quinta-feira, 16 de abril de 2026

Vorcaro e Costa, ex-BRB, devem fazer concurso de quem dá mais na delação de outros bandidos, VTF FSP

 A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP) ainda quer que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva arrume dinheiro para tapar o rombo da roubança do BRB, o banco estatal de Brasília. Como o banco não tem publicado balanços, não se sabe o tamanho do buraco —o Banco Central sabe. Se não interveio na coisa ou não liquidou o banco, deve imaginar que o buraco ainda possa ser coberto.

Leão diz que arrumou dinheiro de uma gestora de fundos, uma solução que parece espantosamente criativa, ao menos pelo pouco que se sabe dela, mas não o quanto realista ou suficiente, para dizer o menos. Não deve bastar, pois o banco adia sine die o balanço e pede dinheiro a Lula. Seria um escândalo que recebesse, ainda mais agora que se sabe mais sobre o propinaço do BRB. O governo Lula tem dito nas internas e em público que não vai fazer parte da operação tapa-buraco, nem por meio de bancos federais.

Homem de terno escuro e camisa branca segura microfone com a mão direita enquanto gesticula com a esquerda. Fundo com estrutura metálica e iluminação em tons de azul e roxo.
Paulo Henrique Costa, enquanto era presidente do BRB, em evento de tecnologia no Rio de Janeiro - Ricardo Moraes - 29.abr.25/Reuters

O BRB era dirigido por pelo menos um corrupto. Fazia um negócio temerário, mesmo para quem não entendesse nada de banco, como pode alegar o governo do Distrito Federal, na época do rolo comandado por Ibaneis Rocha (MDB).

Não entendendo, que perguntasse na praça a quem entendesse. Que contratasse consultoria externa, como se fez, depois do leite podre derramado, depois que o Banco Central, a Polícia Federal e o público souberam da nojeira. Logo, o problema é do governo do Distrito Federal. Se quer ter um banco estatal, sempre uma temeridade, que saiba cuidar dele, que saiba manter o balanço em ordem ou pague a conta de erros ou imundícies. De outro modo, fim. Se por mais não fosse, cobrir perdas, ainda mais de bandidagem, é um incentivo para pilhagem futura, estatal ou privada. Chega.

Importante agora é pegar a bandidagem toda. A PF diz que Paulo Henrique Costa, o presidente do BRB no rolo, levou ou levaria umas dezenas de MILHÕES de reais. Daniel Vorcaro alugou oficialmente, com declaração, um lobby de alta gente da República, por algumas centenas de milhões de reais. Mas o mestre do Master sumiu com dezenas de BILHÕES de reais. Quem mais levou?

A PF mostrou que Costa negociava propina com Vorcaro, chefe da máfia que tinha um banco, o Master. Parte da mumunha estava nas mensagens de celular trocadas pelos amigões, que se falavam como quem trata da conta da linguiça do churrascão.

PUBLICIDADE

Segundo a PF, Vorcaro daria a Costa cerca de R$ 146 milhões em imóveis. O pagamento era pelo serviço de esconder a carcaça cadavérica do Master. Engolindo a massa podre, o BRB em tese pagaria os empréstimos que Vorcaro tomou na praça (como CDBs) e nos quais daria (deu) calote, dando sumiço em dezenas de bilhões. Sabe-se que os dinheiros transitaram pelos fundos Reag, a administradora e gestora de fundos de vários tipos de criminosos. Além do mais, o BRB comprava terrenos na Lua, empréstimos que não existiam. O banco era um pretexto para um esquema de pirataria e gangsterismo.

A coisa era tão explícita que é razoável esperar, até no Brasil, um tempo longo de cadeia para Costa. Em decorrência, é também razoável especular que Costa vá delatar. Vorcaro e Costa podem cair em um jogo de quem dá mais na delação, quem entrega mais cabeças. Pelas regras oficiais, é difícil fazer "acareação" de delações premiadas. Mas Vorcaro e Costa vão ter de correr e tomar mais cuidado com o que dizem.

Condomínio de R$ 30 mil, spa e garagem cinematográfica: veja imóveis de luxo do ex-presidente do BRB, FSP

 

São Paulo

A lista de imóveis atribuídos pela operação da Polícia Federal ao ex-presidente do BRB (Banco de Brasília) Paulo Henrique Costa como propina para aprovar compra de carteiras do Banco Master ajuda a entender não só a dimensão do esquema investigado, mas também o tipo de ativo escolhido para substituir transferências diretas de dinheiro: apartamentos de altíssimo padrão, em endereços restritos e com liquidez discreta.

