quarta-feira, 8 de julho de 2026

Mulheres que me ensinaram a votar, Ruy Castro _FSP

 O blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, condenado no Brasil por fraude financeira e foragido nos EUA, não saiu a seu avô, João Baptista de Figueiredo, o último feitor da ditadura (1979-85). A seu jeito cavalar, o velho Fig gostava das mulheres —até nomeou uma ministra. Já, para Paulo Figueiredo, elas não servem nem para votar. "Mulher vota mal pra c...", declarou. "Devia ser proibida de votar."

Paulo Figueiredo é cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro. Antes de sua frase, o asco feminino por Flávio Bolsonaro já era de quase 60%. Agora, as 40% restantes vão pensar se ainda votarão nele, já que Paulo Figueiredo despreza o voto delas. Flávio Bolsonaro, assustado com o prejuízo, "repudiou" a fala de Paulo Figueiredo, mas não o demitiu do cargo de seu guru.

Paulo Figueiredo macaqueia um movimento da direita nos EUA que prega o fim do voto para as mulheres solteiras e, entre as casadas, que o voto fique a cargo do marido. Não por acaso, a rejeição a Trump entre elas é também de 65%. O que ele e os Bolsonaros têm que desperta tal repulsa feminina? Seja o que for, só contribui para aumentar minha admiração por mulheres que conheço ou conheci, que, nos últimos 60 anos, contribuíram para tornar os homens mais adultos e responsáveis e, posso garantir, melhores votantes. Algumas:

Fernanda Montenegro, Ana Maria Machado, Rosiska D’Arcy, Miriam Leitão, Lilia Schwarcz, Ana Maria Gonçalves, Heloisa Teixeira, Danuza Leão, Nara Leão, Clarice Lispector, Tonia Carrero, Elsie Lessa, Germana de Lamare, Tuca Magalhães, Thereza Cesario Alvim, Marina Colasanti, Marilia Kranz, Anna Letycia, Niomar Moniz Sodré, Aracy de Almeida, Odette Lara, Camila Amado, Vera Gertel, Itala Nandi, Rose Marie Muraro, Guguta Brandão, Ecila Grünewald, Zuzu Angel, Leila Diniz, Ana Maria Magalhães, Zezé Motta, Joyce Moreno, D. Ivone Lara, Isabel do vôlei.

Sim, faltam muitas. Aliás, faltam todas —todas as que encaram o mundo de frente, enxergam o próximo, respeitam-no e só querem de volta que ele também as enxergue e respeite.

Deirdre Nansen McCloskey - A evolução é imprevisível em detalhe- FSP

 Tanto a palavra inglesa "prediction" (predição) quanto o termo latino que lhe deu origem significam "dizer antes". A palavra portuguesa "previsão" é ainda mais vívida: significa "ver antes".

Quando a rainha Elizabeth 2ª visitou a Escola de Economia de Londres, após a crise de 2008, repreendeu os economistas: "Por que vocês não ‘previram’?". Ela imaginava a crise como uma colisão de carros. Se você conhece a posição e a velocidade dos carros, pode prever a colisão. Carros autônomos fazem isso.

Para conduzir o carro, você precisa de equações como y = 10 + 0,5x. Se você sabe que x é, digamos, 4, pode calcular y como 12. É uma entrada ("input") que prevê uma saída ("output"). Os computadores funcionam assim —são as "máquinas de Turing". Até a inteligência artificial não passa de uma máquina de entrada e saída. Mas há problemas.

Se a equação estiver errada, a previsão também estará. A colisão acontece. Não é questão banal.

Cientistas físicos e sociais buscam uma equação que esteja pelo menos aproximadamente correta.

Conceito de nota de 50 libras com a imagem de Alan Turing - Andrew Yates - 15.jul.19/Reuters


Mas alguns eventos físicos são extremamente sensíveis ao valor exato de x. Por isso a previsão do tempo jamais irá além de, digamos, duas semanas. Em eventos humanos, essa sensibilidade é maior. Pense como é difícil prever sua vida. A escolha de seu cônjuge dependeu de acasos minúsculos, que poderiam ter tido outro rumo.

