quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O Estatuto da Cidade fez 25 anos, e agora?, FSP

 Bruno Sindona

Presidente do Instituto das Cidades, fundador da incorporadora e construtora Sindona, voltada para moradias das classes C, D e E, e um dos vencedores da Escolha do Leitor do Prêmio Empreendedor Social 2023

O presidente do Brasil era Fernando Henrique Cardoso. O carro mais vendido ainda era o Gol, e a novidade era o Celta. A Apple lançava o iPod e ninguém imaginava o iPhone. Quem vendia mesmo era o Nokia 3310 com seu jogo da cobrinha, que só um em cada seis brasileiros tinha.

A música vinha em CD e os sucessos a gente conhecia pelo rádio. "O Clone" estreava na TV Globo, o país assistia todo junto: a mesma história, no mesmo canal, no mesmo horário. As correntes de email ainda circulavam em larga escala. A China era a sexta economia do mundo, atrás de França e Reino Unido.

As Torres Gêmeas do World Trade Center ainda estavam de pé. O ano era 2001, e foi nele que se sancionou a Lei 10.257, o Estatuto da Cidade, ferramenta que se propôs a reger o futuro das cidades brasileiras.

Nesse momento muito se sabia sobre o passado, mas dificilmente um legislador poderia prever o futuro. Talvez por isso o Estatuto tenha nascido da necessidade de firmar direitos e garantias, sobretudo as garantias da sociedade diante da propriedade.

O direito à moradia tinha acabado de entrar na Constituição, a Constituição cidadã ainda era uma criança, e as infindáveis emendas que moldariam o Brasil estavam apenas começando.

Bruno Sindona fundou a incorporadora Sindona, que repensa a moradia popular - Renato Stockler - 30.jun.2023/Folhapress

O futuro já caminhava feroz, mas ainda não era percebido. Naquele ano o brasileiro aprendeu a olhar o relógio de luz. Encurtou o banho, trocou a lâmpada, desligou o que dava.

Um país inteiro descobrindo a palavra watt. E mesmo assim a palavra energia não aparece nenhuma vez no Estatuto. Era um país ainda acertando as contas do século 20 quando os desafios do século 21 chegaram, sem aviso e sem tradução.

Cidades que cresciam e se favelizavam depressa demais, sufocadas por uma frota de carros que não parava de aumentar. Oito em cada dez brasileiros já moravam em cidades. A urbanização tinha acontecido, as cidades ainda não.

Hoje, 25 anos e mais de 40 milhões de habitantes depois, temos mais linhas telefônicas que os brasileiros. As redes sociais dominam as interações humanas. A música chega pela internet, e as produções televisivas mais famosas também.

A fibra ótica chegou a quase todo o território nacional e, onde ela não chega, a Starlink chega. A China é a segunda maior economia e está a caminho de tomar a liderança tecnológica. As Torres Gêmeas foram derrubadas, e o mundo que parecia previsível em 2001 nunca mais pareceu.

Um extraterrestre que lesse esses retratos concluiria que o futuro chegou e que estamos indo bem. Longe disso. Favelas que nunca diminuíram, pelo contrário, aumentaram, e muitas delas hoje são territórios dominados por milícias e facções. Nas cidades se vive mal, se perde a vida e o tempo no trânsito. A água e o esgoto não chegam para todos. E talvez a única coisa comum a todos seja a crescente sensação de insegurança.

Existe uma linha clara entre o que se desenvolveu rápido e o que não se desenvolveu. Onde a disrupção legal ou tecnológica chegou, o desenvolvimento aconteceu de maneira exponencial. O déficit habitacional ainda não acabou, mas o que o Minha Casa Minha Vida fez é de outra ordem: 7,7 milhões de moradias contratadas, com Estado, financiamento e mercado alinhados.

Ainda há um oceano a nadar nas tecnologias construtivas e no combate à burocracia, e vale dizer que o programa entregou casa e nem sempre entregou bairro. Mas o veículo funciona.

A energia elétrica hoje no Brasil sobra. Há problemas de preço causados por excesso de oferta. Mercado livre, produção sustentável ficando barata, entrante novo toda hora. E os gargalos de distribuição, que ainda existem, vão sendo resolvidos.

