terça-feira, 18 de agosto de 2026

Deborah Bizarria - A economia do reconhecimento, FSP

 Em um dia no escritório, um colega perguntou em voz alta se alguém tinha à mão a referência de um estudo. Como eu o havia usado numa coluna para a Folha, ofereci-me para localizá-la, pois sabia que bastaria jogar no Google o nome do pesquisador e o tema do texto. Qual não foi minha surpresa ao encontrar, como primeiro resultado, uma coluna de outro veículo sobre o mesmo assunto e que citava exatamente aquele estudo.

A curiosidade falou mais alto, então cliquei e encontrei o trabalho que procurava acompanhado de outras duas referências encadeadas em uma lógica muito semelhante à que tinha usado na minha coluna. Ainda que não repetisse minhas palavras, o texto reproduzia a forma de relacionar os mesmos estudos ao tema.

Como conhecia o autor, fiquei em dúvida entre escrever-lhe e deixar para lá. Após reflexão, acabei fazendo o que sempre faço: fui pesquisar e escrever a respeito na coluna seguinte.

A imagem apresenta uma ilustração em fundo roxo, onde um personagem sentado em uma cadeira de escritório, com uma lâmpada acima da cabeça, observa outro personagem que está saindo correndo com uma tela de computador. A tela contém elementos gráficos e ícones, simbolizando a captura de uma ideia ou informação. O personagem que corre está vestido com uma camiseta preta e calças azuis claras.
Reconhecer a origem de ideias não diminui o valor do trabalho posterior; a falta de crédito, por outro lado, pode prejudicar o autor original - Good Studio/Adobe Stock

Em ambientes de trabalho, por exemplo, a apropriação de crédito pode ocorrer de forma mais explícita. Quando um funcionário apresentava uma sugestão e o chefe a acolhia, reconhecendo sua autoria, aumentava a disposição do funcionário para voltar a contribuir. Quando, por outro lado, o chefe aceitava a ideia e a apresentava como própria, quem havia feito a sugestão se sentia menos respeitado, identificava-se menos com o grupo e se tornava menos propenso a se manifestar novamente.

Esse padrão foi identificado no acompanhamento de trabalhadores na China e testado em um experimento nos Estados Unidos por Hana Johnson e coautores. A apropriação, portanto, transfere o mérito pelo que já foi produzido e ainda pode impedir que outras ideias sejam compartilhadas.

No meio acadêmico, ficar sem crédito por uma contribuição não parece ser raro. Em uma pesquisa com 2.660 cientistas, 43% das mulheres e 38% dos homens relataram já ter sido excluídos da autoria, enquanto 49% delas e 39% deles disseram que suas contribuições haviam sido subestimadas. As duas diferenças eram estatisticamente significativas no estudo de Matthew Ross e coautores.

Mesmo quando a autoria é formalmente reconhecida, a incerteza quanto à contribuição de cada pessoa pode gerar efeitos profissionais. Entre economistas, homens tinham chances semelhantes de conquistar uma posição permanente na universidade independentemente de publicarem sozinhos ou em coautoria.

Entre as mulheres, a probabilidade diminuía à medida que aumentava a proporção de trabalhos em coautoria, mesmo após controlar pela qualidade da produção e por outras características observáveis. Dois experimentos confirmaram que estereótipos de gênero interferiam na distribuição do crédito pelo trabalho coletivo, segundo Heather Sarsons, Klarita Gërxhani, Ernesto Reuben e Arthur Schram.

Embora o último estudo não trate de plágio, uma vez que todos apareciam como coautores, mostra que nem mesmo a autoria formal garante uma distribuição clara do mérito. Ainda faltam pesquisas que acompanhem pessoas cujas ideias ou textos foram apropriados e meçam os efeitos sobre renda, produtividade ou permanência na profissão.

Como a reputação influencia o acesso a projetos, convites e oportunidades, é plausível que perdas sucessivas de crédito alterem trajetórias profissionais.

No meu caso, não sei como o autor chegou àquelas referências e, por isso, não posso afirmar que tenha copiado ou se inspirado na minha coluna. Afinal, ideias circulam e textos raramente nascem isolados. A fonte de inspiração também pode ser esquecida sem má-fé: guardamos uma associação, mas perdemos o caminho até ela. Reconhecer essa origem, longe de diminuir o valor do trabalho posterior, esclarece de onde cada pessoa partiu e o que acrescentou, além de melhorar a qualidade do debate.


