quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Ele mudou o mundo dos transplantes de órgãos — e precisou entrar na fila à espera de um coração- OESP

 Por Roni Caryn Rabin (The New York Times)

Pesquisadora explica como a IA pode ajudar a reduzir a espera por transplante de órgão

Capa do video - Pesquisadora explica como a IA pode ajudar a reduzir a espera por transplante de órgão

Ferramenta pode, por exemplo, auxiliar na identificação da compatibilidade entre doador e receptor. Crédito: Jefferson Perleberg (Edição)

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

A primeira vez que entrou em parada cardíaca e morreu, brevemente, Robert Montgomery estava fazendo uma trilha na Patagônia. Ele sentiu o coração disparar enquanto ficava para trás em relação ao filho John e ao guia. Então desabou, de rosto na neve. Passaram-se alguns segundos até que um dispositivo médico implantado em seu peito aplicasse um choque que restabeleceu seus batimentos cardíacos e salvou sua vida.

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Era 2010, e Montgomery, então com 50 anos, se recuperou rapidamente. Mas estava ficando dolorosamente claro que precisava de um novo coração: aquele com o qual havia nascido estava falhando. As chances de conseguir um transplante de coração eram sombrias. Cerca de 50 mil órgãos são transplantados nos Estados Unidos todos os anos, mas os corações são tão raros que os pacientes muitas vezes nem conseguem entrar na lista de espera por um até estarem perto da morte.

Montgomery sabia disso porque ele próprio era cirurgião de transplantes.

Robert Montgomery, da NYU Langone Health, em Nova York. A experiência de esperar pelo próprio transplante de coração expôs os desafios de um sistema que ele passou décadas tentando reformar
Robert Montgomery, da NYU Langone Health, em Nova York. A experiência de esperar pelo próprio transplante de coração expôs os desafios de um sistema que ele passou décadas tentando reformar Foto: Angelina Katsanis/The New York Times

Na época de sua viagem à Argentina, Montgomery chefiava um dos principais centros de transplantes de órgãos dos Estados Unidos, na Johns Hopkins Medicine.

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Quando criança, Montgomery queria ser veterinário. Só reconsiderou a ideia quando, aos 14 anos, seu pai desenvolveu sintomas de cardiomiopatia dilatada. A doença rara faz com que as câmaras do coração se dilatem e aumentem de tamanho e pode levar à insuficiência cardíaca, a batimentos cardíacos irregulares ou arritmias, à parada cardíaca e à morte súbita.

O pai ficou cada vez mais debilitado e, depois de sofrer danos cerebrais causados por uma parada cardíaca, acabou precisando de uma sonda para alimentação.

Quando seu pai morreu, em 1976, Montgomery, então com 16 anos, já havia decidido se tornar médico.

Onze anos depois, ele tinha acabado de começar a residência em cirurgia na Johns Hopkins Medicine quando recebeu o pior telefonema de sua vida. Seu irmão Rich, pai de dois filhos e de 35 anos, havia morrido naquela manhã.

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Os patologistas descobriram que Rich Montgomery também tinha cardiomiopatia dilatada, provavelmente causada por uma mutação genética. Robert Montgomery foi avaliado e descobriu que também tinha a doença.

De repente, sua carreira estava em dúvida. A formação em cirurgia era extenuante, e uma parada cardíaca ou um episódio de desmaio poderia colocar pacientes em risco.

Quando os medicamentos não conseguiram controlar sua arritmia, Montgomery optou por um novo dispositivo médico chamado cardioversor-desfibrilador implantável, ou CDI, capaz de aplicar um choque no coração para fazê-lo voltar ao ritmo normal.

Sem saber se conseguiria concluir a residência, Montgomery e a esposa na época se mudaram para a Inglaterra para que ele pudesse estudar imunologia. Decidiu fazer um doutorado, para o caso de a cirurgia não dar certo.

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Montgomery voltou à Johns Hopkins em 1992. Queria se especializar em cirurgia de transplantes. Sua própria doença era uma enorme motivação.

