segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Confissões ao pai de santo viram prova de corrupção, OESP

 Luiz Vassallo, Marcelo Godoy e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2022 | 05h00

“Fernando, sobre o negócio do hospital. Pode dar liga a você e até render um bom dinheiro.” Termina assim o primeiro das dezenas de diálogos entre o pai de santo Diogo Luis Cardoso e o administrador de hospital Fernando Rodrigues de Carvalho. Era 2018. A bonança prevista pela divindade acabou em três anos, com a prisão de Carvalho.

O homem que decidiu consultar o sacerdote se meteu em um dos maiores esquemas de corrupção da área da saúde descobertos no País: a máfia das Organizações Sociais. A relação dele e seu guia foi parar nos autos da Operação Raio X, pois, enquanto se consultava por meio de um aplicativo de mensagens, Carvalho confessava valores, revelava intrigas na organização criminosa, citava políticos e usava parte do dinheiro desviado para agradar à entidade. “Se fechar, vou mandar 2 mil; mil para o senhor e mil para o senhor fazer um agrado a Exu”, escreveu.

Cardoso, o Pai Diogo – como é conhecido –, vive em Curitiba. O guia dizia ser mensageiro de Exu Caveira, entidade que o ajudaria a conhecer os homens e seus destinos. Ele atendia pelo WhatsApp e tinha Carvalho entre os fiéis que lhe pediam conselhos e encomendavam trabalhos contra desafetos.

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Fernando Carvalho, que tinha Pai Diogo como guia espiritual, foi preso Foto: POLICIA CIVIL SP

Aos poucos, tornou-se seu confidente após o administrador ser recrutado pelo médico Cleudson Montali, líder do esquema de corrupção que agia em quatro Estados, agora condenado a 200 anos de prisão. O grupo agiu em 27 cidades, desviando R$ 500 milhões. Quando abriram o arquivo do celular de Carvalho, os policiais comemoraram: “Conseguimos extrair um histórico cronológico de acontecimentos que giraram em torno de Fernando e da Orcrim”.

Mensagens

A primeira das mensagens de interesse da investigação é de 2 de julho de 2018. “O senhor poderia ver com Exu como estão as coisas de negócios para mim? Eu ‘tô’ vendo um hospital em Araucária (PR)”, escreveu Carvalho. Diogo respondeu meia hora depois. “Nossa, transmissão de pensamento. Acabei de falar de você com Exu.” No dia seguinte, Carvalho consultou o guia sobre uma licitação. “Fio, pai acendeu velas de novo a Exu agora pouco pra você.” Carvalho contou que estava se acertando com Cleudson.

Em 18 de setembro, pouco antes de assumir a direção do esquema no Hospital de Carapicuíba (SP), Carvalho disse que “o secretário ligou”. O guia respondeu: “kkkkk. Eita toda sorte do mundo ‘pras’ coisas de São Paulo.” Mas o administrador queria saber se Cleudson confiava nele. “Queria ver com Exu também se o Cleudson está botando fé em mim para dividir ou se sou só funcionário pra trabalhar pra ele.” Diogo respondeu: “Tá, fio, passa o nome completo do cara”. Carvalho insistiu: “Tem coisa que gira muito dinheiro, até 70 mil por mês ‘pra’ dividir, fora o salário”.

Em outra ocasião, ele se queixou da avidez dos políticos. “O Cleudson assumiu um compromisso com uns políticos aí e nós temos que pagar o valor que nós vamos receber lá e mais um pouco para os políticos. Não vai sobrar nadica de nada para nós. É mole? Vamos ficar chupando o dedo.” 

Os negócios cresceram e Carvalho relatou que iam pegar um hospital em Osasco. “Contrato de 9 milhões mês.” O grupo começou a atuar no Pará, onde Carvalho disse que iam “ganhar muito dinheiro”. Em abril de 2019, começaram as intrigas. Carvalho relatou que um colega estava “envolvido com o negócio do Pará e ‘tá’ saqueando o hospital de Osasco”. “Está pondo dinheiro na mão dos Cleudson ... E muito. Não se sustenta. Vai dar m...” Diogo respondeu rápido. “Vou dar um jeito nisso. Vixi, perigoso isso.” Carvalho desabafou. “Tá muito esquisito. Muito dinheiro, muito fácil. Os caras que ele pôs lá não conhecem nada.” O guia concluiu: “Logo a casa deles cai, ‘cê’ quer ver”.

As coisas começaram a degringolar em agosto de 2019, quando a polícia fez buscas em Araucária. Mas Carvalho não se deteve. Disse ao pai de santo: “Queria saber se Exu pode ajudar, porque agora quero ganhar mesmo, faço questão de ganhar o que puder ganhar do Cleudson”. Contou que o médico retirava R$ 2 milhões por semana “do hospital do Pará”. Em dezembro, perguntou: “Quando Exu fala dos negócios das vacas magras, quer dizer que meus rendimentos aqui vão diminuir e eu saio daqui? Tô preocupado”.

