quarta-feira, 1 de abril de 2026

Economia global se mostra muito mais resiliente do que imaginávamos, Martin Wolf. FT FSP

comércio global definitivamente não morreu no ano de 2025. Mas ele mudou de formas complexas, algumas temporárias (como a antecipação das importações norte-americanas em resposta à ameaça de tarifas elevadas), algumas provavelmente permanentes (como o declínio no comércio direto entre EUA e China) e algumas intermediárias (como o boom no comércio relacionado à inteligência artificial).

Ainda assim, o comércio global de bens mostrou-se notavelmente robusto, segundo um relatório chamado "Geopolítica e a geometria do comércio global: atualização de 2026", uma avaliação preliminar de 2025 feita pelo McKinsey Global Institute.

O relatório destaca cinco aspectos notáveis do que aconteceu em 2025.

Diversas pilhas de contêineres coloridos empilhados em área externa de porto, sob céu nublado. Árvores e parte de estrada aparecem à esquerda.
Contêineres no porto de Los Angeles, na Califórnia - Caroline Brehman/REUTERS

Primeiro, as exportações dos EUA e da China atingiram novos recordes, enquanto o comércio mundial também cresceu mais rápido que a economia global. A direção do comércio mudou substancialmente, mas mais em relação aos parceiros comerciais que a McKinsey classifica como "geopoliticamente distantes" —notadamente EUA e China— do que aos "geograficamente distantes".

Da mesma forma, a União Europeia perdeu participação de mercado entre os chineses. Mas a Índia se destacou no aspecto de distância geográfica, porque os embarques de smartphones para os EUA cresceram rapidamente.

Segundo, os embarques relacionados à IA se tornaram o motor mais poderoso do comércio de bens, com um aumento de 40% entre 2024 e 2025 no valor dos embarques de semicondutores e equipamentos para data centers.

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De fato, as exportações relacionadas à IA representaram um terço do crescimento do comércio global, com os polos asiáticos —TaiwanCoreia do Sul e partes do Sudeste Asiático— abastecendo mercados ao redor do mundo, particularmente os EUA. Controles tanto sobre exportações quanto importações de alguns desses equipamentos restringiram o crescimento do comércio chinês relacionado à IA a 16%.

O relatório argumenta que o rápido crescimento da capacidade relacionada à IA continuará a impulsionar o comércio mundial em 2026.

Terceiro, nas palavras do relatório, "a China expandiu seu papel como 'fábrica para as fábricas'". Enquanto exportações diretas para os EUA foram atacadas por tarifas, a China conseguiu aumentar as exportações de maquinário e insumos para outros países, notadamente seus vizinhos.

Em muitos outros casos, observa a McKinsey, as exportações de peças e maquinário não estavam vinculadas à substituição de vendas perdidas para os EUA. Em vez disso, apoiaram a expansão da capacidade manufatureira em terceiros mercados, particularmente economias emergentes.

Isso aprofundou o papel da China como fornecedora de insumos para a produção, em vez de exportadora de bens finais. No total, as exportações chinesas de bens intermediários e de capital cresceram US$ 223 bilhões em 2025, mais do que compensando uma redução de US$ 130 bilhões nas exportações para os EUA.

Quarto, as tarifas causaram reajustes comerciais complexos. Entre outras coisas, provocaram uma antecipação temporária de importações.

No geral, o comércio direto EUA-China caiu cerca de 30% em 2025. Mas os EUA substituíram cerca de dois terços das importações perdidas com compras de outros exportadores, enquanto os exportadores chineses de bens de consumo, como carros elétricos e brinquedos, cortaram preços em média 8% para encontrar novos compradores.

As exportações dos países da Associação de Nações do Sudeste Asiático prosperaram nesse novo mundo. Enquanto isso, diz a McKinsey, as empresas da União Europeia enfrentaram um duplo aperto das exportações chinesas desviadas e das tarifas americanas mais altas contra suas exportações.

Por fim, embora a irracionalidade das tarifas arbitrárias e imprevisíveis do presidente Donald Trump tenha dificultado a vida de produtores e comerciantes em todo o mundo (inevitavelmente incluindo muitos nos próprios EUA), houve vários fatores compensatórios úteis. Um deles foi que o latido de Trump foi pior que sua mordida. No final, como observa Richard Baldwin, do IMD em Lausanne, em seu post no Substack "Por que as tarifas trumpistas não destruíram o sistema de comércio mundial", ele não fez tudo o que ameaçou.

Mais importante, suas ações não levaram a um ciclo de retaliação contra os EUA nem, crucialmente, à imitação do repúdio agressivo dos EUA aos compromissos e normas da Organização Mundial do Comércio.

