quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Mais do que um economista, Lula, Moro ou 'x' precisam mostrar um plano, já, VTF, FSP

 


Sergio Moro (Podemos) nomeou um conselheiro econômico. Assim lançou sua campanha entre as elites do poder. Também quis dar um sinal de que é mais do que mero capitão do lavajatismo ou justiceiro. Lula da Silva (PT) em breve terá de fazer lance assemelhado, não apenas para montar sua campanha. Aliás, o lance de Moro vale pouco.

Nomear um economista-mor quer dizer quase nada. Não que Affonso Celso Pastore, o escolhido de Moro, seja nada. É um economista reputado, goste-se ou não do que pensa. Por falar nisso, moristas e possíveis companheiros de viagem de Moro vão arrancar os cabelos quando Pastore começar a falar. O economista não tem papas na língua, olha o osso dos problemas e, se precisar, vai sugerir tratamentos que incluem amputações e remédios pesados. No debate vulgar, é o que se chama de ortodoxo duro e puro.

Um plano econômico ou outro plano qualquer de governo precisa ser coerente, fazer sentido técnico. Mas precisa também de fundamentos e acordos sociais e políticos. Não pode convulsionar o país no caminho da sua execução, por exemplo.

O ex-juiz federal Sergio Moro admite disputar a presidência da República - Reuters

Moro não tem nada disso. Por ora, é um slogan com adeptos em parte da elite econômica que infla o balão dele, entre militares, entre direitas órfãs de Jair Bolsonaro e entre um número de eleitores já quase bastante para furar o pneu de outros calhambeques que andam pela "terceira via". É tudo.

Ninguém sabe o que Lula faria, se eleito. Não se sabe nem o que dirá na campanha. A pergunta aqui não é o que diria para "tranquilizar o mercado", uma bobice assim, embora vá precisar dessa armadura, pois tende a ser triturado em várias frentes, na econômica também. A depender do nível da campanha, qualquer eleito vai pegar um país tão mais arruinado que será ainda mais difícil de reformar. Mas o problema é maior.

O ano de 2023 não será 2003, primeiro de Lula 1. Deve ser o décimo ano de economia empobrecida. Sem um plano de choque logo de início, o próximo presidente pode perder seu governo inteiro.

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As finanças do governo estão em situação pior. Não será fácil fazer o ajuste "Carta aos Brasileiros". A receita federal em torno do ano de 2003 era de 17,9% do PIB, a mesma do triênio recente menos anormal (2017-2019). Mas a despesa é maior, 3,9% do PIB maior, na maior parte (75%) devido a gastos como Previdência e outros benefícios sociais obrigatórios. O superávit fiscal era de 2,3% do PIB; agora, há déficit 1,6% do PIB. O gasto com juros da dívida é maior. Investimento público e o gasto em ciência viram pó.

Uma arrumação disso dependerá de corte de certas despesas, aumento de outros, de remanejamento grande. De mais impostos. De regra realista de controle de gastos e dívida. Parece lenga-lenga. É quase uma revolução. Hoje, parece quase inviável.

Além disso, a coisa não vai andar sem mudanças que criem uma economia de mercado funcional (em especial nos tributos e abertura comercial). De mudanças que diminuam a iniquidade na tributação e na despesa social. Um programa esperto de incentivos ao desenvolvimento é necessário, mas no momento parece quase um luxo, dados a penúria e o tamanho da ruína de instituições e governança.

Essa imensa mudança depende de preparação e acordos ao menos tácitos, que devem ser costurados na campanha. Não é assunto apenas de propaganda.

Estamos à beira de um processo de "brasilianização", fratura política e ruína socioeconômica crônicas, nossa versão do que se vê em maior ou menor grau na "venezuelização" e na "argentinização" —o "risco Venezuela", aliás, cresceu com o bolsonarismo. As elites do poder não estão nem aí, ora dedicadas a montar esquemas eleitoreiros. Assim, vai dar besteira.

