domingo, 14 de fevereiro de 2021

Supremo encerra processo contra repórter e reafirma proteção constitucional a sigilo da fonte jornalística, FSP

 O STF (Supremo Tribunal Federal) encerrou um processo sobre a tentativa de quebra de sigilo de fonte do jornalista Allan de Abreu, dez anos após ele se recusar a revelar seu informante e virar alvo de um inquérito da Polícia Federal e, posteriormente, de uma ação do MPF (Ministério Público Federal).

O caso começou em maio de 2011, quando Abreu publicou uma reportagem no jornal "Diário da Região", de São José do Rio Preto (SP). O texto continha o conteúdo do inquérito de uma operação deflagrada semanas antes pela PF e pelo MPF sobre um esquema de corrupção na delegacia de trabalho da cidade.

No dia seguinte, o responsável pela operação por parte do MPF, o procurador da República Álvaro Stipp, quis saber de Abreu quem tinha vazado ao jornalista os documentos sigilosos. O repórter conta que se negou a revelar.

Abreu diz que, na semana seguinte, foi intimado a depor em inquérito da PF e indiciado por quebra de sigilo de escuta telefônica.

Em 2014, o Ministério Público Federal pediu a quebra do sigilo telefônico do jornalista e de toda a redação do jornal na tentativa de se chegar ao informante. Um juiz da cidade, Dasser Lettiere Júnior, acatou o pedido no fim daquele ano.

"Nunca tinha acontecido isso no país, era uma situação inédita e muito tensa para a gente. Não tanto por chegarem à fonte —porque meu contato com a fonte foi pessoal e não por telefone—, mas era preocupante pelo que poderia causar em outras ocasiões", diz Abreu.

Em 2015, ANJ (Associação Nacional de Jornais) entrou com pedido no STF para que a quebra de sigilo fosse suspensa liminarmente. O STF concedeu uma decisão provisória favorável por meio da segunda turma, mas o julgamento não foi concluído porque ficou faltando a posição do ministro Gilmar Mendes —que havia pedido vistas do processo na época.

Cinco anos depois, o ministro votou de forma favorável à ANJ, e o processo pode ser finalmente encerrado.

"O sigilo constitucional da fonte jornalística (art. 5º, inciso XIV, da CF) impossibilita que o Estado utilize medidas coercivas para constranger a atuação profissional e devassar a forma de recepção e transmissão daquilo que é trazido a conhecimento público", escreveu o ministro em sua decisão.

O acórdão da segunda turma do STF foi publicado em outubro de 2020 e agora transitou em julgado —isto é, o processo foi encerrado em definitivo e não cabe mais recurso.

Foi trancado o inquérito que tinha Abreu como alvo, anulado seu indiciamento por quebra de sigilo de comunicação telefônica e determinada a inutilização de eventuais dados obtidos por quebra de sigilo telefônico de Abreu e do "Diário da Região".

Para Abreu, apesar de a liberdade de imprensa e o sigilo de fonte serem uma garantia constitucional, essa garantia não é uma certeza para o repórter, que ainda está suscetível a idiossincrasias de procuradores e juízes.

"É delicado e constrangedor para o jornalista ficar em uma decisão como essa. Até porque quem quebra o sigilo é o servidor que tem acesso a essas ferramentas. Cabe ao jornalista publicar em caso de interesse público", afirma.

Abreu diz que o caso lembra ataques atuais de autoridades contra o jornalismo, mas também serve para reforçar o papel das instituições em assegurar as garantias democráticas previstas na Constituição.

"O Estado está muito voltado ao ataque ao jornalismo e às garantias do jornalismo, mas ao mesmo tempo as instituições estão preparadas para conter abuso por parte do estado se assim quiserem. Há instituições preocupadas com as garantias constitucionais. Nesse caso, o STF, que é o bastião final desse fenômeno que estamos vendo", afirma o jornalista.

Abreu permaneceu por dez anos no jornal do interior de São Paulo e há três é repórter da revista Piauí.

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) afirmou em nota que o resultado fortalece a atividade da imprensa e a liberdade de expressão. A decisão reafirma a proteção constitucional do sigilo da fonte, instrumento previsto no artigo 5º da Carta Magna.

Para a entidade, o sigilo da fonte garante o livre exercício do jornalismo e representa um direito coletivo à informação. Para isso, a Abraji defende ser fundamental barrar quaisquer tentativas de punir penal, civil ou administrativamente jornalistas que estejam no devido exercício da sua prerrogativa constitucional.

