domingo, 3 de fevereiro de 2013

Epidemia de crack no Brasil lembra os EUA em 1980


JUAN FORERO , THE WASHINGTON POST - O Estado de S.Paulo
Ao amanhecer, centenas de viciados magérrimos, sujos, o olhar vidrado, surgem no bairro da Luz, no centro de São Paulo. Depois de rápidas transações com os traficantes, procuram apressados um pouco de privacidade para acender os cachimbos e inalar as pedrinhas que causam enorme dependência, vendidas pelo equivalente a US$ 5 cada (cerca de R$ 10).
O ambiente lembra Washington ou Nova York nos anos 1980, quando o crack dominava bairros inteiros e gerava um ciclo de violência enlouquecedor. Desta vez, a epidemia de crack ocorre no Brasil, alarma as autoridades e mancha a imagem cuidadosamente cultivada do País que hospedará dois grandes eventos esportivos mundiais: a Copa em 2014 e a Olimpíada em 2016.
Em todas as cidades do Brasil - de São Paulo ao Rio de Janeiro, a joia da coroa, passando por cidadezinhas na selva amazônica -, ao anoitecer enxames de viciados desesperados procuram a próxima dose nas cracolândias. E como na onda que varreu os Estados Unidos, o resultado é o mesmo: vidas e famílias destruídas, bairros inabitáveis.
"O crack é uma doença incurável", diz Paulino, de 50 anos, magro, de fala rápida, que não quer dizer o sobrenome, ao explicar seu apetite diário pela droga. "Preciso de crack no sangue."
Com cerca de 1 milhão de usuários de cocaína, o Brasil está sendo devastado por um problema que as autoridades brasileiras consideravam típico dos Estados Unidos. A população brasileira de 200 milhões de pessoas inclui uma nova e florescente classe média, que oferece mercado promissor aos traficantes, afirmam especialistas em controle da droga. "No Brasil, temos uma situação semelhante à dos Estados Unidos nos anos 1980", afirma Eloisa de Sousa Arruda, secretária de Justiça do Estado de São Paulo, que coordena a política de combate à droga. "Há grande crescimento do uso do crack."
O crack se espalhou nas cidades americanas em declínio, afetando principalmente comunidades habitadas por minorias. A reação dos EUA envolveu a prisão de viciados e traficantes. As autoridades brasileiras preocuparam-se em explicar que sua resposta é diferente. Elas consideram que a questão é de saúde pública, na qual o Estado tem papel fundamental no combate ao vício. "Não colocamos os usuários na cadeia", diz Leon Garcia, especialista em drogas do Ministério da Saúde. "Temos penas alternativas porque não acreditamos que a cadeia seja o melhor lugar para tratá-los."

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O novo mercado sexual


ARTIGO - NELSON MOTTA
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O jogo virou, de antigas oprimidas dos anos 60, chamadas por John Lennon de “o crioulo do mundo” em “Woman is the Nigger of the World”, as mulheres avançaram pelas trilhas abertas pelo feminismo e hoje são presidentes, secretárias de Estado, ministras, comandantes de jatos, de batalhões militares e de grandes grupos econômicos, jogando futebol, dirigindo filmes e dando aulas de todos os assuntos, elas estão em toda parte, até na frente de combate. Mas continuam reclamando.
Pesquisas recentes mostram que nos Estados Unidos, onde elas têm mais poder, dinheiro, independência e liberdade do que nunca, as mulheres estão mais insatisfeitas agora do que nos anos 60, porque, com tantas opções, escolher ficou muito mais difícil. E, como Freud já sabia, nunca se sabe o que quer uma mulher.
Até o sonho da maternidade balança, algumas já admitem que seria melhor não ter tido filhos, ou que foram eles que destruíram a sua felicidade.
São muitas as Marias hoje em dia, da clássica “Maria-Gasolina”, com sua atração irresistível por carros, à moderna “Maria-Chuteira”, que acompanhou a evolução sociopatrimonial dos jogadores de futebol.
Agora a antropóloga Miriam Goldenberg fala do florescimento nos meios universitários da “Maria-Apostila”, que manda recados safados aos professores nas apostilas e no Facebook, tipo “Vai ao barzinho hoje? Se for, vou sem calcinha”. Competindo para ver quem pega mais professores, as “Maria-Lattes”, como a famosa plataforma de currículos acadêmicos, valorizam tanto a quantidade quanto a qualidade.
As mulheres passivas, à espera do chamado dos homens, estão saindo de cena. Estamos na era das periguetes, das roupas curtas e justas em corpos sarados, partindo para o ataque e invertendo os papéis de gênero, intimidando e provocando desconforto nos homens. Embora ainda continuem esperando um telefonema no dia seguinte.
Nas pesquisas de Miriam ficou claro que, com essa troca de papéis, os homens estão apavorados. E as mulheres, desesperadas.
Assim como na economia, a lei da oferta e da procura vale para o mercado sexual: quando a oferta cresce, a procura amolece.
Nelson Motta é jornalista


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Saudade do dr. Ulysses


BRASÍLIA - O PMDB mantém hoje o terceiro cargo na linha sucessória (presidência do Senado) e ganha o segundo (a da Câmara) na próxima segunda-feira, mas pode começar a perder o primeiro (a Vice-Presidência da República) a partir da terça.
Reportagem de Natuza Nery, ontem na Folha, dá contornos ao mapa que Lula desenha para as eleições de 2014 e aponta uma linha cruzada: Michel Temer sai da Vice-Presidência e Gabriel Chalita entra na cabeça de chapa para destronar os tucanos do governo de São Paulo. O PMDB trocaria a vice pelo Bandeirantes.
Tudo para pôr Eduardo Campos (PE) na vice e explodir sua pretensão de sair da base aliada para se lançar candidato contra Dilma. Ele é o eixo sobre o qual todos os demais atores de 2014 se movem.
A construção não parece nada fácil, com resistências de todos os lados, a começar dos principais interessados: PT, PMDB, Temer e Campos. Mas as histórias das candidaturas de Dilma Rousseff ao Planalto e de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo desautorizam o descrédito de analistas e o desdém dos que sonham com o Bandeirantes. Quando Lula quer, Lula pode.
Ele sabe que Campos, a favor, quebra o maior galho, mas, contra, vira um problemão. Tanto que é disputado a tapa por Dilma, a favorita, e por Aécio Neves, virtual nome do PSDB. Com uma diferença: os petistas têm muito mais cacife para segurar Campos do que os tucanos para atraí-lo.
Mas, ao admitir trocar Temer (e o PMDB) por Campos (e o PSB), Lula eleva o passe do pernambucano à estratosfera. Com chance de ser vice da chapa mais forte, por que ele aceitaria ser na mais fraca? A ideia de ser vice de Dilma pode até lhe dar a chance de tentar inverter a chapa de oposição para Campos-Aécio.
Dê o que dê a roleta de Lula, o PMDB é vencedor. Deve ter o Senado com Renan, a Câmara com Henrique Alves e --dúvida atroz-- disputar a Vice-Presidência ou o governo de São Paulo. E seja o que Deus quiser.
Eliane Cantanhêde
Eliane Cantanhêde, jornalista, é colunista da Página 2 da versão impressa da Folha, onde escreve às terças, quintas, sextas e domingos. É também comentarista do telejornal "Globonews em Pauta" e da Rádio Metrópole da Bahia.