quarta-feira, 15 de abril de 2026

Ministério prepara lista de 20 trechos curtos ferroviários para oferecer ao setor privado, FSP

 

Brasília

O Ministério dos Transportes prepara uma lista com cerca de 20 trechos de ferrovias abandonadas e de curta extensão, com média de 50 km a 60 km, para oferecer à iniciativa privada por meio de chamamento público. Trata-se de um modelo inédito de leilão, em que a administração pública oferece a malha ao mercado e cobra apenas investimentos na reconstrução e operação no trecho, sem exigir pagamentos à União (outorga).

Conforme informações obtidas pela Folha, os trechos começarão a ser oferecidos no segundo semestre deste ano e terão como base o edital que está em vias de ser aprovado pelo TCU (Tribunal de Contas da União), que analisa a oferta do "corredor Minas-Rio", uma malha já existente que faz parte hoje da FCA (Ferrovia Centro-Atlântica).

A imagem mostra uma estação ferroviária abandonada com um telhado em ruínas. O edifício está coberto por vegetação e cercado por trilhos de trem que se estendem em direção ao horizonte. O céu está nublado, e a área ao redor é composta por grama verde e terra exposta.
Estação de trem da cidade de Lins, no interior do estado de São Paulo, desativada após o encerramento da linha do "Trem da Morte" - Eduardo Anizelli - 19.dez.21/Folhapress

A lista de trechos é resultado de uma filtragem que o Ministério dos Transportes fez sobre um estudo realizado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), em parceria com a estatal Infra SA, vinculada à pasta.

Como mostrou a Folha, esse estudo preliminar, que será usado para embasar o planejamento logístico e definir prioridades de investimento, concluiu que há 7.412 quilômetros de trilhos em 37 trechos de ferrovias que teriam condições de voltar a operar, desde que contassem com algum tipo de subsídio ou investimento público, uma conta que poderia chegar a custar até R$ 75 bilhões aos cofres públicos ao longo dos anos.

As restrições orçamentárias, porém, levaram o governo não só a reduzir o número de trechos que devem ir a mercado, como também a extensão de cada um deles. Ficou acertado que, das 37 malhas identificadas, cerca de 20 devem ser oferecidas.

A maior parte delas prevê o modelo de chamamento público, mas o ministério também vai colocar trechos que não despertem interesse imediato em um banco de "oferta permanente", como acontece com os blocos de petróleo. Dessa forma, haverá uma lista de projetos que, se não atraírem investidores de imediato, poderão ser solicitados a qualquer momento.

Os projetos vão prever aporte público, mas em cifras bem inferiores ao que apontou o estudo do BID. A previsão é que os trechos possam contar com um aporte público total de aproximadamente R$ 600 milhões por ano.

O Ministério dos Transportes afirma que pretende usar como fonte a redução de gastos da União com as rodovias que foram concedidas nos últimos quatro anos.

Entre 2023 e 2026, a malha rodoviária concedida à iniciativa privada deve saltar de cerca de 13 mil km para cerca de 25 mil km, segundo estimativas do ministério. A pasta calcula que isso deve gerar economia anual da ordem de R$ 600 milhões em despesas de manutenção, valor que poderá ser direcionado aos projetos ferroviários.

Entre os trechos para carga já confirmados para o chamamento público estão as malhas entre Cruz Alta e Santo Ângelo (RS); e de Santo Ângelo até Santa Rosa (RS).

Já na área de turismo, o ministério pretende oferecer o traçado que liga Ouro Preto a Mariana (MG).

A lógica é apostar nas chamadas "shortlines", ferrovias de menor extensão, mais baratas para recuperar e com maior chance de retorno financeiro.

O plano do governo não prevê oferta de trechos que demandem subsídio público durante a operação dos trens, mas apenas aporte da União para bancar parte dos investimentos durante a reconstrução. A lógica é fazer algum apoio inicial para recuperação da infraestrutura, mas deixar o risco da operação com o investidor privado.

A expectativa do ministério é que o TCU conclua a sua análise do corredor Minas-Rio até meados de maio, para que possa ser feito o chamamento público. A partir desse modelo de oferta consolidado, a intenção é que esse processo se transforme em uma referência para todos os demais, como acontece com a oferta de terminais portuários privados, os TUPs, que não precisam ser submetidos ao crivo da corte de contas.

A replicação do modelo traz rapidez e reduz a necessidade de análise individual de cada projeto pelos órgãos de controle.

