quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Contra vício digital, neurocientista propõe vetar telas a crianças de até 6 anos, FSP

 Samuel Fernandes

SÃO PAULO

Jovens entre 13 e 18 anos usam aparelhos digitais para fins recreativos por aproximadamente sete horas e meia por dia. Para uso escolar, no entanto, o tempo médio se resume a uma hora.

Dados como esses chamam a atenção de Michel Desmurget, neurocientista e diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França, e estão presentes no seu novo livro, "A Fábrica dos Cretinos Digitais: Os Perigos das Telas para as nossas Crianças" (Editora Vestígio).

Na obra, o neurocientista trata dos perigos que o mundo digital traz para o processo de aprendizado em crianças e adolescentes e defende a diminuição do uso de aparelhos tecnológicos, abordando sete passos que poderiam ajudar nesse processo.

Criança lê sobre filme da franquia Star Wars em celular, em Los Angeles, nos EUA - Frederic J. Brown - 20.out.15/AFP

"Como mostra o conhecido programa Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos, na sigla em inglês), por exemplo, quanto mais um sistema educacional investe em tecnologias digitais, pior é o desempenho acadêmico de seus alunos em matemática, linguagem e ciências", afirma Desmurget em entrevista por email à Folha.

O autor defende que os produtos com telas digitais são utilizados por jovens principalmente para fins recreativos e pouquíssimo para estudo. Conteúdos audiovisuais, como filmes, séries e reality shows, figuram em primeiro lugar na ordem de consumo, seguidos por videogames e, na adolescência, pelas redes sociais.

"Os usos da tela para o dever de casa representam apenas uma fração marginal do tempo total de tela", afirma.

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O hábito acarreta problemas para o processo de aprendizagem, como déficit de atenção, distúrbios de concentração e impulsividade que diminuem o desempenho escolar dos jovens.

Um estudo realizado na Inglaterra chegou à conclusão de que o consumo digital impactava negativamente as notas dos estudantes de um exame realizado para certificados de conclusão do ensino médio.

Segundo a pesquisa, a adesão a mídias digitais em uma hora por dia durante os 18 meses anteriores do exame já reduziria o desempenho dos alunos quando comparado ao não uso dos aparelhos.

Esse cenário de produtos digitais com uso exacerbado para fins recreativos piorou ainda mais com a Covid-19. "A pandemia não modificou esse desequilíbrio [entre mais horas para lazer e poucas para estudo]. Muito pelo contrário, enquanto os usos escolares aumentaram, o uso recreativo explodiu", diz.

A crise sanitária do coronavírus também ratificou outros problemas do ensino digital, como o fato de que poucos têm acesso a equipamentos tecnológicos de qualidade, o que pode causar aprofundamento de desigualdades sociais.

Para Desmurget, o fechamento das escolas desde o ano passado foi um desastre e uma tática dos governos "para economizar dinheiro substituindo o tempo humano, caro e qualificado, por tempo de computador, barato e automatizado".

A desvalorização dos professores, inclusive, é um ponto abordado no livro —o autor argumenta que a escassez de mão de obra qualificada entre profissionais da educação é uma das razões do crescimento do ensino digital.

"Em muitos países, a escassez de professores qualificados é brutal (...). O ensino digital resolve esse problema", afirma.

No entanto, esta substituição de profissionais da educação por instrumentos tecnológicos é uma tentativa inadequada, já que exemplos demonstram que a educação presencial com professores ainda se motra superior ao ensino digital.

Ele cita o caso da França, onde reside. O país reabriu suas escolas poucas semanas depois da suspensão das aulas presenciais porque, mesmo com os investimentos que envolveram milhares de euros para a implementação do ensino digital, percebeu-se que o fechamento das escolas tinha sido um grande fracasso pedagógico, segundo o neurocientista.

Outra crítica de Desmurget se volta à ideia de "nativos digitais".

O termo se refere à geração que nasceu imersa no universo tecnológico e, por isso, teria capacidades cognitivas mais adaptadas a essas tecnologias. Para ele, trata-se de uma falácia, uma vez que não existem evidências científicas que confirmem isso.

Segundo o autor, há, entretanto, pesquisas que sustentam que grande parte das pessoas mais velhas consegue se adaptar plenamente a ferramentas digitais. Portanto, o desenvolvimento de habilidades para utilizá-las não se reserva aos mais jovens.

