segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O telefonema que deu ao brigadeiro a certeza de que o Exército não apoiaria o golpe de Bolsonaro, Marcelo Godoy, OESP

 'Acabou a brincadeira!' Veja vídeo da ocupação do Palácio do Planalto

Capa do video - 'Acabou a brincadeira!' Veja vídeo da ocupação do Palácio do Planalto

Imagens mostram ação da PM, que neutralizou invadores no domingo, dia 8.

Era 11 de novembro de 2022 quando os comandantes militares foram acionados pelo Ministério da Defesa (MD) para mais uma reunião da Equipe da Forças Armadas de Fiscalização e Auditoria do Sistema Eletrônico de Votação (EFASEV). Durante o ano todo, os chefes das três Forças tiveram seus afazeres desviados da caserna para discutir a eleição, principal preocupação do governo desde que Jair Bolsonaro parecia procurar o que quer que fosse que pudesse confirmar suas suspeitas sobre as urnas eletrônicas.

Reunião do então Ministro da Defesa, Paulo Sérgio, com o Presidente da República, Jair Bolsonaro, e com os Comandantes das Forças Armadas no Ministério da Defesa, em 2022: quase sempre o tema das urnas eletrônicas aparecia nos encontros
Reunião do então Ministro da Defesa, Paulo Sérgio, com o Presidente da República, Jair Bolsonaro, e com os Comandantes das Forças Armadas no Ministério da Defesa, em 2022: quase sempre o tema das urnas eletrônicas aparecia nos encontros Foto: @DefesaGovBR via X (antigo Twitter)

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A descrição do vai e vem das reuniões militares é revelado com toda dramaticidade pelo brigadeiro Carlos Baptista Junior, então comandante da Força Aérea (FAB), no livro Eu disse não: uma trincheira antigolpista (ed. Autêntica, 242 pág), que será lançado em setembro. Nas contas de Baptista Junior, só entre 3 de outubro e 14 de dezembro, os comandantes das três Forças foram chamados doze vezes ao MD.

O brigadeiro e o então comandante do Exército, general Marco Antonio Freire Gomes, tentavam ganhar tempo diante das pressões para que embarcassem em uma aventura golpista. A tática era atrasar o relógio da bomba, que só seria desmontada com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, a fim de que o golpe não explodisse antes.

Em termos militares significava “trocar espaço por tempo”, para que as coisas se resolvessem sem que um enfrentamento direto com Bolsonaro fosse necessário ou sem que Freire Gomes tivesse de prender o presidente. Foi naqueles dias que o brigadeiro testemunhou no Palácio da Alvorada o comandante do Exército dizer, após Bolsonaro contar sua intenção de cancelar a eleição e intervir na Justiça:

“Se o senhor fizer isso, vou ter que lhe prender”. “Não é uma frase capaz de passar incólume à memória dos que estavam presentes. O ambiente foi imediatamente tomado por raro silêncio”, escreveu o brigadeiro, sobre o episódio que ele revelara ao depor no processo do golpe, no Supremo Tribunal Federal (STF).

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‘Eu disse não!’; ex-comandante da FAB revela em livro bastidores da crise que levou ao 8 de Janeiro
‘Eu disse não!’; ex-comandante da FAB revela em livro bastidores da crise que levou ao 8 de Janeiro Foto: Reprodução

Entre os dias 3 e 7, a FAB havia sido excluída de reuniões com o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira. Pareciam querer escantear a Aeronáutica, como se para o golpe bastassem as duas outras forças, afinal, se a FAB se opusesse, onde iria pousar seus aviões? A tentativa de quebra da unidade das Forças Armadas foi o que Baptista Junior mais recriminou ao almirante Almir Garnier Santos, comandante da Marinha, que pôs suas tropas à disposição de Bolsonaro.

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Esse foi o ambiente em torno da reunião de 11 de novembro. Nela, Baptista Junior reafirmou sua oposição à decretação de Estado de Defesa ou de uma operação de Garantia de Lei e Ordem (GLO) e disse que qualquer dessas hipóteses precisariam ser ratificadas pelo Conselho de Defesa. “Sabíamos que não havia base legal sequer para uma GLO e ver essas opções sendo cogitadas para contornar um resultado eleitoral me incomodava profundamente”, escreveu.

