sábado, 10 de novembro de 2018

Terminou o ciclo social-democrata do PSDB, é um tempo que passou, diz Alberto Goldman, FSP

Para ex-governador de São Paulo e membro da executiva tucana, é cedo para dizer que João Doria vai assumir controle do partido

O ex-governador de São Paulo Alberto Goldman (PSDB) durante entrevista exclusiva à Folha em sua residência, em São Paulo
O ex-governador de São Paulo Alberto Goldman (PSDB) durante entrevista exclusiva à Folha em sua residência, em São Paulo - Jorge Araujo - 5.nov.2018/Folhapress
Ricardo Kotscho
SÃO PAULO
Aos 81 anos, com quase 50 de vida política, o ex-governador Alberto Goldman, um dos tucanos históricos ainda em atividade, não se espanta com mais nada.
Em seu confortável apartamento em Higienópolis, ele acompanha o noticiário e não se preocupa com a ofensiva do seu antagonista João Doria para tomar o PSDB.
Vice-presidente do PSDB até o ano passado e membro da executiva, Goldman vai se opor à adesão incondicional a Bolsonaro, como quer Doria, e não acredita que o partido vá acabar ou sofrer um novo racha, como aconteceu quando entrou no governo Temer.

Em conversas após as eleições, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso revelou o seu medo de que o PSDB acabe. O sr. também tem esse receio? Não tenho medo de que acabe e nem de que continue. Os partidos são instrumentos de atividade política e, se em algum momento, deixar de ser útil, poderemos reformar ou até mudar esse instrumento.
Doria quer antecipar e propor a troca de comando do PSDB, prevista para o próximo ano, já em reunião do partido de 22 de novembro. Será possível? Se dependesse dele, seria ontem, mas ele é apenas um governador eleito, basicamente pelos votos que capturou na aliança com Bolsonaro. A partir dessa reunião da executiva, vamos aprovar as convenções em maio e marcar um congresso para rever o programa.
Dos 29 deputados da bancada federal do PSDB, 15 já declararam que pretendem integrar a base de Bolsonaro. O partido pode rachar de novo? Uma coisa fundamental para o futuro é que o partido tenha unidade de ação, não é unidade de pensamento. Depois do desastre que sofremos nas eleições, essa divisão dificilmente voltará a acontecer.
Após as eleições, Doria anunciou "um novo PSDB, o meu PSDB, um partido que tem lado". Chegou ao fim o ciclo FHC-Alckmin-Serra, dos tucanos que controlam o partido desde a fundação? Terminou um ciclo no qual o PSDB formou uma corrente social-democrata, mas tem que repensar isso porque o país não adotou esse caminho. Então esse ciclo, evidentemente, é um tempo que passou. Agora dizer que após esse período o João Doria vai tomar de assalto o partido, acho que é muito cedo. Até porque, no caso do Doria, ele não tem uma visão político-ideológica, é um pragmático. Se hoje ele se pendurou no Bolsonaro, poderia amanhã estar pendurado no Lula. João Doria na política é um aventureiro.
O sr. foi contra a candidatura dele a prefeito e depois a governador, mas ele ganhou as duas eleições. Ele soube aproveitar um movimento antipetista e se elegeu no primeiro turno para prefeito. Mas, para governador, teve só 32% dos votos na capital, uma perda fortíssima. Quanto mais ele subir, maior será a queda.
PT, PSDB e MDB foram duramente atingidos pela Lava Jato num desgaste que acabou levando à vitória de Bolsonaro. Para analistas, a Nova República acabou. O que virá? O PT foi o personagem mais importante das últimas décadas, porque não só criou o PT, com a força que demonstrou, como conseguiu destruir o que seria uma social-democracia. Há pouco tempo, para eles, todos os males do Brasil eram o PSDB e o Temer. Não foram eles os responsáveis? E assim abriram as portas para a direita mais radical, que trouxe para ela uma área conservadora da sociedade, o voto antipetista, que antes se encostava no PSDB.
 