Outro exemplo utilizado para rebater o argumento de "nativo digital" também está relacionado a pesquisas. Surgiram estudos que sugeriam o aumento do cérebro de jovens jogadores de videogame em comparação ao de quem não jogava, o que ratificaria a ideia de uma superioridade de "nativos digitais".

Imagem em preto e branco de um homem calvo e vestindo uma roupa preta.
Michel Desmurget, neurocientista e diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França - Benoît Prieur

Desmurget, o entanto, afirma que "‘um cérebro maior’ não constitui um indicador confiável de inteligência" porque qualquer operação que uma pessoa faça repetidamente pode resultar no aumento cerebral.

O neurocientista cita uma pesquisa que relacionou o uso de videogames e televisões com a diminuição da capacidade de memorização. Nesse estudo, jovens de 13 anos receberam a tarefa de aprender uma lista de palavras. Depois, foram divididos em três grupos: um assistiria a um filme na televisão; outro jogaria videogame; e o terceiro cumpriria qualquer atividade com exceção das duas últimas.

No outro dia, mensurou-se a quantidade de palavras esquecidas pelos integrantes de cada um dos grupos. O resultado: o que jogou videogame foi o que mais esqueceu os elementos, seguido daquele que assistiu ao filme.

Mesmo com suas críticas, o trabalho de Desmurget não é totalmente contra o uso de recursos tecnológicos por crianças e adolescentes. "É óbvio que os alunos precisam aprender algumas habilidades básicas de informática (codificação, uso de software de escritório, lidar com privacidade de dados etc.)."

Para lidar com a situação e modificar o panorama de tempo dedicado a aparelhos digitais, o autor afirma que "a primeira (principal) etapa é envolver as crianças e, se possível, obter seu acordo sobre uma série de regras fundamentais."

Nesse caso, o autor sugere sete regras que poderiam reverter o quadro viciante ao qual jovens estão submetidos.

A primeira delas é a suspensão total das telas para crianças com menos de seis anos. "A ausência de exposição digital durante os primeiros anos da vida não provoca nenhum impacto negativo a curto ou longo prazo," afirma o especialista no livro.

As outras seis iniciativas seriam para crianças com mais de seis anos e envolvem tempo médio de uso entre 30 e 60 minutos de aparelhos com telas digitais, uso de um aparelho por vez, proibição de conteúdos inapropriados para menores, não utilização de dispositivos nos quartos, antes de dormir e antes de ir à escola.

Mais do que somente aplicar essas ações, segundo o autor, é importante envolver os jovens para que entendam que "as regras não têm o objetivo de puni-las ou frustrá-las."

Prova disso, diz Desmurget, são estudos realizados sobre como crianças e jovens normalmente seguem as regras quando entendem por que são aplicadas.

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior do texto afirmava que o livro "A Fábrica dos Cretinos Digitais" foi lançado pela Editora Autêntica, mas ele é da Editora Vestígio.

Maria Hermínia Tavares - O candidato Sergio Quadros de Mello vem aí, FSP

 

Sergio Moro vem aí. Deu o aviso de seu regresso ao Brasil e à política na cerimônia em que assinou a ficha do Podemos e fez praça de discursar para o país, anunciando que está de volta para retomar a cruzada contra a corrupção e combater a "degeneração da vida pública" promovida pelos que colocam "interesses pessoais e partidários" acima de tudo.

Sua fala o situa na mais autêntica tradição da direita populista que, de tanto em tanto, irrompe na cena nacional, de espada em punho contra os partidos e todo o sistema político: Jânio Quadros com sua vassourinha para "varrer a bandalheira"; Fernando Collor de Mello denunciando os "marajás"; e, por último, Jair Bolsonaro esbravejando "contra tudo isso daí".

O ex-juis e ex-ministro da Justiça Sergio Moro - Pedro Ladeira - 24.abr.2020/Folhapress

Variando em torno do mesmo tema, apresentaram-se como não políticos, embora tivessem todos longas carreiras durante as quais pularam de legenda em legenda conforme, aí sim, seus "interesses pessoais e partidários".

