segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Manter universidades sem aulas presenciais é hipócrita e cruel, Laura Mattos, FSP

 Laura Mattos

Laura Mattos

Jornalista e mestre pela USP, é autora de ‘Herói Mutilado – Roque Santeiro e os Bastidores da Censura à TV na Ditadura’

Quer saber o que está acontecendo em universidades brasileiras, que, mesmo com a permissão para retomar aulas presenciais, insistem em se manter no ensino remoto?

Aqui está uma pequena amostra dos absurdos: para reduzir custos com professores, formam-se "pools" de turmas. Uma sala virtual pode reunir centenas de alunos, agrupando, de forma aleatória, iniciantes com quem está prestes a se formar. As grades de disciplinas viram uma salada e atropelam a sequência lógica, obrigando estudantes a cursar, por exemplo, Matemática 2 antes da 1 ou Direito 4 antes do 3.

As provas não são produzidas pelos professores das turmas, mas por programas digitais que utilizam bancos de questões pré-preparadas, e as correções são automatizadas.

Mestres e doutores são demitidos e se tornam "prestadores de serviço", para produzir pacotes de aulas gravadas, recebendo por isso cerca de 30% do que ganhavam nos cursos presenciais. No lugar deles, "tutores", alguns sem título de pós-graduação e mesmo recém-formados, tornam-se responsáveis pelas turmas.

Cadeiras de madeira em uma sala de aula.
Cadeiras em uma sala de aula da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco - Karime Xavier - 11.ago.2020/Folhapress

Passou da hora de se olhar para a situação dos universitários, que foram negligenciados nos debates da pandemia, tratados como vilões da transmissão do vírus. Eles estão perdidos, esgotados, desmotivados, com ansiedade e depressão. A evasão no ensino superior bate recordes no país.

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No ano passado, só nas universidades privadas, 3,42 milhões de estudantes abandonaram as faculdades, o que representa 37,2% do total, a maior evasão de toda a série histórica registrada pelo Semesp, o Sindicato dos Estabelecimentos Mantenedores do Ensino Superior Privado.

Há nesta conta, logicamente, o abandono por dificuldades financeiras. Mas não se pode mais negar que o fechamento das universidades tenha trazido prejuízos emocionais e de aprendizado aos alunos e os levado a desistir. O curso dos sonhos torna-se um enfado, e jovens pulam de uma faculdade para outra, sem saber se estão com dificuldade para escolher a carreira ou desorientados em razão do ensino remoto.

Enquanto isso, universidades insistem em adiar o retorno presencial com a justificativa de preservar a saúde. Obviamente que essa hipocrisia não cola mais, com tudo funcionando no país, alguns setores desde 2020. Ou vamos fazer de conta que todos da universidade, alunos, professores e funcionários, estão em casa, confinados, e que as aulas seriam a única e grande ameaça de se contaminar com a Covid-19?

Cansados disso, alunos se mobilizam, e os calouros deste ano dão força, afinal, muitos tiveram de aguentar o 2º e o 3º ano do ensino médio fora da escola. Eles não querem, e não merecem, suportar o 1º da faculdade no mesmo esquema.

Os protestos surgem em universidades privadas, que têm aproveitado o fechamento para reduzir custos e compensar a perda de alunos, e nas públicas, nas quais há forte pressão de professores contra a reabertura. Em São Paulo, já houve atos de alunos do Mackenzie e da Fundação Getúlio Vargas. Os cartazes traziam dizeres como "Todos vacinados", "Alunos na universidade já", "Escola volta e universidade não?" e "O EAD [ensino a distância] mais caro do Brasil".

Na Universidade de São Paulo, o centro acadêmico da Escola de Comunicações e Artes fez um abaixo-assinado defendendo a retomada presencial e apontando os "malefícios nítidos" do sistema remoto, como "queda no rendimento, cansaço, desestímulo, dificuldade de interação, de foco e adoecimento mental".

O texto denuncia que debates na USP, com o apoio de parte do corpo docente, caminham para manter permanentemente parte das aulas a distância. "Não aceitaremos a imposição de aulas virtuais após a pandemia", dizem os alunos.

Nas particulares, também já se percebe a intenção de prosseguir remotamente com o maior número de aulas possível, mesmo sem pandemia. Há planos de se chegar ao limite legal de 40% de atividades remotas, avançar nessa porcentagem e até transformar cursos antes presenciais em EAD. Há reaberturas de fachada, com aulas nas faculdades uma, duas vezes por semana, e por apenas, duas, três horas.

A qualidade despenca. No Brasil, falta fiscalização e regulação no EAD, o que abre caminho para "fábricas de diplomas", faculdades preocupadas só com lucro. A professora de direito da USP Maria Paula Dallari Bucci, ex-secretária de educação superior do Ministério da Educação (2008-2010), e o professor da UFRJ Carlos Eduardo Bielschowsky, ex-secretário de educação a distância do MEC (2007-2010), alertaram para esse risco, em artigo do portal Jota, dando como exemplo cursos de pedagogia.

Corredor da PUC-SP no campus do bairro Perdizes, zona oeste de São Paulo - Karime Xavier - 20.ago.2021/Folhapress

Em 2019, relatam, na pré-pandemia portanto, 55,5% dos alunos dessa carreira faziam EAD em faculdades dos dez maiores grupos de educação do país. Desses, 65% estavam em cursos com conceito insuficiente no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), contra 22,2% nas presenciais. São esses os futuros professores do país. E, com o fechamento prolongado do ensino superior, uma geração de profissionais das mais diversas áreas terá sido formada com as fragilidades do ensino remoto.

