domingo, 11 de novembro de 2018

As filhas de servidores que ficam solteiras para ter direito a pensão do Estado, FSP


As pensões a filhas solteiras de funcionários públicos consomem por ano R$ 4,35 bilhões do contribuinte – e muitas já se casaram, tiveram filhos, mas ainda recebem os benefícios

RAPHAEL GOMIDE
19/11/2013 - 07h00 - Atualizado 17/10/2016 21h21


FELICIDADE O casamento de Márcia Brandão Couto. Ela se manteve solteira no civil para seguir recebendo  R$ 43 mil por mês do Estado (Foto: Arq. pessoal)
FELICIDADE O casamento de Márcia Brandão Couto. Ela se manteve solteira no civil para seguir recebendo  R$ 43 mil por mês do Estado (Foto: Arq. pessoal)
Era um sábado nublado. No dia 10 de novembro de 1990, a dentista Márcia Machado Brandão Couto cobriu-se de véu, grinalda e vestido de noiva branco com mangas bufantes para se unir a João Batista Vasconcelos. A celebração ocorreu na igreja Nossa Senhora do Brasil, no bucólico bairro carioca da Urca. A recepção, num clube próximo dali, reuniu 200 convidados. No ano seguinte, o casal teve seu primeiro filho. O segundo menino nasceu em 1993. Para os convidados do casamento, sua família e a Igreja Católica, Márcia era desde então uma mulher casada. Para o Estado do Rio de Janeiro, não. Até hoje, Márcia Machado Brandão Couto recebe do Estado duas pensões como “filha solteira maior”, no total de R$ 43 mil mensais. Um dos benefícios é pago pela Rioprevidência, o órgão previdenciário fluminense. O outro vem do Fundo Especial do Tribunal de Justiça. A razão dos pagamentos? Márcia é filha do desembargador José Erasmo Couto, que morreu oito anos antes da festa de casamento na Urca.
Os vultosos benefícios de Márcia chegaram a ser cancelados por uma juíza, a pedido da Rioprevidência. Ela conseguiu recuperá-los no Tribunal de Justiça do Rio, onde seu pai atuou por muitos anos. O excêntrico caso está longe de ser exceção no país. Um levantamento inédito feito por ÉPOCA revela que pensões para filhas solteiras de funcionários públicos mortos custam ao menos R$ 4,35 bilhões por ano à União e aos Estados brasileiros. Esse valor, correspondente a 139.402 mulheres, supera o orçamento anual de 20 capitais do país – como Salvador, Bahia, e Recife, Pernambuco. Ao longo de três meses, ÉPOCA consultou o Ministério do Planejamento e os órgãos de Previdência estaduais para apurar os valores pagos, o número de pensionistas e a legislação. Ao menos 14 Estados confirmaram pagar rendimentos remanescentes para filhas solteiras, embora todos já tenham mudado a lei para que não haja novos benefícios. Hoje, as pensões por morte são dadas a filhos de ambos os sexos até a maioridade e, por vezes, até os 24 anos, se frequentarem faculdade. Santa Catarina, Amapá, Roraima, Tocantins e Mato Grosso do Sul informaram não ter mais nenhum caso. Distrito Federal, Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Rondônia e Piauí deram informações incompletas ou não forneceram a quantidade de pensionistas e o valor gasto. ÉPOCA não conseguiu contato com a Paraíba. É provável, portanto, que os números sejam superiores aos 139.402 apurados e aos R$ 4,35 bilhões.
NO EXTERIOR Tereza Gavinho com sua família em Roma (no alto) e na Disney (acima).  Ela nega ter vivido com o pai dos três filhos (Foto: Arq. pessoal)
Oriunda de uma época em que as mulheres não trabalhavam e dependiam do pai ou do marido, a pensão para filhas solteiras maiores de 21 anos pretendia não deixar desassistidas filhas de servidores mortos. Hoje, a medida dá margem a situações como a de Márcia e a diversas fraudes. Para ter o direito, a mulher não pode se casar ou viver em união estável. Para driblar a lei e seguir recebendo os benefícios, muitas se casam na prática. Moram com o marido, têm filhos, mas não registram a união oficialmente. O governo federal concentra 76.336 casos. Isso corresponde a 55% dos benefícios do país, só entre filhas de servidores civis mortos até dezembro de 1990. Os militares da União descontam mensalmente 1,5% do salário para deixar pensão para as filhas. O custo anual aos cofres federais é de R$ 2,8 bilhões. Segundo o Ministério do Planejamento, trata-se de direito adquirido. O total diminuiu 12% desde 2008. Houve 3.131 mortes, 1.555 mudanças de estado civil, e 1.106 assumiram cargo público – pela lei federal, motivo de perda. As “renúncias espontâneas” foram apenas 518. O governo afirma que “as exclusões decorrem do trabalho de qualificação contínua da base de dados de pessoal” e que a busca por inconsistências na folha é permanente. A partir de 2014, a Pasta centralizará a lista de pensionistas filhas solteiras, hoje dispersas.
Quanto custam as “filhas solteiras” (Foto: ÉPOCA)
O Rio de Janeiro, antiga capital do país, é o Estado com mais casos: 30.239, a um custo anual de R$ 567 milhões, um terço dos benefícios da Rioprevidência. Em São Paulo, 15.551 mulheres consomem R$ 451,7 milhões por ano. As pensões paulistas custam, em média, R$ 2.234, quase o dobro das fluminenses. Valem para mortes até 1992 para civis (4.643), e até 1998 para militares estaduais (10.908). Segundo a São Paulo Previdência (SPPrev), há recadastramento anual obrigatório para identificar irregularidades. “Pensionistas que mantêm união estável e não a informam à autarquia praticam fraude, estão sujeitas à perda do benefício e a procedimentos administrativos e podem ter de ressarcir os valores”, informou a SPPrev.
Uma das pensões polêmicas pagas por São Paulo, a contragosto, vai para a atriz Maitê Proença. Seu pai, o procurador de Justiça Eduardo Gallo, morreu em 1989. Maitê recebe cerca de R$ 13 mil, metade da pensão, dividida com a viúva. Em 1990, Maitê teve a filha Maria Proença Marinho, com o empresário Paulo Marinho, com quem teve um relacionamento por 12 anos, não registrado. A SPPrev cortara o benefício, sob a alegação de que a atriz vivera em união estável. Maitê recorreu, obteve sentenças favoráveis em primeiro grau e no Tribunal de Justiça. Mantém a pensão, ainda em disputa. Segundo seu advogado, Rafael Campos, Maitê “nunca foi casada nem teve união estável” com Marinho, e a revisão do ato de concessão da pensão já estava prescrita quando houve o corte. “O poder público não pode rever seus atos a qualquer momento, senão viveremos numa profunda insegurança jurídica”, diz.
O Rio Grande do Sul paga 11.842 pensões para filhas solteiras, ao custo de R$ 319,5 milhões, média de R$ 2.075 mensais cada. Depois, vêm Paraná (1.703 e R$ 92,5 milhões anuais); Minas Gerais, com 2.314 casos, e gastos de R$ 67 milhões por ano; Sergipe (571, R$ 19,3 milhões), Pará (276), Mato Grosso (198), Bahia (163), Acre (123), Amazonas (31), Maranhão (21), Pernambuco e Espírito Santo (ambos com 17 cada).