Foi o PT, então, que elegeu o Bolsonaro? De certa forma, sim, com a ajuda valiosa dos audazes membros do Ministério Público Federal. Sob o nome da moralidade, começaram a destruir o que era doente no sistema político e o que ainda era saudável. O saudável foi destruído, e não sei se consegue se recuperar. As ervas daninhas, no entanto, costumam reviver.
Pelo Twitter, o ex-governador Geraldo Alckmin criticou duramente a ofensiva de Bolsonaro contra a imprensa, em especial a Folha, na linha oposta à posição adotada por Doria. A democracia está ameaçada? A democracia não está ameaçada. A maioria da população não votou em nenhum dos dois candidatos. Foi uma eleição de anticandidatos opostos. A rápida reação do Alckmin mostra que o presidente do nosso partido, que é o Alckmin, não morreu. Essa manifestação revela que o conjunto das forças democráticas, apesar de, em parte, ter aderido ao Bolsonaro para derrotar o PT, sobrevive e é forte.
Em São Paulo, o governador Alckmin tinha dois palanques, com Doria e França, e acabou derrotado por Bolsonaro. O que aconteceu? No momento em que o Doria conseguiu marcar o Márcio França como sendo petista, socialista, comunista, a eleição foi decidida com a diferença de apenas 3,5%. Ele se agarrou mais fortemente ao Bolsonaro. É um cara esperto. Não diria inteligente, mas determinado, ousado e absolutamente sem escrúpulos.
Como o sr. está vendo os primeiros movimentos do futuro governo Bolsonaro, em especial com o Paulo Guedes no comando da economia? No caso do Paulo Guedes, é um homem que ganhou muito dinheiro mexendo com ações, com Bolsa, que sempre atuou no setor financeiro. Imaginar que uma pessoa dessas tenha condições de liderar a economia de um país parece muito difícil. Não significa que o desejo de todos nós não seja que dê certo. Até porque, nós estamos todos no mesmo barco e, se o barco afundar, os oportunistas sempre vão ter um pedaço de pau para se segurar, e o resto vai afundar.

Mulatas brotam cheias de calor, Alvaro Costa e Silva, FSP

Na esteira do 'Ame-o ou Deixe-o', a cafonália está de volta

Macaquear o que os Estados Unidos mostram de pior em política não é um privilégio dos atuais admiradores de Trump.
Nosso "Ame-o ou Deixe-o" é uma adaptação de "Love It or Leave It", sacada do radialista Walter Winchell nos anos 1950, logo utilizada pelo senador Joseph McCarthy para justificar sua perseguição ao "inimigo interno", ou seja, os comunistas —sempre eles. Durante os protestos contra a Guerra do Vietnã, na década de 1960, a frase voltou em forma de canção country. Até ser mal traduzida por aqui na época da ditadura militar, ganhando status de slogan oficial do governo.
Até recentemente, quando alguém se lembrava do slogan, era inevitável que viesse acompanhado do complemento "O último a sair apaga a luz do aeroporto" —boutade atribuída a Ivan Lessa. Provavelmente ele nunca a tenha dito ou escrito, mas ficou como autor (se o verdadeiro dono aparecer, a coluna está às ordens para o esclarecimento).
Frame de vinheta nacionalista do SBT
Frame de vinheta nacionalista do SBT - Reprodução
Eis que o SBT passou a exibir uma série de vinhetas patrioteiras nos intervalos comerciais de sua programação. Ao som do hino nacional, o "Ame-o ou Deixe-o" ressuscitou. Era para ser um mimo ao presidente eleito. Acabou sendo um tiro pela culatra. A repercussão nas redes sociais foi negativa e a emissora de Silvio Santos retirou a chamada do ar.
Mas o estrago estético está feito. Numa das peças ainda exibidas pelo SBT, ouve-se a marchinha "Eu Te Amo, Meu Brasil", composta por Dom (da dupla com Ravel) e gravada pelo conjunto Os Incríveis em 1970. É aquela das fanfarras e dos imortais versos "As tardes no Brasil são mais douradas/ Mulatas brotam cheias de calor/ A mão de Deus abençoou/ Eu vou ficar aqui porque existe amor".
O país recafoniza-se. O pão à Bolsonaro —com derramamento de leite condensado por cima (arghhh!)— virou moda. Além da volta da calça boca de sino e do sapato cavalo de aço, pode apostar que vem mais breguice por aí.
Alvaro Costa e Silva
Jornalista, atuou como repórter e editor. É autor de "Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro".

