domingo, 19 de abril de 2026

Dejetos apocalípticos da guerra, Muniz Sodré, FSP

 Pequena e anterior às manchetes do recuo dos EUA em seu apocalíptico ultimato, uma notícia nas redes reportava que uma bomba iraniana atingiu por acaso uma rede de esgotos israelense, inundando ruas com enxurradas de fezes. Um tópico adequado à "slopaganda" ("sloppy propaganda") iraniana, que mistura baixaria e porcaria. Provável sinal cabalístico de que o desatino bélico criado por dementes passou de porqueiro a porco. Em termos ainda mais prosaicos, a guerra deu ruim, deu "eme".

Tivesse Trump lido "A Arte da Guerra" (Sun-Tzu), ponderaria que, "se o inimigo é superior, finja-se de fraco, à espera da arrogância". Ou seja, à espera de visão curta. Isso fizeram os aiatolás durante décadas, preparando-se para o conflito com o que chamam de Grande Satã. "Shit happens", dizem os americanos, a catástrofe moral é também olfativa. E, esteticamente, grotesca.

Figura masculina central com túnica branca e manto vermelho toca a testa de paciente deitado em cama hospitalar. Ao redor, quatro pessoas observam, incluindo enfermeira e familiares. Bandeira dos EUA e Estátua da Liberdade aparecem ao fundo sob céu dramático com raios de luz.
O presidente dos EUA, Donald Trump, publicou uma ilustração em que aparece vestido com roupas que remetem a Jesus - 13.abr.2026/Donald J. Trump na Truth Social

Essa categoria aplica-se à indecisão ontológica entre o humano e o animalesco: o sublime contempla o sentimento voltado para os céus, enquanto o grotesco conota partes baixas, práticas excluídas do processo civilizatório, dejetos humanos. Indagado se a destruição de infraestrutura civil não seria crime de guerra, disse Trump não ser o caso, porque o povo persa era "comandado por animais". Só que, respondendo a um jornalista sobre sua saúde mental, pôs-se a grunhir como um porco. Demência, encenada como grotesco.

Não há maior interesse na clínica da miséria metabólica e psicológica de Trump, nem dos aiatolás e mulás, dissociados da milenar civilização persa e dos anseios modernizantes de seu povo. Mas o filósofo italiano Giorgio Aganbem acha relevante refletir por que a nação tida como mais poderosa do mundo se deixa conduzir por um indivíduo oscilante entre narcisismo maligno e demência megalomaníaca.

A sociopatia dos teocratas iranianos garante-se pela repressão brutal da Guarda Revolucionária. Já o etnocídio de Netanyahu e seu governo teocrático apoia-se em fantasias derivadas do Deus vingativo do Velho Testamento, em cordão umbilical com o Estado norte-americano: Hegseth, secretário da Guerra, comparou o resgate do piloto abatido sobre o Irã à ressurreição de Cristo. E Trump postou a si mesmo vestido de Jesus, curando um doente.

Grotescos loucos de Deus, todos eles.

Frágil é a trégua no Oriente Médio. Certo mesmo é que a Guarda Revolucionária do Irã sai fortalecida, com maior poder interno. Trump não ganhou nada. Na corda bamba sobre o abismo sem fundo da decadência ocidental, alimenta a velha voracidade capitalista por solos e subsolos: dos espaços buscados pelo neocolonialismo israelense às cobiçadas terras raras.

Essas são as drogas e talvez a nêmese do império americano, metafísica da hiperpotência reduzida à dejeção. Na farsa fundamentalista de cavaleiro do apocalipse, Trump arroga-se ao papel de "fúria épica" da Morte, conduzida por corcel amarelo. Na realidade, fúria hípica de um grotesco ginete alaranjado a cavalo de si mesmo, arremedo mitológico do sátiro Pan, metade homem, metade bode. Pânico é o máximo que tem conseguido. "Ao vencedor, os despojos", vociferou, ainda que espojado em dejetos físicos e morais.

Hélio Schwartsman - Sob a sombra da suástica, FSP

 Se você vivesse na França nos anos 40, teria se juntado à Resistência, colaborado com os nazistas ou apenas tentando levar a vida da melhor forma possível? Nossos narradores autobiográficos internos têm uma notável predileção por retratar-se como heróis, mas sabemos que a realidade é mais complexa. Gostaria de ter a certeza de fazer sempre a escolha moral certa, mas já li livros o suficiente para ter dúvidas. Quer dizer, no meu caso, como judeu, minhas opções seriam drasticamente limitadas, mas a maioria dos franceses tinha um leque maior de possibilidades.

Homem sorridente vestido com uniforme militar preto está sentado no centro de um sofá vermelho. Duas mulheres, uma loira de vestido vermelho e outra morena de vestido azul, beijam suas bochechas enquanto ele abraça ambas. Na frente deles, uma mesa redonda com uma garrafa de champanhe em balde de gelo e três taças com bebida.
Annette Schwartsman

"Sob a Sombra da Suástica", de Franciele Becher, faz um retrato detalhado do cotidiano dos franceses no período nazista. Ela cobre mais ou menos tudo. Começa antes da invasão, analisando a política do apaziguamento, que empoderou Hitler, os erros estratégicos do Estado-Maior francês, e a catástrofe de 1940. Daí se seguem os enormes êxodos de pessoas, o armistício, a instalação do regime colaboracionista de Vichy, as deportações.

