quinta-feira, 14 de maio de 2026

De cofres cheios ao rombo bilionário: Ricardo Nunes explode dívida de SP para R$ 51,2 bi, Forum

 Por: Diego Feijó de Abreu

Publicado: 08/05/2026 - às 11h14| 6 min de leitura
Ricardo Nunes, Tarcísio e Jair Bolsonaro em ato de campanha em 2024
- Ricardo Nunes, Tarcísio e Jair Bolsonaro em ato de campanha em 2024 (Julio Costa Barros / Fórum)
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APrefeitura de São Paulo, sob Ricardo Nunes (MDB), saiu de um saldo positivo de R$ 9,9 bilhões frente às dívidas em 2022 para uma projeção de dívida líquida de R$ 51,2 bilhões em 2027. A virada aparece na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, enviada pelo Executivo à Câmara Municipal, e marca uma escalada acelerada do endividamento da maior cidade do país.

Os dados da série histórica foram publicados pela Folha de S.Paulo com base em relatórios da Secretaria Municipal da Fazenda. Segundo o levantamento, a capital tinha R$ 9,9 bilhões a mais em recursos financeiros do que em obrigações consideradas no cálculo da dívida em 2022. Em 2023, esse saldo positivo ainda era de R$ 3,5 bilhões, em valores corrigidos pelo IPCA de março de 2026.

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O contraste com o discurso eleitoral de Nunes é direto. Em trecho do plano de governo, o prefeito citou “austeridade e responsabilidade fiscal” como alicerce da gestão, destacou a renegociação da dívida com a União por meio do Campo de Marte e afirmou que a cidade havia reduzido uma despesa mensal de R$ 280 milhões com o governo federal.

Plano de Governo Nunes

A curva mudou a partir de 2024, ano da reeleição de Ricardo Nunes. A Prefeitura passou a dever R$ 14 bilhões, depois subiu para R$ 20,1 bilhões em 2025 e tem previsão de saltar para R$ 43,2 bilhões em 2026. Para 2027, a projeção é de R$ 51,2 bilhões.

Infográfico da Revista Fórum mostra Ricardo Nunes e a evolução da dívida líquida da Prefeitura de São Paulo, que sai de saldo positivo em 2022 e 2023 para R$ 51,2 bilhões em 2027 e R$ 72,3 bilhões em 2029, segundo a LDO 2027.

Ricardo Nunes projeta dívida recorde na LDO 2027

Anexo de Metas Fiscais da LDO 2027 confirma a continuidade da alta. O documento oficial projeta dívida consolidada líquida de R$ 51,227 bilhões em 2027, R$ 63,940 bilhões em 2028 e R$ 72,263 bilhões em 2029.

A dívida consolidada líquida mede o estoque de endividamento depois do abatimento de disponibilidades de caixa e haveres financeiros. Por isso, a mudança da série é relevante: São Paulo saiu de uma situação em que tinha mais recursos financeiros do que obrigações nesse cálculo para uma projeção superior a R$ 50 bilhões no orçamento de 2027.

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Em relação ao valor realizado em 2025 no anexo oficial, de R$ 19,752 bilhões, a projeção para 2027 representa aumento de R$ 31,474 bilhões. Para 2029, a diferença chega a R$ 52,511 bilhões.

Campo de Marte deu alívio, mas dívida voltou a subir

A virada ocorre depois do acordo do Campo de Marte, concluído em 2022. A negociação reduziu em R$ 23,9 bilhões a dívida do município com a União e, segundo a própria Prefeitura, liberou cerca de R$ 3 bilhões por ano no orçamento municipal.

O efeito apareceu nos números de 2022 e 2023, quando a cidade registrou saldo positivo frente às obrigações consideradas no cálculo da dívida. A partir de 2024, porém, a curva voltou a subir e ganhou força nas projeções seguintes.

Projeto de Lei Executivo nº 299/2026, que trata da LDO 2027, estabelece as diretrizes para a elaboração do orçamento do próximo ano e incorpora metas de receita, despesa, resultado fiscal e dívida pública.

Déficit e empréstimos pressionam a Prefeitura de São Paulo

A alta da dívida vem acompanhada de déficits bilionários. No anexo fiscal, o resultado primário sem o regime próprio de previdência aparece negativo em R$ 8,259 bilhões para 2027. O resultado nominal, indicador ligado à variação da dívida líquida, é negativo em R$ 10,490 bilhões no mesmo ano.

Para 2028, a projeção de resultado nominal negativo é de R$ 12,713 bilhões. Para 2029, o valor previsto é de R$ 8,323 bilhões.

As operações de crédito também entram no centro da conta. Em comunicado oficial sobre o PLDO 2027, a Prefeitura informa receita total de R$ 138,6 bilhões para 2027, com R$ 5,9 bilhões em operações de crédito.