Os ex-comandantes Almir Garnier Santos (Marinha), Marco Antônio Freire Gomes (Exército) e Carlos de Almeida Baptista Junior (Aeronáutica).
Os ex-comandantes Almir Garnier Santos (Marinha), Marco Antônio Freire Gomes (Exército) e Carlos de Almeida Baptista Junior (Aeronáutica).  Foto: Valter Campanato/Agência Brasil, Marcos Corrêa/PR e FAB

Foi depois dessa reunião que Freire Gomes apresentou a Nota Conjunta dos Comandantes divulgada pelo Blog do Fausto, na qual o comandante da Força Terrestre tentava balizar os limites da legalidade. O documento foi assinado por Garnier e por Baptista Junior, sinalizando uma coesão que já não existiria. Foi após a publicação da nota que Baptista Junior deu o telefonema que definiu, para ele, que o Exército não iria embarcar no golpe.

“Muito preocupado com postura de Bolsonaro e inseguro quanto à coesão do Exército, liguei para o general Sérgio Etchegoyen, com quem desenvolvi uma relação de confiança”, revela. A ligação durou mais de 45 minutos. O brigadeiro expôs suas preocupações. “Dele recebi a confirmação de que ao menos entre os generais mais antigos do Exército havia uma alinhamento completo com a postura legalista do comandante Freire Gomes. Saber aquilo foi um evento crucial para mim.”

A coluna procurou o general Etchegoyen, que confirmou o telefonema e a cena descrita por Baptista Junior. Eis o que disse à coluna o ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), durante a gestão de Michel Temer (2016-2018): “Eu nunca acreditei que isso fosse possível (um golpe de Estado); nunca acreditei pela pretensão de conhecer as pessoas e entender um pouquinho do Exército que eu tinha acabado de sair (o general deixara a chefia do Estado-Maior do Exército em 2016)”.

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O general Sergio Westphalen Etchegoyen, durante o tempo em que ocupou a chefia do GSI, no governo de Michel Temer
O general Sergio Westphalen Etchegoyen, durante o tempo em que ocupou a chefia do GSI, no governo de Michel Temer Foto: Dida Sampaio/Estadão

Etchegoyen continuou: “Depois tem o seguinte: quem tinha um pouquinho de noção da realidade, estudasse um pouquinho, ia saber: uma quartelada não duraria uma manhã”. O general conhecia os comandantes do Exército não apenas por tê-los promovido, enquanto estava no Alto Comando, mas por uma vida inteira na caserna.

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“O Freire Gomes foi quem eu levei para ser meu secretário executivo no GSI quando assumi o GSI (em 2016). Então, eu acho que conhecia um pouco ele, né? O (general Valério) Stumpf, que era o chefe do Estado-Maior (em 2022), ele e o Freire Gomes foram meus cadetes (na Academia Militar das Agulhas Negras).”

Etchegoyen detalhou ainda mais sua relação com Stumpf. “O Stumpf serviu comigo como capitão e, depois, quando eu estava no Departamento Geral do Pessoal, eu o escolhi para uma função importante, que era para ser diretor de avaliação e promoções comigo. E foi quem escolhi para substituir o Freire Gomes, quando ele foi promovido a quatro estrelas (general de exército). Então, os dois foram meus secretários executivos no GSI.”

O general general Valério Stumpf, durante o tempo em que esteve a frente do Comando Militar do SUL (CMS)
O general general Valério Stumpf, durante o tempo em que esteve a frente do Comando Militar do SUL (CMS) Foto: Felipe Dalla Valle/Palácio Piratini

O ex-ministro-chefe do GSI afirmou que não teve nenhum protagonismo no episódio. “Eu não quero dizer que eu tenha feito a cabeça de homens maduros, não. Mas eu os conhecia, sabia como eles pensavam e imaginava como iam agir. Mas eu não sou protagonista nisso não. Eles são pessoas com luz própria.”

