Mesmo com o tarifaço promovido pelos Estados Unidos, o Brasil segue colhendo números positivos na balança comercial. No primeiro semestre deste ano, as exportações alcançaram um patamar recorde. Entre janeiro e junho, as vendas totais brasileiras somaram US$ 184,8 bilhões, a maior cifra para o período, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).
O grande motor da balança comercial tem sido a China, cuja demanda é bastante grande pelas commodities brasileiras, o que tem ajudado a mitigar o impacto das incertezas provocadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nos negócios entre os dois países.
“Mesmo com as exportações caindo para os Estados Unidos, o aumento das vendas para outros países mais do que ajudou a compensar”, diz Júlia Marasca, economista do banco Itaú. “As exportações estão rodando em nível recorde, e quem mais aumentou a participação nesse movimento foi a Ásia, com destaque para a China, que se consolidou, de fato, como nosso principal parceiro.”
Para você

No primeiro semestre, as exportações para a China cresceram 22% em relação ao mesmo período do ano passado e somaram US$ 58,3 bilhões. Por outro lado, os norte-americanos compraram US$ 17,4 bilhões do Brasil, um recuo de 13%.
Com o conflito no Oriente Médio, por exemplo, as vendas de óleos brutos de petróleo brasileiro para os chineses somaram US$ 15,2 bilhões, um aumento na comparação com os primeiros seis meses de 2025 (US$ 9,3 bilhões). Os embarques de soja também avançaram nesse período. Passaram de US$ 18,9 bilhões para US$ 20,2 bilhões.
“Basicamente, há uma conjugação de aumento de preço e aumento de quantidade. Toda vez que há um fato externo marcante, como é o caso do conflito no Oriente Médio, automaticamente as commodities sobem de preço”, diz José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).
Com o desempenho das exportações do primeiro semestre, os chineses responderam por 31,6% das vendas brasileiras para o exterior; e os norte-americanos, por apenas 9,4%, o nível mais baixo já registrado na série histórica do Mdic.
Pesquisador associado do FGV Ibre e sócio da BRCG Consultoria, Livio Ribeiro destaca que, com base na média móvel dos últimos três meses até maio, a exportação em volume cresceu 9% para a China. “E estava crescendo muito mais, estava crescendo a dois dígitos”, diz.
Leia também
Para os Estados Unidos, houve queda de 16%; na União Europeia, o recuo foi de 4,5%; a exportação para a Argentina caiu 17%, segundo o cálculo de Livio. As altas foram registradas nos embarques para o México (7%), para a América Latina (15%) – excluindo a economia mexicana – e para a Ásia (14%) – sem levar em conta os dados da China.
“Tem uma importância grande da China, se olhar para essa métrica. É o país para o qual as exportações mais crescem e é o nosso principal parceiro comercial”, afirma o pesquisador associado do FGV/Ibre. “Mas tem outras histórias acontecendo também.”
Bons números na balança comercial ajudam a tornar as contas externas mais saudáveis de um país. Isso é especialmente importante no caso da economia brasileira, que tem um déficit estrutural nas contas de serviços e de renda.
Ou seja, o País envia dólares ao exterior para pagar serviços importados e para enviar lucros e dividendos de companhias. Um saldo positivo na balança comercial ajuda a compensar essas saídas de recursos e deixa as contas externas do Brasil mais equilibradas.
Saldo da balança comercial revisado para cima
O bom desempenho da balança comercial da primeira metade do ano tem desencadeado revisões para cima na projeção para o saldo comercial do País. Na primeira metade do ano, o superávit foi de US$ 42,3 bilhões — o segundo melhor resultado para o período.
Em sua mais recente revisão, o Mdic passou a prever um resultado positivo de US$ 90 bilhões para este ano – a projeção anterior era de superávit de US$ 72,1 bilhões. Se esse número se concretizar, o Brasil deve ter o segundo maior saldo comercial já registrado. Ficará atrás apenas do desempenho de 2023, quando o superávit comercial foi de quase US$ 99 bilhões.
“A nossa projeção é de que as exportações sigam rodando em patamar recorde ao longo deste ano”, diz Júlia, do Itaú. O banco aumentou a projeção de superávit da balança comercial de US$ 75 bilhões para US$ 80 bilhões. Um dos fatores que motivou essa revisão foi a expectativa de preços maiores para o petróleo.
“No início do ano, a nossa projeção era de um preço do petróleo de US$ 65 por barril ao fim de 2026. Agora, vemos um preço mais alto do que antes do conflito. Hoje, a nossa projeção é de um petróleo a US$ 80. Isso explica esse saldo comercial mais alto do que o projetado antes”, afirma a economista do Itaú.
Expectativa de baixo impacto com novo tarifaço
Nesta quarta-feira, 15, termina o prazo para a decisão dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros, apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), como forma de compensar os “atos, políticas e práticas incoerentes” do País que “oneram ou restringem o comércio” americano.