O sistema comercial tem outros grandes desafios, notadamente a abordagem agressivamente mercantilista da China em relação às exportações. Mas os EUA, com apenas 14% das importações mundiais de bens, não importam tanto assim. De fato, mesmo os EUA e a China juntos, com 25% do comércio mundial entre eles, não importam tanto, como Baldwin observa em "Como os 75% salvaram o sistema?" no Substack. O resto do mundo decidiu continuar comercializando porque depende disso.

Acontece que há "muita ruína" no comércio mundial, como Adam Smith nos teria dito. Mas ainda pode haver limites.

O boom da IA vai estourar este ano? O impacto da guerra de Trump contra o Irã em 2026 pode superar os danos causados por sua guerra tarifária em 2025? Mais especificamente, o fechamento de fato do Golfo às exportações de petróleo, gás e outros produtos essenciais acabará causando mais danos do que conseguimos administrar? Suspeito que não.

Parece provável que, por mais mal concebida e mal executada que essa guerra possa ser, Trump encontrará uma maneira de reivindicar vitória e encerrá-la. É claro que pode ser óbvio para a maioria que ele perdeu. Mas isso o constrangeria? Provavelmente não: ele não admite fracasso.

O que está muito mais claro agora, porém, é que os EUA não são mais um líder mundial confiável. Se podem eleger esse homem duas vezes, perderam o rumo. Por que não elegeriam alguém ainda pior?

Um país assim é incapaz de fornecer hegemonia global confiável. O que ele fornece, em vez disso, é uma bola de demolição imprevisível. Nem há um substituto plausível.

A China é relativamente previsível. Mas sua incapacidade de décadas de eliminar a dependência de enormes superávits comerciais e de conta corrente, de equilibrar a demanda com o excesso de oferta doméstica, não é encorajadora.

O que aprendemos é que a economia é mais resiliente do que muitos temiam. Esperemos que ela continue demonstrando essa qualidade. Parece que vamos precisar dela, e muito.

Justiça social não é discurso é decisão política e método, FSP

 

Vera Cordeiro

Médica, fundadora e presidente do conselho de administração do Instituto Dara

Sabrina Porcher

Diretora executiva do Instituto Dara

Justiça social não é um ideal abstrato. Ela se traduz em condições concretas de vida: acesso à saúdeeducaçãorenda, moradia digna e cidadania. Quando esses direitos são negados a parcelas significativas da população, o resultado não é apenas desigualdade, é exclusão estrutural.

O Brasil vive uma contradição evidente. Apesar de figurar entre as maiores economias do mundo, permanece entre os países mais desiguais em distribuição de renda. Milhões seguem em situação de pobreza ou vulnerabilidade, sobretudo mulheres negras, mães solo e populações periféricas. Crescimento econômico, isoladamente, não garante desenvolvimento humano nem justiça social.

Imagem área mostra um grande território de casas autoconstruídas e, ao fundo, prédios residenciais
Imagem de Paraisópolis, em São Paulo - Eduardo Knapp/Folhapress

Enfrentar a pobreza exige ir além de respostas emergenciais. Exige reconhecer que a exclusão é fruto de escolhas estruturais, e pode ser transformada por outras escolhas. Políticas fragmentadas, que tratam saúde, educação, renda e moradia separadamente, tendem a oferecer soluções parciais para problemas interligados.

A pobreza não se resume à falta de renda. Ela se manifesta na insegurança alimentar, no adoecimento recorrente, na evasão escolar, na precariedade habitacional e na negação cotidiana de direitos. Superá-la requer ações integradas e baseadas em evidências.

Experiências brasileiras mostram que abordagens intersetoriais geram resultados duradouros. Uma iniciativa criada há mais de três décadas e aplicada a mais de 100 mil pessoas, com impactos indiretos que alcançam centenas de milhares no Brasil e em outros continentes, atua de forma integrada em saúde, educação, moradia, geração de renda e cidadania, com foco em famílias chefiadas por mulheres negras e mães solo.

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Avaliação independente da Universidade de Georgetown indica que, entre três e cinco anos após o acompanhamento, há redução de 86% nas reinternações hospitalares de crianças atendidas. No mesmo período, a renda familiar praticamente dobra, e o percentual de famílias com casa própria sobe de 26% para cerca de 50%. O estudo aponta ainda aumento de 433% na percepção de bem-estar e melhora de 72% na saúde física e emocional das famílias, evidências de transformação estrutural, não apenas alívio momentâneo.

