quinta-feira, 16 de abril de 2026

Bráulio Borges - Como acelerar o ajuste fiscal brasileiro?, FSP

 O Governo Federal divulgou o PLDO (Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias ) de 2027, apresentando, entre outras coisas, projeções fiscais até 2030. Nessa avaliação, a União (Governo Federal, INSS e Banco Central) deverá transitar de um déficit primário de 0,4% do PIB em 2026 para um superávit de 1,3% do PIB em 2030.

Boa parte dessa melhoria adviria de uma redução das despesas em porcentagem do PIB, de 19,4% neste ano para 18% em 2030 (ante 18,8% em 2025). Dessa redução de 1,4 ponto percentual, 0,6 ponto adviria da redução dos gastos com pessoal e encargos sociais do Executivo, que passariam de 3,4% para 2,8% nesse ínterim. Essa evolução esperada está ancorada sobretudo na nova regra fiscal criada no fim de 2024, que aponta que, a partir de 2027, enquanto o Governo Federal registrar déficit primário em suas contas, o gasto real nessa rubrica não poderá crescer mais do que 0,6% (e o governo também não poderá conceder novos benefícios tributários).

Já as receitas brutas permaneceriam estáveis, em torno de 23,5% do PIB entre 2026 e 2030, com alguma melhora das receitas líquidas para a União, após transferências para os governos regionais (saindo de 18,9% em 2026 para 19,2% do PIB em 2030). Vale notar, contudo, que a arrecadação bruta em 2025 foi de 22,8%. Desse modo, as projeções do governo embutem uma elevação de cerca de 0,7% do PIB da arrecadação bruta neste ano, com esse ganho se mantendo de 2027 a 2030.

Sem mais detalhes, é difícil questionar essas projeções de receitas e despesas do PLDO. Contudo, o próprio governo projeta, levando em conta essa melhora gradativa do resultado primário até o fim da década, que a relação entre a dívida bruta e o PIB seguirá subindo em ritmo bastante acelerado, passando de 78,6% em 2025 para 87,8% em 2029. No caso da dívida líquida —conceito mais pertinente para países emergentes, mas que segue sendo menosprezado por boa parte dos analistas aqui no Brasil—, o nível é mais baixo, mas a dinâmica é semelhante: de 65,2% em 2025 para 76,1% em 2029. Em ambos os casos, somente haveria uma inflexão nessa trajetória a partir de 2030/31.

Portanto, como tenho defendido há algum tempo, a estratégia de consolidação fiscal gradualista não parece ser a mais adequada pelo menos desde meados de 2022, quando houve um salto nos juros internacionais. Nesse contexto, seria necessário acelerar essa melhoria do resultado primário. O timing político-eleitoral sugere que o momento mais propício para isso seria em 2027/28, primeiro biênio do novo governo (seja o atual, reeleito, seja um novo presidente).

Qual a viabilidade de implementar um ajuste fiscal mais rápido do que esse apontado no PLDO 2027? Dois estudos relativamente recentes indicam que há espaço para economizar cerca de R$ 40 bilhões em despesas em um período relativamente curto de tempo. Os pesquisadores Sérgio Firpo e Thaline Prado, do Insper, indicaram que o governo federal poderia reduzir R$ 22,4 bilhões em gastos com benefícios sociais, sem cortar direitos (grifo meu).

Já o servidor federal Sérgio Guedes Reis estimou que os gastos públicos com salários que excedem o teto constitucional estejam hoje acima de R$ 20 bilhões. A aplicação imediata da lei poderia, portanto, reduzir o gasto nesse montante, de forma quase instantânea.

Caso somemos a isso uma redução dos gastos com emendas parlamentares, dos atuais R$ 61 bilhões orçados em 2026 para R$ 20 bilhões (ainda muito acima do que deveriam ser, uns R$ 6 bilhões, segundo estimativas que preparei no ano passado), teríamos um pacote que, em um a dois anos, poderia reduzir a despesa primária em pouco mais de 0,5% do PIB, sem prejudicar boa parte da população brasileira.

Hélio Schwartsman - Injustiça eleitoral, FSp

 Se há um viés cognitivo de ampla penetração, é a falácia do mundo justo —a ideia de que, no final, as pessoas receberão o que merecem. Somos condicionados desde criancinhas a crer nessa lorota. Ela está presente nas histórias infantis (vilões são sempre punidos), nas religiões (papai do céu recompensa os bons e castiga os maus) e até em justificações ideológicas (discurso da meritocracia). Aparece também em eleições.

Lula e os petistas estão mordidos. Não entendem como bons indicadores econômicos obtidos nesta gestão e o pacote de generosidades patrocinado pelo governo não se convertem em avaliação positiva e intenções de voto para Lula. E, sempre que a expectativa de justiça cósmica não se realiza, nós nos colocamos a caçar os responsáveis, não pela injustiça, que não pode por definição se materializar, mas pelo adiamento do grande acerto de contas.

Homem idoso de cabelo grisalho e barba branca, vestido com terno preto, camisa branca e gravata vermelha, ajusta o cabelo com a mão direita. Fundo azul com texto parcialmente visível.
O presidente Lula durante inauguração do Centro de Ensino, Simulação e Inovação (Cesin) do Instituto do Coração (InCor), no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP - Danilo Verpa - 10.abr.26/Folhapress

No caso do PT, os "culpados" oscilam. Vão das falhas de comunicação do próprio governo aos altos índices de endividamento provocados pelas malévolas bets, passando pelas guerras de Trump com seu impacto inflacionário.

