segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Ruy Castro - Blearghh! em uníssono, FSP

 


Leitores escreveram apoiando uma onomatopeia que usei outro dia (29/10) ao descrever a sensação de asco diante de alguma nova agressão de Jair Bolsonaro ao Brasil. A onomatopeia era "Blearghh!", criada por Jaguar no Pasquim dos anos 70 para identificar o som de um vômito. Jaguar, o maior cartunista brasileiro de todos os tempos e a quem devemos uma edição abrangente de sua obra, fez dela a trilha sonora de seu personagem Gastão, o Vomitador, que assim expressava sua reação ao que acontecia no Brasil da ditadura. O Brasil de Bolsonaro obrigaria Gastão a vomitar de hora em hora.

Não sei de onde Jaguar tirou o "Blearghh!", mas é perfeito. Parece inglês, mas dicionários como o "Webster" e o "Cambridge" não o registram. Donde poderia muito bem ser incorporado ao português, e com mais propriedade do que outras interjeições em inglês que estão indevidamente se impondo por aqui. Ninguém mais fala "Epa!" —fala "Oops!". Ninguém exclama "Pô!" ou "Genial!", mas "Uau!", tradução de "Wow!". E ouço dizer que, nas redes sociais, usa-se "Cof! Cof!" —"Cough! Cough!" mal pronunciado— para insinuar tosse no sentido de ironia.

É verdade que os gibis americanos sempre nos impuseram essas coisas. "Brrr!" é sentir frio. "Gulp!" é engolir em seco. "Boo!" é dar um susto. "Bang!" é um tiro ou explosão. "Hmmm..." é pensar, ponderar. "ZZZ" é dormir. Mas a submissão ao colonizador tem limites. Em breve estaremos gritando "Ouch!" [autch] e não "Ai!" a uma martelada no dedo e fazendo "Atchoo!" em vez de "Atchim!" ao espirrar.

Por que soluções com séculos de eficácia comprovada são substituídas por outras piores? O último brasileiro a se manter fiel a "Rá-rá-rá!" ao rir por escrito é o nosso José Simão. O pessoal hoje prefere "Rsrsrsrsrs", que para mim soa como um rosnado, ou cacareja em uníssono escrevendo "Kkkkkkkkkk!".

O uníssono deveria ser reservado ao "Blearghh!" e dirigido a —você sabe.

domingo, 21 de novembro de 2021

Energia solar motiva negócios para instalações de placas domésticas, OESP

 O preço da energia elétrica é um bicho-papão que tem assombrado o bolso dos brasileiros. De acordo com um documento interno da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ao qual o Estadão teve acesso neste mês, o impacto financeiro da crise hídrica na conta de luz deve triplicar em 2022. Se em 2021 o reajuste acumulado para o consumidor residencial chegou a 7%, o aumento projetado para o ano que vem é de 21%.

Correndo em paralelo à alta do preço da eletricidade, negócios que comercializam soluções de energia solar viram a demanda crescer, não só por parte de empresas e indústrias como de condomínios residenciais e casas. “Há um interesse cada vez maior da população, das empresas e também de gestores públicos em aproveitar seus telhados, fachadas e estacionamentos para gerar energia renovável localmente”, diz Vinicius Lopes, fundador do grupo Papillon Lait, de Campinas (SP). 

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Formado por parcerias comerciais entre negócios com soluções inovadoras e sustentáveis, o grupo faturou quase R$ 850 mil com sua unidade de energia solar fotovoltaica voltada ao nicho residencial em 2020 e prevê fechar 2021 com alta de 132%. O empreendedor fala que a solução é a maior aliada para quem quer eliminar a preocupação com os aumentos na conta de luz porque, após a instalação das placas solares, a economia mensal chega a 95%. 

José Guilherme Novaes, da franquia Blue Sol
José Guilherme Novaes, dono de três unidades da franquia Blue Sol Energia Solar, em São Paulo.  Foto: Felipe Rau/Estadão

“Para garantir o máximo aproveitamento do equipamento, nosso time criou o Método Otimiza Solar”, ele acrescenta, explicando que é feita uma análise precisa do posicionamento das placas para ter o maior tempo possível de irradiação solar.

A Papillon Lait contabiliza hoje mais de 60 projetos residenciais, além de duas usinas solares para condomínios. Mas ainda há desafios para expandir. Segundo Lopes, além de vencer o lobby das grandes construtoras que querem fazer mais lagoas de pedras e o das distribuidoras interessadas em vender energia, a mentalidade de consumo da população também precisa de uma guinada. “Os brasileiros ainda preferem investir em carros e outros objetos de consumo em vez de energia renovável.”

