domingo, 19 de abril de 2026

CPI pega STF e livra políticos, Celso Rocha de Barros, FSP

 O relatório da CPI do Crime Organizado escrito pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) pediu indiciamento de três ministros do STF e do procurador-geral da República. Não indiciou os políticos (em geral, de direita) que roubaram com o Master, ganharam dinheiro do Master e tentaram salvar o Master com dinheiro público.

A leitura do relatório deixa claro que Vieira tentou transformar a CPI do crime organizado em CPI do Banco Master.

Até aí, várias CPIs já trataram de temas diferentes dos que inspiraram sua instalação: o mensalão, por exemplo, foi investigado em uma CPI sobre bingos.

Homem de meia-idade com cabelo grisalho e óculos fala em microfone. Ele veste terno preto, camisa branca e gravata azul clara, em ambiente interno neutro.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) durante a leitura do relatório final da CPI do Crime Organizado, no Senado Federal - Pedro Ladeira - 14.abr.26/Folhapress

O problema é que, como relatório de uma hipotética CPI do Master, o trabalho de Alessandro Vieira é ruim.

O viés do relator fica claro na página 60 do relatório, onde são discutidas as conexões do Banco Master com as instituições da República.

Quando fala dos órgãos reguladores, o relatório cita nominalmente os dois funcionários do Banco Central acusados de receber suborno de Daniel Vorcaro. Quando fala do Judiciário, Vieira também cita Toffoli nominalmente. Na hora de falar de políticos, o relatório não dá nomes. Os casos de governadores e prefeitos que colocaram dinheiro de aposentados no Master não são sequer discutidos.

O viés anti-STF e pró-políticos do relatório final da CPI fica claro também quando olhamos para quem votou a favor e contra sua aprovação.

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Os votos pela aprovação do relatório foram dados por parlamentares do MDB, do PP, do Novo e do PL. À exceção do Novo, todos estão no centro do escândalo Master.

Do PP saiu Ciro Nogueira, que tentou aumentar a cobertura do FGC por emenda constitucional; do PL saiu Filipe Barros, que tentou fazer a mesma coisa por projeto de lei. PP, PL e MDB assinaram o requerimento 3.651/2025, que pedia urgência para o projeto que autorizaria o Congresso a demitir os diretores do Banco Central que se opusessem ao salvamento do Master com dinheiro público. Do MDB saiu Ibaneis Rocha, que deu ao Banco de Brasília um prejuízo avaliado entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões tentando salvar o Master. Do PL saiu Cláudio Castro, o governante brasileiro que mais colocou dinheiro de aposentados no Master (R$ 1 bilhão).

Os votos contrários ao relatório foram dados por parlamentares do PT, do PSD e do PSB.

O PT tem gente da Bahia envolvida com um sócio de Vorcaro. O PSD tem prefeitos do interior de São Paulo que investiram dinheiro de previdência no Master. Dos três partidos, só o PSB assinou o requerimento 3.651 de 2025.

Ou seja: os partidos dos parlamentares que votaram a favor do relatório de Alessandro Vieira estão muito mais enrolados com o Master do que os partidos dos parlamentares que votaram contra.

Não é por acaso: ao jogar toda a culpa no STF, o relatório da CPI tira o foco dos políticos e abre um espaço para as críticas bolsonaristas ao STF parecerem legítimas. Cria uma aliança natural entre uma multidão de políticos direitistas "moderados" enrolados com o Master e bolsonaristas anti-STF que, aliás, também são enrolados com o Master.

Se tivesse contado a história toda, o relatório da CPI teria sido rejeitado por 10 a 0, não por 6 a 4. Mas não ajudaria a direita a ganhar a Presidência como recompensa por ter quebrado um banco.


Alexander Turra - Sem oceano saudável, não há futuro (e o tempo de agir é agora), FSP

 Alexander Turra

Professor titular do Instituto Oceanográfico da USP, é coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano

Baleias encalhadas, tartarugas sufocadas por plásticocorais branqueados e peixes cada vez mais escassos. Não são episódios isolados, mas sintomas de um oceano em colapso silencioso.

