sexta-feira, 3 de maio de 2013

Não há "coitadinhos", há criminosos, por Clóvis Rossi na Folha



Entre 2004 e 2009, o número de brasileiros que ganham 1 salário mínimo ou mais passou de 51,3 milhões para 77,9 milhões. Ou, em porcentagem: os que superaram a barreira da pobreza, se fixada em 1 mínimo, passaram no período de 29% para 42%.
São dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), no mais abrangente estudo que conheço a respeito do tema.
Se fosse verdadeira a teoria (na qual eu próprio acreditei durante muitíssimo tempo) de que a pobreza é a grande responsável pela criminalidade obscena que existe no Brasil, a violência teria forçosamente diminuído no período.
Não foi o que aconteceu. Ao contrário. Diz estudo da "Insight Crime", organização que se dedica ao estudo da violência nas Américas: "A taxa nacional de homicídios permaneceu relativamente estável, passando de 22 por 100 mil habitantes em 2004 para 21/100 mil em 2010. Essa estabilidade, no entanto, mascara uma queda da violência nas principais cidades do Sul e um aumento da violência em áreas rurais".
Homicídios são apenas um fator - embora o mais relevante - na sensação de insegurança do brasileiro, o que significa que, se incluídas no retrato outras modalidades de violência em constante aumento, pode-se dar por enterrada a teoria dos pobres coitadinhos sem outra alternativa de ganhar dinheiro que não seja o crime.
Afinal, o estudo do Ipea fala em "mobilidade social ascendente", o que é uma realidade visível a olho nu. Mobilidade que se projeta para o futuro, conforme estudo da Ernst & Young, que acaba de sair e diz que famílias com renda superior a US$ 50 mil (R$ 100 mil) anuais chegarão a 9,4 milhões em 2020, um aumento de 50%.
É óbvio que o Brasil continua tendo problemas sociais lacerantes, mas aceitá-los como única explicação para a espiral de violência é fugir da realidade e impedir a busca de remédios, por erro no diagnóstico.
Não pretendo nem tenho competência para elaborar um compêndio de propostas nessa área. Mas parece evidente que, sem uma discussão abrangente sobre o problema das drogas e sua relação com a violência, não se irá a parte alguma.
Volto ao relatório da "Insight Crime":
"O Brasil enfrenta uma séria ameaça de suas duas maiores gangues criminosas, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, que estão se tornando crescentemente envolvidas no comércio internacional de drogas, assim como operam redes de extorsão e sequestros em casa. (...) O país está se tornando crescentemente importante como um mercado e um ponto de trânsito para a cocaína".
Acho desnecessário acrescentar que a pequena criminalidade é alimentada pela droga, além de estimulada pelo crime organizado que opera em grande escala.
Tudo somado, parece inescapável concluir que não há "coitadinhos" nessa história, que não há uma guerra dos proletários ou do lumpen contra a burguesia. Há criminosos. Ponto.
Combatê-los é uma necessidade civilizatória, do que dá prova o êxito relativo das Unidades de Polícia Pacificadora no Rio de Janeiro. A presença policial devolveu um mínimo de vida civilizada aos morros antes controlados pela criminalidade.
Mas a simples presença policial, por indispensável que seja, não resolverá o problema enquanto não se conseguir equacionar a questão das drogas. Até porque fracassou a estratégia de repressão pura e simples. Pena que o Brasil continua se recusando a discutir alternativas e, melhor ainda, a tentar implementá-las.
Clóvis Rossi
Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno "Mundo". É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo" e "O Que é Jornalismo". Escreve às terças, quintas e domingos na versão impressa do caderno "Mundo" e às sextas no site.

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