Segundo a investigação, Costa teria recebido seis propriedades: quatro em São Paulo e duas no Distrito Federal, em um arranjo que pode chegar a R$ 146,5 milhões, dos quais cerca de R$ 74,6 milhões já teriam sido pagos. A documentação indica que os bens faziam parte de um "cronograma pessoal" do ex-dirigente, que visitava, validava e acompanhava as aquisições.

Sala de jantar com mesa de madeira clara cercada por cadeiras do mesmo material. Três luminárias pendentes amarelas iluminam a mesa. Ao fundo, parede com revestimento de madeira e eletrodomésticos embutidos. À direita, grande porta de vidro aberta para área externa com plantas e móveis de jardim. Parede à esquerda com acabamento em pedra clara e estrutura metálica decorativa.
Varanda gourmet do condomínio horizontal de luxo Ennius Muniz, localizado no DF, em frente ao Parque Burle Marx - Reprodução/markimoveis

As imagens reunidas pela Folha mostram empreendimentos com características comuns no mercado imobiliário de luxo: metragem elevada, poucos moradores e alto custo de manutenção. Em São Paulo, os empreendimentos ficam concentrados no eixo Itaim Bibi–Vila Olímpia, onde o metro quadrado figura entre os mais valorizados da cidade.

Um dos imóveis apontados pela investigação fica no Arbórea, no Itaim Bibi (zona sul de São Paulo). O condomínio tem apenas 28 apartamentos, um por andar, com metragens de 472 m² a 1.070 m², custando a partir de R$ 26 milhões e com condomínio de R$ 30 mil mensais.

Outro apartamento indicado na investigação como propina fica no Casa Lafer, também no Itaim Bibi, onde as unidades variam de 424 m² a mais de 600 m². A área comum traz uma piscina climatizada com raia de 20 metros, além de sauna úmida e spa. Para comprar um apartamento no local é preciso desembolsar a partir de R$ 22 milhões, de acordo com a Homesphere e a Pilar —imobiliárias que negociam somente imóveis de altíssimo padrão.

O Heritage, também citado na investigação, leva a ideia de luxo ao extremo, com unidades que ultrapassam os 1.000 m² e design assinado pela marca italiana Pininfarina —conhecido pela indústria automotiva por assinar exclusividades como carros da Ferrari. Um apartamento com 570 m², quatro suítes e vaga de garagem cinematográfica para até cinco carros pode custar R$ 50 milhões.

Outro empreendimento citado, o Ennius Muniz, fica em Brasília e acaba de ser entregue aos compradores. O condomínio horizontal foi construído na área nobre da cidade, com vista livre para o parque Burle Max. Com 20 apartamentos de até 572 m², o valor ultrapassa os R$ 5 milhões na unidade menor, de 300 m²—custo elevado para a região.

A investigação aponta outro imóvel no Distrito Federal, que ainda está na planta, no Valle dos Ipês, um condomínio fechado que tem uma reserva natural permanente como vizinha. Localizado a cinco minutos da Ponte JK, o empreendimento terá seis torres, com apartamentos sendo anunciados a partir de R$ 4,3 milhões.

A decisão assinada pelo ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal) diz que, para viabilizar o pagamento e ocultar a titularidade dos imóveis, havia a atuação do advogado Daniel Monteiro, que também foi preso na operação e apontado como arquitto jurídico do Master. Ele teria recebido R$ 86 milhões para participar de todo o esquema do banco de Daniel Vorcaro.

O documento o descreve como "agente-chave da vertente jurídica" do esquema, responsável por formalizar transações entre Master, Tirreno e BRB e por ocultar o beneficiário real das aquisições imobiliárias.

Para isso, segundo os investigadores, Monteiro teria operado uma rede de empresas de fachada e fundos de investimento. As apurações indicam que ele chegou a indicar o próprio cunhado para figurar como diretor das empresas usadas nas compras.

Ainda de acordo com a decisão, sua atuação incluía dar aparência de legalidade às operações, com a elaboração e ajuste de contratos, extratos e outros documentos que, posteriormente, foram considerados inconsistentes ou artificiais pelo Banco Central.

A defesa de Daniel Monteiro informa que ele foi surpreendido, nesta quinta-feira (16), com a decisão de prisão. Ressalta que sua atuação sempre se deu estritamente no âmbito técnico, advogando para o Master, assim como para diversos outros clientes. Diz ainda que Daniel permanece à disposição da Justiça e confia que tudo será esclarecido no curso da investigação.

O advogado Cléber Lopes, que faz a defesa de Costa, afirmou que seu cliente não praticou crime algum e que a prisão realizada foi um exagero por parte da Justiça. "A defesa continua firme na convicção de que o Paulo Henrique não cometeu crime algum", disse Lopes ao deixar o apartamento do ex-presidente do BRB no bairro Noroeste, em Brasília, onde ocorreu a prisão.