domingo, 18 de novembro de 2018

Acadêmicos do zap-zap tentam embaralhar a história e a ciência, FSP


No atual quiproquó, delírio é confundido com ponto de vista divergente


Na sessão da Câmara que tentou votar o Escola sem Partido, terça (13), defensores do projeto conversavam em voz alta no intervalo. 
Um dos temas era a “falta que há neste país de jornalistas investigativos não ideologizados”. O acidente aéreo que matou o presidenciável Eduardo Campos (PSB) em 2014, por exemplo. Por que os repórteres catequizados em Havana não iam  atrás da suspeita de que a aeronave se chocou contra outra, poucos meses depois de o PT, curiosamente, ter comprado drones da Rússia?
Sim, para haver um pingo de sentido, seria preciso um senhor complô envolvendo um sem-fim de pessoas e instituições, incluindo Aeronáutica e Polícia Federal, todos devidamente mudos até hoje, e por aí afora —mas quem se interessa por essa abstração chamada lógica?
Teorias conspiratórias sempre existiram. O chato é que com a internet elas se reproduzem como coelhos. Aliado a isso, ocorrências históricas, como o Holocausto e a escravidão, e teorias lapidares, como a da evolução das espécies, sofrem questionamentos sem qualquer lastro. 
Adeptos da falsa equivalência ainda as barbarizam sem dó ao equipará-las a trambolhos pseudocientíficos, batatadas olavo-de-carvalhianas ou teses à Ursal —tratando como ponto de vista divergente o que é só ponto de vista sem pé nem cabeça. 
No decorrer dos séculos milhões de pessoas dedicaram a vida ao saber humano, à formação e compreensão da ciência e da história, em uma marcha metódica e criteriosa de pesquisas, estudos, teorias, observações, investigações, testes, tudo submetido ao contraditório e ao escrutínio da academia e do tempo.
Mas basta um tuíte da tia-avó para alguém sair cacarejando por aí que Hitler, na verdade, terminou a vida plantando bromélias na Patagônia.
O jornalismo e o ensino de qualidade têm a obrigação de expor, com equilíbrio, todos os lados de temas controversos. Só é preciso diferir, sem pudor, o que é de fato controverso daquilo que não passa de desvarios dos acadêmicos do zap-zap.
Ranier Bragon
Repórter da Sucursal de Brasília, foi correspondente em Belo Horizonte e São Luís. Formou-se em jornalismo pela PUC-MG.

Por que temos filhos? Hélio Schwartsman, FSP

Do ponto de vista econômico, paternidade favorece a sociedade como um todo

A pergunta do título comporta vários níveis de resposta. No plano biológico, a reprodução é um imperativo, fazendo parte de várias das definições de vida. Mas a biologia é só parte da história. A paternidade também encerra dimensões culturais, econômicas e emocionais.
Inspirado em “Anti-Pluralism”, de William Galston (agradeço ao colegaJP Coutinho pela boa dica), arrisco algumas reflexões sobre a matéria. Até o começo do século 19, filhos eram um ativo econômico.
Ajudavam desde cedo com o trabalho doméstico, colaborando para o bem-estar da família, e ainda faziam as vezes de plano de aposentadoria para os pais.
 
Hoje, contudo, crianças ficaram caras. E, para piorar, elas demoram muito até começar a trazer contribuições econômicas. Como observa Galston —e isso foi, para mim, um verdadeiro insight—, no espaço de dois séculos, a criação de filhos deixou ser um bem privado para tornar-se um bem público.
Embora a paternidade possa trazer recompensas emocionais, do ponto de vista estritamente econômico, ela favorece a sociedade como um todo, enquanto a maior parte dos custos recai sobre os genitores.
E por que crianças beneficiam a sociedade? A crer na análise de economistas como Julian Simon, riqueza são pessoas. Quanto mais gente, melhor, já que são indivíduos que têm ideias (além de consumir produtos) e são as novas ideias que vêm assegurando o brutal aumento de produtividade a que assistimos nos últimos 200 anos.
E isso nos coloca diante de um dos grandes dilemas dos tempos modernos. Para assegurar a sustentabilidade da exploração dos recursos naturais do planeta, precisaríamos estabilizar ou até reduzir a população. Só que fazê-lo é uma espécie de suicídio econômico, já que ficaria muito difícil manter taxas positivas de crescimento, sem as quais instituições como previdência e até democracia representativa podem entrar em colapso.
 
Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".