Empréstimos equivalem a quase metade dos investimentos

A própria gestão informa que os investimentos totais previstos para 2027 são de R$ 12,8 bilhões. O volume estimado em operações de crédito, de R$ 5,9 bilhões, equivale a quase metade desse montante.

Segundo a administração municipal, os principais financiamentos ativos somam R$ 6,2 bilhões. A maior fatia é a eletrificação da frota de ônibus, com R$ 2,7 bilhões. Programas habitacionais aparecem em seguida, com R$ 1,2 bilhão.

A lista inclui ainda R$ 700 milhões para o Avança Saúde, R$ 600 milhões para o Asfalto Novo, R$ 400 milhões para modernização administrativa, R$ 400 milhões para o corredor Aricanduva e R$ 200 milhões para drenagem e saneamento.

Dívida cresce enquanto caixa encolhe

Outro ponto sensível da LDO é a redução da disponibilidade de caixa bruta. O anexo fiscal estima R$ 18,860 bilhões em 2027, R$ 7,524 bilhões em 2028 e R$ 7,071 bilhões em 2029.

O contraste é direto: enquanto a dívida líquida projetada sobe de R$ 51,2 bilhões para R$ 72,3 bilhões entre 2027 e 2029, a disponibilidade de caixa bruta cai no mesmo período.

A dívida líquida projetada para 2027 equivale a 45,33% da Receita Corrente Líquida. Em 2029, a proporção prevista sobe para 57%. O indicador mostra o peso crescente do estoque de dívida sobre a capacidade fiscal do município.

Gestão Nunes nega desequilíbrio

A Prefeitura afirma que o aumento da dívida reflete investimentos financiados por crédito em áreas como mobilidade, habitação, saúde e infraestrutura. A gestão também atribui parte da pressão ao aumento de precatórios, que teriam passado de cerca de R$ 2 bilhões por ano para R$ 8 bilhões entre 2022 e 2025.

A administração diz que não há desequilíbrio nas contas. O próprio texto oficial do PLDO afirma que o acordo de 2022 com a União ajudou a sustentar o equilíbrio fiscal e ampliou a capacidade de investimento da cidade.

Os números enviados à Câmara, porém, mostram uma trajetória de endividamento crescente. A dívida líquida projetada salta para R$ 51,2 bilhões em 2027 e segue em alta nas estimativas oficiais até R$ 72,3 bilhões em 2029.

Câmara vai discutir rota da dívida de Ricardo Nunes

A LDO 2027 será discutida em audiências públicas e precisa ser votada pela Câmara Municipal antes do recesso parlamentar. Depois, a peça servirá de base para a Lei Orçamentária Anual, que define despesas e prioridades da Prefeitura de São Paulo.

O debate fiscal ocorre em um momento de pressão sobre serviços públicos, infraestrutura urbana, mobilidade, habitação e resposta a enchentes. A rota apresentada pela gestão Ricardo Nunes indica que a capital chegará a 2027 com dívida líquida acima de R$ 51 bilhões e com nova alta prevista para os dois anos seguintes.

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Livro analisa guinada da cobertura política da Globo a partir dos governos do PT, FSP

 Mauricio Stycer

São Paulo

Disposto a contar a história do maior veículo de comunicação do país, que completou 60 anos em 2025, o jornalista Ernesto Rodrigues produziu ao longo de sete anos uma gigantesca reportagem, que resultou em três volumes, cerca de 2.400 páginas, intitulado "A Globo".

O último livro, que está sendo lançado este mês, compreende o período de 1999 a 2025 e se intitula "Metamorfose". O jornalista se baseia em cerca de 400 depoimentos dados por funcionários ao projeto Memória Globo e em uma centena de entrevistas com protagonistas da história, incluindo os três filhos de Roberto Marinho.

Luiz Inácio Lula da Silva durante entrevista a William Bonner no Jornal Nacional, após ser eleito em 2002 - Bob Paulino/Divulgação

Na descrição de episódios polêmicos, que afetaram o país, como as coberturas do Mensalão e da Lava Jato, Rodrigues deixa claro que adota um ponto de vista crítico, bem distante da visão oficial da empresa sobre o seu papel. O volume também passa longe de ser chapa-branca ao analisar diferentes e ferozes disputas internas de poder, bem como ao explicar as crises no campo dos negócios, incluindo o "default", ou moratória, em 2002.

O período analisado compreende a promoção de Marluce Dias da Silva à direção-geral da empresa. Ela foi contratada pelos irmãos Marinho para "desmontar a estrutura de poder criada e mantida por Boni ao longo de um quarto de século". Trata-se, possivelmente, da análise mais ampla já feita sobre esse momento da empresa.

A resistência foi tanta, incluindo episódios de machismo explícito, que Silva disse a um executivo, duas décadas depois de se afastar da empresa para tratamento de saúde, que seu câncer "foi barato" perto do que enfrentou.

