sexta-feira, 20 de julho de 2018

Luiz Inácio Lula da Silva: Afaste de mim este cale-se, FSP

Estou preso há mais de cem dias. Lá fora o desemprego aumenta, mais pais e mães não têm como sustentar suas famílias, e uma política absurda de preço dos combustíveis causou uma greve de caminhoneiros que desabasteceu as cidades brasileiras. Aumenta o número de pessoas queimadas ao cozinhar com álcool devido ao preço alto do gás de cozinha para as famílias pobres. A pobreza cresce, e as perspectivas econômicas do país pioram a cada dia.
Lula sentado de camisa azul diante de painel vermelho
Lula em imagem de janeiro de 2018, durante evento da CUT em São Paulo - Nelson Almeida/AFP
Crianças brasileiras são presas separadas de suas famílias nos EUA, enquanto nosso governo se humilha para o vice-presidente americano. A Embraer, empresa de alta tecnologia construída ao longo de décadas, é vendida por um valor tão baixo que espanta até o mercado. 

Um governo ilegítimo corre nos seus últimos meses para liquidar o máximo possível do patrimônio e soberania nacional que conseguir —reservas do pré-sal, gasodutos, distribuidoras de energia, petroquímica—, além de abrir a Amazônia para tropas estrangeiras. Enquanto a fome volta, a vacinação de crianças cai, parte do Judiciário luta para manter seu auxílio-moradia e, quem sabe, ganhar um aumento salarial.

Semana passada, a juíza Carolina Lebbos decidiu que não posso dar entrevistas ou gravar vídeos como pré-candidato do Partido dos Trabalhadores, o maior deste país, que me indicou para ser seu candidato à Presidência. Parece que não bastou me prender. Querem me calar.

Aqueles que não querem que eu fale, o que vocês temem que eu diga? O que está acontecendo hoje com o povo? Não querem que eu discuta soluções para este país? Depois de anos me caluniando, não querem que eu tenha o direito de falar em minha defesa?
É para isso que vocês, os poderosos sem votos e sem ideias, derrubaram uma presidente eleita, humilharam o país internacionalmente e me prenderam com uma condenação sem provas, em uma sentença que me envia para a prisão por "atos indeterminados", após quatro anos de investigação contra mim e minha família? Fizeram tudo isso porque têm medo de eu dar entrevistas?

Lembro-me da presidente do Supremo Tribunal Federal que dizia "cala boca já morreu". Lembro-me do Grupo Globo, que não está preocupado com esse impedimento à liberdade de imprensa —ao contrário, o comemora.

Juristas, ex-chefes de Estado de vários países do mundo e até adversários políticos reconhecem o absurdo do processo que me condenou. Eu posso estar fisicamente em uma cela, mas são os que me condenaram que estão presos à mentira que armaram. Interesses poderosos querem transformar essa situação absurda em um fato político consumado, me impedindo de disputar as eleições, contra a recomendação do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas.

Eu já perdi três disputas presidenciais —em 1989, 1994 e 1998— e sempre respeitei os resultados, me preparando para a próxima eleição.
 
Eu sou candidato porque não cometi nenhum crime. Desafio os que me acusam a mostrar provas do que foi que eu fiz para estar nesta cela. Por que falam em "atos de ofício indeterminados" no lugar de apontar o que eu fiz de errado? Por que falam em apartamento "atribuído" em vez de apresentar provas de propriedade do apartamento de Guarujá, que era de uma empresa, dado como garantia bancária? Vão impedir o curso da democracia no Brasil com absurdos como esse?
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Falo isso com a mesma seriedade com que disse para Michel Temer que ele não deveria embarcar em uma aventura para derrubar a presidente Dilma Rousseff, que ele iria se arrepender disso. Os maiores interessados em que eu dispute as eleições deveriam ser aqueles que não querem que eu seja presidente.

Querem me derrotar? Façam isso de forma limpa, nas urnas. Discutam propostas para o país e tenham responsabilidade, ainda mais neste momento em que as elites brasileiras namoram propostas autoritárias de gente que defende a céu aberto assassinato de seres humanos.

Todos sabem que, como presidente, exerci o diálogo. Não busquei um terceiro mandato quando tinha de rejeição só o que Temer tem hoje de aprovação. Trabalhei para que a inclusão social fosse o motor da economia e para que todos os brasileiros tivessem direito real, não só no papel, de comer, estudar e ter moradia.

Querem que as pessoas se esqueçam de que o Brasil já teve dias melhores? Querem impedir que o povo brasileiro —de quem todo o poder emana, segundo a Constituição— possa escolher em quem quer votar nas eleições de 7 de outubro?
 
O que temem? A volta do diálogo, do desenvolvimento, do tempo em que menos teve conflito social neste país? Quando a inclusão dos pobres fez as empresas brasileiras crescerem?

O Brasil precisa restaurar sua democracia e se libertar dos ódios que plantaram para tirar o PT do governo, implantar uma agenda de retirada dos direitos dos trabalhadores e dos aposentados e trazer de volta a exploração desenfreada dos mais pobres. O Brasil precisa se reencontrar consigo mesmo e ser feliz de novo.

Podem me prender. Podem tentar me calar. Mas eu não vou mudar esta minha fé nos brasileiros, na esperança de milhões em um futuro melhor. E eu tenho certeza de que esta fé em nós mesmos contra o complexo de vira-lata é a solução para a crise que vivemos.


Luiz Inácio Lula da Silva
Ex-presidente da República (2003-2010)

O Congresso somos nós, FSP

O problema do mundo não é a fome, mas a interpretação de texto. Não é apenas um diagnóstico provocador, mas também uma constatação desesperadora diante da nítida falta de entendimento que milhões de pessoas passaram a demonstrar à medida que as redes sociais democratizaram a opinião. Falamos mais de política do que de futebol, mas estamos longe de ser um povo politizado. 
O nível da capacidade cognitiva não deveria ser uma surpresa dado os números assustadores sobre a nossa sociedade. Só 8% das pessoas com idade para trabalhar conseguem compreender e se expressar no nível mais alto da escala. Entre os brasileiros que chegaram ao nível superior somente 22% são perfeitamente capazes. Na área da educação, 40% dos profissionais têm nível intermediário de alfabetismo, apenas 16% são proficientes. São dados do Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa. 
Biblioteca e teatro são as atividades culturais menos frequentadas, segundo pesquisa da Rede Nossa São Paulo e do Ibope. Museus também não figuram entre a programação preferida. Quase metade da população não lê e 30% nunca compraram um livro. Por outro lado, os brasileiros aparecem em primeiro lugar nas listas dos usuários que passam mais tempo nas redes sociais. Fica claro que, com tanta informação disponível e tanta disposição, não estamos conectados para estudar ou trabalhar, mas para compartilhar memes. 
Com esses dados é mais fácil entender de onde saíram os congressistas que nos representam e tentar aceitar que a mudança almejada a partir da eleição não acontecerá. O Congresso somos nós, e infelizmente somos um povo iletrado, ignorante, que achou graça, mas acabou refém da política Tiririca, do “pior do que está não fica”. É só olhar as discussões políticas nas redes, os argumentos do eleitorado sobre suas escolhas, o nível de estupidez, para entender que pode piorar e muito.


Mariliz Pereira Jorge
Jornalista e roteirista de TV.