sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Esquema bolsonarista define eleição no Rio- Alvaro Costa e SIlva, FSP

 No Rio de Janeiro, a política é um negócio de família. O método genealógico –uma tradição na história brasileira, basta lembrar dos Andradas de Minas Gerais, que atuam desde antes da declaração de independência do país –domina as relações de poder na atual sociedade fluminense, aí incluídas as igrejas evangélicas e as milícias.

A partir de 2018 o clã Bolsonaro –em torno do qual gravitam os clãs menores– instalou no estado uma espécie de novo chaguismo, sistema baseado no uso da máquina e no desvio de dinheiro dos cofres públicos para a compra de votos e a obtenção de imbatível vantagem eleitoral.

Três adultos sentados lado a lado em uma mesa de restaurante, todos vestindo camisas amarelas da seleção brasileira. Dois homens estão nas extremidades e uma mulher no centro, todos sorrindo e fazendo sinal de paz com as mãos. Na mesa há xícaras de café, copo de água, pratos e talheres.
Da dir. à esq. Flávio Bolsonaro, Fernanda Louback, vice-governadora eleita do RJ, e Douglas Ruas, governador eleito - Reprodução Instagram

Depois de Wilson Witzel e de Cláudio Castro, ambos marcados por denúncias de corrupção, a bola da vez para assumir o governo é Douglas Ruas, filho do PM reformado Capitão Nelson, que desde 2021 é prefeito de São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do estado. Nelson é suspeito de ter comandado um "carro da linguiça", expressão usada no Rio para se referir a veículos clandestinos a serviço de grupos de extermínio que agem em áreas periféricas.

Quatro vezes prefeito da capital, Eduardo Paes, em seu sonho de se tornar governador, tentou neutralizar o esquema bolsonarista nos municípios da Baixada Fluminense –um retrato sem filtro do Rio de Janeiro, com imóveis de alto padrão, onde vivem empresários e caciques eleitorais, a poucos metros de barracos ocupados por famílias sem a sorte e a esperteza de ter entrado para a política ou arranjado os contatos certos.

Paes fez um acordo com o dono de Duque de Caxias. Para vice na chapa, indicou Jane Reis, irmã de Washington Reis, ex-secretário de Castro e o homem que conseguiu o certificado de vacina falso para Bolsonaro. Reis elegeu os dois irmãos, Rosenverg e Gutemberg —o primeiro para a Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) e o segundo para a Câmara dos Deputados—, mas deu um perdido no aliado. Douglas Ruas teve 50% dos votos válidos em Caxias. Na vizinha Nova Iguaçu, domínio da família Canella, quase 60%.

Para vencer, Ruas não precisava da canetada do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) nem da confusão armada de propósito pelo velho Garotinho.


Fundador da revista piauí questiona apoio empresarial a Flávio Bolsonaro e aponta riscos à democracia, FSP

 Em artigo publicado na quinta-feira (1º) na revista piauí, seu fundador, João Moreira Salles, sustenta que parte da elite econômica brasileira está disposta a relativizar os riscos à democracia e a valores institucionais para se aproximar da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), movida sobretudo por preocupações com a situação fiscal do país e pela perspectiva de uma agenda econômica mais alinhada aos próprios interesses.

Homem de meia-idade com cabelo castanho e óculos, vestindo suéter vermelho e camiseta cinza, está de braços cruzados olhando para o lado direito, com fundo amarelo liso.
João Moreira Salles, fundador da revista piauí - Ronny Santos - 22.set.26/Folhapress

O argumento central do texto é que o problema não estaria na falta de informação desses empresários, banqueiros e investidores, mas no fato de que, segundo Salles, muitos deles conhecem o histórico político de Flávio Bolsonaro e do grupo familiar a que o candidato pertence e, ainda assim, decidiram estabelecer relações públicas com o senador.

"Como se restaura um mundo em que se aceita a existência de um torturador? Como um regime de exceção ressurge como alternativa política? Como se começa a minar uma democracia? Como se prepara um país para o retorno dos tiranos?", escreve.

Para Salles, essa elite econômica não deseja necessariamente "o fim do frágil experimento democrático brasileiro", mas tomou "a decisão de desviar os olhos". Em seguida, cita quem seriam esses empresários e executivos, incluindo entre eles Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú, banco do qual a família Moreira Salles é sócia.

"Ao como, então, vale a pena acrescentar o quem. Flávio Rocha (varejo de moda). Marcelo Kayath (mercado financeiro). André Esteves (banco de investimentos). Eduardo Bartolomeo (mineração). Eduardo Fischer (publicidade). David Feffer (papel e celulose). Roberto Campos Neto (mercado financeiro). Fernando Marques (indústria farmacêutica). Rubens Ometto (energia e infraestrutura). Emmanuel Hermann (mercado financeiro). Paulo Skaf (indústria). Luiz Carlos Trabuco (setor bancário). Fábio Barbosa (gestão empresarial e finanças). Alexandre Ostrowiecki (eletrônicos). Mario Araripe (energia renovável). Milton Maluhy Filho (setor bancário). Helio Seibel (madeira e materiais de construção). Christian Egan (mercado de capitais). Roberto Dagnoni (criptomoedas). Pedro Parente (energia e infraestrutura). Daniel Goldberg (investimentos). Fábio Ermírio de Moraes (indústria e investimentos). Fabio Carvalho (varejo e mídia). Richard Gerdau (siderurgia). Gilson Finkelsztain (setor bancário). José Galló (varejo). Fernando Simões (logística e infraestrutura). João Camargo (articulação empresarial)."

