e você tenta, como eu, manter uma postura mais crítica e menos oba-oba diante do avanço da IA sobre todas as esferas da vida, é provável que já tenha sido xingada(o) de ludita.
A IA é o sabor do momento, mas faz tempo que a mera relutância em aderir a algum item do consumismo tecnológico –achar melhor ler no papel do que em telas, por exemplo– tem bastado para a pessoa ser rotulada de ludita.
A palavra é a tradução do inglês "luddite", termo surgido em 1811 como nome autodeclarado de uma organização de operários do norte da Inglaterra que, por cinco anos, se dedicou ao boicote e ao incêndio de instalações industriais.
Data do início dos anos 1960 o uso de "luddite" em sentido metafórico, termo depreciativo para qualquer um que resista, ainda que só por rabugice, a uma engenhoca qualquer que todo mundo de repente considere imprescindível. "Ainda não usa escova de dente elétrica? Que ludita!"
Charlie Chaplin em "Tempos Modernos", de 1936 - Reprodução
Os luditas propriamente ditos foram duramente reprimidos, primeiro pela polícia e depois pelo exército. Muitos morreram. Não eram o único grupo de operários a quebrar máquinas naquela Europa do início da Revolução Industrial em que máquinas aviltavam mão de obra em ritmo, bem, industrial, e em que o desemprego significava miséria e morte.
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Em todo caso, esse foi o nome que acabou ficando. Ludita. (Não convém dar bola às formas "luddita" e "luddista", esta considerada preferencial pelo Houaiss. Quase ninguém as usa.)
"Luddite" saiu, segundo a tese etimológica mais aceita, do nome de Ned Ludd, operário de Leicestershire meio lendário que três décadas antes, num surto de cólera, teria quebrado sozinho duas máquinas.
Isso faz de ludita uma palavra derivada de antropônimo, de nome de gente, como silhueta (de Étienne de Silhouette), linchamento (de William Lynch), boicote (de Charles Boycott) e baderna (de Maria Baderna).
No senso comum, os luditas passaram à história como uns trogloditas, selvagens atrasados ou tolos que tentaram se opor à inexorabilidade do progresso humano e foram atropelados.
Charles Chaplin em cena de "Tempos Modernos" - Reprodução
Eric Hobsbawm e outros historiadores apontaram neles algo bem diferente: a sabedoria política de negociar poder para os trabalhadores com a arma disponível, impondo prejuízos aos patrões, num momento em que os sindicatos estavam na ilegalidade.
Os luditas não tinham nada contra as máquinas em si, o "progresso", a "tecnologia". O problema deles era com os donos das máquinas. Com o modo como eles as usavam para esmagar gente, para tornar gente prescindível.
Ah, mas não é da essência das máquinas tornar gente prescindível? Digamos que seja. Isso quer dizer que elas não podem ser jogadas no mundo sem leis, sem regulação. Porque gente não é prescindível, e não se pode esperar que morra sem lutar. Dessa tensão tiravam os luditas sua beleza trágica.
Sim, sabemos que as máquinas nunca mais foram embora do mundo. Mas toda uma nova teia de relações de trabalho precisou ser tecida em torno delas, com leis que foram domando, em parte, sua voracidade inicial. Está parecendo que com a IA também vai ser assim?
Os jornais andam cheios de manchetes como estas: "Em queda no mundo, consumo de álcool entre jovens prevalece no Brasil"; "Família influencia uso de álcool por adolescentes"; "Adolescentes que bebem têm livre acesso ao álcool no país"; muitas mais. Por álcool, leia-se cerveja, a bebida a que, pela monstruosa oferta e pelo alcance de seus bolsos, os adolescentes têm mais acesso. Não satisfeitos, os fabricantes se garantem para o futuro. Segundo li, estão infiltrando toques de conteúdo em seus comerciais a fim de tornar a cerveja atraente para a turma dos sub-10, para garanti-los como clientes quando tiverem idade de pedi-la no botequim —ou seja, muito antes dos 18.
O Brasil tem um conceito próprio sobre bebidas alcoólicas. Elas incluem tudo que não seja cerveja. É proibido anunciar uísques, vodcas, cachaças, conhaques e licores em qualquer veículo, mas é como se cerveja não contivesse álcool. Sua propaganda toma as telas e ruas 24 horas do dia, sendo que, na Copa do Mundo, no Carnaval e no Réveillon, ela se torna a razão de viver do cidadão —não bebê-la equivale a ser um monge careta em retiro espiritual.
