terça-feira, 23 de novembro de 2021

Estupro, uma questão cultural, Francesca Angiolillo, FSP


Repórter especial, com ênfase em arquitetura e urbanismo. Foi editora-adjunta da Ilustrada e da Ilustríssima.

SÃO PAULO

A cada dia, de 822 a 1.370 mulheres são estupradas no Brasil. O dado, estarrecedor, vem de dossiê da Agência Patrícia Galvão e foi coletado pela jornalista Adriana Negreiros em seu livro "A Vida Nunca Mais Será a Mesma", recém-lançado pela Objetiva.

Negreiros já havia publicado em 2018, pela mesma editora, o excelente "Maria Bonita - Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço".

Nele, tirava a personagem-título do lugar mítico que ocupa no imaginário popular, reconstruindo sua vida e a de outras jovens, integradas ao cangaço muitas vezes pelo rapto.

"Jovens" é muito. Às vezes meninas, como Dadá, estuprada aos 12 por Corisco, tornando-se assim sua mulher —o rito sangrento sublinhando a posse expressa no pronome.

Pois um estupro é sempre um exercício de poder e posse, como o de Corisco sobre Dadá. Enquanto o ataque ao corpo de uma mulher continuar a ser visto na esfera do desejo sexual —como pretendem muitos, inclusive políticos de ontem e hoje—, a vítima continuará a ser vista como culpada, ou pela roupa, ou pela atitude.

A crueza das cenas perpetradas pelo cangaço no início do século 20 não se amenizou e se repete, bem entrado o século 21, em todo o país, como mostra Negreiros no novo livro. Difícil lê-las e dormir —ou andar na rua, ou pegar um táxi—sossegada.

Imagine então pesquisá-las e descrevê-las tendo sido você mesma violada, como foi a autora do livro, sequestrada e estuprada em 2003.

Mas também os homens deveriam sentir desassossego diante da clareza com que Negreiros demonstra que o estupro é uma questão cultural no país. O contexto social, político e legal que dá o amparo à cultura da violência não é, afinal, um problema apenas das vítimas que dela padecem.

Estamos todos imersos no caldo que permite que, no minuto ou dois que lhe custa ler este texto, mais uma mulher seja estuprada no Brasil. Seja ela quem for, como para todas as vítimas da violência sexual, a vida nunca mais será a mesma.

CRÉDITO OU DÉBITO? A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR, Marcelo Dantas, Gama


Vamos falar sobre dinheiro? No Brasil falar de dinheiro é mais tabu do que ficar nu em público. Seja pelo passado de misérias, derrocadas e falências, seja pela ausência de um diálogo pragmático, falar sobre dinheiro é inadequado mesmo entre parceiros, família ou amigos.

Crédito ou débito? Talvez essa seja a mais frequente pergunta feita na língua portuguesa hoje. A partir de uma singela indagação sobre a origem do dinheiro no futuro ou no passado existe uma questão quintessencial sobre a nossa relação com a sustentabilidade financeira do planeta. A maior parte das pessoas responde: crédito. Ao sacarmos sistematicamente do futuro (crédito) estamos o esvaziando potencialmente para que, ao chegarmos nele, ele não esteja mais lá.

O sintoma do brasileiro em relação ao dinheiro, ampliado pela culpa católica e por um certo receio de que suas posses possam ser objeto de algum confisco ou inveja, fez com que esse assunto se transformasse em um dos maiores não-ditos da sociedade. E, ao mesmo tempo, produziu um efeito coletivo sobre a educação financeira de um povo. Entre os 144 países pesquisados, o Brasil, apesar de ser a 12ª maior economia do mundo em 2021, foi o 101º pior poupador do planeta. Esse descompasso entre sua pujança e sua poupança sintetiza o comportamento da pergunta entre o crédito e o débito na hora da compra. Talvez substanciando a ideia de Stefan Zweig de que o Brasil é o (eterno) país do futuro, estejamos construindo uma sociedade lastreada no crédito, na chance e na possibilidade de erro.

Entre 144 países pesquisados, o Brasil, apesar de ser a 12ª maior economia do mundo em 2021, foi o 101º pior poupador do planeta

A ideia de uma sociedade lastreada não em suas conquistas do passado, mas sim em seu potencial de futuro é algo que apresenta uma novidade sobre como pensar a construção de riqueza às avessas. Se por um lado o Brasil é infelizmente a terra do extrativismo, da mineração e da exploração do trabalho escravo – todos lastros de um passado feroz que perdura no presente -, por outro, o comportamento de consumo do país é em nome de um futuro eternamente adiado, onde sua população seria capaz de gerar a receita para sustentar seu consumo e seus impostos.