Salles recorda que Jair Bolsonaro (PL), no voto pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido judicialmente como responsável por torturas durante o regime militar, e destaca que Flávio Bolsonaro nunca repudiou a homenagem. Ao contrário, defendeu o pai.

Para Salles, a continuidade política declarada entre pai e filho torna esse episódio relevante para avaliar o significado do atual projeto presidencial.

"O problema, aqui, parece ser de ordem de valores: do que se admite negociar e daquilo que não se negocia. Existem determinados absolutos que não admitem acomodação. A tortura certamente é um deles."

Na interpretação de Salles, encontros privados de integrantes do setor empresarial e financeiro conferem ao candidato uma forma de legitimidade política.

O texto reconhece a gravidade da situação fiscal brasileira e menciona críticas de agentes do mercado aos gastos públicos, à dívida e à condução econômica do governo Lula. Mas questiona a conclusão de que esses problemas justificariam a aproximação com o candidato do PL.

O texto lembra que o governo Bolsonaro também enfrentou controvérsias fiscais e argumenta que crises econômicas, embora possam ser graves, são em princípio reversíveis, enquanto danos institucionais provocados por rupturas democráticas podem ter efeitos duradouros.

"Nada disso significa uma adesão ao atual presidente", diz Salles, mas "a eleição brasileira de 2026 pôs diante do eleitor alternativas que, a meu ver, jamais foram equivalentes".

OPINIÃO DOS CITADOS

A Folha procurou, pessoalmente ou por meio das assessorias de imprensa das companhias, todos os empresários e executivos citados no artigo. Três deles negaram ter participado de jantares ou outros encontros privados com Flávio Bolsonaro (Feffer, da Suzano; Ometto, da Cosan; e Ostrowiecki, do Grupo Multi, que disse ter ido a um evento do banco UBS com o candidato). Oito preferiram não se manifestar publicamente e 17 não responderam.

Sob reserva, alguns deles afirmaram, em geral, que ouvir candidatos não significa demonstrar apoio e que esse tipo de diálogo existe também com outros concorrentes. Um dos empresários disse que não cabe interpretar a participação em uma conversa com um presidenciável como concordância com a tortura ou com ataques à democracia.

Os encontros são vistos por tais empresários como rodadas para conhecer todos os postulantes à Presidência, afirmou outro citado.

Mariana Aldrigui - Turismo no Brasil não se resolve no Ministério do Turismo- FSP

 

Mariana Aldrigui

Professora e pesquisadora de políticas de turismo na USP

Sempre que o turismo entra no debate público, reaparece uma fórmula sedutora. O setor teria potencial enorme, estaria travado por falta de gestão, e bastaria colocar alguém "do mercado" no comando, com plano de longo prazo e KPIs (indicadores-chave de desempenho), para destravar emprego e PIB. É um diagnóstico confortável. E errado, porque trata o turismo como se existisse à parte do país.

Turismo é demanda derivada. Ninguém viaja porque o Ministério do Turismo funciona bem. Viaja-se quando há renda, crédito, câmbio favorável, passagem a preço viável e a percepção de que o destino é seguro e acolhedor. Quase nenhuma dessas variáveis está na mesa do ministro.

Multidão de pessoas na praia sob guarda-sóis coloridos, com banhistas na areia e no mar ao fundo em dia ensolarado.
Movimento na praia de Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli/Folhapress

Comece-se pela métrica mais repetida: o turismo representaria fatia do PIB brasileiro menor que a média mundial. Participação no PIB não mede desempenho. Economias grandes e diversificadas tendem a exibir fatias menores, porque o denominador inclui agronegócio, indústria e serviços de toda ordem. Usar esse número como prova de fracasso é ler o indicador ao contrário. (Os países com maior participação do turismo no PIB são pequenas ilhas, como Maldivas, Vanuatu e Cabo Verde, que lideram o ranking não por gerirem melhor o setor, mas por terem pouco além dele.)

Vejamos os pilares que costumam aparecer nesses planos: infraestrutura nos destinos, segurança, portos, aeroportos, aviação regional. Todos legítimos, e nenhum é competência do MTur. Segurança pública cabe aos estados. As rodovias, por onde circula a imensa maioria das viagens domésticas, dependem do Ministério dos Transportes e dos governos estaduais. Portos e aeroportos têm ministério próprio. Cobrar do MTur a solução desses gargalos é como responsabilizar o departamento de marketing pela falta de caminhões na logística.

