segunda-feira, 13 de julho de 2026

A escola americana de espiões, Helio Schwartsman, FSP

 

São Paulo

"The American School of Spies", de Stephan Talty, tem algo de Indiana Jones. Não costumamos pensar a Grécia como um dos principais teatros de operações da Segunda Guerra Mundial, mas a ocupação nazista ali foi brutal. Estima-se que 5% da população grega tenha perecido direta ou indiretamente no conflito.

Os americanos despacharam dois grupos de agentes para terras helênicas. O primeiro era composto por voluntários greco-americanos, que dominavam o idioma e se passavam por locais. Seu objetivo era reunir informações sobre tropas alemãs e juntar-se à Resistência Grega em missões de sabotagem, coordenando tudo com as forças regulares dos aliados.

O segundo grupo, apelidado de Divisão Grega, era formado por arqueólogos, classicistas e epigrafistas. Eles eram liderados por Rodney Young, sob comando do general William J. Donovan, o primeiro chefe do OSS, a agência precursora da CIA. Young era um arqueólogo de família riquíssima e cultivada, terceira geração de Princeton. O grupo que ele reuniu tinha perfil semelhante. Eram em sua maioria homens, Wasps, ricos e eruditos. Um deles está entre os últimos pós-graduandos de Harvard a ter entregado sua dissertação em latim.

Homem com chapéu e jaqueta escreve em caderno próximo a artefatos gregos antigos, incluindo vaso, busto e relevo. Ao fundo, dois soldados nazistas conversam diante de bandeira com suástica e o Partenon no topo da colina.
Ilustração de Annette Schwartsman para a coluna de Hélio Schwartsman - Annette Schwartsman

A missão do grupo era ajudar os gregos a salvar seu patrimônio arqueológico das garras dos nazistas. Os próprios argivos iniciaram esse processo antes da invasão, enterrando os tesouros em locais secretos. Mas era preciso mantê-los escondidos e tentar preservar o que não fora enterrado. Os nazistas saquearam a Europa inteira, mas as peças gregas corriam risco especial, já que pelas ideias delirantes de Himmler, os aqueus eram originalmente arianos, de modo que seus sucessores legítimos seriam os alemães.

Talty se concentra em contar as histórias desses dois grupos, mas deixa escapar algumas reflexões mais gerais. É lícito disfarçar agentes secretos de acadêmicos? O antropólogo americano Franz Boas, comentando um caso da Primeira Guerra Mundial, sustentava que não e acusou seu próprio país de "prostituir a ciência" ao fazê-lo.

O dia do futebol arte - PVC FSP

 A CBF divulgou vídeo institucional que começa com um ato falho impressionante para quem usa estratégia de comunicação: "Eu sei o que vocês estão sentindo". Para quem pensou em criar conexão com a torcida, o pronome escolhido não poderia ser pior. A confederação poderia, pelo menos, incluir-se no sentimento geral da nação.

O objetivo da peça publicitária, além de dar satisfação aos patrocinadores, foi anunciar que o próximo ciclo terá mais estabilidade e organização.

Já se tratou das razões da pior campanha do Brasil em Copas nos últimos 60 anos. Parte do roteiro é a troca incessante de técnicos, cinco em quatro anos e meio, presidentes, três em cinco anos, e de jogadores, 95 depois da derrota para a Croácia no Qatar 2022.

Não é só isso.

Os desmandos podem até explicar, mas não justificam a semana que se seguiu à eliminação contra a Noruega.

Carlo Ancelotti foi para sua casa, em Vancouver, no Canadá, em vez de voltar com o grupo ao Rio de Janeiro, onde poderia conceder uma entrevista coletiva em que explicasse o fracasso e projetasse o sucesso nos próximos quatro anos.

Vinicius Junior alugou uma mansão em Ibiza.

Neymar foi para Las Vegas, para jogar pôquer e mostrar ao mundo seu compromisso com uma casa de apostas do baralho, da qual é embaixador cultural, seja lá o que signifique isso quando o assunto é fazer um royal straight flush.

Assim como Neymar, a CBF fez um gol contra. A metáfora é bem mais fácil de compreender do que se alguém dissesse que o ex-craque brasileiro fez um high card, o que quase só ele sabe o que significa, embaixador da nossa tristeza.