Etchegoyen concluiu que, algumas vezes, as pessoas confundem firmeza de princípios com o radicalismo. “Uma coisa é ter convicção e ser firme nos princípios; outra coisa é tu seres radical. O sujeito que é firme nos seus princípios, firme nas suas convicções, ele age de acordo com elas. O sujeito que é radical transgride a lei para manter ou para impor os seus pensamentos.”

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É por isso que o general conta que se “surpreenderia muito” se houvesse “alguma coisa” na caserna em 2022, o que não acontecera em 1992, nem em 2016, durante os impeachments de Fernando Collor e de Dilma Rousseff. “Ninguém foi ao quartel perguntar se a gente concordava. Houve um amadurecimento da sociedade.”

O presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o general Tomás Ribeiro Paiva (Exército) o almirante Marcos Sampaio Olsen (Marinha) e o brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno (Aeronáutica) durante cerimônia em comemoração ao Dia do Soldado, em Brasília
O presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o general Tomás Ribeiro Paiva (Exército) o almirante Marcos Sampaio Olsen (Marinha) e o brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno (Aeronáutica) durante cerimônia em comemoração ao Dia do Soldado, em Brasília Foto: Wilton Junior/Estadão

O relato do brigadeiro sobre o telefone para Etchegoyen ajuda a jogar luz sobre os fatos. Seu depoimento ainda vai ser alvo de muita polêmica, assim como o próprio oficial-aviador desperta até hoje dentro da FAB. Ele reconhece que perdeu amizades de décadas, mas não se arrepende de suas decisões. Assim como Freire Gomes, o brigadeiro enfrentou uma hora capital durante os meses em que alguns tentavam impedir, por meio de operações psicológicas e de planos de assassinatos, a posse do presidente eleito.

É verdade que o papel do comandante do Exército foi capital. Se ele tivesse decidido abraçar a aventura golpista, o próprio Baptista Junior sabe que não haveria o que fazer. Em O Soldado e o Estado, Samuel Huntington escreveu que “sobre os soldados, defensores da ordem, recai uma pesada responsabilidade: se abjurarem o espírito militar, destroem primeiro a si mesmos e, depois, à Nação”.

Em face das investidas golpistas, o brigadeiro Baptista Junior se viu diante dessa escolha – escolha que define uma vida. Impossível não se lembrar da advertência de Huntington ao ler o seu livro. Mais do que um testemunho, ele é um documento histórico.

Ao confiar mais em balas que em urnas, políticos conservadores se tornam alvo de violência, Angela Alonso, FSP

 A saída acabou sendo mais momentosa que o debate. Foi quando o prefeito chamou na chincha o candidato ao governo do partido adversário. Aconteceu em São Paulo e não esquentou mais porque as respectivas equipes entraram apartando.

Na presidencial, Flávio Bolsonaro decidiu-se por slogan que ressoa o de Lula e alude à arminha do pai: "A esperança virou medo". Medo da criminalidade, que Jair Bolsonaro e seu pupilo Tarcísio de Freitas tinham prometido conter.

Homem de meia-idade com cabelo curto e escuro, veste terno preto e camisa branca, olhando para a frente com expressão neutra. Fundo escuro com pessoa desfocada segurando celular.
Flávio Bolsonaro durante entrevista coletiva em Brasília - Evaristo Sá - 5.ago.26/AFP

Como ficaram na promessa, o tema ficou na agenda e outros se lançam ao posto de solucionador-mor da República. A violência está no programa de Ronaldo Caiado, velho de guerra de 1989, como Lula. Em um de seus arroubos juvenis (já desafiou o Bananinha para luta livre), Kim Kataguiri propôs nada menos que uma bomba atômica.

Flávio B. e Caiado miram a dimensão social e Kataguiri, a Internacional da violência em suas agendas políticas. O entrevero entre Fernando Haddad e Ricardo Nunes alude à outra: a relação violenta dos políticos entre si.

Ataques mortais a políticos por outros políticos ou terceiros incomodados com suas ações é fenômeno internacional e de longa duração. No Brasil, de um janeiro a outro entre 2003 e 2023, houve 1.228 ataques a políticos e ativistas e 760 assassinatos consumados. Políticos são a maior parte desse bolo: 63,1% dos casos. Embora o levantamento para os últimos anos esteja em andamento, o problema não desapareceu.