O Maranhão paga as maiores pensões entre os Estados brasileiros – R$ 12.084 mensais, em média. Segundo o órgão previdenciário maranhense, todas são pagas a filhas de magistrados e integrantes do Tribunal de Contas do Estado. Amazonas, com benefícios médios de R$ 7.755, e Acre, com R$ 6.798, aparecem em seguida. Por todo o país, há mulheres com três ou quatro filhos do mesmo homem que dizem jamais ter vivido em união estável. “Tenho sete filhos com o mesmo pai, mas só namorava”, diz uma pensionista do Rio. Situação semelhante é vivida pela advogada Tereza Cristina Gavinho, filha de delegado de polícia (salário aproximado de R$ 20 mil), cuja pensão foi cortada, mas devolvida após decisão da Justiça. De acordo com a Rioprevidência, há “sérios indícios de omissão dolosa do casamento/convivência marital com o sr. Marcelo Britto Ferreira, com o qual tem três filhos!!!”. Tereza nega ter vivido com ele. Algumas explicações são curiosas. “O pai dos meus filhos é meu vizinho e é casado”, diz uma mulher no Rio. “Não posso ter união estável porque sou homossexual”, afirma outra. A maioria das fraudes é constatada após denúncias de parentes, geralmente por vingança. “A parte mais sensível do ser humano é o bolso, e aí não tem fraternidade nem relação maternal”, afirma Gustavo Barbosa, presidente da Rioprevidência.
BENEFICIADA A atriz Maitê Proença. Ela nega ter sido casada e recebe R$ 13 mil por mês como  “filha solteira” (Foto: Reginaldo Teixeira/Ed. Globo)
A dentista Márcia, alvo de uma ação popular que inclui fotos de seu casamento, nega ter se casado. Numa ação para obter pensão alimentícia para os filhos, afirma, porém, que “viveu maritalmente com João Batista, sobrevindo dessa relação a concepção dos suplicantes (filhos)”. Seu advogado, José Roberto de Castro Neves, diz que a cerimônia religiosa foi “como um teatro, ela era de uma família tradicional, mãe religiosa e pai desembargador, então ela fez essa mise-en-scène”. Márcia não trabalha como dentista. Vive dos benefícios. Para a Procuradoria-Geral do Rio, tal pensão gera “parasitismo social” – por contar com a pensão, o cidadão deixa de produzir para a sociedade. Em 2011, o Rio passou a exigir a assinatura de termo em que as pensionistas declaram, “sob as penas da lei”, se vivem ou viveram “desde a habilitação como pensionista, em relação de matrimônio ou de união estável com cônjuge ou companheiro”. A Rioprevidência hoje corta a pensão de quem reconhece casamento, recusa-se a assinar ou falta, após processo administrativo. A partir da medida, 3.140 pensões foram canceladas, uma economia anual de R$ 100 milhões.

