à linha de frente da campanha de Lula. Disse ter "aceitado a missão", publicou uma foto com o presidente e prometeu seguir a estratégia que, segundo ele, a esquerda precisa adotar para enfrentar a direita: abandonar a "campanha fofa" e entrar na guerra digital "sem medo, sem pudor e sem remorso".

Tudo isso, porém, compõe até agora um roteiro apresentado pelo próprio Janones nas redes. A campanha de Lula não confirmou publicamente que o deputado tenha sido incorporado à sua estratégia eleitoral.

Na ilustração, um celular, visto de frente e na posição horizontal, ocupa quase toda a imagem. Na tela, aparece em primeiro plano o rosto de um homem desenhado em traços finos de bico de pena, com hachuras vermelhas. No primeiro plano, uma mão toca a tela com o dedo indicador, está aplicando uma faixa de tinta preta logo abaixo de um dos olhos, enquanto outra faixa semelhante já aparece sob o outro olho. O gesto remete diretamente à pintura de guerra: se preparando para entrar em combate, neste caso, para a “guerra digital” das redes sociais. O rosto permanece impassível, enquanto a movimentação da mão introduz uma dimensão de real movimento e agressividade. Nas laterais da tela do celular há grandes áreas vermelhas. O contraste entre o desenho meticuloso do rosto, as marcas negras sob os olhos e o gesto da mão cria uma metáfora visual para a guerra digital, a disputa agressiva por narrativas e a disposição de “entrar na lama” das redes sociais. A pintura de guerra transforma simbolicamente o personagem em um combatente prestes a entrar no campo de batalha virtual.
Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes de 19 de agosto de 2026 - Ariel Severino/Folhapress

O roteiro vem sendo escrito há semanas. Primeiro, Janones anunciou que a meta deveria ser o "extermínio completo do bolsonarismo" e declarou-se pronto para "matar ou morrer". Depois, acusou seu campo de "treinar fofo", enquanto os bolsonaristas já estariam dominando as narrativas e o engajamento.

Em seguida vieram a fotografia, o anúncio da suposta missão e a declaração de guerra. Finalmente, convocou a militância a abandonar a "esquerda limpinha" e escolher suas armas, prometendo "tiro, porrada e bomba nas redes, 24 horas por dia".

Pode ser apenas Janones reivindicando para si um lugar que a campanha de Lula não lhe concedeu. De toda forma, é interessante como ele revela uma concepção bastante precisa de comunicação eleitoral que é compartilhada por parte considerável da militância: não se pode ter nojo de sujar as mãos e lutar na lama, se necessário.

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Campanhas eleitorais sempre combinam estilos de comunicação. Há a campanha oficial, submetida à legislação, às pesquisas, às alianças e ao cálculo reputacional do candidato. E há partidos, parlamentares, influenciadores, militantes e redes de apoio que atuam com graus de coordenação e autonomia. Alguns podem assumir as tarefas que o núcleo oficial não quer incorporar à sua voz.

É esse lugar que Janones reivindica. "Um governo tem limitações que nós não temos aqui pelas redes", escreveu ao absolver Lula, o governo e a Secom daquilo que considera a incompetência digital da esquerda. A proposta é uma divisão do trabalho: enquanto a campanha oficial preserva o candidato, outros provocam, ridicularizam, alarmam, atacam reputações e brigam por atenção nas plataformas.

Não é invenção sua. Figuras muito diferentes da direita digital, como Carlos Bolsonaro e Pablo Marçal, também operam num repertório em que conflito, choque, linguagem direta, quebra de liturgias e provocação têm valor estratégico. Janones adota parte dessa gramática, mas acrescenta uma justificativa: não se entra no esgoto porque seja bom, mas porque o adversário já está lá. Recusar suas armas seria aceitar lutar em desvantagem.

Daí o desprezo pela "campanha fofa", pela "esquerda limpinha", pelos "cirandeiros" e "arrogantes de salto alto". O alvo interno é quem supostamente confunde escrúpulo e correção de linguagem com eficácia eleitoral. O janonismo cultural reaparece, assim, como uma doutrina de espelhamento: se a extrema direita prosperou com agressividade, transgressão e guerra permanente por atenção e impacto, a esquerda deveria fazer o mesmo.

Há, contudo, bons motivos para se ter cautela com esta doutrina. O primeiro tem a ver com prudência política. Quem escolhe a destruição reputacional e a guerrilha de narrativas como armas deve contar com a reciprocidade do inimigo. Janones deveria saber que quem tem telhado de vidro não está especialmente protegido em uma guerra de pedras e que, com dois escândalos políticos suspensos como lâminas sobre o pescoço dos candidatos este ano, talvez não seja sábio esticar demais a corda.

O segundo é elementar: eleição não é guerra. Ninguém precisa matar nem morrer. Uma campanha existe para convencer pessoas, inclusive algumas que votaram no adversário. A retórica da aniquilação pode excitar militantes, mas não é evidente que seja o melhor idioma para persuadir quem ainda pode mudar de lado.

Finalmente, "livrar o país" de um campo político é uma fantasia de militantes radicais. Eleições derrotam candidatos; não exterminam os milhões de cidadãos que votam neles. O bolsonarismo mostra o quanto a promessa de eliminar o inimigo mobiliza os fiéis e, ao mesmo tempo, reduz a política a uma batalha moral sem fim.

A esquerda pode aprender com a direita digital sobre velocidade, presença nas redes e capacidade de resposta. Não precisa aprender que política é guerra nem que adversários existem para ser exterminados. Uma campanha pode até precisar entrar na lama de vez em quando. O erro é imaginar que é no lodo que estão os eleitores que faltam para vencer.