Foram sobretudo hábeis em explorar o desamparo dos eleitores e sua descrença em governos e siglas. A corrupção na política —que realmente existiu, existe e desnatura a democracia— tem enorme potência simbólica e apelo eleitoral. Aos olhos das gentes, escancara a imensurável distância entre as oportunidades e formas de vida das elites políticas e as do cidadão comum.

Não se conhecem medidas efetivas de qualquer espécie para combater esse grande mal da política que tenham sido tomadas pelos cruzados da fronda anticorrupção alçados ao poder. E é sintomático que, depois de tanto tempo dedicado à tarefa, Sergio Moro, nos 49 minutos de sua alocução, não tenha apresentado uma única ideia valiosa sobre o que faria caso lhe fosse dada a oportunidade de agir —a não ser retomar a controversa proposta de prisão para os condenados em segunda instância.

Charge Leandro e Triscila publicada na Folha no dia 17 de novembro de 2021.Nela dois homens de terno preto, camisa branca e gravata azul, usam um chapéu cartola, o homem da esquerda está com um charuto na boca. Ao centro um manequim de terno, está sem a cabeça, o homem da esquerda segura com a mão direita a cabeça do manequim que é rosto do presidente Jair Bolsonaro e diz “ Essa terceira via vai ficar lindona, o homem da direita  que está segurando com as duas mãos a cabeça do manequim, do Sérgio Moro, que está em movimento para colocar, diz o que?.
Charge de Leandro e Triscila publicada na Folha em 17 de novembro de 2021 - Folhapress

A retórica da antipolítica, embelezada pela denúncia da corrupção supostamente generalizada na vida pública, é boa para ganhar votos, mas inútil para criar capacidade de governar. Não por acaso foram abreviados os mandatos de Quadros e Collor, enquanto Bolsonaro permanece porque arrimado no que de pior nosso sistema político produziu.

É sintoma do desgaste do ex-capitão que venha perdendo apoio entre aqueles que, por oportunismo eleitoral em estado bruto ou rejeição ao PT, contribuíram para elegê-lo. A volta de um Moro antibolsonarista —de fala mansa e propostas frouxas— é disso a melhor prova. Mas que tenha voltado para ser mais um populista com redação própria diz muito sobre a qualidade da nova liderança de direita que o ex-juiz aspira a exercer.


Ruy Castro - Ele sabe quando e para quem mentir, FSP

 

O show se repete. Em Dubai, nesta segunda-feira (15), Jair Bolsonaro declarou, num evento para empresários e investidores, que são injustas as acusações de que seu governo está desmatando, queimando e destruindo a Amazônia. A floresta é úmida e não pega fogo, ele disse, e mais de 90% dela continuam intactas. As plateias de fora já não têm paciência para com Bolsonaro, mas ele continua achando que pode mentir à vontade. Sua cara de pau, sim, não pega fogo.

Entre nós, ainda há quem acredite que Bolsonaro mente por compulsão e já não sabe o que é mentira ou não. Não caia nessa. Ele não apenas sabe como sabe bem para quem e quando mentir. Ao mentir para os microfones internacionais, apenas finge se esquecer de que a maioria dos países tem gente séria no Brasil trocando informações, dados e projeções e mandando seus relatórios para a matriz.

Bolsonaro sabe que seus ouvintes em Dubai só botarão dinheiro em países confiáveis. Foram ali para fazer negócios, não turismo, e não têm tempo a perder com um palhaço. Eles sentem o cheiro de queimado e o cheiro de Bolsonaro, e isso é mais do que suficiente para fazê-los retirar seus investimentos e manter distância do Brasil.

Bolsonaro sabe também que eles não acreditam numa palavra dele, mas isso não o altera. Mesmo em Dubai, ele fala para os papalvos que, despejando copiosa baba, vão ouvi-lo nos cercadinhos e para os news-fakers que multiplicarão seus despautérios pelas redes sociais. O mundo é só um palanque para o político de baixo clero que ele nunca deixou de ser e cujo único objetivo é se sustentar no cargo, mesmo que para isso quebre o país.

Bolsonaro deve acreditar que os 58 milhões que o elegeram continuam-lhe cativos, sem perda de um voto. Ou então acha que não precisa mais deles porque, ganhando ou perdendo em 2022, se garante com os fardados, do guarda da esquina aos generais, que continua a pôr literalmente no bolso.