General Villas Bôas deu detalhes de uma cena que nunca aconteceu, Elio Gáspari, FSP

 Está nas livrarias “Villas Bôas – Conversa com o Comandante”. É o resultado de 13 horas de entrevistas do professor Celso Castro com o general Eduardo Villas Bôas, que comandou o Exército de 2015 a 2019. O texto foi revisto pelo general até maio de 2020 e devolvido com acréscimos que engordaram o livro em 30%.

“VB”, como é chamado pelos colegas, rememora sua vida, da infância de Cruz Alta aos dias tensos do impedimento de Dilma Rousseff e da eleição de Jair Bolsonaro.

O general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas - Marcos Corrêa - 16.jan.2019/PR

Ele tratou do seu famoso tuíte de 2018, às vésperas do julgamento do habeas corpus de Lula pelo Supremo Tribunal Federal (“um alerta, muito antes que uma ameaça”) e do agradecimento que Bolsonaro lhe fez pouco depois de ter sido empossado:

“Meu muito obrigado, comandante Villas Bôas. O que nós já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por estar aqui. Muito obrigado, mais uma vez”.

general explicou: “Morrerá entre nós! Garanto que não foi um tema de caráter conspiratório”.

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O tempo e novas memórias do período lapidarão as lembranças de Villas Bôas.

Num caso, porém, sua memória (revista) falhou feio. Ele conta:

“O presidente Sarney relata que, após a morte de Tancredo Neves, houve uma reunião para deliberar como se processaria a nova sucessão. O deputado Ulysses Guimarães tentou impor sua posição que consistia na realização de um novo pleito. O ministro Leônidas [general Leônidas Pires Gonçalves] posicionou-se no sentido de que, conforme a legislação vigente, o cargo de presidente caberia ao senador Sarney [que havia sido eleito para a Vice-Presidência].

Ato contínuo, voltou-se para ele, prestando uma continência disse: ‘Boa noite, presidente’. Com seu arbítrio, o fato estava consumado, o que assegurou uma transição sem percalços”.

Sarney nunca relatou isso. Ele vestiu a faixa na manhã de 15 de março de 1985, e Tancredo só morreu no dia 21 de abril.

As incertezas com relação à posse do dia 15 foram desencadeadas na noite da véspera, quando Tancredo foi levado para o Hospital de Base de Brasília, para uma cirurgia de emergência. A posse estava marcada para horas depois. Sarney chegou ao hospital às 21h30.

Nas suas palavras:

“Lá encontro Ulysses. Tenho os olhos marejados. Rasga-me a alma o sofrimento de Tancredo. Ulysses me desperta ríspido: ‘Sarney, não é hora de sentimentalismos. Nossa luta não pode morrer na praia. Temos de tomar decisões. Você assume amanhã, como manda a Constituição, na interinidade do Tancredo’.

‘Não, Ulysses, assume você. Só assumo com Tancredo.’

‘Você não pode acrescentar problemas aos que estamos vivendo. É a democracia que temos de salvar.’”

O general Leônidas, ministro do Exército escolhido por Tancredo, jantava na Academia de Tênis quando soube que o presidente eleito estava no hospital. Foi para lá defendendo a posse de Sarney. Conseguiu uma gravata emprestada e seguiu com uma pequena comitiva de políticos para um encontro com o chefe da Casa Civil, professor Leitão de Abreu. Sarney ficou no hospital e depois foi para casa.

Leitão estava em dúvida (ou fingia estar em dúvida) se deveria ser empossado o vice ou o presidente da Câmara (Ulysses). Nesse encontro, Ulysses e Leônidas queriam a posse do vice-presidente. Fernando Henrique Cardoso testemunhou a cena. Ela aconteceu nas primeiras horas da madrugada do dia 15. Àquela altura achava-se que em alguns dias Tancredo estaria recuperado.

Às três horas da madrugada tocou o telefone na casa de Sarney. Era o general Leônidas, que começou a conversa com um “boa noite, presidente”. Sarney repetiu que não queria assumir e Leônidas disse-lhe que “não temos espaço para erros”. Despediu-se com outro “boa noite, presidente”.

A cena contada por Villas Bôas nunca aconteceu. Tancredo não estava morto. Ulysses nunca quis uma nova eleição e sempre defendeu a posse de Sarney. O general Leônidas era formal, mas não dava continência falando ao telefone.