Enfrentamento da crise hídrica

Franqueado da Blue Sol Energia Solar em São Paulo, José Guilherme Novaes sempre atuou em áreas ligadas a inovação e tecnologia, ficando atraído pelo setor de energia solar por poder aliar também seus conhecimentos de marketing e administração. “Como estava empreendendo pela primeira vez e não tinha o conhecimento técnico, o modelo de franquia era aquele que atendia mais à minha necessidade.”

Ele conta que a marca oferece aos clientes o desenvolvimento do projeto, a instalação e a conexão dos sistemas fotovoltaicos à rede elétrica. O projeto é desenvolvido por engenheiros baseados na matriz da empresa, em Ribeirão Preto (SP), e a instalação é realizada por profissionais homologados.

Dono de três unidades, que correspondem a áreas de exclusividade de atuação em 12 cidades da região da Grande São Paulo, Alphaville e Campinas, ele fala que chegou a R$ 10 milhões em vendas em 2020. “A franquia é responsável pela comercialização e instalação, que correspondem a aproximadamente 20% a 25% desse valor de venda.”

Túlio Fonseca, da Energy Brasil
Túlio Fonseca, fundador da Energy Brasil, que tem mais de 400 unidades franqueadas no País.  Foto: Patrick Roque

A projeção é terminar 2021 com faturamento estimado em R$ 18 milhões. “Embora (a pandemia) tenha sido um período muito desafiador, estamos vivendo um momento de forte demanda neste segundo semestre. O setor se consolidou como a forma mais rápida e segura para o enfrentamento da crise hídrica.” Desde 2017, suas unidades já instalaram mais de 360 sistemas fotovoltaicos residenciais, comerciais e industriais. Somente residenciais ou em condomínios, foram mais de 290 sistemas, que representam 34% da potência instalada.

Financiamento para franqueados

Formada em moda, Morgana Rohden decidiu investir em uma franquia da Energy Brasil quando descobriu que estava grávida do segundo filho, em 2019. Ela já conhecia a empresa, que tem sede em São José do Rio Preto (SP), e decidiu montar uma unidade em Braço Norte (SC). Fez o treinamento em fevereiro de 2020, mas poucas semanas depois veio a pandemia. “Eu já tinha alugado a sala e comprado os móveis, mas não pude abrir a loja. Então, naquele primeiro momento, foi todo um trabalho de Whatsapp.”

Após ligar para potenciais clientes, a franqueada ficou em primeiro lugar da rede em vendas em 2020, batendo R$ 1 milhão. Hoje ela já tem mais duas franquias, uma em Tubarão e outra em Criciúma, e prevê alcançar os R$ 2 milhões de faturamento até o final do ano.

Com mais de 400 unidades franqueadas e presente em todos os Estados, a rede do empresário Túlio Fonseca faturou R$ 50 milhões em 2020 e a previsão é fechar 2021 com R$ 80 milhões e 450 franquias. Os novos franqueados têm à disposição uma linha de financiamento para montagem da loja e capital de giro, criada em agosto. 

A empresa lançou ainda um modelo contêiner de 15 metros quadrados que oferece os mesmos produtos e serviços de uma loja convencional e pode ser instalado em estacionamentos, postos de gasolina, supermercados e condomínios residenciais. 

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Outra sacada da marca com foco nos clientes pequenos e na democratização da energia solar é o Energy Pay, um sistema de pagamento que possui maquininha própria. Na prática, ele permite que o cliente parcele o kit em vários cartões e em até 12 vezes, facilitando a tomada de crédito para as classes C e D e eliminando a burocracia de um financiamento.

Modelo home-based

Lançado pela Portal Solar em maio, o Portal Solar Franquias vendeu 73 unidades em seis meses de operação e tem a meta de fechar o ano com 100 franqueados. No modelo home-based, sem necessidade de loja física, as franquias estão espalhadas por várias capitais do País, além de municípios menores.

Para o professor de Física Jeyson do Carmo, que é apaixonado pelo tema da energia solar e abriu uma franquia da rede em Fortaleza em julho, foi motivador fazer a implantação do negócio com uma marca preocupada em educar a população para o uso de energia sustentável. 

“Hoje estamos atravessando a barreira da civilização que extrai energia do próprio planeta para uma civilização que aproveita a energia do sistema solar. Não é nada utópico pensar que, em poucos anos, teremos todas as residências, comércios e indústrias gerando sua própria energia com o método fotovoltaico.”