O oceano, que sustenta a vida no planeta, está sob ameaça crescente e os sinais são claros, preocupantes e, em muitos casos, já irreversíveis. A ciência mostra que estamos alterando profundamente os sistemas marinhos por meio da pesca predatória, da poluição, da destruição de habitats, da introdução de espécies exóticas e da mudança climática. Esses impactos, somados, colocam em risco a biodiversidade e os benefícios que o oceano proporciona à humanidade.

A imagem mostra um recife de corais subaquático, com formações de corais brancos e texturizados em primeiro plano. Ao fundo, há uma variedade de peixes pequenos nadando em águas claras e azuis, com outras formações de corais visíveis.
Corais embranquecidos em recife na ilha de Koh Mak, província de Trat, na Tailândia - Napat Wesshasartar - 08.mai.24/Reuters

Hoje, sabemos que o oceano, que cobre cerca de 70% da superfície da Terra, regula o clima, a produção de alimentos e o equilíbrio ambiental do planeta. No entanto, ele vem sendo cada vez mais transformado por uma combinação de impactos humanos que se acumulam ao longo do tempo. Os efeitos já são visíveis: recifes de coral branqueiam, manguezais desaparecem, estoques pesqueiros se reduzem e eventos extremos se intensificam. O próprio diagnóstico científico brasileiro alerta para a perda de biodiversidade, a contaminação por plásticos e poluentes e a queda na riqueza de espécies, sinais de um sistema sob pressão.

Esse cenário nos aproxima perigosamente de uma possível extinção em massa nos oceanos. E isso não é apenas um problema ambiental; é uma ameaça direta à economia, à segurança alimentar e ao bem-estar humano. No Brasil, a economia ligada ao mar representa cerca de 20% do PIB, o que evidencia o quanto dependemos de um oceano saudável.

Diante desse quadro, as áreas marinhas protegidas (AMPs) surgem como uma das principais estratégias para reverter esse cenário. Elas funcionam como verdadeiros refúgios para a vida marinha, permitindo a proteção de habitats, a recuperação de espécies e o fortalecimento da resiliência dos ecossistemas frente às mudanças climáticas.

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O Brasil avançou recentemente nessa agenda. A criação do Parque Nacional Marinho do Albardão e da Área de Proteção Ambiental do Albardão elevou para cerca de 26,7% a área protegida da nossa zona econômica exclusiva, aproximando o país da meta global 30x30, que prevê proteger 30% dos oceanos até 2030.

Mas é preciso cautela: ampliar as áreas no mapa não basta. O verdadeiro desafio é garantir que essas áreas funcionem na prática. Sem plano de manejo, financiamento, monitoramento e fiscalização, corremos o risco de criar os chamados "paper parks" —unidades de conservação que existem apenas no papel.


Ecossistemas estratégicos, como manguezais, fundamentais para o armazenamento de carbono e a proteção costeira, e recifes de coral, que abrigam uma enorme biodiversidade, seguem sob forte pressão.

Ao mesmo tempo, ambientes menos conhecidos, como regiões de mar profundo e bancos de rodolitos (algas calcárias que formam "pedras vivas" no fundo do mar e criam habitats marinhos importantes), ainda carecem de proteção e conhecimento científico.

É nesse contexto que a discussão sobre o futuro do oceano ganha urgência. Em maio, a SP Ocean Week reunirá cientistas, pesquisadores, gestores públicos, organizações da sociedade civil e educadores para debater caminhos para "fazer o oceano renascer". Nos Painéis Ideias Azuis, o tema das áreas marinhas protegidas e da meta 30x30 estará no centro das discussões. Trata-se de um espaço de construção coletiva. As contribuições desses debates darão origem a um documento com recomendações que será encaminhado à Conferência da Década dos Oceanos de 2027 —um passo importante para alinhar ciência, políticas públicas e ação global.

O oceano ainda tem capacidade de se recuperar, mas depende das escolhas que fazemos agora. Proteger, restaurar e usar de forma sustentável os recursos marinhos não é apenas uma agenda ambiental. É uma agenda de desenvolvimento, de justiça social e de sobrevivência. Ainda é possível fazer o oceano renascer, mas isso exige ação imediata.