A campanha do novo ciclo, o da recuperação do futebol brasileiro, precisa começar pelo respeito ao nosso sentimento. Foi até surpreendente o envolvimento das grandes cidades do Brasil quando a Copa do Mundo se iniciou. Para quem passou a última década ouvindo que ninguém mais liga para a seleção, o país se vestiu de amarelo, e não foi por política, mas por paixão.

Ninguém, num país de 210 milhões de habitantes, é gente demais. Talvez essa frase feita, esse clichê que se criou, de que a seleção já não nos comove, seja verdade na Faria Lima, em São Paulo, ou na Dias Ferreira, no Leblon, mas é difícil estender essa suposta ausência de sentimento e pensar que isso existe do Monte Roraima ao Chuí, norte a sul do Brasil.

A CBF já fez o diagnóstico de que muita gente está interessada na seleção. E, no entanto, comete o ato falho: "Eu sei o que vocês estão sentindo". E você, querido dirigente, não está sentindo nada?

Voltar a ser campeão mundial passa por recuperar a identidade de jogo. A coincidência da data, 5 de julho, da eliminação para a Noruega e da queda no Sarriá, em 1982, poderia nos fazer pensar em por que a seleção não se apresenta ao mundo como Brasil, mas como um time qualquer, que poderia vestir qualquer camisa. O estilo apresentado na Copa poderia ser o da Croácia, do Peru, do Paraguai, da Noruega até.

No dia 5 de julho começa o novo ciclo para sermos "ainda mais fortes", diz a CBF. Ainda mais do que quando? Do que fomos em 1970 ou em 2002? A data poderia ser apresentada como o Dia Mundial do Futebol Arte.

Isso, sim, ajudaria a redesenhar o ciclo para chegar a 2030 como Brasil. Todos nós.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

STF deveria ler Maquiavel, Hélio Schwartsman, FSP

 São Paulo

A grande sacada de Nicolau Maquiavel foi ter separado a política da moral, o que lhe deu liberdade para analisar as relações de poder como elas são e não como gostaríamos que fossem. Não é uma coincidência que ele seja considerado o fundador da ciência política.

Está faltando ao STF ler um pouco de Maquiavel. Se os ministros da corte querem deixar para trás a crise de credibilidade em que se meteram, muito por causa do escândalo do Master, estão fazendo tudo errado.

Seis homens de terno sentados ao redor de uma mesa de reunião, cada um segurando um celular e enviando mensagens de texto com 'Bom dia' acompanhadas de emojis de sol e coração.
Charge de João Montanaro publicada na página A2 do jornal Folha de S.Paulo, em 9 de março de 2026, retrata ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) sentados em silêncio durante reunião, enquanto trocam entre si mensagens de "bom dia" com emojis pelo celular. - João Montanaro/Folhapress

Apesar de poderosas forças em contrário, as apurações da PF sobre as transgressões de Daniel Vorcaro estão avançando. Já são formalmente investigados Ciro Nogueira, Jaques Wagner e Claudio Castro. O "irmão" Flávio Bolsonaro poderá em breve integrar a lista. A PGR pediu para que ele seja incluído entre os investigados. Relatórios da PF também mencionam Hugo Motta, Michel Temer, Guido Mantega e ACM Neto, para citar só alguns dos mais ilustres. Não será uma surpresa se o ministro relator do caso no STF, André Mendonça, em algum momento autorizar diligências contra eles.

Os notórios ausentes são Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que também figuram em posição não exatamente enaltecedora em relatórios da PF, mas que já foram de algum modo previamente exculpados pela PGR, que recusou representações questionando o papel desses magistrados.

Ora, se o núcleo do Judiciário quer de fato superar a crise de credibilidade, deveria ter posto os ministros sob investigação para depois inocentá-los. Ao conceder um amplo habeas corpus preventivo só alimentou as dúvidas. Minha impressão é que os ministros do STF cultivam uma imagem tão elevada de si mesmos que não admitem nem a possibilidade de ser investigados, mesmo que esse seja o melhor remédio para a situação.

O adjetivo "maquiavélico" é injusto para com o pensador florentino. Refletir sob o prisma do realismo político não nos torna necessariamente seres amorais. Deixar-se levar por raciocínios moralizantes e outras formas de militância é que nos leva a não entender o mundo.