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Além disso, as previsões que a rainha esperava dos economistas não podem ser feitas. Se fosse possível, todos economistas poderiam ficar ricos como a rainha. Quer dizer que a ciência econômica deve acabar? Não. Quer dizer que muitas tentativas de formular políticas públicas são ruins.

Desde a década de 1920, os economistas são cada vez mais arrogantes sobre a condução do "carro" da economia. O comportamento econômico sempre se refere ao amanhã, mas conhecer as equações para essa condução é, muitas vezes, impossível. Explique então à rainha que os economistas não são previsores no sentido detalhado de entrada-saída que ela imaginava.

Qual é a função dos economistas, então? A principal —ética e científica— é a de historiadores. Nenhum biólogo evolucionista prevê a evolução, mas pode oferecer "pós-visões": a história dela, em detalhes.

É verdade que, se um grande meteoro atingir a Terra, os grandes dinossauros previsivelmente morrerão de fome. Da mesma forma, se um governo idiota duplicar a oferta de moeda, os preços inevitavelmente dobrarão. Esse tipo de previsão é possível, tanto para a evolução quanto para as economias. Mas é impossível prever que uma espécie de dinossauro —uma pequena, voadora, com bicos especializados em comer sementes e capaz de sobreviver por longos períodos— sobreviveria. São as aves. Da mesma forma, é impossível prever qual inovação terá sucesso. A "política industrial" é, portanto, uma loucura arrogante.

No entanto, ao estudar a história econômica, podemos conhecer as equações corretas, em detalhes. Os fatos já ocorreram. Podemos identificar em modo "pós-visão" as aves da economia. Podemos explicar, em retrospecto, por que a inovação do concreto armado, digamos, teve êxito.

Qual é a utilidade da história? Sabedoria. Especialmente sobre a imprevisibilidade.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Produtor predador, Ruy castro _FSP

 Morreu há dias em Nova York o produtor musical Clive Davis, aos 94 anos. Foi o homem mais poderoso da indústria fonográfica quando presidente da gravadora Columbia nos anos 1960 e 1970. O The New York Times, em longo obituário, chamou-o de "um titã" dessa indústria. Eu o chamaria também de predador. Erodiu um legado de 50 anos de música gravada dessa empresa, talvez o mais importante da história.


Antes de Davis, a Columbia criara tudo de revolucionário na história do disco. Foi nela que os singles em 78 r.p.m., com três minutos de duração por face, foram agrupados em álbuns de três ou quatro discos, permitindo que se editassem peças longas, como óperas, sinfonias, musicais da Broadway. Saíram por ela os primeiros álbuns "conceituais". Em 1948, ela resumiu o álbum de 78s num disco de 33 r.p.m., que, embora coubesse num envelope cartonado, continuou a ser chamado de "álbum". Foi também a Columbia que batizou esse disco de "long-playing" e só ela podia usar a sigla LP.

A Columbia lançou Bessie Smith, Louis Armstrong, Billie Holiday (aos 17 anos), Bing Crosby, Count Basie, Harry James, Frank Sinatra, Leonard Bernstein, Eugene Ormandy, Vladimir Horowitz, Doris Day, Tony Bennett, Aretha Franklin, Johnny Mathis, Barbra Streisand, Bob Dylan, Simon & Garfunkel, muitos mais. Fez de Dave Brubeck, Miles Davis e até Thelonious Monk grandes vendedores de discos. E sempre manteve seu riquíssimo acervo em circulação, com coleções inestimáveis. Mais do que qualquer gravadora, praticou a diversidade de gêneros e estilos, clássicos e populares.

Clive Davis assumiu a presidência em 1967 e, decidido a fazer da Columbia uma gravadora de rock, acabou com tudo aquilo. Contratou Janis Joplin, Santana, Aerosmith, Rod Stewart, Bruce Springsteen e uma multidão. Ótimo —se, para isso, não tivesse destruído aquela diversidade ao mudar todo o cast. Alguns anos depois, a Columbia, quebrada, foi vendida à Sony japonesa.

Ah, sim, Davis foi demitido em 1973, por usar o dinheiro da empresa para fins pessoais.