Desmatamento na Amazônia atinge 13.235 km², maior área dos últimos 15 anos, OESP

 André Borges e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2021 | 19h48
Atualizado 18 de novembro de 2021 | 21h25

BRASÍLIA – Em mais um recorde, o Brasil registra o maior índice de desmatamento do País dos últimos 15 anos na chamada Amazônia Legal, que engloba o território de nove Estados. Nesta quinta-feira, 18, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informou que, entre agosto de 2020 e julho de 2021, foram desmatados 13.235 quilômetros quadrados de floresta na região. Esse volume é 21,97% maior que o registro no mesmo intervalo de 12 meses anterior, quando a área devastada chegou a 10.851 km².

Os dados consolidados pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélites (Prodes) são conhecidos como a informação técnica mais precisa sobre a medição de desmatamento no País. Para chegar ao levantamento, foi detalhada a situação de 106 cenas prioritárias em todos os Estados que compõem a região.

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Amazônia
Sobrevoo mostra imagem de região entre Sinop e Brasnorte, no Estado do Mato Grosso. O Brasil vem sendo pressionado internacionalmente para reduzir os indicadores de desmatamento da floresta amazônica Foto: Tiago Queiroz/Estadão/ 13-10-2015

O Pará é o Estado com a maior taxa de desmatamento, respondendo sozinho por 5.257 km² de devastação, o equivalente a 39,72% da área total. Amazonas é o segundo Estado mais afetado, com 2.347 km² (17,73%), seguido pelo Mato Grosso, com 2.263 (17,10%).

O dado é contrário ao discurso de proteção ambiental que o governo Bolsonaro apresentou na Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), a COP-26, com o argumento de que tem protegido a Amazônia. Desde 2019, quando Bolsonaro assumiu o Palácio do Planalto, praticamente, dobrou o volume de desmatamento na região. O índice medido de julho de 2017 a agosto de 2018 foi de 7.536 km² de desmatamento na região. Já no primeiro ano da gestão Bolsonaro, porém, em 2019, o volume saltou para 10.129 km². No ano passado, em nova alta, chegou a 10.851 km². Agora, atinge 13.235 km², só atrás do que se viu em 2006, durante o governo Lula, quando a área desmatada chegou a 14.286 km².

Chama a atenção o fato de que o documento do Inpe com os dados oficiais ter a data de 27 de outubro, mas ser divulgado apenas em 18 de novembro, ou seja, a informação só foi conhecida 22 dias após o documento ser elaborado e depois de ser encerrada a COP-26, em Glasgow. Joaquim Leite, ministro do Meio Ambiente, garantiu que só teve contato com os números de desmatamento nesta quinta-feira. "Eu tive contato com os dados hoje", afirmou.

Na quarta-feira, o Estadão mostrou que a série de compromissos assumidos pelo Brasil na COP-26 não foi o bastante para destravar contribuições bilionárias de países europeus ao Fundo Amazônia, mecanismo que recebia doações estrangeiras para financiar ações de proteção da floresta e  foi bloqueado no primeiro ano do governo Bolsonaro. Alemanha e Noruega, por exemplo, são alguns dos países que esperam uma redução substancial no desmatamento para retomar doações.

Ação integradas com inteligência policial

Nesta quinta-feira, os ministérios da Justiça e Segurança Pública e do Meio Ambiente anunciaram que estão preparando ações integradas, com participação de inteligência policial, para coibir o desmatamento no País. Em entrevista coletiva, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, prometeu uso de "toda a força" para coibir crimes ambientais e permitir que o país cumpra metas assumidas na COP-26 de zerar o desmatamento ilegal.

"Agora nós temos um prazo para chegar a níveis aceitáveis dos crimes ambientais do Brasil. Estamos readequando nossas forças e subiremos para essas regiões de desmatamento. A gente está trabalhando operações integradas, com tecnologia, e vamos usar a força que o Estado brasileiro tem. Vamos combater o desmatamento e as forças de segurança estão orientadas a se planejar. A gente já tentou maneiras preventivas e educativas, mas isso até agora não funcionou", disse.

