quarta-feira, 18 de julho de 2018

Lei e Ordem, Antonio Delfim Netto, FSP (definitivo)


A internacionalmente respeitada instituição de pesquisa Gallup levanta, todo ano, um indicador do “sentimento” de segurança individual em um grande número de países. 
Trata-se de uma informação relevante porque se conhece o elevado grau de correlação entre ele e o desenvolvimento social e econômico do país.
Quanto maior a segurança individual, maiores são os estímulos ao aumento dos investimentos no nível individual para gozar o futuro: maior propensão à educação, à poupança etc.
No nível macroeconômico, isso tende a ampliar os investimentos físicos do setor privado e a confiança no governo, o que aumenta os investimentos em infraestrutura e faz crescer a produtividade do conjunto.
Um alto nível de segurança individual é a plataforma que assegura a coesão social e a preliminar para que um Estado eficiente, constitucionalmente limitado, possa estimular o desenvolvimento econômico pela regulação de “mercados” competitivos. É isso que lhe fornecerá os recursos tributários para cumprir a sua missão de sustentar o equilíbrio social.
O indicador do Gallup tem o título de “Law and Order” e sintetiza as respostas em quatro perguntas:
1ª. Você confia na polícia?
2ª. Você sente-se seguro ao sair à noite?
3ª. Nos últimos 12 meses, você ou um membro de sua família foi roubado?
4ª. Nos últimos 12 meses, você foi assaltado?
O indicador de 2018 foi estimado para 142 países (na média, mil pessoas por país). O Brasil obteve o ranque 126 (no nono decil da distribuição), em companhia do Peru e da Mauritânia. 
Esse déficit de segurança, ou melhor, essa falta de “Lei e de Ordem”, refere-se a um país onde, todos sabemos, o Poder Executivo perdeu o seu protagonismo, o Poder Legislativo assumiu o terrorismo de pautas-bomba, e o Judiciário acompanhou a confusão.
O resultado foi a paulatina dissolução do mínimo de tolerância sem o qual a sociedade perde a sua coesão, o que põe em risco a democracia em que estamos vivendo.
As últimas semanas foram pródigas em exemplos. O Executivo deu uma não solução para a crise dos caminhoneiros e sua base não o defendeu no Congresso! 
O Legislativo mostrou-se irresponsável: aprovou, alegremente, sem contrapartida de receitagastos absurdos e perdoou os autores de um locaute! 
O Judiciário foi vítima de uma dramática tentativa de consagrar, definitivamente, a politização da Justiça, além de meter-se num problema insolúvel ao tentar acomodar uma tabela dos fretes, quando seu papel era de apenas declarar se ela é ou não compatível com a Constituição.
A próxima eleição pode nos salvar ou continuar a nos afastar da “Lei e da Ordem”. Só depende de nós...
Antonio Delfim Netto
Economista, ex-ministro da Fazenda (1967-1974). É autor de “O Problema do Café no Brasil”.

O país das falsificações`, FSP

Um dia, teremos de pedir desculpas ao Paraguai pelo que já pensamos dele

Neymar cai durante a partida entre a seleção do Brasil e a da Costa Rica, na Copa; árbitro chegou a marcar pênalti, mas, com a ajuda do VAR, voltou atrás
Neymar cai durante a partida entre a seleção do Brasil e a da Costa Rica, na Copa; árbitro chegou a marcar pênalti, mas, com a ajuda do VAR, voltou atrás - Lee Smith/Reuters
A lembrança que o mundo levará do Brasil nesta Copa do Mundo não será a da equipe que jogou e perdeu com honra, mas a da que tentou ganhar com desonra —representada por Neymar rolando pelo gramado a cada falta real ou imaginária. Numa era mágica como a nossa, em que as câmeras podem esmiuçar cada imagem em qualquer ângulo ou velocidade, Neymar tornou-se piada mundial. E, para muitos, mais uma prova de que somos mesmo uns malandros.
Aos olhos de fora, já éramos o país que produziu Eike Batista, o sétimo homem mais rico do mundo no ranking da revista Forbes —“Crio riquezas do zero”, ele disse— e, de repente, descobriu-se que, sem monumentais manipulações e acordos com o então governo brasileiro, sua riqueza era mesmo zero. E o que dizer da Odebrecht, a empreiteira que parecia dominar o mundo, e hoje se sabe que, de mãos dadas com aquele mesmo governo, geriu o que se considera o maior caso de corrupção internacional da história? 
Políticos que fizeram carreira passando-se por vestais ou por arautos de uma inédita prosperidade estão presos e condenados por corrupção. Pior ainda, sabe-se agora que seus números eram uma fraude. Milhões que acreditaram neles revoltam-se por terem sido feitos de trouxas e não querem repetir o erro —daí os altos índices de abstenção que se espera nas próximas eleições.
A economia acompanha a desmoralização política e vai para o buraco. Como investir num país em que não se sabe se o ministro com quem se conversa hoje não será apanhado e mandado para trás das grades antes de fechado o negócio? Até mesmo a Justiça está sub judice —para o povo, há juízes que, além da capa preta, deveriam usar máscara. 
Diante desses casos, o grand-guignol de Neymar foi até inocente. O Brasil deveria disputar a Copa das falsificações. Um dia, teremos de pedir desculpas ao Paraguai pelo que já pensamos dele.

Com aliança em risco, Bolsonaro encolhe e falha em teste político, FSP

Candidato desiste de conversas com PR, mas terá que explicar flerte com Valdemar

A negociação frustrada de Jair Bolsonaro (PSL) com o PR de Valdemar Costa Neto encolhe a campanha do capitão reformado. O presidenciável dava como certa a formalização da aliança, que emprestaria uma máquina partidária de peso a sua candidatura. As dificuldades de articulação, porém, devem obrigá-lo a se recolher às próprias fileiras.
Além de perder os 45 segundos que o PR agregaria aos 8 do seu diminuto PSL, Bolsonaro precisará explicar a contradição de ter cortejado Valdemar até os acréscimos do segundo tempo. Como vai sustentar seu discurso raivoso contra a velha política se esteve prestes a abraçar um condenado por corrupção?
O revés ainda força o candidato a abandonar um vice dos sonhos, o senador e cantor evangélico Magno Malta (PR-ES). O capitão reformado recuou à caserna para buscar um novo parceiro, o general da reserva Augusto Heleno Pereira (PRP).
O general da reserva Augusto Heleno Pereira (PRP)
O general da reserva Augusto Heleno Pereira (PRP) - Sergio Lima - 28.dez.10/Folhapress
A sigla do novo vice acrescenta apenas quatro segundos a cada programa do deputado na TV e tem poucas candidaturas a governador e deputado, que costumam impulsionar as campanhas presidenciais.
Heleno é respeitado nas Forças Armadas, tanto nos quadros da reserva quanto da ativa. Trata-se, no entanto, de um jogo de soma zero: Bolsonaro reforça sua trincheira militar, mas acentua a imagem de uma candidatura de nicho único. Uma dupla fardada no poder não foi regra nem na ditadura. Três dos cinco presidentes militares tinham vices civis.
Além disso, Heleno é considerado uma caixa de ressonância de Bolsonaro. Ambos são considerados excessivamente francos. Na ativa, o general se insurgiu contra superiores: criticou a política indigenista de Lula e reclamou publicamente do emprego de tropas do Exército para patrulhar as ruas do Rio.
Depois do flerte malsucedido, Bolsonaro ataca a política que o traiu. O candidato sustenta que, se eleito, governará sem barganhas com o Congresso. Precisa ter em mente que estará sujeito aos mesmos personagens que o iludiram desta vez.