Os conflitos internos causados pelos investimentos em transmissões esportivas são um tema importante da obra. "Com rara exceção, a Globo jamais lideraria o noticiário sobre corrupção na CBF ou na Fifa", escreve Rodrigues. "Uma linha editorial discreta, quando não omissa, sempre reativa e nunca investigativa".

A sucessão de Evandro Carlos de Andrade, diretor de jornalismo entre 1996 e 2001, é outro marco importante. Já na cobertura do 11 de Setembro, menos de três meses depois da morte de Andrade, se estabelece um conflito entre Carlos Henrique Schroder e Ali Kamel, de um lado, e Amauri Soares, de outro.

Irritado com a maneira como a cobertura do 11 de Setembro foi descrita no livro "Jornal Nacional, a Notícia Faz História", publicado em 2004, Soares disse ao então diretor-geral, Octavio Florisbal, que cogitava entrar na Justiça contra os responsáveis pela edição.

Rodrigues resgata a história de que, no período que antecedeu as eleições de 2002, Antônio Palocci foi o intermediário de uma reaproximação do PT com a Globo. O petista diz que discutiu com João Roberto Marinho, em várias conversas, o texto final da Carta aos Brasileiros, divulgada pelo partido em 22 de junho de 2002. Marinho não nega.

Ao longo de centenas de páginas, Rodrigues descreve o que ele chama de uma guinada na cobertura política da Globo a partir da chegada de Lula e do PT à Presidência.

"Não seria de uma hora para outra que a editoria de política da Globo passaria do viés geralmente governista e não raro omisso de suas três primeiras décadas de cobertura do poder para o jornalismo de peito aberto e intransigente que a emissora aos poucos adotaria sob o comando de Ali Kamel, com o aval de João Roberto Marinho durante os governos Lula e Dilma Roussef, deixando para trás a linha editorial inaugurada por Evandro Carlos de Andrade em 1995, considerada por muitos de dentro e de fora da Globo como a mais profissional, plural e autônoma da história da emissora, e vigente até a sua morte em 2001", ele escreve.

A última vez que o grupo Globo esteve na oposição havia sido em 1964, no governo de João Goulart. A cobertura do Mensalão, em 2005, indica que houve uma mudança profunda no jornalismo da emissora.

"Pela primeira vez em sua história desde 1965, a redação seria autorizada e até incentivada pela direção a usar toda a sua incomparável estrutura para cobrir o governo federal de forma ampla, geral e irrestrita. A ordem, implícita, era apontar o canhão da Globo para a Praça dos Três Poderes e atirar à vontade, sem poréns, veja-bens, não-podes, entretantos, não-vales ou esses-não."

O autor recorre a dois estudos acadêmicos que mostram a intensidade e o volume inéditos de reportagens sobre os dois principais escândalos que envolveram os governos petistas, o Mensalão e a Lava Jato, incluindo o processo de impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula.

Rodrigues observa que, mesmo nos casos em que não houve reparos técnicos à cobertura jornalística, o trabalho da Globo "ficaria sob suspeita, principalmente para quem tinha na memória o comportamento discreto, quando não omisso, da editoria de política da emissora antes da chegada do PT ao poder, nos governos Sarney, Itamar e FHC".

O papel da Globo foi definido como o de "grande parceira" da Lava Jato pela jornalista Silvia Faria, na conversa com um dos procuradores de Curitiba, reconstituída em 2018 não por ele, mas por ela, à época na condição de diretora de jornalismo da emissora, lembra Rodrigues.

O autor registra que a anulação quase total pelo Supremo Tribunal Federal do processo da Lava Jato expôs as ilegalidades e excessos cometidos pelo então juiz Sergio Moro e pelos procuradores da 13ª Vara Federal de Curitiba. Mas, escreve, "pouca ou nenhuma importância [foi] dada para esses desvios na cobertura da Globo e de quase toda a chamada grande imprensa, à parte a corrupção bilionária que esses veículos revelaram ao longo da mais longa, volumosa e controversa cobertura da história da imprensa brasileira".

A "pauta-campanha", nas palavras do autor, não levou a uma autocrítica oficial. "No fundo, foram todos iludidos, seja os jornais, seja a população em geral. Foi um abuso de poder", diz Roberto Irineu Marinho. O irmão João Roberto não fazia "nenhum reparo" à cobertura da Globo.

"Se isso não é um tema para virar uma editoria diária, eu não sei qual será o tema mais relevante para o país que isso. [...] Se eles cometeram pecados de forma processual, isso foi lá nas internas deles, mas os fatos eram os fatos."

"O que houve foi uma empolgação. Tomou conta da imprensa do Brasil", diz José Roberto Marinho. "Não me lembro de nenhum erro grave", diz Ali Kamel. "Sempre procurei ser o 'senhor cautela' e tudo ia ao ar amarradinho. É muito difícil olhar para trás e querer fazer diferente quando se faz jornalismo ao vivo e a reação tem que ser imediata."

A Globo (Metamorfose): 1999 - 2025