O candidato que tematiza o medo tem medo ele próprio: segundo a revista Oeste, Flávio B. acumula 2.000 ameaças. Fiel ao pai, adotou colete e foge da Polícia Federal. Recusou esta polícia, mas recorreu à do Senado e triplicou sua segurança.

Não é só na presidencial que a violência se esgueira.

As deputadas Gleice Jane (PT-MS), em Dourados, e Lívia Duarte (PSOL-PA), em Belém, foram ameaçadas de morte, respectivamente, em dezembro de 2025, por Zap, e em fevereiro de 2026, por email. Tampouco é só misoginia. Lívia é a primeira deputada negra da Alepa (Assembleia Legislativa do Estado do Pará), o que, a própria apontou, adenda outra camada.

Mas os homens e os brancos, sendo maioria na política, são também os mais visados. O vereador de São Paulo Adrilles Jorge (União Brasil) registrou ameaça em abril. O deputado Cafu Barreto (PSD-BA) ganhou áudio aterrorizador em Ibititá, na Bahia. No Paraná, o deputado federal Toninho Wandscheer (PP) e seus filhos Alisson, deputado estadual (Solidariedade), e Tiago, secretário municipal de Fazenda Rio Grande, registraram BO em julho.

Nem quem tem arma escapa: a deputada federal Coronel Fernanda (PL-MT) encontrou em sua caixa de entrada, em junho, email com detalhes de sua rotina e a advertência: "Sei onde você mora".

A PF corre atrás. Anunciou operação nacional para assegurar a integridade física dos presidenciáveis, aumentando em cerca de 53% o contingente mobilizado (de 300 para 458 agentes). Mas enxuga gelo.

A variedade de estados atesta que a questão suplanta o nível local, abrange políticos municipais quanto estaduais e ronda a Presidência. Resolver conflitos políticos à bala é fato tão notório quanto nacional.

E não é específico desta conjuntura. A violência contra políticos é tão velha quanto a República: o primeiro civil na Presidência, Prudente de Morais, quase morreu de bala. E atinge a todos os partidos. Contudo, governos de direita abrem mais campo para ocorrências ao liberarem armas ou incentivarem seu uso. No levantamento citado, a média anual de assassinatos políticos mais que dobrou entre o primeiro governo Lula e o de Bolsonaro.

O fenômeno deve muito ao discurso de políticos conservadores de estímulo à resolução direta dos conflitos políticos, desprezando as mediações institucionais. Confiando mais nas balas que nas urnas, são eles próprios, muitas vezes, as vítimas delas.

Assassinatos políticos no Brasil

GovernoAtivistasPolíticosVítimas indiretasTotalQuantidade de anos no cargoMédia de casos por ano
Esquerda
Lula 14046086421,5
Lula 23231063415,8
Dilma 147764127431,8
Dilma 224470711,450,7
Direita
Temer 13202250,383,3
Temer 2459421412,361,3
Bolsonaro721311204451
Total2634459717

Fonte: Banco de Assassinatos Políticos do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). A diferença do total de assassinatos (760 e 717) se deve aos casos sem informação precisa do mês em que foram cometidos.

Com dívida de R$ 17,3 bi, Grupo Casas Bahia pede recuperação judicial, FSP

 Maeli Prado

São Paulo

O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais na Justiça de São Paulo no final da noite deste domingo (16), e declarou uma dívida de R$ 17,3 bilhões.

O pedido engloba dez empresas da holding, entre elas a dona das marcas Casas Bahia e Ponto Frio, o e-commerce Extra.com e a fabricante de móveis Bartira, além de subsidiárias de logística e tecnologia.

Das dívidas, R$ 16,4 bilhões são com credores quirografários (ou seja, sem garantia), R$ 754 milhões de credores trabalhistas e R$ 154 milhões com microempresas e empresas de pequeno porte.

O grupo informa no pedido a demissão de cerca de 3.000 funcionários, de 30.117 colaboradores que possui, e o fechamento de quase 300 lojas —segundo o documento, a Casas Bahia possui mais de 700 lojas físicas, e o Ponto Frio, mais de 65.