Esse mesmo modelo é o que falta no território, nas cidades. A implementação dos planos diretores se mostrou temerária na maioria dos municípios, e, por isso, a ausência de planejamento metropolitano eterniza o caos das grandes cidades.

Sem instrumento que funcione para trazer de volta o imóvel obsoleto e abandonado, o país acumula 11,4 milhões de domicílios vazios, quase o dobro do seu déficit habitacional. Não falta casa. Falta casa onde tem gente.

Toda lei é escrita na língua do seu tempo, e a de 2001 não tinha palavra para o mundo em que a gente vive. O cinema tinha eleito esse mesmo ano como o ano do futuro e o colocou no espaço. Esqueceu de dizer como ele seria aqui no chão.

A inteligência artificial promete a maior mudança tecnológica da era moderna. A medicina vai nos fazer viver e conviver por muito mais tempo, e gente vivendo mais muda calçada, transporte e moradia.

A eletrificação e a digitalização estão nas ruas das maiores cidades, com carro integrado ao sistema de trânsito e monitoramento contínuo. E as cidades que mais crescem no Brasil já não são as metrópoles, são as do interior. O clima não é previsão. É calendário.

Vinte cinco anos depois, não se trata de rasgar o que foi escrito. Trata-se de escrever a segunda parte. Um novo Estatuto da Cidade que valide o que a primeira versão conquistou, a função social da propriedade, o plano diretor, o direito de quem já mora, e que acrescente o que ela não tinha como nomear: o clima, a energia, a cidade construída para continuamente se transformar.

E, além disso, que traga a mecânica que sempre faltou, com método, recursos e alguém que responda.


O gargalo da infraestrutura agora é gente- Mauricio Portugal Ribeiro -FSP

 O Brasil resolveu, em duas décadas, o problema que parecia insolúvel: como financiar infraestrutura. Em 2025, os leilões de concessões e PPPs (parcerias público-privadas) realizados na B3 contrataram R$ 183 bilhões em investimentos (capex), além de R$ 61 bilhões em obrigações de operação e manutenção —e o calendário de 2026 mantém o ritmo. O gargalo, porém, mudou de lugar: não está mais no capital, está nas pessoas que executam.

Os sinais vêm de todos os lados. Nas universidades, o país formou 128,9 mil engenheiros em 2018 e apenas 95,6 mil em 2023, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira); as matrículas em engenharia civil caíram de 358 mil para 172 mil desde 2015.

No canteiro, a sondagem da FGV Ibre mostra 41,6% das empresas da construção apontando a falta de profissionais como obstáculo aos negócios —o maior índice desde 2011—, e levantamento apresentado pelo Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e pela CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) vai além: 94% das construtoras relatam escassez e 76% já reveem cronogramas por falta de gente.

A imagem mostra dois homens em uma estação de higiene. Um deles, vestido com um uniforme vermelho e capacete, está à esquerda, enquanto o outro, usando uma camiseta cinza e capacete, está à direita. Eles estão interagindo com um equipamento de higiene, que parece ser um dispensador de água ou desinfetante. Ao fundo, há um painel com instruções e informações sobre higiene, além de um aviso em destaque com a palavra 'HIGIENE'.
Operários trabalhando em um empreendimento residencial no bairro Ipiranga, zona sul de São Paulo - Rubens Cavallari - 27.fev.25/Folhapress

A idade média do trabalhador da construção subiu de 37,4 anos em 2012 para 41,2 em 2023, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística): as aposentadorias não estão sendo repostas.

Os dados mais recentes confirmam a pressão. Em julho, o país criou apenas 58 mil empregos formais, o pior julho desde 2020 —mas um em cada cinco foi na construção civil, e as obras de infraestrutura já ampliaram seu quadro em 25% neste ano, segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). E isso com o desemprego está em 5,3%, o menor da série.

