domingo, 16 de agosto de 2026

Gado brasileiro bate na cerca da China, mas pode pastar nos EUA, Marcos de Vasconcellos, FSP

 Enquanto o governo brasileiro decide como vai aplicar reciprocidade à injustificável sobretaxação de nossos produtos pelos Estados Unidos, o agro nacional discute como contornar um "tarifaço" do outro lado do mundo.

A carne bovina ficou fora das novas taxas impostas por Donald Trump, mas agora enfrenta algo ainda pior, vindo de Xi Jinping: uma tarifa que pode saltar de 12% para 67% da noite para o dia.

A barreira chinesa subirá assim que atingirmos a cota de 1,106 milhão de toneladas desembaraçadas naquele país neste ano. Na última semana, o Ministério do Comércio da China informou que o Brasil já havia preenchido 90% do limite.

Operação do Ibama contra gado ilegal no Amazonas e no Pará
Operação Carne Fria 2, do Ibama, em 2024, mirou frigoríficos e fazendas que comercializaram gado criado em áreas embargadas por desmatamento ilegal; filial da JBS foi alvo - Divulgação/Ibama

Olhando os dados daqui, realmente aceleramos o envio de carne para o mundo. Segundo a Abiec, associação do setor, o Brasil exportou 1,7 milhão de toneladas no primeiro semestre e faturou US$ 9,85 bilhões. A China respondeu por quase metade dessa receita. Foi justamente esse sucesso que ampliou a vulnerabilidade.

Como quase 1 milhão de toneladas já havia entrado no mercado chinês no início de agosto, os frigoríficos reduziram os embarques. Em julho, as vendas à China caíram 47% na comparação anual.

Enquanto os embarques para a China são travados, seu maior rival pode ter apetite para colocar mais carne brasileira no prato. O rebanho dos Estados Unidos caiu para 86,2 milhões de cabeças, o menor patamar desde 1951, e o país deverá importar cerca de 2,75 milhões de toneladas neste ano.

Os balanços de JBS, MBRF e Minerva, divulgados na última semana, dão pistas sobre o que vem pela frente. Quem depende mais do boi está no centro da turbulência.

A JBS alcançou receita recorde de US$ 23,9 bilhões, mas terminou o trimestre com prejuízo de US$ 102 milhões. Nos Estados Unidos, o custo do gado subiu mais do que o preço da carne. No Brasil, onde as exportações ajudaram a sustentar o negócio, a receita avançou 28%.

A Minerva também mostrou que vender mais não significa ganhar mais. A receita chegou a R$ 14,1 bilhões, mas o lucro caiu 57%, para R$ 197 milhões. Seu Ebitda —indicador que mostra quanto a atividade principal rendeu —recuou 5,5%. A empresa também gastou mais para formar estoques, aumentando a preocupação com sua geração de caixa.

A MBRF apareceu melhor na foto. Mesmo com queda no lucro, vendeu volume recorde e ampliou em 5,4% o mesmo indicador operacional. A vantagem veio da diversificação entre carne bovina, aves, alimentos processados e diferentes países. Quando uma parte sofre, as outras ajudam a equilibrar o resultado.

A diferença foi notada pelos investidores. Até a tarde de sexta-feira, enquanto o Ibovespa caía 4,2% na semana, a MBRF subia 2,6%. A JBS, negociada em Nova York, recuperou-se

da queda após o balanço e avançava cerca de 1%. A Minerva chegou a despencar quase 10% na quinta-feira, mas reduziu a perda semanal para 3,9%.

Os grandes investidores sabem que não basta olhar tamanho, faturamento ou produção. Uma empresa concentrada em um único país ou proteína pode ganhar mais quando o cenário ajuda, mas sofre o dobro quando uma porta se fecha.

Casas Bahia tem prejuízo de R$ 10,1 bi e avalia pedir recuperação extrajudicial ou judicial, FSP

 

São Paulo

A rede de varejo Casas Bahia disse neste domingo (16) que avalia uma renegociação de suas dívidas com credores, o que pode incluir um novo pedido de recuperação judicial ou extrajudicial, depois de um período marcado por fechamento de lojas, demissões e baixas contábeis.

O anúncio vem após um trimestre em que a empresa teve um prejuízo de R$ 10,1 bilhões, ante uma perda de R$ 555 milhões em igual período do ano passado. Com isso, o patrimônio líquido da Casas Bahia está negativo em R$ 8,1 bilhões. Isso significa que, se a varejista vender tudo aquilo que possui em bens e direitos a receber, ainda ficarão faltando bilhões para pagar credores.

"Dentre as medidas avaliadas pela companhia e passíveis de potencial implementação estão medidas de reorganização formal de seus passivos e obrigações, incluindo possível nova recuperação extrajudicial ou recuperação judicial", afirmou a varejista na divulgação dos resultados financeiros do segundo trimestre.

A companhia já recorreu ao instrumento anteriormente. Em abril de 2024, a varejista entrou em recuperação extrajudicial, com dívidas de R$ 4,1 bilhões, e saiu três meses depois.

Fachada da loja Casas Bahia com a porta metálica fechada e coberta por grafites. Grades pretas protegem a entrada. Um homem caminha na calçada carregando sacolas plásticas. A cena ocorre durante o dia em área urbana.
Fachada de loja das Casas Bahia fechada no Calçadão de Osasco, na zona oeste de São Paulo, neste sabádo (15) - Aloisio Mauricio/Fotoarena/Folhapress

A dívida líquida da empresa ficou em R$ 1,2 bilhão no trimestre encerrado em junho.