A resposta invariável do governo é mais programas (e gastos) que possam comprar a boa vontade do eleitor. Não foi muito diferente em 2022, quando Bolsonaro era o presidente. A democracia funciona bem para algumas coisas, mas não para responsabilizar adequadamente governantes por suas ações.

Não que a responsabilização seja zero, mas só de vez em quando ela é adequada. Fenômenos muito abrangentes, como crises econômicas, costumam ter forte impacto eleitoral, mas não necessariamente foi o governante que provocou a crise ou para ela contribuiu. O mundo é um lugar, digamos, multifatorial. É frequente que políticos colham os louros por aquilo que não fizeram e que sejam cobrados por eventos aos quais não deram causa. Meu exemplo favorito são os ataques de tubarões em Nova Jersey que quase custaram a reeleição a Woodrow Wilson em 1916.

No mundo e em eleições, o papel do acaso é bem maior do que gostamos de acreditar.


White Martins inaugura a primeira fábrica de hidrogênio verde em escala industrial do País, OESP

 JACAREÍ (SP) - Em meio à paralisação e ao atraso de projetos de descarbonização em todo o mundo, a White Martins inaugurou oficialmente nesta quarta-feira, 15, sua segunda fábrica de hidrogênio verde no País. Trata-se da primeira instalação do gênero no Brasil em escala industrial. A outra unidade da empresa, em Pernambuco, opera comercialmente, mas tem o porte de uma planta piloto, com uma capacidade equivalente a 25% da fábrica nova.

Instalada em Jacareí (a 85 km de São Paulo), a fábrica — cujo investimento necessário para construção não foi divulgado — tem capacidade para produzir 800 toneladas de hidrogênio por ano. Segundo o presidente da White Martins e da Linde na América Latina, Gilney Bastos, o volume de produção diário é suficiente para abastecer uma indústria de tamanho médio por até 35 dias — mesmo com uma equipe pequena: a previsão é de geração de 15 empregos.

Equipamentos que separam as moléculas de hidrogênio da água na fábrica em Jacareí (SP)
Equipamentos que separam as moléculas de hidrogênio da água na fábrica em Jacareí (SP) Foto: Tiago Queiroz/Estadão

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O hidrogênio verde, fabricado a partir da água, é uma das grandes apostas do mundo para substituir combustíveis fósseis e reduzir as emissões de carbono do planeta. O mercado é promissor para o Brasil, que pode oferecer um dos hidrogênios mais competitivos do mundo. Isso porque, para produzir o hidrogênio limpo, é necessário um grande volume de energia elétrica, e o País tem fontes renováveis relativamente baratas — como eólica e solar.

O desenvolvimento do setor de hidrogênio verde, no entanto, está travado no mundo todo por causa de seus altos custos e das políticas do presidente americano, Donald Trump, contra uma economia menos poluente.

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Bastos reconhece que o cenário geopolítico não é favorável para a instalação de fábricas destinadas à exportação de hidrogênio verde, dada a falta de procura pelo produto no mercado internacional e aos custos para enviar o combustível por navio. Plantas para abastecer o mercado doméstico, porém, devem ter demanda, de acordo com o executivo. “O desenvolvimento do setor no Brasil vai ser mais rápido do que esperamos, o de exportação, não.”

Cerca de 20% da produção da nova planta será destinada à fábrica de vidros da Cebrace, também em Jacareí. O restante será consumido por empresas metalúrgicas, químicas e de alimentos – a White Martins tem 400 compradores de hidrogênio.

Segundo o presidente da companhia, os contratos de hidrogênio verde estão sendo fechados pelos mesmos valores dos de hidrogênio cinza, que é produzido a partir de gás natural e é poluente. Ele diz que a empresa não está cobrando um prêmio pelo produto “verde” porque conseguiu ter um custo de produção que compete com o do hidrogênio cinza.

“Não estamos interessados em cobrar prêmio agora. Nosso interesse é desenvolver a indústria do hidrogênio verde do País”, destacou.

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Gilney Bastos, presidente da White Martins e da Linde na América Latina: 'Não estamos interessados em cobrar prêmio agora'
Gilney Bastos, presidente da White Martins e da Linde na América Latina: 'Não estamos interessados em cobrar prêmio agora' Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Entre os fatores que garantiram, segundo o presidente da White Martins, a competitividade desse hidrogênio verde está o fato de a companhia ter autoprodução de energia. Nesse modelo de contrato, empresas de energia renovável constroem usinas para atender terceiros, garantindo custos inferiores. No caso da fábrica de hidrogênio verde de Jacareí, a energia é solar e eólica e é produzida em parceria, respectivamente, com a Eneva e a Serena.

Também favorecem o custo da White Martins a escala da companhia, que é líder global em gases industriais, e os desenvolvimentos dos projetos de engenharia internamente, acrescenta Bastos.

A consultoria Thymos, especializada em energia, calcula, entretanto, que a média global do custo de produção de um quilo de hidrogênio verde esteja em US$ 7. Para que o produto possa competir com o hidrogênio cinza e com o gás natural — outra fonte energética importante para a indústria —, o preço teria de cair pelo menos 50%.

Apesar de ser a maior planta de hidrogênio verde do País, a fábrica de Jacareí é pequena quando comparada aos projetos do Nordeste, que estão em fase de decisão final de investimento. Essas plantas produzirão para exportação e demandarão até R$ 25 bilhões em investimentos.


A própria White Martins tem projetos para vender para o mercado externo. Tirá-los do papel, porém, ainda depende de haver compradores. “Uma vez que a guerra termine, não acredito que nenhum político consiga se eleger pautando o desenvolvimento em queima de carvão. A gente acha que, terminada a guerra, os megaprojetos de hidrogênio verde vão voltar ao radar.”