quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Mauricio Stycer - Mais do que 'BBB', reality show preferido do Brasil é a violência urbana na TV, FSP

 Não há mais um prédio, uma casa, um estabelecimento comercial sem câmeras de segurança. Apontadas para as ruas, para o interior das lojas, ou colocadas dentro dos elevadores, elas fornecem imagens para a polícia e, de lá, para os telejornais e programas policiais na TV.

O grande realtiy show no Brasil, hoje, não é mais o "BBB", mas essa documentação diária de cenas de assalto e violência em todos os cantos do país.

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A crise econômica e, em consequência, o aumento da criminalidade ajudam, infelizmente, a alimentar essa produção de filmes de má qualidade, mas de impacto terrível. E há enorme demanda por eles na TV aberta.

Ex-apresentador do Cidade Alerta Marcelo Rezende nos estúdios da Record, na época em que ele apresentava o programa dedicado à violência urbana - Eduardo Knapp/Folhapress Folhapress

São muitos os programas policiais matinais e vespertinos, todos com horas de duração, na grade da Record, da Band e da RedeTV!. Protegidos pelo selo de "jornalísticos", podem exibir cenas de violência a qualquer horário.

Mas nem sempre há jornalistas em número suficiente para apurar o que se esconde por trás das imagens das câmeras de segurança. E eles são exibidos sem maiores explicações. Apenas para chocar e assustar: "Olha só o que aconteceu nesta loja", avisa um apresentador. "Olha como essa quadrilha age", diz outro.

Mais espantoso ainda é ver este reality show da violência urbana servir de matéria-prima para os telejornais do horário nobre. Jornal da Band, SBT Brasil e Jornal da Record estabeleceram a tradição de começar praticamente todo dia com uma notícia policial. Os dois primeiros exibem de segunda a sábado um bloco inicial de dez minutos de notícias sobre violência urbana.

É obrigatório retratar a realidade, sim. Mas esse sequenciamento de notícias policiais, recheado de cenas captadas por câmeras de segurança sem maiores explicações, raramente tem a intenção de discutir questões estruturais. Ele cumpre um objetivo mais pé no chão: segurar a audiência.

Claro que há exceções. Num dos casos mais recentes, as imagens das câmeras do quiosque na Barra da Tijuca que documentaram o assassinato do congolês Moïse Kabagambe foram essenciais para entender que estamos com um pé na barbárie. Esse crime lembrou que o jornalismo ainda tem um papel essencial e pode evitar que a violência urbana se limite a ser um reality show.

De um modo geral, a mídia conseguiu encontrar um equilíbrio entre mostrar a violência selvagem praticada contra Moïse e cuidar para que o espectador desavisado não se sentisse mal com as cenas.
Repórteres de diferentes veículos conseguiram trazer informações importantes sobre o caso, indo além da versão oficial e apontando contradições e omissões.

Já o noticiário policial desenfreado, sem contextualização, exibido em todos os horários, apenas produz medo e alarme. Em ano de eleição, favorece os que prometem soluções mágicas para o problema, tanto apresentadores quanto policiais ou militares.

A cada eleição, há mais candidatos com o epíteto de "delegado", "major", "tenente" na frente do nome. Um levantamento da Globo, logo depois das eleições de 2018, mostrou que o número de policiais e militares eleitos para o Legislativo pulou de 18 para 73 na comparação com os resultados das eleições de 2014.
Nada indica que esta tendência vai mudar em 2022.

Não há solução simples no que diz respeito à televisão. Mas creio que seja importante discutir o assunto, especialmente em relação aos canais de TV aberta, que são concessões públicas. É um tabu, plenamente justificável, porque envolve liberdade de expressão. Ainda assim, acho que deveria haver critérios para a exibição de imagens de violência.

Gylmar dos Santos Neves, o colaboracionista da ditadura, Juca Kfouri, FSP

 Casos de jogadores de futebol que serviram às ditaduras são conhecidos.

Para ficar em apenas dois envolvendo jogadores famosos e ainda na letra A, temos Andrada (1939-2019), goleiro argentino que brilhou no Vasco e sofreu o milésimo gol de Pelé, e Augusto (1920-2004), zagueiro também do Vasco, capitão da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1950.

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O primeiro morreu estigmatizado pela acusação de ter sido agente da polícia política argentina durante a ditadura e participado do sequestro e morte de dois opositores do regime. O segundo fez carreira bem-sucedida como policial ao chegar à chefia da Secretaria de Censura durante a ditadura brasileira.

Tem também o caso de Didi Pedalada, mas esta é outra história.

Nem por isso é menos estarrecedora a denúncia do ex-deputado Adriano Diogo, que comandou a Comissão da Verdade de São Paulo, sobre a colaboração de Gylmar dos Santos Neves, goleiro revelado pelo Corinthians, bicampeão mundial pela seleção brasileira em 1958/62, e pelo Santos, em 1962/63, com a ditadura.

O goleiro Gylmar durante treino da seleção brasileira em Nova Friburgo, em 1962
O goleiro Gylmar durante treino da seleção brasileira em Nova Friburgo, em 1962 - Acervo UH - 10.abr.1962/Folhapress

Diogo esteve preso por 90 dias na delegacia da Operação Bandeirantes, na rua Tutóia, por triste ironia no bairro do Paraíso, em São Paulo.

Ele conta ter visto várias vezes aquele que é considerado o maior arqueiro da história da seleção nos corredores da delegacia, incluindo naqueles onde se torturavam e matavam opositores do regime.

"Os carcereiros se referiam a Gylmar como o ‘despachante do DOI-CODI'", disse Diogo à coluna.

Gylmar tinha uma pequena agência de automóveis e tratava de legalizar a documentação dos carros utilizados por presos, para uso da polícia política.

A atividade acabou por lhe render uma concessionária da General Motors no bairro do Tatuapé, por meio da qual Gylmar obteve permissão para vender veículos, Opalas e Chevettes, isentos de impostos a militares e delegados.

Diogo diz que o uso de peruas Veraneio, da GM, pela polícia política brasileira, e carros Falcon, da Ford, pela da Argentina, fizeram parte do mesmo esquema colaboracionista.

Gylmar era cunhado do deputado Ricardo Izar (1938-2008) e pelo menos três fontes da colônia sírio-libanesa, que ambos frequentavam, confirmam relatos feitos por ele sobre torturas e até cadáveres que teriam visto na delegacia.

E por que só agora tudo vem à tona?

Porque o nome de Gylmar voltou ao noticiário em função da condenação de seu filho, Marcelo Izar Neves, 55, a um ano de prisão, pena revertida para serviços à comunidade, por agressão e injúria racial a um vizinho judeu.

Marcelo, que é dono de camarotes em 11 estádios de futebol, entre os quais os dos quatro grandes paulistas, se desentendeu com o vizinho em condomínio no Morumbi e gritou: "Por isso que os judeus se foderam na vida. Hitler estava certo, a raça de vocês, judeus, não presta".

A surpresa causada por envolver o filho de alguém com imagem pública intocada fez com que aparecessem relatos de pessoas que não se surpreenderam, entre elas o ex-deputado Diogo, que testemunhou aquilo que outras fontes até julgavam ser conversa da garganta para fora, para mostrar proximidade com o poder.

Não é a primeira vez, e oxalá seja a última, que a obrigação profissional se sobrepõe ao desejo e ao sentimento do jornalista.

Gylmar dos Santos Neves era meu ídolo, desde a infância.