Até os advogados de Márcia e Maitê reconhecem a necessidade de combater irregularidades e abusos. “O risco é tratar os casos sem analisar as peculiaridades. Evidentemente, há abusos que devem ser coibidos”, diz Castro Neves, advogado de Márcia. O maior risco, na verdade, é o Brasil seguir como um país de privilégios mantidos pelo contribuinte.
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Sedentários bem alimentados, Drauzio Varella , FSP

A vida do homem na Terra nunca foi um mar de rosas. Seis milhões de anos atrás, ao perceber que em cima das árvores não havia alimentos suficientes, nossos antepassados não encontraram alternativa senão enfrentar os perigos do bipedismo, nas savanas da África.
Primatas com menos de um metro de altura, frágeis se comparados às feras carnívoras da vizinhança, os primeiros hominídeos foram obrigados a formar grupos para se defender, necessidade que forjaria o comportamento das gerações que chegaram até nós.
Os primeiros bandos habitaram cavernas. Não fazia sentido construir moradias para abandoná-las quando a caça rareasse e as frutas e os tubérculos chegassem ao fim. Milhões de anos de nomadismo fincaram raízes tão sólidas, que esse estilo de vida predominou até insignificantes 10 mil anos atrás, com o surgimento da agricultura.
No decorrer desses milhões de anos, a seleção natural impôs ao corpo humano adaptações radicais. Ficamos mais altos, nosso córtex cerebral se desenvolveu, aprendemos a nos comunicar por meio da fala, da escrita e da eletrônica, fizemos revoluções na agricultura e na tecnologia de preservação de alimentos e construímos cidades gigantescas. 
Enquanto os trogloditas que nos antecederam viviam em média 20 anos, a expectativa atual ultrapassou 70 anos, na maioria dos países.
Esses avanços trouxeram problemas inesperados, no entanto. A explosão demográfica, a poluição e o aquecimento global colocam em risco não apenas a saúde dos habitantes, mas a própria vida na Terra.
Na hipótese de contrariarmos os estudiosos do clima e sobrevivermos às intempéries planetárias, a oferta abundante de alimentos de boa qualidade acessíveis a grandes massas populacionais e os confortos da vida moderna continuarão ameaçando a saúde individual e coletiva. Comida farta e sedentarismo criaram uma armadilha que impedirá aumentos expressivos na expectativa de vida dos nossos filhos.
Pela primeira vez na história de nossa espécie, foi-nos oferecida a possibilidade de comer à larga em todas as refeições e de ganhar a vida sentados o dia inteiro. Obesidade e sedentarismo se tornaram as principais epidemias nos países de renda média e alta, nos quais a praga mortífera do tabagismo começa a ser a duras penas controlada.
Na esteira dessas duas pandemias caminham a passos apressados: hipertensão arterial, diversos tipos de câncer, diabetes, doenças cardiovasculares, problemas ortopédicos, articulares, renais e outras complicações que sobrecarregam o sistema de saúde, encarecem o atendimento e fazem sofrer milhões de pessoas.
Nas capitais, 19% dos brasileiros adultos estão obesos e outros 35% têm sobrepeso (Vigitel, 2017), ou seja, menos da metade da população cai na faixa do peso considerado saudável. 
A fila de candidatos à cirurgia bariátrica aumenta mais depressa do que as nossas condições para operá-los; muitos morrem enquanto aguardam. Nesse ritmo, daqui a pouco estaremos como os americanos: 40% de adultos obesos; quase outro tanto com sobrepeso (CDC, 2018).
A demanda por atendimento médico de uma população que envelhece rapidamente é trágica para o SUS e insuportável para os planos de saúde. O SUS não vai à falência, porque, quando falta disponibilidade, o atendimento é negado, expediente com o qual não conta a saúde suplementar.
Na contramão de outros ramos da economia, a incorporação de tecnologia na área médica aumenta o custo do produto final. A assistência a uma população que envelhece mal como a brasileira exigirá recursos que não dispomos no SUS nem na saúde suplementar. 
Esperar as pessoas adoecerem para tratá-las em hospitais e unidades de pronto atendimento é política suicida. Não há saída: ou investimos na prevenção ou, cada vez mais, só os privilegiados terão acesso à medicina moderna.
O ministério e as secretarias de Saúde, escolas, associações comunitárias, imprensa, empresas, a sociedade inteira precisa se envolver na divulgação e na aplicação prática da principal mensagem de saúde pública, no Brasil atual: “Não dá para passar o dia sentado comendo tudo o que oferecem”.
Nos anos 1960, cerca de 60% dos nossos adultos fumavam, hoje não passam de 10%. Se conseguimos resultado tão impressionante com a dependência química mais feroz que a medicina conhece, não é impossível convencer mulheres, crianças e homens a comer um pouco menos e a andar míseros 40 minutos num dia de 24 horas.
Drauzio Varella
Médico cancerologista, autor de “Estação Carandiru”.