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A Casas Bahia disse que o prejuízo líquido se deu por uma série de baixas feitas no balanço: R$ 5,7 bilhões em imposto de renda diferido, ágio, revisões contratuais, reorganização de pessoal e fechamento de lojas.

A empresa afirmou que, em um cenário de juros altos e endividamento das famílias, enxugou o volume de compras de estoque para reduzir seu tamanho. "Comprar de forma estruturalmente menor significa operar em uma escala menor", disse.

A empresa contratada para a auditoria externa da Casas Bahia, a EY, se absteve de dar opinião sobre as demonstrações financeiras do segundo trimestre, citando há uma "incerteza relevante" sobre a capacidade de continuidade operacional da companhia.

O valor de mercado da varejista em Bolsa é de R$ 660 milhões. A Casas Bahia não é mais controlada pela família Klein. Hoje a empresa possui como acionista de referência a gestora Mapa Capital, que assumiu 85,5% do capital da companhia em agosto do ano passado.

FECHAMENTO DE 298 LOJAS E DEMISSÕES

A companhia informou que fechou 298 das 11 mil lojas que possui e que está revisando seu quadro de colaboradores. Segundo informações do jornal Valor Econômico, a varejista demitiu cerca de duas mil pessoas na semana passada.

A Casas Bahia disse que está revisando o seu quadro de colaboradores para ajustá-lo ao novo tamanho da operação, além de contratos, despesas e investimentos, "buscando uma estrutura de custos compatível com o nível esperado de atividade e geração de caixa."

A varejista afirmou ainda que repensará a estratégia comercial dos seus canais digitais para priorizar margem e geração de caixa em vez do crescimento dos volumes de venda ou de categorias que não sejam lucrativas.

OITAVO TRIMESTRE DE PREJUÍZO

Com o prejuízo informado neste domingo, a Casas Bahia registra o seu oitavo trimestre seguido de perdas, em uma trajetória que, segundo analistas, vem se intensificando com os juros altos, que incidem sobre sua elevada despesa financeira, e a inadimplência crescente da população.

Desde a última vez que reportou lucro, no segundo trimestre de 2024, mesmo período em que entrou em recuperação extrajudicial, a varejista acumula resultados negativos que foram aumentando de tamanho.

Se entre o terceiro trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025 a companhia apresentava prejuízos de centenas de milhões de reais, o rombo escalou e ultrapassou R$ 1 bilhão nos períodos que se seguiram, escancarando a crise financeira da empresa.

"O fator determinante para a Casas Bahia estar na situação em que está hoje é o que tem afetado diversas empresas de varejo no Brasil, que é o longo e persistente ciclo de juros reais muito altos", aponta o consultor de varejo Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail.

Uma sequência de números divulgados por varejistas na semana passada indicaram que a desaceleração do consumo e o aumento do endividamento das famílias castigam o setor mais do que o esperado.

O Magazine Luiza registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões no segundo trimestre de 2026, revertendo o lucro de R$ 1,8 milhão registrado um ano antes. A Renner afirmou que não conseguirá bater a meta de vendas que previa para 2026, enquanto a C&A veio com números considerados abaixo das expectativas dos analistas.

"O varejo talvez seja o setor mais penalizado pelo nível elevado dos juros, que permaneceram altos por muito tempo. As famílias continuam bastante endividadas e a concorrência no setor é intensa", afirma Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital.

Serrentino lembra que a taxa básica (Selic), hoje em 14% ao ano, estava em 2% ao ano entre o final de 2020 e início de 2021, e que os juros baixos estimularam muitas empresas do setor a se alavancarem na época.

"O custo de capital era muito barato e havia muita liquidez na saída da pandemia. Mas quando os juros subiram repentinamente e chegaram ao patamar que estão hoje, a estrutura de capital dessas companhias passou a não suportar mais os seus modelos econômicos, que são negócios de baixas margens e muita competição", avalia Serrentino.

Ruy Castro , O crime nos trinques, FSP

 

De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com as toneladas de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha.

A pergunta tem a ver com os filmes americanos, novos ou clássicos, em que os gângsteres dos anos 1920 se vestem bem, moram em belos apartamentos e têm sempre uma loura decotada à mão. E, se você pensa que isso é coisa de cinema, saiba que é verdade —eles gostavam de se tratar.

É verdade que, no começo, não era assim. Os gângsteres surgiram com a Lei Seca, em 1920, e, enquanto se limitavam a vender gororobas fabricadas em banheiras, eram esculhambados como os nossos. Mas eles logo tomaram também a prostituição, os speakeasies, as casas de jogo e até o show business —cantores, músicos, night-clubs, tudo ficou nas mãos deles. E, então, a começar por Al Capone, vieram os ternos bem cortados, os chapéus de feltro, a pérola na gravata, as abotoaduras de ouro, as metralhadoras último tipo.

Nossos traficantes hoje superam aqueles gângsteres em dinheiro e poder. Por que, então, continuam a parecer pés-de-chinelo? Você dirá que os verdadeiros chefões do crime organizado são os magnatas, que moram nas mansões de luxo e não sabemos quem são. Mas, no americano, era a mesma coisa. Os bacanas não apareciam, e os famosos, como John Dillinger, Pretty Boy Floyd, Baby Face Nelson, Machine Gun Kelly e outros, eram como o nosso segundo escalão, só que nos trinques.

Nos trinques ou não, não adiantou. Quando o FBI desbaratou o comando, fechando a torneira econômica, eles tiveram de trocar seus ternos risca-de-giz pelo pijama listrado ou de madeira.