quarta-feira, 13 de maio de 2026

Crise de Starmer lembra que é melhor comprar briga e perder do que não comprar e já ter perdido, Rui Tavares, FSP

 Enquanto escrevo, o premiê britânico Keir Starmer luta pela sua sobrevivência política, o que é uma novidade: ao menos está lutando. Embora seja incerta a sua sorte, uma coisa é garantida: em torno dele vamos ver surgir mais um episódio da sempiterna batalha entre esquerdistas e centristas no campo progressista, cada um garantindo que o outro leva à derrota certa, seja por falta de convicções, seja por falta de consensos.

É um debate cansativo, porque ambos estão errados. Não me confundam: eu sou da esquerda, e de uma esquerda que não é centrista. Mas não é por achar que isso nos dá automaticamente mais chance de vitória e que um candidato centrista esteja automaticamente derrotado.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, acena durante visita a instituição de ensino em Londres - Toby Melville - 12.mai.26/pool via AFP

Além disso, lembro que ainda há não muito tempo Keir Starmer era um fiel escudeiro de Jeremy Corbyn, um dos líderes mais esquerdistas que os trabalhistas britânicos já tiveram, e que perdeu feio também.

Keir Starmer, por sua vez, ganhou como centrista uma maioria absolutérrima nas eleições parlamentares de há uns anos. E agora não só perde como arrisca levar consigo o seu partido. O que se passou? Segundo quem o conhece bem, Keir Starmer é pessoa de grande simpatia, excelentes intenções e bons princípios. Mas é incapaz de tomar decisões, mesmo tendo tido todas as condições para fazê-lo.

Está aí a raiz para o desdém com que agora os britânicos o tratam. Todos sabem que Starmer considera o brexit um erro e que, se pudesse fazê-lo sem custo, gostaria de ver o Reino Unido de novo na União Europeia. Mas prometeu não fazer nada para que tal acontecesse, por respeito às divisões da sociedade britânica. O resultado é que conseguiu que nenhum dos lados o respeitasse.

Nigel Farage, o grande responsável pelo brexit, por seu lado, tampouco é respeitado. Fui colega dele no Parlamento Europeu, saudávamo-nos nos corredores e fazíamos parte da mesma comissão, a que ele faltava quase sempre, e desde então ele já dizia que iria lutar para tirar o Reino Unido da União Europeia.

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Na altura toda a gente ria. Hoje ninguém ri. O brexit pode ter sido um fracasso para o Reino Unido (até ele o admite, embora diga que é por não ter sido brexit que chegue) mas ninguém pode negar a Farage a capacidade de lutar: mais de metade do eleitorado o abomina; mas para os restantes ele é um herói.

Graças às bizarrias do sistema eleitoral britânico, se os partidos progressistas (e pró-europeus) não se juntarem numa aliança, é bem possível que Farage venha a ser o próximo primeiro-ministro de Sua Majestade o rei Charles 3º.

Mas então por que razão Starmer não quis lutar pelo regresso à União Europeia, quando estavam aí as suas convicções? Pela razão que prende muitos progressistas ao chegarem ao poder, e que se pode resumir numa frase: "é mais complicado do que parece".

Claro que é sempre mais complicado do que parece! Mas se o líder progressista que tinha acabado de ganhar eleições se desculpa com isso, o fim já chegou ainda antes de começar. Para governantes progressistas, estar mais à esquerda ou mais ao centro é importante, mas a lição fundamental é: briguem.

Se você brigar, pode ganhar ou pode perder. Se não brigar, já perdeu.

Chá revelação de classe social, Joanna Moura, FSP

 A mudança de Londres para o Brasil trouxe, como qualquer mudança, coisas boas e ruins. Creio eu que não preciso listar as ruins, visto que este mesmo jornal —ou qualquer outro veículo jornalístico que se propõe a noticiar os fatos— já faz esse trabalho por mim. Talvez valha, porém, listar algumas boas, uma vez que estas são mais raramente encontradas e/ou noticiadas aqui pelas bandas deste nosso torrão natal.

Começo pelo óbvio para quem, como eu, vem de um longo período em terras gélidas, de longos invernos em que o sol nasce às nove da manhã e se vai às três da tarde: habemus cá, no céu brasileiro, a presença quase opressora de sol. Há também —e quem viveu num país onde o prato nacional é a batata assada sabe da importância deste item— enorme facilidade de acesso a iguarias como requeijão, doce de leite, goiabada, feijoada, pastel de camarão e catupiry, acarajé e pudim.

Criança em silhueta corre sobre piso de vidro transparente que reflete árvores e céu. A sombra da criança é visível no vidro, criando efeito visual de profundidade.
Expliquei à minha filha que não, não moramos em um palácio - Alessandro Shinoda - 19.jan.11/Folhapress

Mas, entre todas essas maravilhas proporcionadas por esta pátria mãe (por vezes) gentil, uma das que mais salta aos olhos desde que chegamos é o espaço. Em Londres, habitávamos um apartamento de 87 metros quadrados, tamanho ótimo, diga-se de passagem. No entanto, quando nos mudamos de volta para o Rio de Janeiro, um novo horizonte se abriu. Na busca por um apartamento alugado, decidi, de antemão, que priorizaria espaço em detrimento de outras mordomias —varandas gourmet e que tais—, optei por metragem. E foi assim que acabamos nos mudando para um apartamento com o dobro do espaço daquele em que morávamos em Londres.