Mas aí chegou a pandemia de covid-19 e os lucros cresceram. Cleudson montou hospitais de campanha e “pôs no bolso dez milhões”. Carvalho comprou os equipamentos. Ele escreveu: “Pai, o Cleudson é muito safo. É bandido mais que os de Osasco. Aqui (Pará) está junto com o governador”. E revelou que cobraram R$ 107 milhões no hospital do Pará. “Não custava 50.”

Em dezembro de 2020, ele escreveu: “Ô pai, a reunião ontem foi até uma comédia, dessa vez aqui o Exu errou feio, tá”. A polícia deflagrou a operação e, em junho de 2021, Carvalho acabou preso. E tudo foi parar no inquérito.

Amazônia busca saídas para se livrar das ‘ilhas de poluição’ na energia, OESP

 Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

19 de fevereiro de 2022 | 14h00

O Brasil vive uma contradição. Apesar da matriz elétrica invejável, com 83% de fontes renováveis, o País mantém na Amazônia – símbolo do meio ambiente – um parque gerador altamente poluente. Ali, 90% de toda a energia produzida vem de termoelétricas movidas a óleo diesel, grande emissor de CO2. Durante anos, isso não era motivo de preocupações. Mas, em um mundo em que a sustentabilidade ganha cada vez mais relevância, essa realidade começa a incomodar a ponto de o governo iniciar um processo de transição energética.

No início do mês, o Ministério de Minas e Energia abriu uma consulta pública para aprimorar as contratações no Sistema Isolado, que inclui sete Estados do Norte e do Centro-Oeste e o arquipélago de Fernando de Noronha. Hoje, grande parte do Brasil é atendida pelo Sistema Interligado Nacional (SIN), formado por uma ampla rede de transmissão que permite o intercâmbio de energia entre as regiões. Se uma área gera menos, outra pode ajudar no abastecimento mandando mais energia.

Na Amazônia, pela falta dessa interligação, pela sensibilidade ambiental e por ter comunidades pequenas e dispersas, a energia elétrica é produzida localmente. No total, são 251 sistemas isolados, também chamados pelo professor da UFRJ, Nivalde de Castro, de “ilhas de poluição”. Nesses sistemas, há desde pequenas comunidades, com população de 15 habitantes, até cidades maiores como Cruzeiro do Sul (AC) e Boa Vista (RR) – única capital ainda não conectada ao Sistema Interligado Nacional –, com 80 mil e 419 mil pessoas, respectivamente.

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A BBF tem 22 térmicas a diesel e biodiesel e está construindo duas novas movidas a bagaço de dendê Foto: Divulgação/BBF - 26/09/2021

Mudar essa realidade não é trivial. Por se tratar de sistemas que não se conversam, as fontes de geração precisam ser seguras para evitar que a população fique sem energia. Para instalar plantas solares, por exemplo, é preciso ter um backup, um tipo de usina que possa suprir a demanda quando não há sol para produzir energia. No resto do País, quando a usina solar produz menos, ela é compensada por outras fontes de energia, como eólica e hidrelétrica.

“Esse é o desafio de fazer a transição energética de uma forma mais acelerada. Precisamos de fontes que deem segurança na entrega de energia a qualquer momento”, diz o diretor dos Estudos de Energia da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Erik Eduardo Rego. Uma alternativa, diz ele, são as usinas híbridas, como fotovoltaica e bateria ou biodiesel e diesel. “Estamos tentando estimular essa diversidade de soluções.”

Alternativas

Esses modelos de usinas já apareceram nos últimos leilões. Em 2019, houve a contratação de sete projetos (125,3 MW), que incluem usinas com biocombustível e uma solução híbrida (biocombustível + fotovoltaica + armazenamento em bateria). A Brasil BioFuels (BBF) é uma das empresas que têm apostado nesse mercado. Ela tem 22 térmicas em operação no sistema isolado, a maioria bicombustível (funcionam com diesel e biodiesel). Duas delas são totalmente a biodiesel. A empresa também está construindo duas usinas a biomassa, movidas a bagaço de dendê, diz o presidente da BBF, Milton Steagall.

Outra alternativa, não renovável, mas menos poluente do que o diesel, é o gás natural. Nesse caso, a segurança energética é maior. A Eneva está construindo, em Boa Vista, a termoelétrica Jaguatirica II, que vai iniciar a operação neste ano. A empresa produz gás natural na Bacia do Amazonas, em Silves (AM), e vai abastecer a usina para atender a 70% do consumo de energia elétrica do Estado. 

Além da questão ambiental, as contratações de energia para o Sistema Isolado devem buscar a redução do custo da geração e da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC) – um subsídio cobrado na conta de luz em todo o País para ajudar na geração desse sistema. No ano passado, o orçamento aprovado para a CCC foi de R$ 8,5 bilhões e, neste ano, deve superar R$ 10 bilhões.

“Com a transição, é possível reduzir os custos de geração dos sistemas isolados e desonerar a tarifa dos demais consumidores de energia elétrica”, avalia o coordenador-geral da Expansão Eletroenergética do Ministério de Minas e Energia, Gustavo Cerqueira Ataíde. Ele avisa, no entanto, que o caminho não será curto. 