“Eu não achava que viveria uma vida com duração normal — sabia que precisaria de um transplante de coração ou morreria —, então estava com pressa e completamente focado”, diz.

No início dos anos 1990, eram feitos tão poucos transplantes de coração que se tornar um cirurgião de transplante cardíaco em tempo integral não era uma opção. Montgomery se concentrou nos rins, o órgão mais transplantado. Na Johns Hopkins, ajudou a desenvolver uma técnica cirúrgica minimamente invasiva para retirar rins de doadores vivos saudáveis, na esperança de que isso levasse mais pessoas a doar um rim.

Foi o que aconteceu, e as primeiras beneficiadas foram crianças que precisavam do órgão. Nos anos seguintes, “transplantamos todas as crianças que estavam na nossa lista pediátrica”, conta Montgomery.

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Robert Montgomery, cirurgião de transplantes da NYU Langone Health, durante uma cirurgia em Nova York
Robert Montgomery, cirurgião de transplantes da NYU Langone Health, durante uma cirurgia em Nova York Foto: Angelina Katsanis/The New York Times

Em 2001, percebendo que poderia aumentar o número de pacientes que recebiam um órgão se rins fossem trocados entre pares de doadores e receptores incompatíveis, Montgomery criou um programa para fazer exatamente isso. Logo, ele e sua equipe estavam realizando doações em cadeia. Um doador altruísta doava um rim a um desconhecido, cujo doador incompatível doava um rim a um segundo receptor, e assim por diante.

“Ele era visto como uma espécie de cowboy”, conta Brigitte Sullivan, administradora de transplantes que Montgomery descreveu como sua “companheira visionária”.

Ele continuou ajudando a desenvolver uma nova abordagem para reduzir a rejeição de órgãos em pacientes com alto risco de fracasso do transplante e apoiou uma iniciativa para utilizar rins recuperados de doadores de órgãos com HIV, transplantando-os em pacientes HIV positivos em vez de descartá-los. Foi necessário mudar a legislação federal, mas isso hoje faz parte do atendimento padrão.

Em 2016, a NYU Langone Health recrutou Montgomery para criar um programa de transplantes de órgãos de nível mundial, e ele se mudou para Manhattan com sua esposa, a cantora de ópera Denyce Graves, e a filha do casal. (Montgomery também tem três filhos de relacionamentos anteriores; seu primeiro casamento terminou em divórcio.) Ele havia conhecido Graves em um voo para Paris. Quando o avião pousou, ela o havia convidado para ouvi-la cantar, e ele a havia convidado para assistir a uma cirurgia realizada por ele.

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Apesar da experiência de quase morte que havia vivido na Patagônia, Montgomery voltou ao mesmo local em 2017. Queria passar um tempo com os filhos John e Max, mas sofreu outra parada cardíaca. O hospital mais próximo ficava a quase uma hora de distância, e John fez compressões torácicas nele dentro de um jipe enquanto corriam para chegar ao hospital.

Quando saiu de um coma induzido por medicamentos mais de um mês depois, em Nova York, para onde havia sido levado de avião, Montgomery precisou reaprender a andar, falar e comer.

“À medida que eu passava por mais dessas experiências de quase morte, ficou realmente claro para mim que a probabilidade de conseguir um transplante de coração era menor do que a de morrer antes mesmo de entrar na lista”, lembra.

Poucos meses depois, seu coração parou no meio do espetáculo da Broadway “School of Rock”. Ele recebeu reanimação cardiopulmonar no corredor. Em uma conferência médica na Itália, em setembro de 2018, sofreu quatro paradas cardíacas, uma após a outra.

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A parte positiva, percebeu, era que agora estava tão doente que finalmente poderia entrar na lista de espera por um coração. E sabia que quase certamente seria colocado no topo dela.

Ele foi internado na unidade de terapia intensiva da NYU Langone e começou a esperar por um órgão. Seu médico avisou que a espera poderia durar meses, até mesmo um ano.