Do total de 7.412 quilômetros de trilhos que poderiam ser retomados, 1.310 quilômetros têm menor dependência de dinheiro público. Essa parcela necessitaria apenas de um aporte estatal para recuperar a infraestrutura abandonada.

A maior parte da rede considerada viável, porém, com cerca de 6.102 quilômetros, dependeria também de subsídios operacionais regulares para manter o funcionamento.

Os dados mostram que a maior parte desses trechos tem vocação para transporte de cargas. Dos quilômetros considerados viáveis, cerca de 5.900 seriam destinados principalmente à movimentação de mercadorias. Aproximadamente 1.200 km poderiam operar em modelo misto, com transporte de cargas e de passageiros. Apenas 300 quilômetros de trilhos aparecem como viáveis para transporte específico de passageiros.

Judiciário insaciável, Editorial Estadão

 Eles estão descontrolados. Não passou nem um mês desde que o Supremo Tribunal Federal (STF) erigiu um requintado rooftop acima do teto remuneratório constitucional para acomodar, a um tempo, seus anseios de apaziguar uma população irritada com os desmandos de seus ministros e os privilégios dos juízes mais bem pagos do mundo, e magistrados e promotores já reativaram sua usina de penduricalhos. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) violaram a decência – de novo. Violaram a Constituição – de novo. Violaram decisões frescas do Supremo. E tudo com o aval de seu presidente, Edson Fachin.

Juízes e promotores não estão no topo da pirâmide social brasileira, estão acima dele. O teto de R$ 46 mil já os colocaria na prateleira do 0,6% a 1% mais rico. Mas mais de 90% dos magistrados ganham mais, rotineiramente duas a quatro vezes mais. Alguns chegam a faturar R$ 400 mil e até R$ 1 milhão num único mês. Segundo levantamento do República.org, os 25% mais bem pagos ganham mais que qualquer juiz de países desenvolvidos. Nenhuma outra corporação tem a prerrogativa de definir a própria remuneração, criar benefícios por decreto, reinterpretar a natureza das verbas – em outras palavras: legislar, executar e julgar a própria folha de pagamento.

Com a credibilidade em queda livre, o STF fez estardalhaço prometendo disciplinar a bandalheira, mas, na prática, só a reacomodou e a legitimou. Fabricou um teto premium para a magistratura de 70% acima do limite constitucional e ressuscitou privilégios, como um acréscimo de 5% na renda a cada cinco anos, uma vantagem remuneratória classificada como indenizatória – isentando-a do teto e do imposto. Para manter as aparências, excluiu algumas rubricas mais grotescas.

Mas os togados são insaciáveis. Nas tribunas e redes sociais, camuflaram sua chantagem com uma litania vitimista. Teve juiz reclamando de que vai ganhar menos que “vendedor de sorvete”. Outros cancelaram audiências. Os magistrados insistem que precisam burlar a Constituição para não serem corrompidos, sugerindo que sua honestidade tem um preço – embora nunca saibamos qual é, pois o noticiário não para de estampar juízes multimilionários vendendo sentenças. Comparam-se às grandes bancas de advocacia – embora, na média, um advogado ganhe dez vezes menos que um juiz. Dizem que a carreira não é atrativa – embora não haja um único dado comprovando o êxodo dos juízes e as filas dos concursos engrossem ano a ano.

O STF declarou inconstitucional o auxílio-moradia. O CNJ e o CNMP o recriaram. O STF extinguiu a assistência pré-escolar. Sem problemas, a resolução conjura um nome virtuoso – “gratificação de proteção à primeira infância” – e a mágica acontece. O STF listou um rol restrito de verbas indenizatórias. A resolução não só criou novas, como metamorfoseou benefícios remuneratórios em indenizatórios. O STF abriu a porta. A corporação a arrombou.

A população não aguenta mais ser saqueada pelo Judiciário e o Ministério Público. O Poder que deveria zelar pela aplicação da lei de forma igual a todos é campeão em violentá-la para enriquecimento próprio. É a corrupção institucionalizada. Não se trata de acusar individualmente juízes e promotores – embora os escândalos criminais se proliferem. Este jornal quer crer que muitos, plausivelmente a maioria, são profissionais honestos e competentes. Mas suas corporações são corruptas. Perpetuam um sistema que normaliza o desvio de finalidade, o locupletamento e a apropriação de recursos públicos sob uma aparência fraudulenta de legalidade.

