segunda-feira, 13 de julho de 2026

O banheiro como política pública, FSP

  

Renê de Castro

Arquiteto e urbanista, fundador e diretor da Vermelho Arquitetura e Urbanismo; passou pelo Habitat para a Humanidade Brasil e pela Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo

O Brasil ainda convive com um déficit habitacional que ultrapassa 8 milhões de moradias. Em muitos casos, o resultado da falta de habitação digna significa famílias vivendo sem saneamento básico, em casas precárias e sem banheiro adequado. Essa realidade impacta diretamente a saúde, a segurança e a qualidade de vida, principalmente nas periferias. É latente a necessidade de políticas públicas de todos os governos —federal, estadual e municipal— para consolidar o direito à moradia, previsto na Constituição brasileira.

Diante desse cenário, o Diário Oficial da União publicou, nas últimas semanas, o resultado de um chamamento da Secretaria Nacional das Periferias, vinculado ao Ministério das Cidades, para obras de melhorias habitacionais, com foco em banheiros. O edital faz parte do Programa Periferia Viva, que busca erradicar a falta de infraestrutura básica em casas em locais considerados vulneráveis. São mais de 30 mil domicílios beneficiados em 130 municípios de todo o Brasil, com até R$ 40 mil em verba máxima para cada residência contemplada.

Banheiro simples com paredes de madeira com frestas, vaso sanitário de plástico marrom à direita, baldes e recipientes no chão, e toalha pendurada na parede à esquerda.
O banheiro em uma casa de palafita às margens do rio Tucunduba (PA), sem acesso a saneamento básico 08.ago.2024 - Alessandro Falco/Folhapress

Mais do que pequenas reformas em casas, esse tipo de iniciativa melhora condições básicas de moradia e fortalece políticas de habitação de interesse social. O programa mostra que investir em melhorias habitacionais não é caridade nem ação pontual: é política pública estruturada, com impacto direto na vida das famílias atendidas.

Agora começa a etapa mais importante: a execução. O desafio é garantir obras bem feitas, compatíveis com a realidade das comunidades, usando a experiência acumulada ao longo dos anos de atuação de arquitetos e urbanistas pelo país. O resultado do programa não depende apenas da seleção das propostas, mas da qualidade da entrega e do compromisso com as famílias atendidas.

O que está em jogo não é apenas a execução de reformas, mas a capacidade de demonstrar que políticas de melhoria habitacional funcionam quando há planejamento, responsabilidade técnica e compromisso com a realidade das comunidades. Cada projeto entregue com qualidade fortalece a defesa de novos investimentos e amplia a presença do Estado onde ela ainda é mais necessária.

A atuação em periferias exige escuta, presença e soluções técnicas adequadas à realidade local. Quando projetos são realizados com qualidade, ajudam a consolidar a arquitetura e o urbanismo como ferramentas importantes para melhorar as condições urbanas e ampliar o alcance das políticas públicas.

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As conquistas institucionais são importantes, mas o que realmente sustenta esse trabalho é a continuidade. Muita gente atuou por anos, muitas vezes longe dos holofotes e em territórios historicamente negligenciados pelo poder público, e é essa experiência prática que precisa continuar orientando os próximos passos.

Como resume a arquiteta Socorro Leite, diretora-executiva do Habitat para a Humanidade Brasil, "agora é o momento de trabalharmos, fazer o melhor trabalho possível e mostrar que funciona". Porque, afinal, não é apenas sobre o banheiro. É sobre dignidade, respeito, oportunidade e políticas públicas para quem mais precisa delas.

Ruge um tigre de papel - Muniz Sodré - FSP

 Fato patibular não é só que os colombianos tenham elegido um presidente de extrema direita, mas que Abelardo de la Espriella seja um outsider da política e da realidade do país, terceira economia sul-americana, fornecedor de dois terços da cocaína consumida no mundo. Advogado, empresário, milionário, com dupla nacionalidade (colombiana e americana), residente entre Florença e Miami, em meio a rumores de ligação com a CIA, ele atraiu multidões a seus comícios com camisa amarela da seleção, rugindo como um tigre. Citando Trump, Bukele e Milei para garantir que pode administrar o Estado como uma empresa, diz que, em seu governo, "bandido que não se submeter será abatido".

De empresa e bandidagem, "O Tigre", como se intitula, sabe muito. Defendendo com sucesso nos tribunais astros de futebol paramilitares, narcotraficantes e políticos corruptos, ele acumulou fortuna suficiente para abrir a loja "De la Espriella Style", onde comercializa marcas próprias, desde rum e vinho até camisas e lenços de seda para "defensores da pátria". Aos criminosos comuns, acena com medidas duríssimas: prisioneiros confinados em megapresídios de dez andares abaixo da terra e alimentados "a pão e água". Antes, tinha prometido "estripar a esquerda".

