terça-feira, 23 de novembro de 2021

VAHAN AGOPYAN Universidade, inclusão e justiça social, FSP

 Vahan Agopyan

Reitor da USP desde 2018 e professor titular da Escola Politécnica (Poli)

As discussões para a renovação da Lei de Cotas (lei 12.711, de 29 de agosto de 2012), com duração prevista de dez anos, as comemorações do mês da Consciência Negra e a outorga, pela Universidade de São Paulo, do título de doutor honoris causa para o abolicionista Luiz Gama jogam luz ao debate sobre a importância de ações afirmativas e proativas para o combate à desigualdade social.

adoção de cotas sociais e étnicas para o ingresso nas universidades não é assistencialismo, nem esmola, tampouco concessão de privilégios a uma parcela da sociedade. Tem, sim, dois objetivos principais que não são devidamente expostos.

Sob o aspecto de justiça social, procura-se oferecer, a jovens promissores, condições de competição para ingressarem na universidade, preservando o mérito acadêmico. Não podemos frustrar esses jovens, e por isso, em particular a USP, por meio de ações de extensão universitária e em parceria com o governo do Estado, oferece oportunidades aos estudantes das escolas públicas para se prepararem melhor para os exames de ingresso (Fuvest Enem).

Sob o ponto de vista acadêmico, é importante para a universidade atrair os jovens talentosos, independentemente da classe social ou etnia. Como a legislação é extremamente restritiva em relação aos exames de seleção, a reserva de vagas é o meio viável. Além disso, as universidades que se preocupam com a formação cidadã dos alunos precisam ter corpos discentes heterogêneos e, por isso, as principais instituições do exterior, mesmo as que cobram anuidades elevadas, mantêm alunos bolsistas para garantir a diversidade.

As cotas são uma obrigação da sociedade com a atual geração de jovens e igualmente importantes para a melhor formação dos futuros profissionais e líderes nas universidades de destaque.

A USP implantou as ações proativas em 2006; a aceitação de ingressantes pelo Sisu em 2015, e depois de forma mais efetiva com as reservas de vagas, em 2017. É importante ressaltar que a universidade adota, na seleção, o mérito acadêmico.

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Nesse particular, estudo realizado pela professora Marta Arretche acompanhou 90 alunos cotistas, ingressantes em 2018 e escolhidos por sorteio, para não haver nenhum direcionamento. Esses alunos receberam bolsa de R$ 800 por mês, oferecidas por um banco, para se dedicarem aos estudos. A avaliação do aluno foi feita a partir de seu desempenho acadêmico e por relatórios regulares.

O resultado, até o momento, é promissor. A evasão ficou muito baixa entre os alunos cotistas —​menor que a média— e o desempenho acadêmico foi destacado. No segundo semestre de 2019, na maioria dos cursos, a média de notas dos alunos bolsistas foi superior à dos ingressantes pela Fuvest não cotistas.

Conclui-se, então, que estamos selecionando alunos muito capazes e bons. Esses jovens precisam apenas de oportunidades para que possam demonstrar suas competências.

Outro ponto importante sobre esse tema diz respeito à permanência e à retenção desses estudantes na universidade após sua admissão. A USP tem proporcionado condições para que eles possam concluir adequadamente seu curso de graduação. Para o próximo ano, está sendo proposto investimento de R$ 260 milhões em permanência estudantil. Atualmente, 15 mil alunos recebem algum tipo de bolsa, de um total de 25 mil benefícios oferecidos. Portanto, mais de 25% do alunato de graduação têm algum tipo de apoio. Além disso, a universidade está buscando mais parcerias com empresas para patrocinar mais bolsas de estudo.

A adoção de reservas de vagas é uma consequência direta da situação atual de ensino público, principalmente do ensino médio. Nossa meta como sociedade deve ser a de lutar pela melhoria do ensino público, fundamental e médio, sempre considerando a reserva de vagas como um subterfúgio pontual e temporário.


Cristina Serra Máquina de moer gente, FSP

 Está em processo de incubação na Câmara dos Deputados, num grupo de trabalho criado por Arthur Lira, o projeto de alteração no Código de Mineração. O relatório da deputada Greyce Elias (Avante-MG), que está para ser votado, propõe que a mineração seja considerada atividade de "utilidade pública", de "interesse social" e "essencial à vida humana".

Sim, você leu direito. No país em que quase 300 pessoas morreram em dois recentes desastres no setor, a mineração passaria a ser considerada "essencial à vida humana". A essência do relatório é reduzir o papel regulador e fiscalizador do Estado, transformando-o em um mero bedel dos interesses das companhias mineradoras.

A proposta também diminui o poder de estados e municípios, subordinando-os às decisões da Agência Nacional de Mineração (ANM). Planos de expansão urbana e criação de unidades de conservação, por exemplo, ficariam condicionados à prioridade dos empreendimentos. O relatório enfraquece mecanismos de proteção ambiental e apressa prazos para o poder público decidir sobre demandas das empresas. Cria a estranha figura da "aprovação tácita", caso a ANM não decida sobre licenças em 180 dias.

A proposta na Câmara é um beneplácito injustificado a um setor que tem demonstrado ser inimigo do meio ambiente e uma máquina de moer gente no Brasil. Nosso problema não é falta de boas leis. No que se refere ao poder público, Mariana e Brumadinho mostraram a necessidade de fortalecer os órgãos fiscalizadores e de criar regras mais rígidas de controle social e transparência.

A mudança do Código de Mineração se soma a outros projetos pró-mineradoras, como o que libera a atividade em terras indígenas. Levantamento do Instituto Socioambiental, de 2019, nos registros da ANM, mostrou que havia mais de 500 pedidos de pesquisa do subsolo na terra dos Yanomami. Não surpreende que esteja em curso o genocídio deste povo, à vista de todos nós.