Nos primeiros três meses de operação, ele e o sócio faturaram R$ 70 mil, com uma média de 6 clientes por mês. “A projeção para 2022 é que cada cliente indique pelo menos mais um, além da pretensão de triplicar os números com nossa própria captação e expansão da equipe comercial”, prevê o empreendedor. “Para o cliente, o custo-benefício é extremamente vantajoso porque você compra um sistema que vai gerar energia no seu telhado. A gente costuma dizer ao cliente que a questão não é se ele vai aderir ao sistema fotovoltaico, mas quando.”


Bolsonaro derruba até 1 bilhão de árvores na Amazônia em 12 meses, Marcelo Leite, FSP

Pouco importa se o leitor se incomoda com a destruição da Amazônia, se votou em Jair Bolsonaro ou se considera a crise do clima uma farsa para impedir o desenvolvimento nacional: entre agosto de 2020 e julho de 2021, cada brasileiro contribuiu com quatro árvores para dizimar a maior floresta tropical do mundo.

A conta do passivo ambiental per capita é fácil de fazer.

Foram 13.235 km2 de corte raso neste ano, segundo informou o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) na quinta-feira (18). Cada hectare de mata amazônica tem cerca de 600 árvores, o que dá 60 mil por quilômetro quadrado.

Do lado direito, grande tapete de mata; à esquerda, área desmatada, com uma entrada em V na área de mata
Desmatamento de região próxima à floresta amazônica e ao cerrado, em Nova Xavantina (MT) - Amanda Perobelli - 28.jul.2021/Reuters



A devastação de 2021, terceiro ano na conta de Bolsonaro, ceifou um total aproximado de 800 milhões de árvores, ou 3,75 por habitante. Não acontece só corte raso na Amazônia, porém.

Para cada hectare derrubado se estima que outro tenha sido degradado com abertura de estradas quase invisíveis para satélites, fogo rasteiro que adentra a mata e efeito de borda (morte de árvores expostas a fogo, vento e ressecamento na vizinhança de áreas desmatadas).

É possível que, para cada quatro árvores derrubadas, outra morra no interior das áreas ainda com cobertura vegetal. Ou seja, 1 bilhão de árvores mortas só neste ano, 83,3 milhões por mês, 2,8 milhões por dia, 116 mil por hora, 2.000 por minuto, 32 por segundo (ao ler este texto em voz alta, mais 7.500 estarão no chão).

Isso sem incluir outros biomas também sob pressão, como o cerrado. A savana brasileira, mais aberta, mas com muitas espécies lenhosas, tem perdido 7.000 km2 por ano --uma enormidade para área com apenas metade da Amazônia, onde 50% já caíram sob correntões, fogo, tratores e patas de bois (na irmã maior, 20%).

Nos três anos de Bolsonaro dominados pelo ministro Ricardo Salles na pasta do Meio Ambiente, a floresta amazônica se reduziu em 34.215 km2, superfície maior que a Bélgica. Se o poste sucessor (Joaquim Leite) preferir, 2 bilhões de árvores.

Comecei a escrever sobre Amazônia em 1988, mesmo ano em que as queimadas se tornaram tema de debate global e o Inpe passou a publicar estimativas de corte raso. Foi também o ano em que Chico Mendes foi assassinado, líder seringueiro que Salles considerou irrelevante.

De lá para cá, foram mais de 470 mil km2 de floresta devastada. Uma Suécia, ou 28 bilhões de árvores caídas. Para cada terráqueo vivo, 3,5 delas a menos. É acabrunhante.

Nem precisa fazer cálculos sobre quanto carbono foi parar na atmosfera, com isso, e contribuiu para detonar a crise do clima. Já fizeram: por obra do desmatamento, nossa maior fonte de emissões de carbono, o Brasil aparece em quarto lugar como poluidor climático, com 5% do total emitido desde o início da era industrial.

Ficamos atrás dos EUA (20%), China (11%) e Rússia (7%). A diferença: nesses países, as emissões serviram em geral para desenvolver a indústria, gerar empregos e melhorar a vida da população.

Por aqui, a destruição da mata atlântica, da floresta amazônica, do cerrado, da caatinga e do Pantanal tem contribuído só para abrir áreas de pastagens improdutivas e para enriquecer garimpeiros, madeireiros ilegais, grileiros e pecuaristas. O povo de quem Bolsonaro gosta e que vota nele sem pestanejar.

O leitor talvez não se incomode com a destruição da Amazônia, pode ter votado em Bolsonaro e considerar a crise do clima uma farsa contra o desenvolvimento nacional. Quem sabe não se importe com as mentiras do governo Bolsonaro em Glasgow nem com a ocultação dos dados do desmatamento antes da COP-26.

Esse é o problema: uma parte considerável do Brasil não tem vergonha na cara.