A mais feliz com o recém-conquistado espaço é, sem dúvida, minha filha de 6 anos, para quem o apartamento de 87 metros era a única referência de casa. Hoje, três meses depois da mudança, ela ainda se encanta com a possibilidade de treinar suas cambalhotas na sala (que segue quase sem móveis). Outro dia, saindo da escola, chamou um amigo para visitá-la e, depois do convite, emendou: "Minha casa é MUITO grande, um palácio". Na hora, achei engraçado, coisa de criança, mas, no caminho de volta ao nosso palácio, me senti na obrigação de colocar os devidos pingos nos is e me certificar de que a criança soubesse que, por maior que pareça a nossa casa, ela não é um palácio.

Chamo a conversa que se desenrolou em seguida de "chá revelação de classe social", aquele momento em que somos informados sobre quem de fato somos na pirâmide social.

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"Não somos ricos", lhe disse. "Mamãe e papai têm que trabalhar muito pra gente morar onde mora e fazer as coisas que a gente faz. E você vai ter que trabalhar também quando crescer para poder ter a sua casa."

Depois de certo ponto e, diante de sua cara de perplexidade, entendi que meu monólogo havia atingido os limites da atenção e compreensão daquela criança. "Tô com fome", ela me disse, talvez apenas para mudar de assunto.

Enquanto fazia uma torrada, fiquei pensando sobre como tem gente por aí que teria se beneficiado de um chá revelação de classe social logo cedo na vida. Para que soubesse bem dos seus privilégios, mas, talvez mais ainda, de suas limitações. Gente que se acha muito superior aos outros só porque está entre os 10% ou 5% mais endinheirados, mas cuja "riqueza" —a escola cara, o carro financiado e o apartamento de 150 metros— não resiste a três meses de desemprego.

Em outubro, temos eleições e seria bom demais se boa parte da "classe média alta" entendesse onde de fato se encontra na pirâmide social e votasse de acordo com a realidade, e não com seus delírios elitistas.


EUA e China têm um inimigo em comum, e não é mais a União Soviética, Thomas L. Friedman, FSP

 A cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim pode ser o encontro mais significativo entre líderes americanos e chineses desde que Richard Nixon se reuniu com Mao Tsé-tung em Pequim, em 1972.

Aquela cúpula aliviou décadas de animosidade sino-americana e forjou uma aliança tácita entre Estados Unidos e China contra a União Soviética. Esta cúpula acontece em um momento de transformação semelhante nos assuntos mundiais, quando há uma nova ameaça compartilhada tanto para a China quanto para os EUA.

Trata-se de uma desordem em metástase que pode desestabilizar o mundo e prejudicar ambos os países, a menos que encontrem uma forma de competir e colaborar simultaneamente contra uma lista crescente de desafios.

Dois homens em trajes formais conversam frente a fundo preto. O homem à esquerda usa terno azul escuro, camisa branca e gravata vermelha, enquanto o da direita veste terno azul escuro, camisa branca e gravata azul.
O presidente americano, Donald Trump, e o presidente chinês Xi Jinping conversam após encontro bilateral em Busan, na Coreia do Sul - Evelyn Hockstein - 30.out.25/Reuters

Esses desafios só podem ser enfrentados com sucesso por meio de ação coletiva —começando com EUA e China criando juntos barreiras de proteção contra os usos malignos da inteligência artificial, agora que os modelos mais recentes demonstraram capacidades de ciberataque assustadoramente poderosas.

Duas mudanças de paradigma transformaram o mundo desde a cúpula Nixon-Mao. A primeira —ainda não amplamente compreendida, embora os alarmes estejam soando a todo volume— é o surgimento dessas novas ferramentas assimétricas de IA que podem dar superpoderes a pequenos atores malignos, sejam terroristas, anarquistas, criminosos, grupos políticos ou pequenos Estados-nação.

Dois sujeitos em uma caverna com um laptop, acesso aos modelos de IA mais recentes e um terminal Starlink poderiam atacar a infraestrutura crítica de qualquer sociedade.

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A segunda tem a ver com a globalização. A cúpula Nixon-Mao iniciou o processo de levar o mundo de desconectado para muito mais conectado e depois interconectado. Quando Nixon e Mao começaram a tirar a China de seu isolamento da economia global —o que Deng Xiaoping acelerou enormemente ao mudar a China para o capitalismo de Estado— desencadearam uma cascata de forças econômicas e tecnológicas.

O líder chinês, Mao Tsé-Tung, se encontra com Richard Nixon durante sua visita à China - Xinhua - 22.fev.72/AFP

Quando o início do século 21 chegou, a combinação da entrada da China na Organização Mundial do Comércio e da conexão do mundo pela internet significou que mais pessoas em mais lugares podiam competir, conectar-se e colaborar de mais maneiras, por menos dinheiro, em mais coisas do que em qualquer outro momento da história humana. É por isso que escrevi um livro em 2005 intitulado "O Mundo É Plano".

