terça-feira, 23 de novembro de 2021

Portugal e França nos ensinam que passaporte contra Covid é o mal menor, João Pereira Coutinho , FSP

 Pobre Europa. Foram 18 meses de inferno pandêmico, com confinamentos, infecções e mortes. Agora, que já existe vacina mas muitos não querem tomá-la, serão outros 18 meses de igual calvário?

No centro e no leste da Europa, os casos sobem. Os mortos também. Os hospitais não dão conta do recado. E alguns países retornam aos velhos confinamentos —para vacinados e não vacinados.
A Áustria, aliás, pensa ir mais longe do que todos os restantes: a vacina será compulsória já a partir de fevereiro de 2022.

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Será que esse é o caminho?

Peter Singer, conhecido filósofo neoutilitarista, não tem dúvidas: em artigo para o Project Syndicate, Singer defende a vacinação compulsória usando como exemplo o cinto de segurança nos carros.

No início, todo mundo era contra ("a minha liberdade está sendo violada etc"). Hoje, ninguém contesta a medida: ela salvou milhares de vidas. Foi, em suma, para nosso próprio bem.

Igual raciocínio pode ser usado no caso da vacinação obrigatória. Se é para nosso bem, como hesitar?
Respeito a sapiência de Singer. Mas como não rir da comparação absurda que ele usou?

Eu posso lamentar que uma pessoa tenha morrido em acidente rodoviário simplesmente porque não usou cinto.

Mas, se ela não representa perigo para mais ninguém, nada me autoriza a tornar obrigatório o uso do cinto.

Claro: imaginações febris podem dizer que uma pessoa sem cinto sai disparada do carro, como uma bala perdida, matando outro inocente na contramão.

Mas eu falo da realidade, não de ficção. Como diria John Stuart Mill, autor (mal) citado por Singer, o Estado só deve interferir na minha liberdade se houver possibilidade de dano para terceiros, não para mim próprio.

A Covid joga em outro campeonato precisamente porque pode existir um risco para terceiros. Se, por hipótese, um antivacinas apenas representasse um perigo para ele, seria o primeiro a defender a sua liberdade. Digo isso sem cinismo —e sem invocar o nome de Charles Darwin em vão.

O problema é que a liberdade dele pode pôr em risco a vida de terceiros. Pessoas vacinadas, apesar de tudo, continuam a adoecer e a morrer de Covid-19. Hospitais lotados deixam de tratar outras doenças. E a imposição de novos confinamentos traz um preço econômico, social e psicológico que, aqui entre nós, já não estou disposto a suportar.

Entenda: fiz minha parte. Usei máscara, respeitei as medidas de confinamento, tomei a vacina. Não fui caso único: 88% da população portuguesa está vacinada, razão pela qual o número de mortos continua baixo em Portugal.

Ilustração representando seringas dispostas em um círculo
Publicada em 22 de novembro de 2021 - Angelo Abu

Pois é, se você precisa de uma prova empírica de que a vacina funciona, basta olhar para o outro lado do Atlântico. E depois comparar Portugal com países europeus que têm taxas de vacinação abaixo dos 80% ou 70%. Quanto mais baixa é essa taxa, maior o número de mortos.

Resumindo, não estou disposto a pagar a conta pelas escolhas dos outros. Que fazer? Chegar a um compromisso, como é próprio das sociedades civilizadas. De preferência, um compromisso capaz de respeitar as liberdades de todos.

Não creio que esse compromisso passe pela imunização compulsória. Também não acredito em confinamentos exclusivos para não vacinados. Esse tipo de violência de Estado me parece perigosamente iliberal —e desproporcional.

Hoje, olhando para a experiência em Portugal ou na França, reconheço, contra a minha posição original, que o passaporte Covid é o mal menor: no acesso a certos espaços públicos, o cidadão apresenta um certificado de vacinação, ou de recuperação da doença, ou de testagem prévia.

Isso significa que os não vacinados terão de se submeter a testagens recorrentes?

Admito que sim. Mas, nesse caso, serão os próprios a pagar o preço pelos valores em que acreditam, sem transferirem esse preço para os outros.

Porque, no fundo, a palavra liberdade tem dois sentidos, não apenas um. Eu exijo que a minha liberdade seja respeitada por terceiros.

