quarta-feira, 18 de julho de 2018

Lula e a geringonça brasileira, FSP

Petista talvez fosse capaz de unir a esquerda, mas parece preocupado demais com a própria biografia

 
 
A distribuição político-ideológica dos candidatos à Presidência tem ares de déjà-vu para a esquerda paulistana. 
No último pleito, Fernando Haddad (PT), Luiza Erundina (PSOL) e Ricardo Young (Rede) —e, vá lá, Marta Suplicy, ex-PT e então candidata do MDB— dividiram este eleitorado. 
E assistiram à vitória do discurso antipolítico de João Doria (PSDB) já no primeiro turno.
Ainda que a somatória de seus votos não fizesse sombra aos 53,3% que elegeram o neotucano, será que uma aliança não teria melhores chances?
Foi isso o que, segundo o sociólogo Boaventura Sousa Santos, levou a esquerda de volta ao poder em Portugal, num contexto europeu em que conciliações costumam ocorrer entre centro e direita.
“As esquerdas estavam divididas, mas decidiram se juntar a partir de convergências mínimas para não serem governadas pela direita novamente. Essa coisa extraordinária foi apelidada pejorativamente de ‘geringonça’, nomenclatura que passamos a adotar com orgulho”, disse o português à Folha.
Em 2018, quando de novo o campo da esquerda se divide, a geringonça portuguesa sugere estratégia oposta à de pulverizar votos entre Lula (PT), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT), Manuela D’Ávila (PC do B) e Guilherme Boulos (PSOL).
ex-presidente lidera pesquisas mesmo preso na sede da Polícia Federal em Curitiba, com 30% das intenções de voto —mais que a soma dos eleitores de Marina, Ciro, Manuela e Boulos. Em segundo lugar, vem crescendo Jair Bolsonaro (PSL), com 19%. 
 
A participação de Lula no pleito é, no entanto, improvável, ainda que sua condenação seja apontada como rápida e severa demais diante de outros políticos investigados.
Carismático e personalista, Lula talvez fosse capaz de compor a geringonça brasileira, mas parece preocupado demais com a própria biografia para articular um movimento do qual pode não ser protagonista ou para apontar um sucessor com tempo de se fazer conhecer pelos lulistas.
 
Fernanda Mena
Jornalista, foi editora da Ilustrada. É mestre em sociologia e direitos humanos pela London School of Economics.
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terça-feira, 17 de julho de 2018

Deputados tocam projetos que favorecem empresas de suas famílias, FSP

A bancada empresarial está com a produtividade em alta na Câmara. Sem pudores, deputados que são donos de negócios em seus estados tomaram as rédeas de projetos e emendas que beneficiam firmas de suas próprias famílias.
Nelson Marquezelli (PTB-SP) não demonstrou constrangimento ao apresentar uma emenda que anistiava multas aplicadas na paralisação dos caminhoneiros. Ele é dono de uma frota de 120 caminhões que distribui produtos da Ambev.
Marquezelli negou conflito de interesses e disse que a empresa não pertence a ele, mas aos filhos —como se isso amenizasse o favorecimento. De todo modo, Michel Temer deve vetar a emenda.
Ninguém disse a João Arruda (MDB-PR) que seria má ideia relatar a Lei de Licitações, que exige de empreiteiras seguro-garantia de 30% dos grandes contratos com o poder público. O sogro de Arruda, veja só, é dono da JMalucelli Seguradora.
“Não posso abrir mão da minha função parlamentar por conta do sucesso empresarial do meu sogro”, justificou Arruda. O deputado não foi o autor desse trecho do projeto, que saiu do Senado, mas fala como se a escalação de outro relator para o texto fosse uma perda irreparável.
Os exemplos são variados. O projeto que flexibiliza o uso de agrotóxicos foi apresentado em 2002 por Blairo Maggi (PP-MT), bilionário da produção rural. O relator na Câmara é Luiz Nishimori(PR-PR), cuja família toca uma empresa agrícola que, no passado, vendia agrotóxicos.
O deputado Newton Cardoso Jr. (MDB-MG) relatou e ajudou a aprovar um programa de refinanciamento de dívidas de contribuintes, no ano passado. Em seguida, aderiu ao parcelamento com duas empresas.
Os parlamentares negam estar em busca de benefícios. Ninguém quer impedi-los de exercer seus mandatos, mas eles deveriam seguir a regra de impedimento dos juízes. Basta recusar o comando e a relatoria de processos que podem render ganhos financeiros particulares —em geral, às custas dos cofres públicos.


    Bruno Boghossian
    Jornalista, foi repórter da Sucursal de Brasília. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA).