quarta-feira, 8 de julho de 2026

Infraestrutura: desigualdade na arte e na vida, Mauricio Portugal Ribeiro, FSP

 As figuras dos "Retirantes", de Cândido Portinari, caminham sob um céu seco, com corpos ossudos, olhos vazios e crianças inertes nos braços. Não há heroísmo, apenas resistência. Em "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos repetem a mesma marcha: não se deslocam em busca de fortuna, mas para fugir da falta de água, de trabalho, de comida, de Estado. Em ambos, a desigualdade aparece não como abstração estatística, mas como privação material e destino imposto.

Essas obras são manifestos contra a desigualdade em geral e, particularmente, contra a desigualdade brasileira. O país que Portinari pintou era um país em que menos da metade da população sabia ler e escrever, apenas 31,3% viviam em áreas urbanas e a expectativa de vida ao nascer era em torno de 45 anos. Era um Brasil em que a precariedade dos serviços básicos condenava milhões à imobilidade social antes mesmo de qualquer esforço individual.

Obra "Os Retirantes", de Cândido Portinari - Reprodução

Naquele Brasil dos anos 1940, a desigualdade tinha endereço físico: o lugar onde não havia trilho, estrada, rede de água, posto de saúde ou escola. A infraestrutura —ou a sua ausência— desenhava o mapa da pobreza com a mesma nitidez com que Portinari desenhava seus retirantes. E é justamente porque essa geografia da privação persiste, ainda que mais discreta, que vale comparar o país de então com o de agora.

O Brasil mudou muito, mas não o suficiente. Hoje, a alfabetização chegou a cerca de 93% e a expectativa de vida a 76,6 anos. Ainda assim, o país segue entre os mais desiguais: o Gini estava em 0,518 na Pnad/IBGE de 2023 (51,6 na escala do Banco Mundial, que multiplica o índice por 100), e o World Inequality Report 2026 indica que o topo de 10% apropria cerca de 60% da renda nacional. No mundo, a concentração também segue brutal: os 10% mais ricos ficam com 53% da renda global, enquanto a metade mais pobre fica com apenas 8%.

A desigualdade também se mede pela chance de escapar dela. Segundo a OCDE, no Brasil são necessárias nove gerações para que a família de alguém nascido entre os 10% mais pobres alcance a renda média do país —nos países nórdicos, essa travessia leva duas ou três. E a pesquisa recente confirmou o que Portinari intuiu: a oportunidade tem geografia. E a pesquisa recente confirmou o que Portinari intuiu: a oportunidade tem geografia.

O economista Raj Chetty, de Harvard, ao mapear a trajetória de 20 milhões de americanos, mostrou que crianças criadas a poucos quilômetros de distância têm destinos radicalmente diferentes —por causa da escola que frequentam, das redes sociais a que têm acesso, do tempo que se gasta até o trabalho. E isso num país onde água, esgoto e energia são universais. No Brasil, à desvantagem da escola e da rede soma-se uma camada anterior de privação: a da infraestrutura básica que ainda não chegou.

Aqui, segundo o Trata Brasil/SNIS (2022), quase 32 milhões de pessoas seguem sem água potável e cerca de 90 milhões sem coleta de esgoto. No mundo, 2,1 bilhões não têm acesso a água potável segura e 3,4 bilhões não dispõem de saneamento seguro. Sem água, esgoto, energia, transporte e conectividade, a desigualdade de renda se transforma em desigualdade de saúde, de acesso à informação e aprendizado, de produtividade e de tempo de vida. Não por acaso, estudos do Banco Mundial cobrindo mais de cem países concluíram que a expansão e a qualidade da infraestrutura estão entre as poucas políticas que, ao mesmo tempo, aceleram o crescimento e reduzem a desigualdade de renda.

É por isso que infraestrutura não é apenas obra: é política de igualdade. Nos contratos de concessão e PPP, isso exige metas de universalização, subsídios tarifários ou aportes públicos focalizados, tarifas sociais, obrigações de expansão para áreas pobres, indicadores de qualidade e mecanismos de reequilíbrio que preservem o investimento sem abandonar o usuário vulnerável. Bem desenhados, esses contratos não apenas mobilizam capital; levam dignidade aonde o mercado, sozinho, não levaria.