Risco e retorno

Nessa fase inicial, é preciso encontrar as fórmulas certas para a região com o menor risco possível. A consulta pública aberta pelo governo deve trazer algumas respostas para seguir essa trilha, diz o pesquisador sênior do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel/UFRJ), Maurício Moszkowicz. Segundo ele, além das fontes de energia, a questão dos prazos de contratação também precisa estar clara. Uma usina térmica pode ter 5 anos de contratação, mas uma solar, por exemplo, precisa de 10 a 15 anos para pagar o investimento feito.

Outro fator é que no Sistema Isolado não se podem esperar preços semelhantes aos de uma usina no resto do País. Ou seja, dificilmente uma usina solar – que tem preços baixos no Nordeste e no Sudeste – terá o mesmo custo. Isso porque essas plantas dependem de escala e do grau de insolação. “O desafio é encontrar soluções e criar os incentivos para as empresas investirem sem aumentar os subsídios”, diz Moszkowicz. 

O superintendente da EPE, Bernardo Folly de Aguiar, afirma que a expectativa é de que a dependência pelo diesel seja reduzida primeiro em localidades com maior escala. Isso permite uma variedade de soluções. “Em Fernando de Noronha, por exemplo, a escala é maior e permite uma mudança mais expressiva. Em locais menores, há maior dificuldade.”


Kassab diz que Eduardo Leite é uma ‘extraordinária alternativa’ a Pacheco, OESP

 Iander Porcella, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2022 | 16h26

BRASÍLIA - O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, afirmou neste sábado, 19, que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), é uma “extraordinária alternativa” ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), na disputa pelo Palácio do Planalto. Nesta sexta-feira, 18, o gaúcho indicou a empresários que deve concorrer à Presidência da República.

Kassab reiterou o convite para que Pacheco dispute o Planalto pelo PSD, mas disse que o mineiro ainda avalia se aceitará ou não entrar na corrida eleitoral. A decisão do presidente do Senado deve ser tomada em breve, segundo o dirigente partidário. Kassab disse que ficaria “muito feliz” em ter Pacheco como candidato. “Caso contrário, é evidente que o Eduardo Leite é uma extraordinária alternativa”, acrescentou, em entrevista à rádio Jovem Pan.

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Ainda não está determinado se Leite será o presidenciável do PSD, mas Kassab garante que o partido terá candidatura própria. Foto: DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

O presidente do PSD aproveitou para tecer elogios a Leite. Ele disse que o governador gaúcho é uma pessoa “muito respeitada” e um gestor “qualificadíssimo”. De acordo com Kassab, a ideia de convidar Leite para se filiar ao partido e concorrer à Presidência foi levada a ele pelo diretório estadual da sigla no Rio Grande do Sul. “Vamos aguardar, porque o importante é que o partido terá candidatura própria à Presidência da República”, disse Kassab, que se encontrou com Leite na última segunda-feira, 14, em São Paulo.

A saída do PSDB vem sendo avaliada por Leite desde o fim de novembro, quando ele perdeu as prévias para o governador de São Paulo, João Doria, escolhido como pré-candidato da legenda à sucessão do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Em reunião na Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul (CIC), na manhã de ontem, o governador gaúcho falou em “passar o bastão” no Estado e indicou que deve renunciar ao mandato em março. Na prática, ele descartou a disputa pela reeleição, embora há uma semana tenha admitido essa hipótese.

O tom do discurso foi de despedida. “De fato, estou sendo provocado novamente sobre o cenário nacional. Olha, passar um cavalo encilhado já não é fácil; passar dois, não dá para a gente desprezar”, disse Leite, numa referência aos convites que têm recebido para concorrer à Presidência.

Foi nesse momento que ele vestiu o figurino da chamada terceira via, mostrando-se disposto a romper a polarização entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), hoje líder nas pesquisas de intenção de voto. “Me causa especial preocupação que, no cenário nacional, se insista numa fórmula de enfrentamento em que todas as candidaturas que estão postas. Existem dois campos políticos bem marcados que polarizam fortemente esta disputa eleitoral”, afirmou o governador para a plateia de empresários. “Se for, de fato, algo consistente, e que a gente tenha apoio para isso, eu tenho coragem, vontade e disposição de poder apresentar algum caminho alternativo.”

Em outubro passado, Kassab anunciou que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MG), deveria ser o candidato do PSD ao Planalto. De lá para cá, no entanto, nada andou. Pacheco, inclusive, já avisou a aliados que desistirá de entrar no páreo. A partir daí, Kassab procurou Leite.

A reportagem tentou contato com Pacheco, mas não obteve resposta. A declaração mais recente do presidente do Senado sobre a possibilidade de concorrer ao Planalto foi no último dia 9, durante evento de filiação do vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos, ao PSD. “O partido tem a legítima pretensão de eu ser candidato a presidente e fico muito lisonjeado e muito honrado do partido sempre lembrar do meu nome, mas não há uma pré-candidatura formalizada”, disse o mineiro, na ocasião."