Anderson Torres e Joaquim Leite
Os ministros Anderson Torres, da Justiça e Segurança Pública, e Joaquim Leite, do Meio Ambiente Foto: Tom Costa/MJSP

Já o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, afirmou que o governo precisará ser "mais contundente" para combater o desmatamento, após reconhecer que os números ainda são um "desafio". 

"Quero deixar claro que o governo federal irá atuar de forma contundente contra qualquer crime ambiental. Nós aumentamos para 700 o número de homens, especialmente da Força Nacional, que estão atuando em 400 polígonos detectados pelo novo sistema, que consegue dar alerta com um metro de resolução e um dia de recorrência, então a Polícia Federal estará atuando com a secretaria de Crimes Organizados para atuar de forma mais contundente", explicou.

Leite disse ainda que os números apresentados não refletem a atuação do ministério nos últimos meses. "Estamos sendo mais presentes e a Força Nacional, junto com Ibama e ICMBio, tem atuado em 23 municípios de forma permanente. São números que são um desafio para nós e teremos de ser mais contundentes em relação a esses crimes", continuou.

O ministro do Meio Ambiente avisou que o governo pretende ampliar a operação Guardiões do Bioma, que segundo ele trouxe "resultados no combate ao incêndio este ano, para atuar no desmatamento de uma forma integrada, para que a gente consiga reverter esses números que estão em alta desde 2012".

O ministrou disse que tem viajado semanalmente para a Amazônia, principalmente para as áreas de desmatamento. E espera que o resultado dessa atuação que começou nos últimos meses tenha reflexo nos próximos números do desmatamento. Ele também prometeu recursos para as agências de fiscalização. "Estamos acabando de executar o orçamento de R$ 270 milhões suplementares para Ibama e ICMBio para trazer mais equipamentos e 739 homens estão em processo de contratação, que atuarão no início do ano que vem para contribuir ao combate dos crimes ambientais."

Desmatamento e a COP-26

João Paulo Capobianco, que foi coordenador do Plano de Prevenção e Controle ao Desmatamento da Amazônia (2003-2008) e é membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, diz que “há um duplo escândalo que deve ser considerado”. “O primeiro é o fato de que a nota divulgada pelo Inpe é do dia 27 de outubro, ou seja, anterior à Conferência do Clima. Trata-se da primeira vez em que o Prodes não foi divulgado antes ou durante a COP. O governo federal foi a Glasgow já ciente da taxa de desmatamento, mas, ainda assim, não a informou para as Nações Unidas. Preferiu falar sobre outra métrica, o Deter, que apontava uma leve redução no desmate", disse.

O especialista vai além: “Outro fator chocante é o aumento em si do desmatamento, que ocorreu apesar de anos de investimento maciço na presença das Forças Armadas na Amazônia. Só comprova aquilo que era sabido por todos que acompanham a pauta ambiental: desmate se combate com planejamento e intervenções em áreas definidas de forma estratégica, e não pelo mero deslocamento de milhares de soldados, sem planejamento interno, para uma área de dimensões continentais. Se não houver uma mudança radical na abordagem, este avanço do desmatamento pode se tornar exponencial.”

Já Mauricio Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil, faz um alerta. "O que a realidade mostra é que o governo Bolsonaro acelerou a rota de destruição da Amazônia. Se não revertermos essa tendência, acabando com o desmatamento e restaurando as áreas já degradadas, a floresta amazônica poderá alcançar um ponto de não reversão e iniciar um processo de degradação acelerado. Se isso acontecer, o Brasil deixará de contar com os serviços ambientais vitais que ela presta, como o armazenamento de carbono e a regulação do regime de chuvas do país", comenta.

Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, lamenta a situação. “O resultado é fruto de um esforço persistente, planejado e contínuo de destruição das políticas de proteção ambiental no regime de Jair Bolsonaro. É o triunfo de um projeto cruel que leva a maior floresta tropical do mundo a desaparecer diante dos nossos olhos e torna o Brasil uma ameaça climática global. Diferentemente da propaganda que o governo e seus aliados no agro e na indústria levaram à COP-26, em Glasgow, o Brasil real é este, da terra arrasada, da violência contra populações tradicionais e do crime organizado agindo sem controle na Amazônia”, disse. 