O Congresso há muito está prevaricando. Não são necessárias negociações “complexas”, consensos “difíceis” e “reformas” grandiosas. Distinguir com clareza o que é verba remuneratória (salário mais adicionais permanentes ao alcance do teto e da tributação) de verbas indenizatórias (ressarcimentos eventuais, comprovados e transitórios) já eliminaria a maior parte do problema. É tão simples quanto isso. Os magistrados se provaram incorrigíveis. Por si sós, jamais assumirão esse compromisso elementar com a decência e a Constituição. Se os atuais representantes eleitos não são capazes de assumi-lo, então são maus representantes. É preciso trocá-los. As eleições estão aí para isso.

A fila do INSS assombra o Planalto, Elio Gaspari, FSP

 Atropelado por pesquisas amargas, o governo demitiu o presidente do INSS e atribuiu a iniciativa à lentidão do instituto para reduzir o tamanho da fila de segurados que esperam pelo atendimento de seus pleitos.

Contem outra, doutores. Em 2023, quando Lula chegou ao Planalto, a fila era de 1,2 milhão de pessoas e o presidente chamou-a de "vergonhosa". Em março passado, ela tinha 2,8 milhões de vítimas.

As pesquisas estão amargas porque o governo não tem uma marca e, para piorar, é ruim de gestão. No caso da fila do INSS, esse defeito da máquina atinge sobretudo o andar de baixo. Estimando-se que cada segurado irradie seu descontentamento para outras três pessoas, a inépcia atingiu mais de oito milhões de pessoas. Durante todo o Lula 3.0 não houve um só dia em que ficou abaixo da "vergonhosa" marca deixada por Bolsonaro. Tudo que o governo ofereceu foram promessas descumpridas.

0
Pessoas esperam na fila de atendimento de agência do INSS em São Paulo - Alex Avelino - 14.mai.25/Folhapress

A primeira delas veio do então ministro Carlos Lupi, prometendo um mutirão para reduzi-la. Com seu palavrório, Lupi disse: "Estamos criando uma rede integrada para garantir a cidadania de mais de 37 milhões de beneficiários da Previdência. E os sindicatos são parceiros essenciais, pois estão na ponta dialogando e auxiliando os trabalhadores que contribuem para ter a proteção social".

Alguns poucos sindicatos foram "parceiros essenciais" para roubar os aposentados com descontos fraudulentos.

Passados alguns meses, sumiram 224 mil pessoas da fila. Era um truque estatístico e culparam-se as vítimas. Os segurados que recorriam de uma negativa formariam uma segunda fila. Falso: se as duas filas fossem somadas, o que seria impróprio, a fila única seria de 3,28 milhões.

PUBLICIDADE

Em novembro de 2023, foi criado um programa milagroso, o PEFPS ou Programa de Enfrentamento à Fila da Previdência Social. Os números mostram que no ano do enfrentamento a fila cresceu com cerca de 800 mil segurados, para 2,3 milhões de vítimas.

A má gestão da fila foi produzida por uma mistura de onipotência com descaso. O descaso é um velho problema da burocracia. Se a Bolsa cai, afetando o andar de cima, o governo se mobiliza. Se a fila do INSS dobra de tamanho, é falta de sorte das vítimas. Pela sabedoria convencional, elas fazem parte de um tradicional eleitorado cativo de Lula e do PT. Engano e as pesquisas mostram isso.

Até a tabulação das pesquisas, o problema da fila do INSS foi um assunto do andar de baixo. Não há hierarcas de Brasília nessa fila.

Lula completou três anos de governo com a inépcia mostrando seu rosto. Ao fim de 2023, o número era ruim, mas não assustava, pois de 1,2 milhão ela cresceu para 1,6 milhão. 2025 foi o ano da ruína, pois ela chegou a 2,3 milhões de segurados.

A troca do presidente do INSS a seis meses da eleição é pura marquetagem para dar a impressão de que o governo olha para o vergonhoso problema. Tripudiando sobre o burocrata demitido, o ministro da Previdência, Wolney Queiroz, foi cruel: "Ele não atacou o problema central da fila. A fila estava escalando, estava aumentando, sem controle". Fica combinado assim.

Se até outubro o governo conseguir o melhor resultado de seu mandarinato, ela continuará acima da marca do 1,5 milhão de vítimas.