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EDILSON BORGES

Agora
O povo da saúde pública estava tentando. Começou o desmanche das clínicas de saúde da família...governinho não atira no pé, é no pescoço mesmo.

Cem anos após o Armistício, Primeira Guerra Mundial é revisitada, FSP

Lucas Neves
PARIS
Às vésperas do centenário do Armistício que, em 11 de novembro de 1918, pôs fim à Primeira Guerra Mundial, o presidente da França, Emmanuel Macron, causou celeuma ao sugerir a inclusão do marechal Philippe Pétain (1856-1951) na lista de homenageados em um tributo aos combatentes que foram decisivos para a vitória aliada.
Aclamado líder das tropas francesas no primeiro grande conflito do século 20, Pétain cairia em desgraça pouco mais de 20 anos depois, quando, como presidente em exercício, colaborou com a ocupação nazista. Acabaria condenado à morte, pena depois convertida em prisão perpétua.
O episódio ilustra o quanto a Segunda Guerra (1939-45), com sua galeria de imagens, personagens e relatos horripilantes, não raramente eclipsa a memória do confronto anterior —e isso dos dois lados das antigas trincheiras.
Quando Macron receber cerca de 60 chefes de Estado, neste domingo (11), no monumento ao Soldado Desconhecido, sob o Arco do Triunfo, estará buscando realçar as lições específicas que a morte de ao menos 15 milhões de pessoas (dentre as quais 10 milhões de militares) legou.
Segundo o historiador Christophe Prochasson, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), a construção do imaginário francês em torno da Grande Guerra atravessou três fases nos últimos cem anos.
Na primeira, no imediato pós-conflito, os relatos dos combatentes compuseram um retrato heroico, marcado pelo orgulho patriótico.
Como ressalta o também historiador Nicolas Beaupré, da Universidade Clermont Auvergne, houve em Paris, na festa do 14 de julho de 1919, um grande desfile dos países que haviam engrossado as fileiras da Tríplice Entente (França, Reino Unido e Rússia) no front.
Foi também nessa época que proliferaram memoriais e monumentos em homenagem aos caídos em combate. O "poilu", nome informal dado à figura do soldado francês, estava em toda parte, como, do outro lado do canal da Mancha, seu homólogo britânico, o "tommy" —ambos sempre ligados a discursos pacifistas.
A segunda etapa de sedimentação da memória da Primeira Guerra é aquela em que as lembranças são mais ativamente "parasitadas" pela então recém-encerrada Segunda Guerra.
"Há uma espécie de ocultação. Além disso, os combatentes de 1914-18 começam a carregar a pecha de não terem conseguido evitar o horror do conflito seguinte", diz Prochasson.
 