Emily Sammartano, que havia dado à luz alguns meses antes enquanto fazia diálise, mostra uma foto do bebê ao Dr. Robert Montgomery antes de receber um transplante de rim no NYU Langone Health
Emily Sammartano, que havia dado à luz alguns meses antes enquanto fazia diálise, mostra uma foto do bebê ao Dr. Robert Montgomery antes de receber um transplante de rim no NYU Langone Health Foto: Angelina Katsanis/The New York Times

Pouco antes do amanhecer de 20 de setembro, recebeu uma ligação informando que havia um coração disponível — se ele o quisesse. O doador, que havia morrido de overdose de heroína, estava infectado pelo vírus da hepatite C.

Havia motivos para hesitar: o programa de transplante cardíaco do hospital era recém-criado; Montgomery o havia iniciado menos de um ano antes. Além disso, os transplantes com corações positivos para hepatite C eram tão novos que, se recebesse aquele órgão, ele faria parte de um ensaio clínico.

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“Muitos dos meus colegas achavam que eu estava louco”, lembra Montgomery. Mas ele acreditava no programa e havia incentivado seus próprios pacientes a considerar órgãos com hepatite C, que poderia ser curada com medicamentos. “Então, por que não eu?”, diz.

Depois de uma cirurgia de seis horas, Montgomery tinha um novo coração.

A maioria dos pacientes que recebem um transplante de coração está tão doente quando consegue um órgão que fica incapacitada; apenas cerca de 30% voltam ao trabalho. Mas, dois dias depois da operação, Montgomery estava sentado na cama, analisando casos.

Depois de sua experiência, Montgomery começou a considerar insuficiente todo o trabalho que havia feito para encontrar mais órgãos viáveis. “Isso nunca será capaz de fornecer órgãos suficientes para pessoas com falência de órgãos.”

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Era hora de uma mudança radical. Experimentos haviam comprovado que órgãos de porcos geneticamente modificados podiam ser transplantados em macacos. O próximo passo era construir uma base para realizar transplantes em seres humanos. Montgomery decidiu tentar primeiro em um paciente com morte cerebral, algo que nunca havia sido feito.

No outono de 2021, Montgomery anunciou que havia realizado, pela primeira vez, um transplante de rim de um porco geneticamente modificado para um ser humano. Cientistas da United Therapeutics, empresa que produziu o porco, haviam eliminado um gene envolvido em uma resposta agressiva de rejeição do órgão. (O paciente com morte cerebral era um doador de órgãos, e a família consentiu com o experimento.)

O rim não apenas não foi rejeitado, como também funcionou, produzindo urina e excretando resíduos por 54 horas, o limite estabelecido por um comitê de ética do hospital.

Nos anos seguintes, a equipe de Montgomery e outras equipes em Maryland e Boston transplantaram rins e corações de porcos em um pequeno número de pacientes vivos que estavam em estado terminal e haviam esgotado outras opções de tratamento.

Os pacientes morreram das doenças de base em questão de meses, mas nenhum deles apresentou o tipo de rejeição imunológica devastadora que destrói um órgão — uma conquista importante que mostrou que órgãos de porcos poderiam ser transplantados com segurança e funcionar adequadamente em seres humanos.

Robert Montgomery durante pescaria no Alasca com seu filho, em 2023
Robert Montgomery durante pescaria no Alasca com seu filho, em 2023 Foto: Robert Montgomery/The New York Times

No ano passado, a Food and Drug Administration, agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, autorizou ensaios clínicos de transplantes de órgãos de porcos em pacientes muito doentes que provavelmente não conseguiriam um rim de outra maneira. Montgomery lidera dois deles.

Desde sua cirurgia, ele foi pescar salmão no Alasca com o filho John; viajou para a África com Graves para comemorar a aposentadoria dela; e auxiliou cirurgiões de transplante renal na Ucrânia.

Todas as manhãs, para proteger seu novo coração, ele caminha 3,2 quilômetros até o trabalho. Sai antes das 6 horas da manhã para chegar a tempo da visita aos pacientes.

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.