Nos preços, o teste decisivo: o custo da mão de obra na construção subiu 9,94% em 12 meses, o dobro da inflação, e as vagas continuam abertas. Quando a remuneração sobe e o trabalhador não aparece, a escassez virou fato econômico. E a demografia agrava o quadro: a população em idade ativa atingirá o pico em 2033, segundo o IBGE, e passará a encolher —justamente no auge de execução das obras ora contratadas.

Não é a primeira vez. No ciclo do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e das obras da Copa, o "apagão de mão de obra" foi manchete —e sumiu sem ser resolvido, porque quem o resolveu foi a recessão de 2015, eliminando a demanda.

Outros países enfrentaram a mesma colisão com métodos, não com recessões. A Austrália publica anualmente um relatório que cruza a carteira de obras públicas com a força de trabalho disponível —e o governo o usa para decidir o que licitar e quando. O Japão, historicamente fechado à imigração, criou em 2019 um visto de "habilidades específicas" para 14 setores em escassez, incluindo a construção. A lição comum: formar trabalhadores é variável lenta; sequenciar obras e atrair braços são as variáveis rápidas.

O que fazer no Brasil? Primeiro, industrializar a construção —pré-fabricação e produtividade— para erguer mais com menos gente. Segundo, desenhar uma política migratória laboral estruturada.

O país já tem os instrumentos —Lei de Migração moderna, Acordo de Mobilidade da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), logística da Operação Acolhida —e os candidatos: cerca de 680 mil venezuelanos e dezenas de milhares de haitianos e cubanos.

Falta transformar acolhimento humanitário em política de trabalho, o que exige que conversem os ministérios que hoje se ignoram, Justiça, Trabalho, Itamaraty e Transportes, sob a Casa Civil, que já coordena a Operação Acolhida e a carteira de concessões sem conectá-las.

Terceiro, revalidar por via expressa os diplomas de engenheiros imigrantes. Quarto, sequenciar: medir a capacidade de execução do mercado antes de fixar o calendário de leilões —licitar tudo ao mesmo tempo é fabricar o próprio risco de inexecução.

Por fim, a dimensão contratual. Nos contratos de concessão, custo e prazo das obras são riscos do concessionário: escassez de mão de obra não gera direito a reequilíbrio, e o atraso é punido com desconto tarifário e multa.

Isso não protege o Estado: os licitantes dos próximos leilões precificarão o risco de não encontrar braços, em tarifas mais altas ou outorgas menores, e a conta chegará ao usuário e ao Tesouro pela porta da frente. Medir a capacidade de execução antes de licitar é interesse fiscal do concedente. O país aprendeu a assinar contratos bilionários. Precisa agora aprender a contar mãos antes de assiná-los.

Fachin cancela sessão do STF após Dino reintegrar Andrei ao comando da PF - FSP

 O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) cancelou a sessão do plenário prevista para esta quarta-feira (9), após o novo capítulo da maior crise da história recente da corte.

Mais cedo nesta quarta, o ministro Flávio Dino determinou a recondução de Andrei Rodrigues ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal (PF). Ele foi afastado do cargo pelo magistrado André Mendonça, na terça (8).

Homem idoso com cabelo grisalho e óculos fala em microfones, sentado em cadeira de couro marrom, veste toga preta e gravata azul.
O presidente do Supremo, Edson Fachin - Adriano Machado - 12.ago.2026/Reuters

Na ocasião, o ministro justificou a decisão em razão da produção de um relatório interno da PF usado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, para pedir uma investigação contra o próprio Mendonça por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução do caso do Banco Master e do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

A maioria da Segunda Turma do Supremo referendou o afastamento de Andrei. Já Dino, que tomou a decisão na investigação relacionada a suspeitas de irregularidades em emendas relacionadas à produção do filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro (PL), disse que sua decisão teria que ser exclusivamente ser referendada pelo plenário da corte, que hoje é composto por dez integrantes.

Fachin, então, cancelou a sessão que estava prevista para o início da tarde desta quarta.

O Supremo vive um momento de tensão e desgaste institucional desde a revelação das mensagens trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e Moraes, nas quais o dono do Master pede informações sobre o andamento do processo contra seu banco, pede encontros com o ministro e inclusive questiona se deveria fugir do país.