"Agora você investe no seu clube assim", diz Ronaldo Fenômeno num cínico comercial, e abre uma lata de cerveja. Em cena, seus espectadores, perplexos pela complexidade da proposta, perguntam: "Assim???", e, incrédulos, abrem suas latas. Fenômeno, eufórico, confirma: "Assim!". Abre mais latas e explica: "Peça a cerveja ‘xis’ pelo delivery ‘ípsilon’ e parte do valor vai para o seu time!". E, contrafeito, conclui: "Beba com moderação".
Embora não beba há 38 anos —e, quando bebia, adepto de uísque e vodca, só tomava cerveja para fins urinários—, pensei em aderir ao projeto para ajudar o Flamengo. Mas fui checar em que pé estava o investimento em cada clube e descobri que o Flamengo, disparado em primeiro lugar, já está em mais do dobro que o segundo colocado. Posso me dispensar da recaída.
Daí que, com a sabedoria dos sóbrios, eu recomendaria aos jovens: "Invistam com moderação".
Publicado: 08/05/2026 - às 11h14| 6 min de leitura
- Ricardo Nunes, Tarcísio e Jair Bolsonaro em ato de campanha em 2024 (Julio Costa Barros / Fórum)
07:20
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APrefeitura de São Paulo, sob Ricardo Nunes (MDB), saiu de um saldo positivo de R$ 9,9 bilhões frente às dívidas em 2022 para uma projeção de dívida líquida de R$ 51,2 bilhões em 2027. A virada aparece na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, enviada pelo Executivo à Câmara Municipal, e marca uma escalada acelerada do endividamento da maior cidade do país.
Os dados da série histórica foram publicados pela Folha de S.Paulo com base em relatórios da Secretaria Municipal da Fazenda. Segundo o levantamento, a capital tinha R$ 9,9 bilhões a mais em recursos financeiros do que em obrigações consideradas no cálculo da dívida em 2022. Em 2023, esse saldo positivo ainda era de R$ 3,5 bilhões, em valores corrigidos pelo IPCA de março de 2026.
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O contraste com o discurso eleitoral de Nunes é direto. Em trecho do plano de governo, o prefeito citou “austeridade e responsabilidade fiscal” como alicerce da gestão, destacou a renegociação da dívida com a União por meio do Campo de Marte e afirmou que a cidade havia reduzido uma despesa mensal de R$ 280 milhões com o governo federal.
A curva mudou a partir de 2024, ano da reeleição de Ricardo Nunes. A Prefeitura passou a dever R$ 14 bilhões, depois subiu para R$ 20,1 bilhões em 2025 e tem previsão de saltar para R$ 43,2 bilhões em 2026. Para 2027, a projeção é de R$ 51,2 bilhões.
Ricardo Nunes projeta dívida recorde na LDO 2027
O Anexo de Metas Fiscais da LDO 2027 confirma a continuidade da alta. O documento oficial projeta dívida consolidada líquida de R$ 51,227 bilhões em 2027, R$ 63,940 bilhões em 2028 e R$ 72,263 bilhões em 2029.
A dívida consolidada líquida mede o estoque de endividamento depois do abatimento de disponibilidades de caixa e haveres financeiros. Por isso, a mudança da série é relevante: São Paulo saiu de uma situação em que tinha mais recursos financeiros do que obrigações nesse cálculo para uma projeção superior a R$ 50 bilhões no orçamento de 2027.
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Em relação ao valor realizado em 2025 no anexo oficial, de R$ 19,752 bilhões, a projeção para 2027 representa aumento de R$ 31,474 bilhões. Para 2029, a diferença chega a R$ 52,511 bilhões.
Campo de Marte deu alívio, mas dívida voltou a subir
A virada ocorre depois do acordo do Campo de Marte, concluído em 2022. A negociação reduziu em R$ 23,9 bilhões a dívida do município com a União e, segundo a própria Prefeitura, liberou cerca de R$ 3 bilhões por ano no orçamento municipal.