Capital natural pode ser diferencial competitivo para startups da América Latina -Revista Fapesp.

 Elton Alisson | Agência FAPESP – As startups latino-americanas de base científica, conhecidas como deep techs, deveriam deixar de lado a competição em áreas de alto custo e de competição global extrema, como a inteligência artificial, e concentrar seus esforços em ativos estratégicos regionais – a exemplo da biodiversidade e dos minerais críticos – para desenvolver soluções exclusivas e de difícil replicação global.

A recomendação é dos autores do relatório Deep Tech Radar Latam 2026, lançado pela consultoria Emerge, em parceria com o Cubo Itaú, durante a terceira edição do Deep Tech Summit, que aconteceu entre os dias 10 e 12 de agosto no Complexo Inova USP, em São Paulo.

O mapeamento identificou 1.746 deep techs em 12 países da região – Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México, Uruguai, Panamá, Peru, Costa Rica, Equador, Porto Rico e Paraguai. O Brasil concentra 72,7% desse total (1.269 empresas), atuando principalmente nos segmentos de agronegócio e alimentos (427) e de saúde e bem-estar (407).

A concentração de startups brasileiras nesses dois setores sugere que a região começa a converter vantagens naturais em capacidades tecnológicas e novas cadeias de valor intensivas em conhecimento, mas ainda precisa avançar nesse cenário, segundo os autores do relatório.

“Acreditamos que o foco nesses ativos de origem regional pode ser um diferencial para as deep techs latino-americanas terem uma vantagem competitiva em relação ao resto do mundo”, disse Lucas Delgado, diretor da Emerge e um dos autores do relatório.

No segmento de saúde, a diversidade biológica e os recursos genéticos dos biomas brasileiros, por exemplo, favorecem o desenvolvimento de novos fármacos, bioinsumos, ingredientes funcionais, biotecnologias e soluções para a medicina de precisão. Já no segmento de agro e alimentos, a escala da produção agropecuária tropical, combinada com a disponibilidade de biomassa, de recursos hídricos e de condições ambientais singulares, torna a América Latina um ambiente privilegiado para desenvolver e validar tecnologias voltadas ao agronegócio, à bioeconomia e à produção sustentável, indicam os autores.

A atuação, em menor escala, de startups brasileiras em setores como energia e clima, indústria e manufatura, infraestrutura urbana, mineração e recursos do subsolo também indica o potencial de uso de ativos estratégicos regionais – como a matriz renovável, os minerais críticos, a abundância de água doce e a cobertura florestal – para o desenvolvimento de soluções globais, avaliam.

Mercados inexplorados

Quase 50% das deep techs analisadas (713) estão concentradas em dois ativos estratégicos da região: o agroecossistema tropical e a diversidade biológica. Quatro outros ativos – matriz energética renovável e biomassa; minerais críticos e recursos do subsolo; água doce e sistemas hídricos; e território continental e cobertura florestal – ainda são inexplorados ou apresentam condições insuficientes para gerar startups de base científica de forma densa na região.

Embora a operação comercial desses quatro ativos já exista na região, eles ainda não impulsionam a criação de deep techs por falta de base científica local ou de um primeiro cliente ou comprador disposto a testar as tecnologias em validação, avaliam os autores.

“Existem empresas grandes, de porte global, que trabalham com ativos como minerais críticos e recursos do subsolo, por exemplo, que poderiam testar tecnologias em desenvolvimento, mas estão comprando de fora da América Latina porque as soluções não estão sendo produzidas aqui”, afirmou Delgado.

Condições combinadas

Além do primeiro cliente, que representa o comprador disposto a assumir o risco de testar uma tecnologia ainda não comprovada em escala real, outra condição fundamental para o desenvolvimento de deep techs latino-americanas competitivas a partir de ativos regionais é a presença de atividade produtiva relevante no território que exponha o ecossistema local a desafios de fronteira.

Outra condição é a capacidade científica, sustentada pela disponibilidade de recursos humanos altamente qualificados, pela geração contínua de pesquisas e publicações de base e pela capacidade de traduzir a teoria científica em aplicações práticas protegidas por propriedade intelectual.