A petição vem cerca de dois anos após a varejista homologar uma recuperação extrajudicial que reestruturou R$ 4,8 bilhões em dívidas financeiras em abril de 2024, da qual saiu três meses depois.

No documento enviado à Justiça, a companhia aponta que a crise está relacionada aos pesados investimentos em tecnologia, logística e lojas digitais iniciados em 2019, somados aos choques da pandemia, que paralisaram as lojas físicas.

Perto da abertura do mercado, as ações das Casas Bahia (BHIA3) despencavam 31,81%, cotadas a R$ 0,45.

Homem e mulher analisam cafeteira em loja com várias prateleiras cheias de eletrodomésticos e etiquetas de preços visíveis, incluindo uma placa amarela com preço R$ 249,00.
Clientes em megaloja da Casas Bahia durante preparativos para a Black Friday de 2025 - Felipe Iruatã - 27.nov.25/Folhapress

Segundo a petição, embora o plano de digitalização tenha começado quando a Selic estava na mínima histórica de 2% ao ano, entre o final de 2020 e o início de 2021, o salto do juros até o patamar de 15% ao ano desorganizou a estrutura financeira da companhia.

Ainda de acordo com o pedido de recuperação judicial, o modelo da varejista é altamente dependente de capital de giro, financiamento a estoques, operações de risco sacado com fornecedores e do crédito direto ao consumidor.

Com a escalada dos juros e da inflação, houve encarecimento do crédito, compressão da renda das famílias de menor poder aquisitivo e avanço da inadimplência nos carnês e cartões, além de um aumento expressivo da concorrência de plataformas digitais, diz a petição.

O documento aponta que que as iniciativas do chamado Plano de Transformação, iniciado em 2023 com corte de despesas, redução de estoques e fechamento de 55 lojas deficitárias, geraram alívio apenas pontual.

MEDIDAS DE URGÊNCIA

Na petição inicial, a Casas Bahia solicita uma série de medidas de urgência para evitar a paralisação imediata das operações.

A maior preocupação do grupo reside no risco de vencimento antecipado de mais de R$ 10 bilhões em contratos financeiros e comerciais. A empresa afirma que, caso os bancos retenham as garantias de cartão de crédito e Pix, até 60% da entrada mensal de caixa seria drenada imediatamente, inviabilizando o negócio.

A rede pede a suspensão imediata de execuções por 180 dias, vedação ao vencimento antecipado de contratos comerciais e manutenção do fluxo regular de recebíveis, impedindo retenções por parte de bancos credores.

Pede também a obrigatoriedade da entrega de mercadorias já compradas que estejam em trânsito com fornecedores e a liberação de mais de R$ 750 milhões em depósitos de recursos trabalhistas feitos em ações anteriores ao pedido para reforçar o caixa operacional.

PREJUÍZO DE R$ 10 BI

Neste domingo, a rede anunciou um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no trimestre, ante perda de R$ 555 milhões em igual período do ano passado. Com isso, o patrimônio líquido da Casas Bahia está negativo em R$ 8,1 bilhões. Isso significa que, se a varejista vender tudo aquilo que possui em bens e direitos a receber, ainda faltarão bilhões para pagar credores.

O valor de mercado da varejista em Bolsa é de R$ 660 milhões. A Casas Bahia não é mais controlada pela família Klein. Hoje a empresa possui como acionista de referência a gestora Mapa Capital, que assumiu 85,5% do capital da companhia em agosto do ano passado.

Com o prejuízo informado neste domingo, a Casas Bahia registra o seu oitavo trimestre seguido de perdas.

Desde a última vez que reportou lucro, no segundo trimestre de 2024, mesmo período em que entrou em recuperação extrajudicial, a varejista acumula resultados negativos que foram aumentando de tamanho.

Se entre o terceiro trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025 a companhia apresentava prejuízos de centenas de milhões de reais, o rombo escalou e ultrapassou R$ 1 bilhão nos períodos que se seguiram, escancarando a crise financeira da empresa.