terça-feira, 13 de novembro de 2018

Guerra ideológica de Bolsonaro incomoda até políticos conservadores, FSP

Partidos dispostos a apoiar governo temem gasto de energia com exageros

Não foram poucas as ocasiões em que Jair Bolsonaro disse que "a questão ideológica é tão ou mais grave que a corrupção". Parecia um exagero retórico para alimentar o antipetismo que o empurrou para a vitória nas urnas. Passada a campanha, aliados do presidente eleito ainda levam a máxima ao pé da letra.
Eduardo Bolsonaro acha razoável prender até 100 mil pessoas ligadas a movimentos sociais. Defende substituições em massa no corpo diplomático para se livrar do "marxismo" do Itamaraty. Também considera importante aprovar uma lei que torne crime o comunismo.
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) no Congresso - Pedro Ladeira - 6.nov.2018/Folhapress
O tom que o filho do presidente eleito adotou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo incomodou até políticos conservadores. Dirigentes de partidos dispostos a apoiar as pautas do próximo governo temem que a equipe de Bolsonaro perca tempo e gaste energia à toa com sua guerra ideológica.
Embora a agenda de direita tenha aderência no Congresso que tomará posse em 2019, as tintas usadas por personagens como Eduardo costumam aborrecer potenciais aliados.
Para esses caciques, a eleição de Bolsonaro é uma oportunidade para aprovar a redução da maioridade penal e a flexibilização da posse de armas, por exemplo. Levar para a cadeia quem usa boné do MST, jogar o PC do B na ilegalidade e caçar embaixadores prestigiados está longe de ser uma prioridade.
O principal receio é que a overdose conservadora atrapalhe as articulações em torno da pauta econômica. Bolsonaro encontrará um Congresso menos refratário ao corte de despesas e à reforma da Previdência. Ruídos em outras áreas podem criar um congestionamento indesejado.
Líderes partidários dizem que a cruzada de Eduardo e companhia é só marketing, mas ele parece disposto a tentar vender seu produto. "Um dos papéis dos parlamentares é [...] usar sua posição de destaque, de ser um representante de parcela da sociedade, para falar dos perigos do comunismo. Assim como falo do câncer de próstata", declarou.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Os livreiros querem tungar os leitores, Elio Gaspari FSP

Duas grandes redes não pagam o que devem e suas guildas pedem uma canetada para tabelar o preço dos livros

Ilustração Élio Gaspari
Ilustração Élio Gaspari - Juliana Freire
 
Está na Casa Civil da Presidência um pleito das guildas de comerciantes e editoras proibindo a concessão de descontos superiores a 10% durante o primeiro ano de venda de um livro. Se bobear, Temer sacramenta essa tunga no bolso dos leitores.
A origem do pleito é uma majestosa demonstração do atraso de empresários e do oportunismo de suas corporações. Ela deriva do que seria uma crise do mercado de livros, exemplificada nas dificuldades financeiras que afogam as duas maiores redes do país, a Cultura e a Saraiva.
Uma está em recuperação judicial, devendo em torno de R$ 150 milhões a bancos e fornecedores. A outra já fechou 20 lojas e sua dívida estaria em R$ 400 milhões.
Não há crise no mercado de livros. Como no de parafusos, o setor passou pelas dificuldades de todos os empresários. Neste ano, o mundo dos livros cresceu 5,7% e seu faturamento aumentou em 9,3%.
Também não existe crise de livrarias, pois há redes que vão muito bem, obrigado. A Cultura e a Saraiva se enroscaram nas próprias gestões. Quem lhes manteve o crédito devia saber o que fazia. Se Temer quiser ajudá-las, pode liderar uma vaquinha.
Quando as grandes redes de livrarias estavam comendo as pequenas, louvava-se a destruição criadora do capitalismo. Havia até editoras que imprimiam seus livros na China.
Agora, cavalgam um falso problema e foram ao escurinho de Brasília para recorrer à capacidade destruidora do corporativismo. Grandes livreiros quebram e a conta vai para a freguesia, instituindo-se um tabelamento de preços.
O mercado de livros, como o de jornais, passa pelo choque da era digital. Primeiro surgiu a Amazon, revolucionando o setor com seu sistema de vendas.
Depois veio o e-book, que compete com os volumes impressos. Assim é a vida, o automóvel quebrou as fábricas de carruagens, o CD matou o disco de vinil e a internet matou o CD.
Como em Pindorama canta o sabiá, no século 19, quando os Estados Unidos e a Europa expandiam suas ferrovias, os plutocratas lutavam para preservar a escravidão.
Em 1994, todos os donos de redes de livrarias e de grandes editoras brasileiras tinham mais patrimônio que Jeff Bezos, um papeleiro de 30 anos que pensava em criar um varejão eletrônico.
Ele começou a Amazon com menos de US$ 200 mil, vendendo só livros. Metade do capital foi-lhe emprestado pelos pais, e Bezos avisou que as chances de perderem tudo eram de 70%.
Hoje a Amazon está encostando no trilhão de dólares em valor de mercado. Esse gigante surgiu dando descontos. As guildas dos livreiros nacionais querem socializar um falso problema suprimindo-os.