Quando a base científica, a operação em escala e o primeiro cliente se conectam simultaneamente, as empresas nascentes conseguem reduzir drasticamente seus riscos tecnológicos e de mercado, tornando-se aptas a captar capital privado para escalar globalmente, aponta Delgado.

“Precisamos ter centros de pesquisa e desenvolvimento e empresas com disposição para testar tecnologias geradas por deep techs e contribuir para o seu desenvolvimento. E isso precisa acontecer simultaneamente”, sublinhou.

Acúmulo de capacidade científica

A parceria com centros de pesquisa e Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) de excelência no Brasil foi fundamental para a deep tech brasileira Nintx, apoiada pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, avançar no desenvolvimento de terapias inovadoras baseadas na modulação do microbioma intestinal humano a partir de compostos bioativos da flora brasileira (leia mais em https://pesquisaparainovacao.fapesp.br/2696).

A startup estruturou uma parceria com o Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, que permitiu o acesso a um banco de extratos de múltiplos biomas nacionais e ao Sirius – o acelerador de partículas de luz síncrotron de última geração – para identificar e mapear, com precisão atômica, como as moléculas naturais se ligam aos alvos terapêuticos de interesse.

A fim de mitigar o risco tecnológico inicial, a empresa também alavancou intensamente recursos não reembolsáveis. Acumulou R$ 30 milhões de incentivos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), recursos de fomento contínuo do PIPE-FAPESP para fases pré-clínicas e R$ 10 milhões em projetos da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), que apoia financeiramente parcerias com ICTs sem exigir participação societária ou equity.

“Para uma startup, contar com o apoio público é vital. Isso é extremamente relevante para o nosso desenvolvimento”, disse Cristiano Guimarães, um dos fundadores da empresa.

De acordo com o executivo, esse forte colchão de subvenções públicas foi indispensável para dar robustez técnica à startup e reduzir o risco para os investidores privados, permitindo que a empresa captasse rodadas subsequentes de equity robustas com o fundo Pitanga Redux e fundos de impacto, como o Ecoa e o Move Investimentos, atraídos pela conservação e pelo compartilhamento de valor da biodiversidade.

“O desenvolvimento de fármacos exige investimentos robustos e paciência”, ressaltou Gabriel Perez, diretor do fundo Pitanga Redux. “Os governos precisam participar ativamente desse financiamento inicial. Ao utilizarmos subvenções públicas, estamos apenas fazendo o nivelamento com o que os mercados mais avançados do mundo, como Estados Unidos e Europa, já praticam rotineiramente”, comparou.

A proposta da Nintx de desenvolver novas moléculas e tratamentos a partir da biodiversidade brasileira foi um dos fatores decisivos para investirem na empresa, disse Perez.

Em julho, o fundo Pitanga Redux anunciou um segundo investimento, de R$ 18 milhões, em uma empresa no setor de biotecnologia para o agro, a Terra Genomics. O aporte conta também com a participação da Bold.t Capital e visa financiar o desenvolvimento de uma nova geração de biodefensivos e biofertilizantes agrícolas baseados em engenharia metabólica, impulsionados por inteligência artificial. “Estamos procurando outras oportunidades de investimentos”, afirmou Perez

Vicente Abate será homenageado como Ferroviário do Ano pela Revista Ferroviária, Abifer

 O presidente da ABIFER, Vicente Abate, recebe nesta quinta-feira (20) o título de Ferroviário do Ano, pelo Prêmio Revista Ferroviária, concedido pela publicação. O reconhecimento, um dos mais tradicionais do setor, destaca uma trajetória de 47 anos dedicados ao setor ferroviário, Abate é reconhecido por sua atuação em defesa da indústria nacional, pelo fortalecimento institucional do segmento e pela articulação estratégica entre iniciativa privada, poder público e entidades representativas.

A edição deste ano também destaca a força da indústria nacional, com 22 empresas associadas à ABIFER entre as finalistas em diferentes categorias. O resultado reforça a presença e a relevância das empresas que integram a cadeia ferroviária brasileira e contribuem para o avanço tecnológico, a competitividade e a expansão do setor.

A cerimônia de entrega acontece nesta quinta-feira, dia 20, reunindo representantes da indústria e do setor ferroviário.

O título de Ferroviário do Ano é definido por votação de profissionais que atuam no segmento e integra o Prêmio Revista Ferroviária, criado em 1990 para reconhecer empresas e profissionais que contribuem para o avanço do transporte ferroviário brasileiro.