segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

GUITA GRIN DEBERT E JORGE FÉLIX A financeirização da velhice, FSP

  EDIÇÃO IMPRESSA

Guita Grin Debert

Professora do Departamento de Antropologia da Unicamp e pesquisadora da Fapesp e do CNPq, é autora de “Reinvenção da Velhice” (Edusp)

Jorge Félix

Doutor em ciências sociais, professor de gerontologia da USP e pesquisador da Fapesp, é autor de “Economia da Longevidade” (ed. 106 Ideias)

tema da velhice invadiu a campanha presidencial da França. Sempre um assunto marginal no debate político —e quase sempre confinado apenas à questão fiscalista da sustentabilidade dos sistemas de Previdência—, o envelhecimento populacional, desta vez, se impôs na agenda eleitoral. O pacto de um silêncio conveniente foi quebrado com uma questão que a pandemia de Covid-19 trouxe à tona: o cuidado de longa duração de idosos.

Essa invasão incômoda para o presidente Emmanuel Macron ocorreu de forma abrupta no fim de janeiro com o lançamento de "Les Fossoyeurs" ("Os coveiros"), do jornalista independente Victor Castanet. O livro-reportagem é resultado de uma investigação sobre um dos mais luxuosos residenciais para idosos (ou Instituições de Longa Permanência para Idosos, Ilpis, como chamamos tecnicamente no Brasil) pertencente à maior empresa europeia do setor e segunda da França, a Orpea, dona de 222 estabelecimentos naquele país.

Castanet denunciou como a Orpea, empresa de capital aberto, pertencente a um "private equity" (fundo de capital privado) e a um fundo de pensão canadense (CPPIB), administra seus residenciais exigindo um alto retorno sobre o investimento e sempre atua alavancada em dívidas (200% sobre o patrimônio) devido à farta distribuição de dividendos, caracterizando assim um processo de financeirização. Castanet relata maus-tratos aos idosos, odor de urina, má alimentação (inclusive com fast food), controle no uso de fraldas, entre outras barbaridades, fruto da demanda elevada de produtividade sobre o trabalho de cuidado.

Nas últimas semanas, o "escândalo das Ehpads" (similar francês de Ilpis) se reveza nas manchetes do Le Monde com a possível guerra na Ucrânia. Macron já mobilizou três ministros para tratarem do caso com receio da repercussão em sua reeleição. O presidente da Orpea caiu depois de um mergulho de 60% no valor das ações em menos de uma semana. Rapidamente, as famílias de idosos clientes da líder do mercado, a Korian, com mais de 303 estabelecimentos na França, também fizeram denúncias semelhantes às do livro de Castanet.

Embora o setor seja regulamentado, as autoridades (inclusive uma comissão no Senado) já falam em negligência de fiscalização e falta de aplicação rigorosa da lei devido a interesses do capital imobiliário. O caso francês ilustra a limitação de se delegar a modelos financeiros um desafio da sociedade superenvelhecida: atender o aumento da demanda por cuidado de pessoas idosas sem a mesma estrutura familiar dos séculos passados —ou seja, sem a disponibilidade sobretudo de mulheres e profissionais cuidadoras em número suficiente. E com limitações também na área filantrópica.

No Brasil, já temos muitas dessas empresas multinacionais que atuam no mesmo modelo financeirizado. Outras estão prospectando o mercado nacional. É esperado que o erro da França sirva de exemplo. Os candidatos a presidente da República devem apresentar, com urgência, seus planos para a criação de uma Política Nacional de Cuidados no Brasil. É preciso regulamentar a atuação do capital financeiro em um setor cada vez mais delicado para as famílias brasileiras.

Consumidor residencial respondeu por 52% do mercado de GD solar em 2021, EPBR

 

A classe residencial foi destaque no avanço da geração distribuída solar em 2021, com 52% do volume adicionado, enquanto a classe comercial foi responsável por 27%, mostra um levantamento da Greener sobre o desempenho da GD no ano passado.

“A permanência do modelo de trabalho remoto, a energia elétrica mais cara e o maior acesso ao financiamento podem ser fatores decisivos na escolha da GD pelos consumidores residenciais nos próximos meses”, diz a consultoria.

Já a queda das atividades comerciais no período de pandemia pode ter puxado para baixo novas instalações nesse segmento. O preço também se mostrou fator decisivo.

A restrição da cadeia produtiva mundial, somada à disparada dos preços do frete e à valorização do dólar, impactaram diretamente os custos dos módulos fotovoltaicos em 2021. 

Preços de sistemas fotovoltaicos tiveram elevação média de 8%. 

A má notícia é que o impacto das restrições da cadeia produtiva mundial de módulos FV sobre os custos pode se estender ao longo da primeira metade de 2022.

“O equilíbrio entre demanda e oferta de materiais e equipamentos a nível mundial, somado à variação do dólar, serão fatores chave para o comportamento de preços”.

Mudanças de ordem fiscal também trazem incertezas quanto aos custos tributários de módulos e inversores a partir do segundo trimestre, sendo importante ponto de atenção para a cadeia, alerta a consultoria. 

A boa é que a expressiva entrada de novos players e a alta competitividade do mercado, segundo a Greener, podem ajudar a atenuar o aumento dos preços ao consumidor final. 