Homem de cabelo curto e barba faz saudação com a mão direita na testa. Ele veste camiseta amarela com detalhes vermelhos e escudo no peito, com a frase 'FIRME PELA PÁTRIA'. O funda é escuro.
O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, durante encontro com apoiadores em Barranquilla - Juan Barreto - 22.jun.26/AFP

Venceu por um ponto de diferença. Para entender o fenômeno, é preciso considerar o cansaço dos colombianos com a progressão da violência e do crime organizado. Levaram a sério o rugido de Espriella, enquanto outros ouviam apenas miado de gato. Daí a oportuna distinção entre povo republicano e massa, numa escala de conscientização civil que pode decrescer até a estupidez terminal. Índice máximo da pior forma de iletramento, segundo Bertolt Brecht: o analfabetismo político. E, no entanto, são bons, comparados à média sul-americana, os índices de leitura livresca na Colômbia.

Mas não tem a ver com leitura. Há elementos no avanço internacional da ultradireita que reescrevem o mito fascista do "homem novo" na forma do outsider da política, assim como o estupor estático diante de líderes carismáticos por admiração a personagens com discursos esdrúxulos. Não mais ritos de união mística do chefe com a multidão nem dramatizações simbólicas de unidade nacional por meio da liderança. O mote direitista de regeneração da política não resiste à degeneração de caráter dos militantes.

A nova massa se reconhece na videogenia de aplicativos como Instagram e TikTok, adequada a caricatos fac-símiles humanos tipo Trump, Milei, Bukele, Bolsonaro. Um reencena Nero como imperador do mundo; outro é cantor de rock, assessorado por cachorros mortos; outro, presidente de presídios, após acordos secretos com as facções; aquele outro, já encarcerado, era bufão do golpismo permanente. Na Colômbia, um showman no papel de tigre.

A escola americana de espiões, Helio Schwartsman, FSP

 

São Paulo

"The American School of Spies", de Stephan Talty, tem algo de Indiana Jones. Não costumamos pensar a Grécia como um dos principais teatros de operações da Segunda Guerra Mundial, mas a ocupação nazista ali foi brutal. Estima-se que 5% da população grega tenha perecido direta ou indiretamente no conflito.

Os americanos despacharam dois grupos de agentes para terras helênicas. O primeiro era composto por voluntários greco-americanos, que dominavam o idioma e se passavam por locais. Seu objetivo era reunir informações sobre tropas alemãs e juntar-se à Resistência Grega em missões de sabotagem, coordenando tudo com as forças regulares dos aliados.

O segundo grupo, apelidado de Divisão Grega, era formado por arqueólogos, classicistas e epigrafistas. Eles eram liderados por Rodney Young, sob comando do general William J. Donovan, o primeiro chefe do OSS, a agência precursora da CIA. Young era um arqueólogo de família riquíssima e cultivada, terceira geração de Princeton. O grupo que ele reuniu tinha perfil semelhante. Eram em sua maioria homens, Wasps, ricos e eruditos. Um deles está entre os últimos pós-graduandos de Harvard a ter entregado sua dissertação em latim.

Homem com chapéu e jaqueta escreve em caderno próximo a artefatos gregos antigos, incluindo vaso, busto e relevo. Ao fundo, dois soldados nazistas conversam diante de bandeira com suástica e o Partenon no topo da colina.
Ilustração de Annette Schwartsman para a coluna de Hélio Schwartsman - Annette Schwartsman

A missão do grupo era ajudar os gregos a salvar seu patrimônio arqueológico das garras dos nazistas. Os próprios argivos iniciaram esse processo antes da invasão, enterrando os tesouros em locais secretos. Mas era preciso mantê-los escondidos e tentar preservar o que não fora enterrado. Os nazistas saquearam a Europa inteira, mas as peças gregas corriam risco especial, já que pelas ideias delirantes de Himmler, os aqueus eram originalmente arianos, de modo que seus sucessores legítimos seriam os alemães.

Talty se concentra em contar as histórias desses dois grupos, mas deixa escapar algumas reflexões mais gerais. É lícito disfarçar agentes secretos de acadêmicos? O antropólogo americano Franz Boas, comentando um caso da Primeira Guerra Mundial, sustentava que não e acusou seu próprio país de "prostituir a ciência" ao fazê-lo.