Os retirantes de Portinari não caminham apenas pelo sertão; caminham pela história brasileira. Cada rede de água que chega, cada sistema de esgoto implantado, cada linha de transporte expandida, cada conexão digital ampliada é, em alguma medida, uma tentativa de interromper essa marcha. O desafio do nosso tempo é fazer com que, finalmente, eles parem; não por exaustão, mas porque chegaram.


Trump para quem gosta de futebol, Elio Gaspari, FSP

 O presidente americano, Donald Trump, deu um jeito, arrumou uma encrenca com o árbitro brasileiro Raphael Claus e virou personagem da Copa do Mundo. Puro Trump. Afinal, ele continua dizendo que ganhou a eleição de 2020. É verdade que parou de falar que Barack Obama nasceu na África. (No seu primeiro mandato ele produziu 30.573 mentiras ou falsidades, 21 por dia). De volta à Casa Branca, seguiu na mesma toada, porque esse é seu estilo e a encrenca com Raphael Claus é um estudo de caso de sua essência.

Na quarta-feira, o centroavante Folarin Balogun pisou no tornozelo do zagueiro Muharemovic da seleção da Bósnia. Depois de ver o vídeo no VAR, o árbitro Claus expulsou-o do campo. (Balogun disse que aceitava a decisão.) Trump contou que até então não sabia o que significava a apresentação de um cartão vermelho, com a consequente suspensão para o jogo seguinte, contra a Bélgica.

Ex-presidente sentado na mesa do escritório oval segurando o troféu da Copa do Mundo, usando boné vermelho. Homem em pé ao lado fala gesticulando. Bandeiras americanas e decoração presidencial ao fundo.
Donald Trump e Gianni Infantino durante encontro na Casa Branca, em 2025 - Andrew Caballero-Reynolds - 22.ago.25/AFP

Até aí seria o jogo jogado, com um torcedor contestando um árbitro. No dia seguinte, o presidente dos Estados Unidos decidiu ligar para Gianni Infantino, presidente da Fifa, pedindo que anulasse a suspensão. Novamente, jogo jogado, pois cartolas adoram pressões de pessoas poderosas e Infantino deu a Trump um inédito prêmio da Paz depois que ele, com suas guerras, foi esquecido para o Nobel. Conseguiu. De lambuja estendeu a encrenca às federações de futebol europeias.

Na segunda-feira, na Casa Branca, Trump assumiu seu estilo. Avançou no tornozelo do árbitro. Sustentou que não houve falta e que, pelos seus antecedentes, Claus é "muito suspeito". Puro Trump, fez a acusação sem uma migalha de argumento.

Mais: mobilizou janízaros da Casa Branca para contestar a honorabilidade de Claus. Não se discute mais a falta de Balogun, nem se exibe o vídeo da falta.

Roy Cohn, o temível litigante dos tribunais americanos, mentor do jovem empresário Donald Trump, ensinava: "Não me diga o que diz a lei. Diga-me quem é o juiz". Os juízes, àquela altura, eram Infantino e alguns cartolas da Fifa. Bingo. (Em setembro chega às livrarias americanas uma biografia de Cohn, com o seguinte título: "Um Canalha Americano".)

A realidade paralela que Trump cultiva e manipula explica a encrenca. O mundo vive a festa de uma Copa. A cerimônia inaugural do certame teve mais audiência que a ida do presidente ao sopé do monte Rushmore, onde estão esculpidos na rocha os rostos de quatro de seus antecessores. Ele precisava entrar naquela festa.

Entrou defendendo um atleta negro e admirado, parte de uma seleção festejada. Com o Brasil eliminado, falou-se mais de Trump do que da malcriação de Neymar com o goleiro norueguês. Trump não sabia o que significava um cartão vermelho, não tem noção do que vem a ser um impedimento e talvez ache que a meia-lua da grande área seja um enfeite, onde poderiam pôr seu retrato. Conseguiu entrar na festa da Copa, por poucos dias.

Na noite de segunda-feira, sem telefonemas, os deuses do futebol decidiram. Com Balogun em campo, a seleção americana foi mandada para casa.

Futebol, jogado dentro das quatro linhas, ainda é coisa séria.

Não há despedidas num mundo que dá voltas, Ilona Szabó de Carvalho -FSP

 Quando publiquei minha primeira coluna aqui, em dezembro de 2017, o mundo já vivia um período de mudanças aceleradas. Mas talvez não esperasse o grau de intensidade das transformações nos anos seguintes, quando definitivamente entramos numa era de crises sistêmicas e interconectadas.

Passamos por uma pandemia; guerras voltaram ao centro da geopolítica; a inteligência artificial deu um salto impressionante. Os eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes, fizeram a degradação ambiental deixar de ser tema de nicho e ocupar o centro das preocupações econômicas e políticas. Organizações criminosas se fortaleceram e se expandiram para além das fronteiras, e se conectaram ao ecossistema do crime ambiental.

Confluência de dois rios em meio a densa floresta tropical sob céu carregado de nuvens escuras, indicando tempestade iminente.
Vista aérea da localidade do Encruzo, que fica localizada no encontro dos rios Uaca e Curipi, na Terra Indígena Uaca, no Amapá - Lalo de Almeida - 12.ago.24/Folhapress

O Brasil também mudou. Em meio a uma montanha-russa de fatos políticos, vivemos um período de fechamento do espaço cívico. Sobrevivemos à mais séria ameaça à nossa democracia desde 1964 e caímos em sucessivas crises institucionais. Passamos por retrocessos e avanços na segurança pública; incentivamos e criamos instrumentos financeiros inovadores para impulsionar bioeconomias – e abraçamos a COP30 em Belém como estandarte do reposicionamento do país em temas internacionais.

Em um ambiente de tantas incertezas, tornou-se ainda mais difícil separar fatos de ruídos, urgências de prioridades. Mas nunca foi tão necessário.

Meus interesses acompanharam essa transformação. Permaneci fiel aos princípios que orientaram todas as minhas interações, mas meu olhar foi incorporando novas lentes.

Na semana passada, o Instituto Igarapé, do qual sou cofundadora, completou 15 anos de atuação do nível local ao global. Nosso foco, hoje, está na conexão entre as agendas de segurança, natureza e clima. Entendemos que ameaças como crime organizado, degradação ambiental e instabilidade climática não podem ser enfrentadas –e as soluções não podem ser construídas– isoladamente. É preciso trabalhar com todos os setores para enfrentar problemas que já não cabem em caixinhas separadas.

Nessa evolução, fomos além do trabalho tradicional de um think tank, e cofundei novas iniciativas voltadas à implementação. Uma delas é a Green Bridge Facility, que busca reduzir riscos territoriais para viabilizar investimentos responsáveis e empreendimentos sustentáveis no Brasil e em outros países da Bacia Amazônica. A outra é o Regenera BioLab, que ancora um corredor ecológico na Mata Atlântica para demonstrar, na prática, como conservação, restauração florestal, agroflorestas, turismo regenerativo e novas formas de financiamento da natureza podem caminhar juntos em um modelo capaz de transformar e inspirar outras regiões.

Este é meu último texto como colunista regular da Folha. Há momentos em que precisamos pausar, ouvir e repensar como melhor contribuir para um debate informado.

Encerro esse ciclo, do qual tenho muito orgulho, profundamente grata por ter mantido uma troca tão inspiradora por quase nove anos. Voltarei a outros espaços desta casa sempre que tiver boas provocações a trazer.

Sigo na vida cívica, nos meus canais institucionais e pessoais, por meio do Instituto Igarapé e das novas iniciativas, convencida de que, apesar das turbulências deste tempo, ainda é possível construir pontes e transformar conhecimento em ação. As perguntas evoluíram desde 2017. Minha disposição para buscar e construir as respostas – lado a lado com quem acredita no diálogo e na colaboração – continua a mesma.