    sexta-feira, 9 de novembro de 2018

    Desempregados racharão a conta, OESP

    Rachada a conta, estimada em até R$ 6 bilhões por ano, os desempregados pagarão a parte mais dolorosa do aumento pelo novo teto do funcionalismo

    O Estado de S.Paulo
    09 Novembro 2018 | 03h00
    Rachada a conta, estimada em até R$ 6 bilhões anuais, os desempregados pagarão a parte mais dolorosa do aumento concedido a juízes do Supremo Tribunal Federal (STF), membros da Procuradoria-Geral da República e todos os demais servidores beneficiados pelo novo teto de vencimentos do funcionalismo. O salário mensal de cada juiz do STF passará de R$ 33,7 mil para R$ 39,2 mil, graças ao reajuste de 16,38% aprovado pelo Congresso. O gasto adicional de R$ 6 bilhões para o setor público foi estimado pela consultoria do Senado. Podem-se discutir detalhes do cálculo, mas o custo social é inegável. Despesa maior significa maior dificuldade para consertar o enorme rombo das contas públicas, em todos os níveis de governo, e, como consequência, maior dificuldade para impulsionar o crescimento econômico e a criação de empregos.
    Num país com 12,5 milhões de desempregados, o equivalente a 11,9% da força de trabalho, todo político decente deveria ter como prioridade animar os negócios para estimular contratações.
    Com mais alguns números o quadro fica mais assustador. Se à parcela desempregada forem somados os trabalhadores com horas insuficientes de ocupação e os indivíduos contados na força de trabalho potencial, a taxa de subutilização chegará a 24,2%, ou 27,3 milhões de pessoas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou esses dados no fim de outubro.
    O pessoal do Judiciário, argumentaram defensores do aumento, havia passado quatro anos sem reajuste salarial. É verdade, mas trabalhadores do setor privado ou tiveram aumentos modestos ou nenhum aumento, e muitos foram simplesmente postos na rua. Os desempregados, que totalizavam 12,5 milhões de pessoas segundo a última pesquisa, nem podem pensar em reajuste, porque nem sequer recebem salários - alguns há dois anos ou até há mais tempo.
    Diante disso, os R$ 33,7 mil dos juízes do STF parecem uma remuneração tolerável. Os demais servidores públicos, mesmo os de salários mais modestos, têm pelo menos a garantia do direito ao salário regular e à segurança de permanecer no emprego.
    O presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), poderia ter encerrado seu mandato sem pôr em votação o projeto de aumento, já aprovado na Câmara. A proposta, parada na Comissão de Assuntos Econômicos, foi desengavetada pelo presidente da Casa. Na quarta-feira à noite, com pouca gente no plenário, ele conseguiu incluir o assunto na pauta de votação da sessão seguinte. O aumento acabou aprovado por 41 votos contra 16. 
    Também segundo defensores do projeto, o gasto adicional será compensado pela redução de outras despesas, com a eliminação do auxílio-moradia e de outros penduricalhos. O presidente do Senado citou esse argumento. Mas isso é apenas uma possibilidade e, além disso, a troca é moralmente discutível - tão discutível quanto o custeio de moradia concedido aos juízes.
    Aos vários argumentos contra a elevação dos salários o relator do projeto, senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES), acrescentou detalhes de peso. Por estar fora da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e da proposta do Orçamento-Geral da União, os parlamentares nem poderiam votar o aumento. Além disso, recordou, é proibido elevar salários nos últimos 180 dias de governo.
    Sem ter sido reeleito, o senador Eunício Oliveira deverá enfrentar como cidadão comum as investigações baseadas em delações de dirigentes e ex-dirigentes da Odebrecht.
    Mas o gesto de simpatia de Eunício Oliveira e seus pares aos magistrados foi apenas um dos novos golpes contra o Tesouro. Um dia depois do aumento aos juízes, o Senado aprovou a medida provisória de criação do Rota 2030, novo programa de mimos tributários ao setor automobilístico. Tão discutível quanto o programa anterior, o Inova Auto, o novo conjunto de benefícios será mais um presente a um setor muito protegido e com exportações comodamente concentradas na vizinhança. Sensatamente, a equipe do Ministério da Fazenda se opôs ao programa. Foi tão derrotada, nesse caso, quanto a maioria dos contribuintes e os milhões de desempregados. O presidente da República pode consertar a lambança, vetando os dois projetos.