A ojeriza do brasileiro de pensar sobre essa questão que define de onde buscamos energia para continuarmos a existir é o desafio à ideia de sustentabilidade do sistema que criamos. Mecanismos de aprendizado sobre educação e disciplina financeira são desdenhados de forma equivalente por cidadãos e governos, sejam eles de esquerda ou de direita. A noção de que algo no horizonte vai nos restituir a glória permanece incrustada na mente de governantes e governados. Para o brasileiro, o futuro não é resultado de um presente mas um presente que encontraremos mais adiante. Talvez essa doença crônica seja o entrave para que possamos construir de fato um futuro.

A instabilidade econômica do Brasil é um incentivo imenso à indisciplina econômica do brasileiro, por outro lado a certeza de incertezas deveria funcionar como motivador de uma proteção contra a desconfiança dos brasileiros em relação às políticas de estado de um país que promove, ao mesmo tempo, a pobreza e destitui a proteção de milhões de pessoas a cada alternância de governos. Existe uma outra percepção de que podemos construir uma sociedade a partir do movimento da sociedade civil em nome de uma estabilidade que seja aditiva e não subtrativa. A construção de riqueza no mundo onde vivemos se dá muito mais pela agregação simbólica do que pela extração mineral. No território do simbólico, estão as marcas, o pensamento e a inteligência; no extrativismo, está o genérico, o bruto e o descartável.

Sustentabilidade vai muito além da preocupação com o meio ambiente: está em criar um modelo de sociedade que se mantenha de pé sobre suas próprias pernas

Assim como o crédito ou o débito definem uma visão de sociedade, pautada sobre o passado ou sobre o futuro. Não existe certo ou errado em dirigir o carro olhando para o para-brisa ou para o retrovisor, mas não olhar para um deles vai nos levar ao abalroamento, seja no para-choque da frente ou no de trás. Sustentabilidade vai muito além da preocupação com o meio ambiente, sustentabilidade está em criar um modelo de sociedade que se mantenha de pé sobre suas próprias pernas.

Entramos nesse processo ainda na nossa geração. Antes, você só podia comprar fiado no armazém da esquina. Foi a tecnologia financeira que permitiu um modelo em que até o flanelinha possa ser pago com o dinheiro do futuro. Na Holanda, por exemplo, a comida e os mantimentos da casa só podem ser pagos em dinheiro ou em débito. Talvez uma medida para evitar o endividamento compulsivo da sociedade. No Japão, uma sociedade que tem um enorme apego aos meios de pagamento em espécie, mantêm um nível de poupança exemplar no planeta. Na Alemanha, um país viciado em dinheiro físico e desconfiado dos bancos, existe um ditado popular que diz: “Nur bares ist wahres”, que basicamente significa “apenas dinheiro é verdade”.

O desprendimento do dinheiro físico é um processo que pode arruinar a economia doméstica. Se as novas gerações desconhecerem os limites do dinheiro em espécie podem criar uma falha de difícil correção. Em breve, uma criança não vai saber somar as notas e um aspecto importante da identidade dos povos pode se perder. Esse círculo vicioso só pode ser rompido com a criatividade e inovação, coisas que podem catapultar uma sociedade e mudar o comportamento dos indivíduos. A inovação pode vir pela criação de uma nova linguagem como a das criptomoedas, em que a identidade não seja mais nacional, mas sim virtual, e a importância do controle de gastos seja substituída pela universalização da ideia da especulação. Aí sim teremos chegado a uma sociedade essencialmente insustentável.

“Nunca gaste seu dinheiro antes de tê-lo” — Thomas Jefferson

MARCELLO DANTAS trabalha na fronteira entre a arte e a tecnologia em exposições, museus e projetos que enfatizam a experiência. É curador interdisciplinar premiado, com atividade no Brasil e no exterior

 

Maconha no Uber Eats já é realidade, Reuters, via CNN, The NEWS

 

Maconha no Uber Eats já é realidade

NEGÓCIOS

(Imagem: Neo Radar | Reprodução)

Uber Weed or Uber Smokes? O Uber está desenvolvendo uma parceria com a Tokyo Smoke, uma varejista de cannabis, para dar uma forcinha aos moradores de Ontário, no Canadá, na hora de comprarem maconha — sim, cannabis pelo Uber.

No delivery mesmo? Ainda não. Inicialmente, a Uber vai permitir que os usuários façam os pedidos, mas eles ainda terão que ir buscarSó take-out.

  • A ideia da empresa é permitir a distribuição nos EUA, quando ela estiver apta para a comercialização no país de acordo com as leis locais e federais.

O lado político e econômico:

Segundo a empresa, a iniciativa vai ajudar no combate ao mercado ilegal — já que a varejista parceira segue as normas da lei —, que, hoje, ainda corresponde por mais de 40% das vendas no país.

O mercado… As vendas de cannabis no Canadá já somam US$ 4 bilhões em 2021 e devem chegar a US$ 6,7 bilhões em 2026.

Pensando no momento, a pandemia foi um impulsionador para a maconha por aplicativo. Com as pessoas em casa, os fumantes da planta tiveram suas opções limitadas, o que levou a pensar em outras possibilidades logísticas. risos.