UM GRANDE  RIO BRANCO

Está nas livrarias “Juca Paranhos —O Barão do Rio Branco”, de Luís Cláudio Villafañe Santos. É uma excepcional biografia do patrono da diplomacia brasileira, uma grande figura (1m82cm), a quem o país deve uma área equivalente a dos estados de Pernambuco, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul somados.
Escrita por um diplomata de carreira, mostrou o personagem em sua intrigante grandeza. Retrata um conservador (melhor dizendo, um reacionário). Rio Branco foi monarquista enquanto pôde, achou a Abolição uma coisa precipitada e não gostava de novidades, entre elas os elevadores. 
Juca Paranhos era menor que seu pai, o visconde de Rio Branco (1m92cm), teve uma juventude boêmia, engravidou, e bem mais tarde, casou-se com uma dançarina de cabaré. 
Costuma-se lembrar que ele começou a carreira como cônsul em Liverpool, ficando a impressão de que puseram-no no canil. Engano, era o cargo mais bem remunerado do Império e Paranhos passava boa parte do tempo em Paris. 
Pesquisa notável, dela surge um barão mestre da esgrima burocrática, da manipulação da imprensa e do culto à própria glória. Tudo isso a serviço do país, numa época em que as grandes potências retalhavam a África. Morreu no gabinete de trabalho sem fazer fortuna. 
Villafañe Santos desmonta, como “clara mistificação”, a ideia de que Rio Branco aproximou o Brasil dos Estados Unidos. A boa relação com Washington já existia. 
Esse grande personagem deixou uma pergunta: por que o barão, tendo engravidado a dançarina com quem manteve uma relação de pouco ou nenhum afeto, teve com ela outros quatro filhos? 

SAÍDA EXEMPLAR

Pode-se discutir a maneira como Michel Temer entrou no Palácio do Planalto, mas ele está saindo de forma exemplar. Temer convidou Jair Bolsonaro para acompanhá-lo na reunião do G-20 que se realizará em Buenos Aires no fim deste mês. Se ele quiser, poderá ir com sua própria comitiva.
Em 2016, quando Temer entrou no Planalto, havia apenas uma funcionária para recebê-lo e os computadores estavam apagados.

DELFIM AVISA

O professor Delfim Netto está convencido de que em 2019 a economia poderá crescer, revertendo o mal-estar que já dura três anos.
Em 1968, quando a oposição ia para a rua pedindo “Democracia e Desenvolvimento”, Delfim era ministro da Fazenda e sabia que o “Milagre Brasileiro” estava logo adiante.
Veio o crescimento e ninguém se incomodou com a ditadura.