Após a China, agora Estados Unidos querem impedir carne bovina do Brasil, FSP

 

Após os chineses, agora são os norte-americanos que querem impedir a entrada de carne bovina brasileira em seu território.

Motivos para barrar a carne do Brasil eles têm, e fortes. Em setembro, os Estados Unidos importaram 49% a mais carne bovina do Brasil do que em igual período do ano passado.

A participação da proteína brasileira nas importações totais norte-americanas subiu para 9,7% até setembro, bem acima dos 5,6% de igual período do ano passado.

Enquanto ArgentinaUruguaiAustrália e México diminuíram a participação nas importações norte-americanas, o Brasil aumentou.

Homem de branco empurra carcaças de boi presas em gancho, vistos por trás de vidro
Funcionário de frigorífico acompanha pesagem da carne em Xapuri, no Acre - Lalo de Almeida-27.nov.2019/Folhapress

O motivo alegado pela NCBA, a poderosa federação dos produtores norte-americanos, para impedir a entrada de carne brasileira, no entanto, é a falta de compromisso do Brasil em comunicar rapidamente problemas sanitários à OIE (Organização Mundial de Saúde Animal).

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Eles citam os dois casos atípicos de vaca louca que ocorreram em Minas Gerais e em Mato Grosso.

Algumas associações querem impedir a importação do produto "in natura". Outras querem um bloqueio de todas as carnes.

Esta semana está sendo um período de avaliações desse setor pelo mundo. Foram divulgados relatórios do Usda (Departamento de Agricultura dos EUA) e do Rabobank, e o Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) promoveu discussões com participação do Ministério da Agricultura, da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).

As avaliações são de que 2022 poderá ser um período mais normal do que foi este ano, deteriorado pela pandemia, trava chinesa nas importações e redução na oferta de animais para abate.

O cenário para os produtores, porém, será de custos mais elevados no próximo ano e de necessidade de melhor gestão. Para os consumidores, as notícias também não são boas. Os preços podem estabilizar, mas não voltam aos patamares de há dois anos, quando eram menores.

Para Ronaldo Carneiro Teixeira, coordenador-geral de planejamento e avaliação zoossanitária do Ministério da Agricultura, o rebanho será maior, mas terá um crescimento lento. Tecnologia no manejo, genética melhor, cuidados na alimentação e melhorias nas pastagens vão provocar esse crescimento.

Angela Lordão, gerente de pecuária do IBGE, acrescenta que a oferta ainda será reduzida nos próximos meses, mas que a retenção de matrizes feita pelos pecuaristas deverá melhorar a oferta. O próximo ano será um período de mais bezerros, devido a essa retenção de fêmeas.

Para Rafael Ribeiro de Lima Filho, assessor técnico da CNA, o mercado interno de carne bovina ainda perde competitividade no próximo ano, em relação às demais carnes, devido aos preços elevados. A necessidade de importações da China, porém, deverá garantir mercado para o produto do Brasil.

Sergio de Zen, diretor da Conab, afirma que a redução dos preços internacionais, principalmente devido à interrupção de compras pela China no Brasil nestes meses, deu fôlego a outros países para entrar nesse mercado.

Embora os custos vão aumentar, ele acredita que todos os setores agropecuários terão margens no próximo ano, embora mais acomodadas.

Lima Filho, da CNA, afirma que a grande safra de grãos esperada é parte da solução para a pecuária, mas outros insumos como fertilizantes, suplementos alimentares e energia vão pesar nos gastos dos produtores.

Além disso, câmbio, clima e demanda mundial são fatores a serem considerados nesse mercado, afirma o representante da CNA.

Na avaliação de De Zen, o consumidor brasileiro está consumindo menos carne bovina, mas com mais qualidade. Essa qualidade, segundo ele, vem de dentro da porteira, e não dos frigoríficos.