Esses resultados reforçam uma constatação: quando políticas e ações sociais são integradas e sustentadas por dados, é possível romper ciclos intergeracionais de pobreza. Justiça social deixa de ser apenas valor moral e se torna estratégia de desenvolvimento e estabilidade.

Como afirmou o Nobel da Paz Muhammad Yunus, ao conhecer essa experiência brasileira: trata-se de "uma poderosa metodologia de inclusão dos mais pobres". O reconhecimento internacional reforça que soluções estruturadas são possíveis.

Avançar nessa agenda exige corresponsabilidade. Governos devem formular políticas integradas; a sociedade civil contribui com inovação; o setor privado precisa compreender que investir em justiça social não é assistencialismo, mas compromisso com o futuro do país.

A desigualdade não é natural. É resultado de decisões históricas, e pode ser transformada.

Justiça social é escolha coletiva. Quando direitos se encontram e políticas se integram, a pobreza deixa de ser destino.

O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Vera Cordeiro e Sabrina Porcher foi "Experience" de Ludovico Einaudi.

Pontapeando canídeo fenecido na Fuvest, Sergio Rodrigues, FSP

 Tanto se falou da redação parnasiano-dadaísta da Fuvest que tratar dela aqui pode parecer chutar cachorro morto —ou pontapear canídeo fenecido, para usar registro mais próximo do estilo desse clássico instantâneo da língua portuguesa.

Nem tudo foi dito sobre o "Perpassa em altivez, pela procela...". A nota zero dada à peça é justificada, sim, pelas razões expostas nos últimos dias por incontáveis comentaristas profissionais e amadores da língua, que aliás estão de parabéns pelo trabalho. Mas que tal ver ali também um sintoma?

Aquele trololó oco é uma bela caricatura, tão cômica quanto pungente, de certa brasilidade. Radicalização demente de um modo de usar a cultura letrada como ornamento e carteirada social que tem raízes fundas em nossa sociedade de bacharéis, aquela que Machado de Assis Lima Barreto satirizaram.

Por se confundirem com a lei e a administração pública numa terra que até um punhado de décadas atrás tinha sólida maioria analfabeta, as letras —oratória incluída— sempre tiveram por aqui papel mais de cifrar, impressionar e intimidar do que de decifrar, debater e produzir conhecimento.

Estudantes sentados em carteiras organizadas em filas dentro de sala de aula, focados em prova. Professora sentada à frente, próxima ao quadro verde com escrita. Relógio na parede indica horário.
Candidatos prestam a primeira fase da Fuvest - Felipe Iruatã - 23.nov.25/Folhapress

Para produzir ofuscamento, o hermetismo da linguagem mais ridiculamente preciosista é uma qualidade. Quanto menos a população entender, melhor —mais aparvalhada e submissa ficará diante do demiurgo capaz de esgrimir tamanho poder.

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Este se confunde com o poder propriamente dito, aquele garantido pelas armas, que pode destruir sua vida, confiscar suas posses, jogá-lo na cadeia. Imagine o pavor que isso provoca numa maioria despossuída, filha e neta de despossuídos. Qual é a saída?

Para parte desse grupo, a saída é estudar para adotar o jargão do pessoal de terno e toga e, sendo mais realista que o rei, usá-lo para oprimir em vez de ser oprimido. É a fórmula do mulato pernóstico clássico que João Ubaldo fixou na figura de Amleto em "Viva o Povo Brasileiro".

Os Amletos, claro, reforçam o sistema de exclusão em que a língua, inventada sob o signo do compartilhamento, é empregada como criptografia.

É por isso que a turma que domina o juridiquês jura ter o direito natural de afanar do Tesouro quantos penduricalhos forem suficientes para aplacar sua fome de casta superior —agora com o vergonhoso selo de "legalidade" de um Supremo cambaleante, necessitado como nunca do apoio da corporação.

Nem seria preciso acrescentar que, pelas mesmas razões, aquele poeta-filósofo-asceta genial de Botucatu que destilou o sentido da vida em meia dúzia de livros magros morreu anônimo e na miséria —e de sua obra não se conhece nenhuma linha.

Agora é só cruzar esse velho traço da nacionalidade com o novo ambiente informacional planetário em que cada vez mais tudo é tratado como narrativa, como se não houvesse no mundo nenhuma substância moral ou material fora do âmbito das narrativas, e pronto.

Chegamos ao vácuo cognitivo em que a casca sem recheio do vestibulando faz fronteira com o terço de brasileiros que não acredita que o homem pisou na Lua. Perpassa, realmente. Ô se perpassa.