SISTEMA S

Paulo Guedes quer mexer na caixa preta do Sistema S. Trata-se de um cofre que em 2017 arrecadou compulsoriamente R$ 16,4 bilhões nas folhas de pagamento das empresas.
O Sistema S é dinheiro na veia para o sindicalismo patronal, onde uma casta de dirigentes eterniza-se nos cargos. Às vezes, ajudam os poderosos da ocasião. Uma nora de Lula foi funcionária do Sesi. 
O último ministro da Fazenda que pensou em mexer com os barões do Sistema S foi Joaquim Levy.
Apanhou de todos os lados. Guedes poderia conversar com ele para saber de onde virão os tiros, que já começaram.

CABRAL VIVE

Sérgio Cabral rala na cadeia condenações que somam 183 anos, seu filho perdeu nas urnas o mandato de deputado federal e sua rede continua a povoar cadeias. Isso não quer dizer que esteja fora de combate.
Seu cunhado Cézar Vasquez, atual superintendente do Sebrae do Rio, batalha pela recondução. Está na cadeira desde 2010. 
Junto iria a presidente do Sindicato dos Joalheiros do estado, Carla Pinheiro. Os ourives do Rio foram mimados por Cabral com incentivos fiscais e dois deles mimaram-no com joias livres de nota fiscais.

O VELHO NOVO 

Jair Bolsonaro nomeou a deputada Tereza Cristina (DEM-MS) para o Ministério da Agricultura.
Parlamentar respeitada e líder da bancada ruralista, Tereza Cristina Correa da Costa Dias vem de uma velha cepa da oligarquia de Mato Grosso. É neta e bisneta de governadores. 
Lá atrás, os oligarcas brigavam feio pelas terras devolutas onde se plantava erva-mate. Hoje defendem o agrotóxico. 
Desde a Regência, os Correa da Costa governaram o estado 11 vezes. Se nos séculos passados as matriarcas mandavam na sombra e bordavam em público, a nova ministra é engenheira agrônoma e empresária.

PREVIDÊNCIA 

Michel Temer ainda não se convenceu de que deve tomar iniciativas fatiando alguns itens da reforma da Previdência.
Elio Gaspari
Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada".

Doria anuncia nesta segunda o primeiro nome do PSDB para seu secretariado, OESP

Deputada estadual Célia Leão, da região de Campinas, será secretária da Pessoa com Deficiência

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo
12 Novembro 2018 | 11h47
O governador eleito João Doria (PSDB) vai anunciar hoje o primeiro nome tucano de seu secretariado. A deputada estadual Célia Leão (PSDB), da região de Campinas. Ele será secretária da Pessoa com Deficiência na administração tucana. Além dela, que está no sétimo mandato na Assembleia Legislativa, Doria anunciará que o desembargador Paulo Dimas, ex-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, será o secretário de Justiça.
Dos cinco titulares escolhidos até agora para o secretariado de Doria, nenhum é do PSDB, o que gerou críticas do presidente da sigla em São Paulo, Pedro Tobias. “Acho estranho ele não ter indicado ninguém do PSDB. Doria precisa tratar o partido com mais carinho. O PSDB esteve ao lado dele na campanha”, disse o presidente estadual da legenda.
Doria e Célia Leão
Doria ve a futura secretária da Pessoa com Deficiência em São Paulo, Célia Leão (PSDB), durante o período de campanha nas eleições 2018 Foto: Divulgação/Célia Leão
Vinte e quatro anos depois de o PSDB chegar ao poder em São Paulo, o governador eleito está montando sua equipe sem consultar o partido, que já está fora dos principais cargos políticos do Palácio dos Bandeirantes. 
Dos secretários anunciados até o momento, nenhum é tucano. O PSDB deixará de comandar a partir de 2019 pastas estratégicas como a Casa Civil, que terá como titular Gilberto Kassab, presidente do PSD, e Secretaria de Governo, que terá suas atribuições absorvidas por Rodrigo Garcia (DEM). 
Além deles, já estão definidos Rossieli Soares na Educação; Gilberto Kassab (PSD), na Casa Civil, e Sérgio Sá Leitão, na Cultura. Doria (PSDB) ainda disse a interlocutores que gostaria de contar com o ex-ministro Henrique Meirelles, candidato derrotado do MDB à Presidência, em sua equipe como secretário da Fazenda. 
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