Ele situa a década de 1990 como marco inicial da terceira fase. Aqui, a morte dos últimos combatentes deixa àqueles a quem haviam contado suas histórias a missão de mantê-las no pensamento coletivo. Em paralelo, a pesquisa acadêmica e a produção cultural pautada pelo conflito abandonam o campo de batalha como objeto de estudo ou cenário exclusivo.
A guerra se humaniza, seus ecos na vida de quem não empunhou armas nem dirigiu tanques se fazem ouvir em cartas, diários, romances, histórias em quadrinhos. Sai a estratégia militar, entram a luta íntima, a mulher, a família.
Mais adiante, em 2011, um grande museu só sobre temas ligados à guerra é aberto a uma hora de Paris.
Já na Alemanha, a memória do período foi sempre recalcada, e não só por causa da derrota em si. Os acordos pós-guerra, que apontaram o país como único responsável pelo estouro das hostilidades, reduziram seus limites e obrigaram-no a pagar indenizações vultosas, seriam entendidos como humilhação.
"A aliança do Império Germânico com o Austro-Húngaro havia criado a ilusão de que não havia chance de perderem o confronto", explica o historiador Bernard Hüppauf, que deu aulas na Universidade de Nova York (NYU). 
"O Armistício foi um choque, amplificado pela renúncia do imperador Guilherme 2º, dois dias antes."
Uma minoria difundiu a leitura de que o país havia sido traído, de que era, no fim das contas, o vencedor moral. Encampada pelo Partido Nacional Socialista de Hitler, a argumentação obtusa deu consistência ao caldo revanchista que desaguaria na Segunda Guerra.
A partir dali, o "apagamento" do conflito precedente seria tamanho que Hüppauf, hoje com 75 anos, conta que nem sequer o estudou na escola.
A guerra só começou mesmo a sair do breu com a aproximação do centenário de seu começo, em 2014. Aí, sim, cresceu o interesse e aumentaram as publicações em torno dela.
"O problema é que o viés ainda é o da culpa", lamenta Hüppauf. "Essa me parece uma abordagem estéril.
Seria mais importante mostrar o impacto social e cultural do confronto na Alemanha, seus efeitos mais amplos na autoestima do povo."
Também na escala europeia, o legado é extenso. A Grande Guerra redesenha o mapa do continente, dissolve impérios, infla e murcha territórios de alguns países, dá luz a outros, como a Tchecoslováquia e a Iugoslávia (cujo desmantelamento posterior cria um barril de pólvora de alta combustão até hoje).
O Estado assume peso inédito na economia e no enfrentamento da penúria social, enquanto a vida política se estrutura e se dinamiza, com o estabelecimento de agremiações em diferentes latitudes do espectro partidário, aponta Prochasson.
No campo da tecnologia, bélica mas também médica, os avanços se acumulam. 
"É uma barbárie que deixa frestas para a civilização no momento em que esta se encontra em suspensão", resume ele. "De um ponto de vista estritamente técnico, amoral, ela é uma aceleradora de progresso."
O mundo do trabalho também é palco de mudanças rápidas. As mulheres assumem os postos deixados na indústria e na agricultura pelos agora soldados. Em casa, assumem a educação dos filhos.
Terminada a guerra, o reencontro de casais se dá sob o signo de um novo equilíbrio de forças, com identidades masculina e feminina redefinidas. Explode o número de divórcios.
"Os homens voltam como símbolo da força e virilidade, mas destruídos física e emocionalmente. Choram, não conseguem verbalizar sua experiência. Enquanto isso, as mulheres se tornaram líderes no trabalho e no lar. A ordem íntima foi virada de ponta-cabeça", conclui Prochasson.

PRIMEIRA GUERRA  DUROU DE 1914 A 1918

Conflito opôs as Potências Centrais (os impérios Alemão, Austro-Húngaro e Otomano) à Entente (liderada por Rússia, Reino Unido e França) 
Principais datas
28.jun.1914  O herdeiro do Império Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando, é morto por um nacionalista sérvio em Sarajevo; um mês depois, a Áustria-Hungria declara guerra à Sérvia, dando início ao conflito
21.fev.1916 Começa a Batalha de Verdun, na França, a mais longa (dura até dezembro) e uma das mais violentas, com mais de 1 milhão de mortos 
7.abr.1917  Os Estados Unidos entram no conflito e declaram guerra à Alemanha, desequilibrando a disputa a favor da Entente
11.nov.1918 A Alemanha aceita um armistício com os adversários, interrompendo o conflito
28.jun.1919 O Tratado de Versalhes, acordo de paz definitivo, é assinado
Personagens
Vladimir Lenin Liderou em novembro de 1917 a Revolução comunista na Rússia, fazendo o país deixar a guerra
Adolf Hitler Sua participação na guerra como cabo do Exército acabaria influenciando a criação do nazismo 
Guilherme 2º Após assumir como imperador, impôs uma política agressiva na Alemanha, que levou à guerra, mas durante o conflito cedeu a maior parte do poder aos militares
G. Clemenceau O primeiro-ministro francês foi um dos principais defensores de uma ação militar contra a Alemanha e um dos idealizadores do Tratado de Versalhes