“Apesar da elevação dos preços, os sistemas FV continuam atrativos ao consumidor, sendo a alta tarifa de eletricidade drive impulsionador dos projetos FV em todo o país”, diz o relatório. 

    O setor está otimista. A pesquisa aponta ainda um otimismo do setor em relação aos próximos meses, por conta da aprovação do marco da mini e micro geração distribuída e a perspectiva de elevação média de 21,21% das tarifas de energia para 2022.

    “O Marco Legal da MMGD traz importantes aprimoramentos para o setor, levando maior estabilidade e previsibilidade ao mercado”. 

    A expectativa é que a mudança dos critérios de compensação para os empreendimentos que solicitarem conexão à rede a partir de 2023 acelere o volume de novos contratos em 2022, em especial os modelos de geração remota.

    Sancionada em janeiro, a Lei 14.300/2022 preserva regras atuais até 2045 para os sistemas instalados e para novos clientes que fizerem o pedido de conexão com a rede nos próximos 12 meses. 
    No geral, o país atingiu 807,2 mil instalações fotovoltaicas, segundo a Aneel – um crescimento de 100% em relação a dezembro de 2020. Quase 77% do consumo é residencial.

    Para atender esse aumento, o mercado brasileiro demandou mais de 9,7 GW em módulos fotovoltaicos em 2021, tanto para GD quanto para geração centralizada. O crescimento foi de 104% em relação a 2020, aponta a Greener.

    O financiamento para a fonte solar tem sido uma importante alavanca para a demanda, apoiando 57% das vendas no ano passado, completa. 

    Reindustrialização com democracia, OESP editorial

     Qualquer governo eleito democraticamente poderá contar com a cooperação da Fiesp, disse a jornalistas o novo presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Josué Gomes da Silva. A entidade, afirmou, ficará longe da disputa eleitoral, sem tomar posições “mais típicas de partidos políticos”. Esse anúncio prenuncia uma importante mudança, após 17 anos de mandato de Paulo Skaf, conhecido por suas pretensões políticas e notoriamente alinhado ao presidente Jair Bolsonaro. Sem mencionar seu antecessor, o novo dirigente da Fiesp foi explícito, no entanto, ao criticar o atual presidente da República.

    Bolsonaro será lembrado nos livros de história, disse o empresário, por seus ataques ao Congresso, ao Judiciário e à imprensa. Não eliminou, porém, a hipótese de uma reeleição, e disse torcer, nesse caso, por um novo comportamento. Seja quem for o eleito neste ano, “o Brasil não vai acabar”, comentou o novo dirigente da Fiesp.

    Filho do falecido vice-presidente José Alencar, companheiro de governo de Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou uma distinção essencial entre ele e seu pai quanto ao relacionamento com o poder. “Eu ia a Brasília como empresário”, disse Josué Gomes da Silva em resposta a um jornalista.

    Como empresário e líder de uma entidade empresarial, um de seus objetivos, explicou o presidente da Fiesp, é reverter a trajetória da indústria nas últimas décadas, quando o setor perdeu dinamismo e participação na economia nacional. É preciso, acrescentou, debater a reindustrialização do País.

    Ao defender a reindustrialização, Gomes da Silva identifica um retrocesso histórico, a perda de avanços econômicos acumulados em muitas décadas de esforço do governo e do setor privado. Essa percepção é obviamente distante das preocupações declaradas até hoje pelo atual presidente da República e por seus auxiliares econômicos.

    Gomes da Silva envolve o governo, corretamente, ao defender um esforço de reconstrução da indústria, especialmente do ramo de transformação. Mas praticamente se limita a defender um corte de impostos por meio de uma reforma tributária. É um erro, segundo ele, confundir diminuição de tributos com perda de arrecadação. Essa observação pode ser verdadeira, mas convém discutir o assunto com cautela e a partir de uma perspectiva ampla.

    A tributação brasileira é claramente disfuncional. Onera a produção de forma desproporcional, dificulta o investimento, reduz a competitividade e é regressiva, isto é, socialmente injusta. Mas é preciso discutir a reforma do sistema de forma ampla, evitando a mera adição de remendos. As propostas do Executivo federal são obviamente pobres e denotam uma espantosa limitação de ideias sobre o funcionamento da economia real e as necessidades do setor produtivo.

    Mas é preciso ir além das questões tributárias. A estagnação da indústria está associada também a outros fatores, como a pobreza das políticas de tecnologia, formação de mão de obra, financiamento, infraestrutura, simplificação de procedimentos burocráticos, fortalecimento da segurança jurídica e competitividade. Também é preciso repensar o alcance e os propósitos da proteção comercial, além de impor um novo dinamismo às ações de integração nas cadeias globais de produção e de comércio e de investimento.

    Qualquer política séria de reindustrialização – e de revigoramento da economia – deverá envolver o exame de todas essas questões, negligenciadas ou tratadas erradamente há décadas. Nada se fará com mágicas e nenhum grande problema se resolverá em prazo muito curto, especialmente se o Brasil continuar sujeito à incerteza fiscal e a pressões inflacionárias mais fortes que as observadas em outros países. Com seu discurso realista, o novo presidente da Fiesp dá sinais de estar preparado para inserir seus objetivos setoriais nesse quadro complexo. Pode-se discutir a reindustrialização como parte de uma ampla reabilitação da economia nacional. Será o debate mais frutífero, mas isso dependerá também da qualidade do governo instalado em 2023.