O mesmo vale para a aviação. A malha encolheu por razões que qualquer executivo do setor conhece — ou deveria. Querosene caro e atrelado ao dólar. Judicialização em níveis sem paralelo no mundo. Uma carga tributária que sufoca. E companhias que atravessaram recuperação judicial nos últimos anos. Comparar voos por habitante com a Colômbia sem olhar estrutura de custos é comparar resultados ignorando as causas.

Há também uma contradição curiosa em atribuir o recorde de visitantes estrangeiros apenas ao câmbio. Se o câmbio explica o desempenho, o turismo depende antes de tudo da macroeconomia, e a tese de que bastaria trocar a gestão desmorona. Vale igualmente para o mercado doméstico: a classe média que viaja parcelado responde a juros e renda muito mais do que a qualquer plano setorial. As grandes operadoras sabem disso melhor do que ninguém.

O episódio argentino ensina outra coisa. Quando mais de um terço dos estrangeiros vem de um único país, e esse fluxo dobra ou encolhe ao sabor do câmbio vizinho, o problema não é falta de gestão do ministério, mas concentração de mercado. Diversificar origens exige conectividade aérea de longo curso, promoção contínua e previsível no exterior e, sobretudo, dados confiáveis sobre quem chega, quanto gasta e por onde circula — ações em curso conduzidas pela Embratur.

Tampouco procede a ideia de um turismo carregado nas costas pela iniciativa privada. O setor recebeu, nos últimos anos, socorro e renúncia fiscal na casa dos bilhões, via Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos) e Fungetur (Fundo Geral de Turismo). A relação com o Estado é de dependência mútua, não de abandono.

A instabilidade no ministério é real e danosa, mas não é defeito de gestão que um nome técnico resolveria. É sintoma do presidencialismo de coalizão: o MTur virou moeda de negociação política em todos os governos recentes, sem exceção. E o Congresso que sai das urnas tende a aprofundar essa lógica, com emendas parlamentares que irrigam bases eleitorais embaladas como projetos "inteligentes" de turismo. Lidar com isso exige trânsito político, não planilha.

Um CEO dificilmente saberia navegar esse ambiente; não por acaso, quem deu ao ministério recém-criado estrutura e capacidade de articulação foi um político experiente, Walfrido dos Mares Guia —não um gestor importado do setor privado. Já a fragmentação da representação empresarial, com dezenas de associações disputando interlocução, é problema do próprio setor, que nunca conseguiu falar a uma só voz, embora exista uma confederação, a CNC, que o abriga.

Há, por fim, o que nenhuma planilha captura: imagem. Quando se pergunta por que estrangeiros deixam de vir, a resposta passa pela violência, mas também pelo que o Brasil comunica ao mundo. Em 2019, Bolsonaro declarou que o país não deveria ser destino de turismo gay e, na mesma fala, disse que quem quisesse vir fazer sexo com mulheres ficasse à vontade. Era, ao mesmo tempo, um aceno ao turismo sexual e uma porta fechada a um dos públicos de maior gasto médio.

No mesmo ano, as queimadas na Amazônia e a reação do governo à pressão internacional puseram o Brasil no noticiário global pelos piores motivos, e meses depois veio a condução da pandemia. Nenhuma campanha de promoção sobrevive a isso. Imagem de destino se constrói com política externa, ambiental e de direitos, não apenas com publicidade.

Rio estreito serpenteia entre cânions com vegetação seca e arbustos. Cactos altos e espinhosos dominam o primeiro plano sob céu parcialmente nublado.
Caminho dos Cânions do Rio São Francisco, na Bahia - Divulgação/Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso

Há ainda uma questão de rumo. O Brasil tem biodiversidade, cultura e escala para criar modelos próprios de turismo sustentável, em vez de importar fórmulas cada vez mais criticadas por seus efeitos nefastos: saturação, gentrificação, enclaves que capturam a renda e devolvem pouco às comunidades.

Bons resultados em turismo também dependem de boas relações políticas, e vale lembrar que em 2025 somente os Estados Unidos tiveram resultado negativo na chegada de turistas, justamente por questões geopolíticas: 5,4% menos turistas (perda de pelo menos US$ 10 bilhões em receitas).

Nada disso significa que o turismo dispense política de Estado. Ele precisa dela. Mas política de Estado para o turismo é, antes de tudo, política de Estado: estabilidade macroeconômica, segurança pública, infraestrutura de transportes, regulação aérea, proteção ambiental e respeito à diversidade. O turismo é resultado de tudo isso, não a causa.

Não há fórmula mágica. O que falta ao turismo não é um CEO, mas unidade: um espírito coletivo capaz de definir em conjunto as metas do setor, sustentá-las ao longo de diferentes governos e convertê-las em influência real sobre as decisões que o afetam. Enquanto cada segmento negociar sozinho, e o setor se enxergar como uma ilha à espera de um bom gestor, seguirá produzindo diagnósticos com verniz técnico, que pedem ao ministério errado soluções que dependem do país inteiro.

Professora e pesquisadora e