É bom lembrar que as universidades do estado de São Paulo foram liberadas já no final de 2020 a retomar parcialmente as atividades presenciais e que, desde outubro de 2021, podem receber 100% dos alunos. Membro da comissão de legislação e normas do Conselho Estadual de Educação de SP, Décio Lencioni Machado diz que instituições que insistirem em permanecer fechadas devem sofrer ações judiciais.

Especializado em direito educacional, ele explica que a autonomia universitária, garantida pela Constituição, não pode ser confundida com soberania. "Há normas a serem cumpridas, e, no cenário atual, o fechamento das universidades não se justifica."

Mídias digitais estão em momento de mudança, FSP

É sempre bom lembrar a utilidade da famosa frase de Marshall McLuhan de que "o meio é a mensagem". Com ela, o principal teórico das mídias de todos os tempos ressalta o fato de que qualquer mudança nos meios de comunicação leva a alterações profundas na forma como a sociedade se organiza e até mesmo nos modos de comportamento individual.

Pois bem, estamos de novo em temporada de transformação. Há uma nova geração de plataformas que vinha emergindo progressivamente e agora atinge força crítica como meio de comunicação de massa. Dentre elas, vale citar o TikTok, o Discord, o Twitch e o Telegram.

A ascensão dessas plataformas está mudando o jogo com relação à forma como a comunicação digital acontece. A geração anterior de plataformas (YouTube, Facebook e Instagram etc.) foi responsável por reconfigurar o papel da mídia tradicional (TV, jornais, revistas etc.).

Imagem mostra a tela inicial do aplicativo Twitch; na tela, está escrito "Twitch" na parte de cima, abaixo "tap to sign in"
A página inicial do aplicativo do Twitch - Elijah Nouvelage/Reuters

Por elas surgiu um novo tipo de celebridade, que se aproveitava dos novos meios para se projetar de forma independente dos canais editoriais existentes. Nesse movimento surgiram muitos personagens novos, que vão da blogueira de moda ao político de internet.

Estamos agora presenciando o momento em que a chegada de plataformas novas está suplantando as "velhas".

Quem já estava confortável com o jeito de se comunicar no YouTube, no Facebook, no Instagram, plataformas com mais de dez anos de existência, está tendo de reaprender muita coisa.

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O TikTok, por exemplo, cresceu a partir de ao menos dois elementos novos. O fato de utilizar uma inteligência artificial como elemento central da plataforma, capaz de identificar preferências conscientes e inconscientes dos usuários.

E a criação de uma nova linguagem, consistente nos chamados "vídeos curtos", que exigem um jeito novo de trocar informação que é desconfortável para muita gente com mais de 30 anos (e para quem se acostumou demais com o ecossistema de mídias atual).

Já o Discord e o Twitch cresceram a partir da centralidade dos games para a cultura contemporânea global. O Discord é uma plataforma que permite comunicação por texto e voz que foi inicialmente adotada
por jogadores que buscavam se comunicar enquanto jogavam coletivamente.

No entanto, progressivamente foi saindo desse nicho e hoje é o epicentro de vários movimentos de inovação e comunicação mais amplos. Poucas plataformas têm a capacidade de organizar comunidades de interesse como o Discord.

Já o Twitch, hoje pertencente à Amazon, apostou originalmente na transmissão ao vivo de partidas de videogame.

Conseguiu também extrapolar esse nicho e virar fenômeno popular. No Brasil, o influenciador Casimiro ("Casimito") rompeu todas as barreiras ao se tornar uma celebridade nacional projetando para todo o país a sempre interessante cultura da zona norte do Rio de Janeiro.

O Telegram, por sua vez, tem obtido sucesso crescente ao fundir a capacidade de comunicação do WhatsApp com a capacidade de formação de comunidades de interesse do Discord. Uma pena que, com tanto sucesso, a plataforma insista em ignorar a lei dos países em que opera.

De todo modo, essas transformações nas mídias já começam a produzir efeitos com repercussão em todos os campos sociais: na educação, na ciência, na cultura e, de forma imprevisível, também na política.


READER

Já era Achar que uma determinada mídia social vai durar para sempre

Já é Movimento de ascensão e queda de várias plataformas

Já vem A busca por qual será a primeira plataforma bem-sucedida da Web 3.0

 

Se Otan é para conter expansão russa, falta combinar com o resto do mundo, Elio Gaspari, FSP

 Hastings Lionel Ismay foi um tremendo sujeito. Nasceu na Índia e morreu na Inglaterra em 1965, aos 78 anos, com o título de Barão Ismay. Em 1940 Winston Churchill nomeou-o seu assistente militar e Ismay acompanhou-o dos dias em que a tropa inglesa estava encurralada em Dunquerque até sua entrada na Alemanha vencida, em 1945. Churchill nunca escondeu o quanto lhe devia.

Ismay viu de tudo e em 1947 tornou-se o primeiro secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan. Foi dele a mais curta e precisa definição dos objetivos daquela aliança militar:

"Manter os americanos dentro, os russos fora e a Alemanha embaixo".

Tanque russo deixa área de exercícios conjuntos com Belarus, temidos pelo Ocidente como prenúncio de uma invasão da Ucrânia
Tanque russo deixa área de exercícios conjuntos com Belarus, temidos pelo Ocidente como prenúncio de uma invasão da Ucrânia - Ministério da Defesa da Rússia - 17.fev.2022/AFP
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Passaram-se 73 anos, a Alemanha sacudiu a poeira e deu a volta por cima, a União Soviética se acabou e os Estados Unidos deixaram de ser na Europa a potência que eram nos anos seguintes à Segunda Guerra.

Como Lord Ismay já se foi, não se pode saber qual serventia ele atribuiria à Otan de hoje.

Se é para conter uma secular expansão russa, colocando bases militares dentro de um território que foi seu, falta combinar com o resto do mundo.