As pessoas de carne e osso tinham de se posicionar. A maioria buscava sobreviver em tempos difíceis. Isso significa que agiam em conformidade com as determinações dos invasores ou do governo do general Pétain, mas de vez em quando, para tentar preservar a autoimagem, ensaiavam pequenos atos de desobediência.

Havia diferentes níveis de colaboração, desde os 30 mil que serviram ativamente na Milícia Francesa, caçando membros da resistência e judeus, até os funcionários públicos que só "cumpriam ordens", passando pelas francesas que foram para a cama com soldados alemães. Era a colaboração sentimental. Elas foram alvo de particular crueldade após a libertação.

Também os resistentes vinham em várias modalidades, desde aqueles que se arriscavam muito operando atrás das linhas inimigas até os que de vez em quando ajudavam alguém. Estima-se que, em 1944, no auge do movimento, 450 mil pessoas estavam envolvidas em operações contra os alemães.

"Sob a Sombra..." nos faz sentir o peso da história.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

José Eustáquio Diniz Alves - A economia da longevidade, FSP

 José Eustáquio Diniz Alves

Doutor em demografia, é pesquisador aposentado do IBGE e ex-professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do instituto

O Brasil está prestes a atingir um marco demográfico histórico: pela primeira vez, terá mais pessoas de 60 anos ou mais do que crianças e adolescentes de zero a 14 anos. Segundo projeções do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2029 o país contará com 40,1 milhões de idosos, superando os 39,2 milhões de jovens com menos de 15 anos.

Censo Demográfico de 2022 já evidenciou essa transição em nível regional. Em dois estados, a população idosa superava a jovem: no Rio Grande do Sul, havia 115 idosos para cada 100 jovens; no Rio de Janeiro, 106 para cada 100. Entre as 27 capitais, cerca de 55% já apresentavam mais idosos do que jovens. Porto Alegre destacava-se como a capital mais envelhecida, com 137 idosos para cada 100 jovens, enquanto São Paulo, a maior cidade do país, registrava 103 para cada 100.

Elide Elisa Rodrigues Luccas, 72, trabalha no ateliê de sua casa no Butantã, zona oeste de São Paulo - Mathilde Missioneiro - 26.out.2023/Folhapress

A idade mediana da população brasileira era de 18 anos em 1950, chegou a 34 anos em 2022 e deve atingir 49 anos em 2072, quando o país celebrará os 250 anos da Independência. Nessa data, a razão de idosos poderá alcançar 317 para cada 100 jovens. O envelhecimento populacional tende, assim, a consolidar-se como a principal característica demográfica do Brasil no século 21 —um processo que traz desafios relevantes, mas também oportunidades.

O principal desafio decorre do esgotamento do primeiro bônus demográfico. A proporção de pessoas em idade ativa (15 a 59 anos) já está em declínio, o que pode gerar crise fiscal e estagnação econômica caso o país mantenha uma visão estática das relações intergeracionais, baseada em um ciclo de vida rígido —com jovens apenas estudando, adultos exclusivamente trabalhando e idosos integralmente aposentados.

A narrativa da catástrofe demográfica tornou-se recorrente. No entanto, o envelhecimento deve ser encarado com perspectiva construtiva, pois há outras duas janelas estratégicas para promover prosperidade e bem-estar.

O segundo bônus demográfico, ou bônus da produtividade, ao contrário do primeiro, não é transitório. Seus efeitos podem se prolongar indefinidamente, desde que haja investimentos contínuos em educação, saúde, ciência e infraestrutura. Esses fatores elevam a produtividade do trabalho, permitindo que a economia produza mais com menor uso de insumos humanos e ambientais, compensando a redução da força de trabalho.

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A outra fronteira estratégica é o terceiro bônus demográfico, ou bônus da longevidade, associado à expansão de vidas saudáveis e ativas. Esse bônus depende de como a sociedade se organiza para viver mais e melhor, ampliando os anos com autonomia e sem incapacidades severas. Nesse contexto, o capital humano acumulado ao longo da vida permite que os idosos continuem contribuindo, compartilhando experiência, conhecimento e capacidades produtivas. O professor Andrew Scott, em "The Longevity Economy" (2021), publicado na The Lancet Healthy Longevity, argumenta que esse marco exige uma mudança de paradigma: deixar a ideia de uma "sociedade que envelhece" para construir uma "sociedade da longevidade". Na primeira, acrescentam-se anos à vida; na segunda, adiciona-se vida aos anos.

A "sociedade que envelhece" costuma ser vista pela ótica dos custos, como a expansão dos gastos com previdência e saúde. Já a "sociedade da longevidade" enfatiza a transformação do ciclo de vida. Scott destaca a maleabilidade do envelhecimento —a possibilidade de intervenções que permitam viver não apenas mais, mas com mais saúde, maior integração social e níveis mais elevados de produtividade.

A economia da longevidade exige superar o etarismo e construir trajetórias de vida mais flexíveis e multietapas, com requalificação ao longo da vida, mudanças de carreira e maior inclusão das gerações maduras no mercado de trabalho, além de maior capacidade de adaptação por parte dos indivíduos, das empresas e das políticas públicas.