Mas isso implica, logicamente, que eu estou disposto a respeitar a liberdade de terceiros.

O contrário disso —liberdade só para mim ou liberdade só para os outros— é um mero eufemismo para força bruta. Na selva, talvez resulte.

Mundo está entrando em quarta onda de covid-19, diz diretora da OMS, OESP

 Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2021 | 11h18

A diretora-geral adjunta de acesso a medicamentos e produtos farmacêuticos da Organização Mundial da Saúde (OMS), a médica brasileira Mariângela Simão, disse nesta segunda-feira, 22, que o mundo está entrando em uma quarta onda da pandemia de covid-19. A declaração foi dada na conferência de abertura de um evento realizado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

“O mundo, na verdade, está entrando em uma quarta onda, mas as regiões tiveram comportamento diferente em relação à pandemia”, apontou Mariângela. “Na região das Américas, há uma transmissão comunitária continuada, com pequenos picos, enquanto a Europa está entrando de novo em uma ressurgência de casos”, explicou.

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A médica não fez previsões específicas para o Brasil, que tem assistido nas últimas semanas a uma queda sustentada de internações e mortes, além de ver avanço significativo na vacinação. Comentou, porém, que a realização do Carnaval pode ser “extremamente propícia para o aumento da transmissão comunitária” no País.

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A diretora-adjunta da OMS Mariângela Simão. Em evento realizado nesta segunda, a médica brasileira disse que o mundo está entrando em uma quarta onda da pandemia de covid Foto: UNAIDS

O aumento no número de casos de covid-19 tem levado países a ampliar o cerco contra não imunizados  a Áustria, por exemplo, impôs um lockdown específico contra esse grupo. A estratégia visa a evitar o surgimento de novas cepas, como a Delta, identificada originalmente na Índia e depois responsável por acelerar o contágio em diversas regiões do planeta.

“A OMS tem o entendimento neste momento que é provável que a gente tenha uma transmissão continuada do vírus por conta das variantes”, disse a diretora da OMS. Segundo se observa nas curvas epidêmicas, a médica destacou que há países com ondas repetidas, outros com transmissão contínua e há ainda aqueles que tiveram um controle não sustentado no início da pandemia e que agora têm picos agudos de contaminação.

Entre os fatores que continuam influenciando na transmissão do Sars-Cov-2, Mariângela destacou quatro pontos. O primeiro são as variantes mais transmissíveis, como a Delta. Atualmente, conforme mapeamento genético realizado pelo Instituto Todos pela Saúde (ITpS), a Delta corresponde a mais de 97% das variantes em circulação no País.

O segundo aspecto é o fato de grande parte da população seguir sem acesso às vacinas. Dados da OMS apontam que menos de 5% das pessoas de países de baixa renda  grande parte na África e na Ásia  receberam ao menos uma dose de vacina anticovid, mesmo com mais de 7,5 bilhões de doses tendo sido aplicadas no mundo. “A inequidade no acesso à vacina é o maior desafio ético do nosso tempo”, disse Mariângela.

Por fim, o terceiro e quarto fatores seriam o aumento das interações sociais, com o fim das medidas de isolamento, e ainda a desinformação em relação às formas de lidar com o vírus. “A mensagem correta, no momento certo, em formato adequado, vinda da pessoa certa (...) pode auxiliar muito”, apontou a médica.

Entre domingo e segunda, conforme apontou Mariângela, foram confirmados mais de 440 mil casos em todo mundo e um total de 6,7 mil óbitos. Com isso, o planeta chegou a 255 milhões de diagnósticos positivos da doença e já contabiliza 5,1 milhões de vítimas. “É claro que isso reflete uma enorme subnotificação em vários continentes”, disse a diretora da OMS.

Futuro da pandemia

Sobre os possíveis cenários para o futuro, Mariângela destacou o papel das vacinas e disse que, mesmo não tendo impacto significativo na transmissão, elas “diminuem a severidade da doença e a mortalidade”. “A gente já tem dados robustos, como do Reino Unido, que mostram uma dissociação de casos e óbitos, por conta da vacinação”, destacou.