Está na natureza da mudança tecnológica, porém, que cada grande passo à frente aconteça mais rápido que o anterior, porque se constrói sobre as ferramentas que a era anterior liberou. Assim, anos depois de eu ter argumentado que o mundo é plano, a tecnologia e outras forças avançaram e nos levaram, como argumentou Dov Seidman, fundador do The HOW Institute for Society, de interconectados para interdependentes, ou como ele coloca, de plano para "entrelaçado".

Você podia se desconectar do mundo plano. Não há como escapar do mundo entrelaçado. Agora todos vamos todos prosperar ou fracassar juntos.

Isso não acontece apenas porque os avanços na internet, smartphones, fibra óptica, satélites e comunicação sem fio nos fundiram tecnologicamente mais do que nunca. É também porque um conjunto de desafios em escala planetária fundiu nossos destinos mais do que nunca. Esses desafios são tão amplos em escopo e tão indiferentes às fronteiras nacionais que nenhum Estado isolado, por mais poderoso que seja, pode enfrentá-los ou escapar deles sozinho.

Sabemos quais são: mitigar as mudanças climáticas, prevenir a proliferação de armas nucleares e biológicas, gerenciar migrações globais, controlar pandemias, manter as cadeias de suprimentos globais das quais todos dependemos funcionando sem problemas e —mais importante e imediato— gerenciar essa nova espécie de IA que conjuramos.

Conseguimos adiar ou nos virar com colaboração limitada em muitas dessas questões de escala planetária, mas o tempo acabou no que diz respeito aos poderes de ciberataque da IA. Não dá mais para empurrar esse problema com a barriga. Não há mais estrada.

Por anos, observa Craig Mundie —ex-chefe de pesquisa e estratégia da Microsoft e meu tutor e parceiro em pensar sobre essa nova ameaça de IA— EUA e China regularmente cutucaram e testaram um ao outro, e incorporaram infraestrutura de malware e roubaram informações um do outro com operações cibernéticas secretas.

Mas eles também sabiam, observou Mundie, que se a China derrubasse nossas redes elétricas, poderíamos derrubar as deles, e que se eles pudessem apagar as luzes em Washington, poderíamos fazer o mesmo em Pequim. É o mesmo que com armas nucleares: "Eles recriaram a destruição mútua assegurada", disse Mundie.

Mas agora adivinhe quem vem para o jantar? Um novo conjunto de atores, potencialmente muito perigosos, e não são apenas países. No entanto, podem ameaçar a ambos.

Esses são os sistemas de IA autônoma recentemente divulgados pela Anthropic e OpenAI que poderiam dar ferramentas a pequenos ciberatacantes para perturbar tanto a economia da China quanto a nossa —e a de qualquer outro— com muito pouco dinheiro e praticamente nenhuma expertise. Pode apostar que outros modelos americanos, como o Gemini do Google, e em breve os modelos de IA da China, oferecerão os mesmos poderes.

A Anthropic e a OpenAI dizem que seus modelos mais recentes são tão potentes em encontrar e explorar falhas em software que ambas as empresas optaram por limitar sua distribuição por enquanto. Mas é apenas uma questão de tempo até que escapem para o mundo, se é que já não escaparam.

"Isso deveria ser um grande motivador para os dois países se unirem —mesmo que apenas nessa questão específica, que agora é um perigo claro e imediato para ambos", argumenta Mundie.

Não é pedir o impossível. China e EUA conseguiram cooperar nos dias de Nixon e Mao, concluiu Mundie, "porque tínhamos um problema em comum, a União Soviética. Bem, agora temos outro problema em comum. Não é outro país, é uma tecnologia —os riscos emergentes de ciberameaças assimétricas de sistemas de IA autônoma".

O antigo G2, EUA e China, precisa trabalhar com o que chamarei de novo I7 —Anthropic, Google/Alphabet, OpenAI, MetaAlibaba Group, DeepSeek e ByteDance— para descobrir uma forma de obter o melhor desses novos modelos de IA enquanto se protegem contra o pior. Os governos não conseguem resolver isso sozinhos, e as empresas também não.

Em um desenvolvimento que recebeu pouca atenção por causa da guerra com o Irã, Trump está supostamente considerando impor supervisão sobre modelos de IA antes de serem disponibilizados publicamente.

Isso é muito sábio da parte de Trump. As pessoas precisam acordar: estamos entrando em um mundo no qual empresas privadas agora podem, na prática, dividir o átomo, em termos do poder que podem liberar em todas as direções.

"E assim como dividir o átomo, você pode fazer eletricidade ou bombas", disse Mundie. O mesmo vale para a IA autônoma. "Temos o poder de fazer um bem ilimitado ou criar armas —armas enormemente assimétricas".

Espera-se que o tema da IA esteja na agenda Trump-Xi. O que realmente tornaria esta a cúpula EUA-China mais significativa desde Mao e Nixon não é apenas que os dois homens conversem sobre isso, mas que decidam trabalhar juntos nisso —agora. Depois será tarde demais. Está vindo rápido demais.