O efeito apareceu nos números de 2022 e 2023, quando a cidade registrou saldo positivo frente às obrigações consideradas no cálculo da dívida. A partir de 2024, porém, a curva voltou a subir e ganhou força nas projeções seguintes.
O Projeto de Lei Executivo nº 299/2026, que trata da LDO 2027, estabelece as diretrizes para a elaboração do orçamento do próximo ano e incorpora metas de receita, despesa, resultado fiscal e dívida pública.
Déficit e empréstimos pressionam a Prefeitura de São Paulo
A alta da dívida vem acompanhada de déficits bilionários. No anexo fiscal, o resultado primário sem o regime próprio de previdência aparece negativo em R$ 8,259 bilhões para 2027. O resultado nominal, indicador ligado à variação da dívida líquida, é negativo em R$ 10,490 bilhões no mesmo ano.
Para 2028, a projeção de resultado nominal negativo é de R$ 12,713 bilhões. Para 2029, o valor previsto é de R$ 8,323 bilhões.
As operações de crédito também entram no centro da conta. Em comunicado oficial sobre o PLDO 2027, a Prefeitura informa receita total de R$ 138,6 bilhões para 2027, com R$ 5,9 bilhões em operações de crédito.
Empréstimos equivalem a quase metade dos investimentos
A própria gestão informa que os investimentos totais previstos para 2027 são de R$ 12,8 bilhões. O volume estimado em operações de crédito, de R$ 5,9 bilhões, equivale a quase metade desse montante.
Segundo a administração municipal, os principais financiamentos ativos somam R$ 6,2 bilhões. A maior fatia é a eletrificação da frota de ônibus, com R$ 2,7 bilhões. Programas habitacionais aparecem em seguida, com R$ 1,2 bilhão.
A lista inclui ainda R$ 700 milhões para o Avança Saúde, R$ 600 milhões para o Asfalto Novo, R$ 400 milhões para modernização administrativa, R$ 400 milhões para o corredor Aricanduva e R$ 200 milhões para drenagem e saneamento.
Dívida cresce enquanto caixa encolhe
Outro ponto sensível da LDO é a redução da disponibilidade de caixa bruta. O anexo fiscal estima R$ 18,860 bilhões em 2027, R$ 7,524 bilhões em 2028 e R$ 7,071 bilhões em 2029.
O contraste é direto: enquanto a dívida líquida projetada sobe de R$ 51,2 bilhões para R$ 72,3 bilhões entre 2027 e 2029, a disponibilidade de caixa bruta cai no mesmo período.
A dívida líquida projetada para 2027 equivale a 45,33% da Receita Corrente Líquida. Em 2029, a proporção prevista sobe para 57%. O indicador mostra o peso crescente do estoque de dívida sobre a capacidade fiscal do município.
Gestão Nunes nega desequilíbrio
A Prefeitura afirma que o aumento da dívida reflete investimentos financiados por crédito em áreas como mobilidade, habitação, saúde e infraestrutura. A gestão também atribui parte da pressão ao aumento de precatórios, que teriam passado de cerca de R$ 2 bilhões por ano para R$ 8 bilhões entre 2022 e 2025.
A administração diz que não há desequilíbrio nas contas. O próprio texto oficial do PLDO afirma que o acordo de 2022 com a União ajudou a sustentar o equilíbrio fiscal e ampliou a capacidade de investimento da cidade.
Os números enviados à Câmara, porém, mostram uma trajetória de endividamento crescente. A dívida líquida projetada salta para R$ 51,2 bilhões em 2027 e segue em alta nas estimativas oficiais até R$ 72,3 bilhões em 2029.
Câmara vai discutir rota da dívida de Ricardo Nunes
A LDO 2027 será discutida em audiências públicas e precisa ser votada pela Câmara Municipal antes do recesso parlamentar. Depois, a peça servirá de base para a Lei Orçamentária Anual, que define despesas e prioridades da Prefeitura de São Paulo.
O debate fiscal ocorre em um momento de pressão sobre serviços públicos, infraestrutura urbana, mobilidade, habitação e resposta a enchentes. A rota apresentada pela gestão Ricardo Nunes indica que a capital chegará a 2027 com dívida líquida acima de R$ 51 bilhões e com nova alta prevista para os dois anos seguintes.