A diretora da OMS apontou que, pelo que se observa pelas informações de hoje, havendo altos níveis de imunidade populacional em todos os países, a mortalidade pela doença poderá reduzir significativamente. Os surtos de contaminação pela doença, acrescentou, até podem continuar acontecendo entre grupos suscetíveis, como os não vacinados, mas para este caso é necessário intensificar o processo de conscientização.

Mariângela reforçou ainda que “a vacinação sozinha não consegue conter transmissão”, o que torna também importante o monitoramento contínuo da situação epidemiológica e a adoção de medidas. “Me preocupa bastante quando vejo no Brasil a discussão sobre o Carnaval, é uma condição extremamente propícia para o aumento da transmissão comunitária. Precisamos planejar as ações para 2022”, disse a diretora da OMS.

Segundo Mariângela, um outro ponto é que há uma “associação forte” entre a cobertura vacinal e o uso de máscaras, o que também acaba sendo um fator de atenção até para países cuja vacinação avançou. “Quanto maior é a cobertura vacinal, menor é o uso de máscaras”, destacou.

Aldo Rebelo diz que linguagem neutra é inaceitável e critica 'agenda identitária' em evento com militares, FSP

 


Ex-ministro da Defesa (2015-2016), Aldo Rebelo (sem partido) participou de seminário organizado pelo instituto do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas na sexta-feira (19)

O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, também falou em debate mediado pelo jornalista Alexandre Garcia.

Rebelo disse no encontro que o uso de linguagem neutra é inaceitável, um "atentado à sociedade nacional", e que se trata da tentativa de criar outra língua, inventar palavras para "impor à sociedade uma outra forma de expressão da cultura".

"É algo importado. Não é linguagem neutra, o que estão querendo impor é outra língua", disse. "O que estão querendo fazer não é o uso das palavras existentes. É a criação de uma outra língua, de um outro idioma, porque estão inventando palavras que não existem na língua portuguesa. Não é o problema do gênero, é a tradição, a cultura", afirmou o ex-ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff.

Participação de Aldo Rebelo em evento do instituto do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas
Participação de Aldo Rebelo em evento do instituto do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas - Reprodução

"Aqui no Brasil, essa agenda tomou conta do mercado, pelas corporações que estão nisso, da mídia, de certa forma o Legislativo vai entrando nisso e o Judiciário nem se fala", disse Rabelo. Ele criticou o Supremo Tribunal Federal e afirmou ter a impressão de que ele age como "uma corte dos costumes, dos comportamento".

ministro Edson Fachin, do STF, suspendeu na quarta-feira (17) a eficácia de uma lei de Rondônia que proibia o uso de linguagem neutra nas escolas públicas e privadas do estado.

Ex-PCdoB, PSB e Solidariedade, Rebelo disse que o país mergulhou em um processo de desorientação quando a agenda do crescimento perdeu sentido diante da "agenda identitária e da guerra cultural".

"Em 2011, 12, 13, 14, o Brasil mergulhou naquele movimento 'Não Vai Ter Copa', de sabotagem contra o Brasil, com setores desorientados da política, de tudo quanto é tendência. Nas ruas, um movimento pesado, difícil, e o país mergulha em um certo processo de desorientação, a agenda do desenvolvimento e do crescimento perde um pouco sentido em função de outras agendas: a agenda identitária, a agenda da guerra cultural, a agenda da fragmentação", disse Rebelo, que também já foi ministro dos Esportes e da Ciência.

Ele ainda afirmou que o Brasil é uma nação "essencialmente mestiça" e estão tentando transformá-lo em um país "de pretos e brancos".

"Essa é a nossa marca, a miscigenção. Agora querem transformar em um país de pretos e brancos. Acho uma coisa criminosa, inaceitável, imposta de fora para dentro, financiada de fora. Porque se o Brasil chegar à conclusão de que somos um país dividido entre africanos e europeus, nós vamos ter que reconhecer que passamos 500 anos errados, equivocados. E que tudo aquilo que o Gilberto Freyre e o Darcy Ribeiro falaram do povo brasileio, do mestiço que é bom, estava errado. É isso que querem nos impor", argumentou Rabelo.

Segundo ele, o maior risco que o Brasil enfrenta hoje, mais do que o econômico, é o risco de desintegração da sua identidade, de sua memória e de sua "mestiçagem".