domingo, 27 de dezembro de 2015

A classe média na pior, por KENNETH SERBIN - O ESTADO DE S.PAULO


Antes majoritária nos EUA, ela perdeu terreno para a classe alta e atrabalhadora – e ainda sofre com as frequentes tentativas de suicídio

 
 
Numa virada histórica muito importante, Brasil e México tornaram-se sociedades de consumo fundamentalmente de classe média. Outros países em desenvolvimento seguem trajetória de crescimento semelhante. Entretanto, em 2015, foi possível confirmar uma tendência perturbadora em sentido contrário na primeira nação fundamentalmente de classe média em todo o mundo: depois de viver por mais de quarenta anos essa experiência, os Estados Unidos deixaram de ter uma classe média majoritária.
No dia 9 de dezembro, o Pew Research Center, que pesquisa as tendências sociais e demográficas, divulgou um relatório, The American Middle Class Is Losing Ground, demonstrando que, atualmente, o número de americanos que se inscrevem nas classes superior e trabalhadora é maior que o da classe média. Em 1971, 61% dos americanos adultos viviam em casas de classe média. Hoje, essa porcentagem é de apenas 50%. (Levando-se em conta as famílias, a porcentagem é menor ainda.)
Em termos positivos, o relatório observa que uma das causas desse declínio é a ascensão de milhões de pessoas à classe superior. Por outro lado, em termos negativos, milhões também desceram para a classe trabalhadora. “Uma análise mais profunda dessa mudança na classe média revela que na economia americana está ocorrendo uma maior polarização”, concluiu o relatório do Pew. E acrescentou: “Os adultos mais jovens, entre os 18 e os 29 anos, são os mais afetados pelo aumento significativo de pessoas pertencentes à sua faixa nas camadas de menor renda”.
A blogueira especialista em finanças Yves Smith, que tem considerável número de leitores, questionou a caracterização da classe superior, que o Pew descreveu como composta por 21% dos americanos adultos. Ela destacou que foram os americanos que compõem o patamar mais elevado de 1% da sociedade – e especialmente o 0,1% mais elevado – que se beneficiaram principalmente em termos de aumento da renda e da acumulação da riqueza.
O Pew fornece um método de cálculo para determinar a classe econômica de um cidadão. Eu me incluí na categoria de renda de um professor de universidade com uma família de três pessoas, o que me define como pertencente à classe média. Com a renda da minha esposa, professora da escola primária, nós nos qualificamos como classe superior – uma estranha classificação porque a casa, os carros e outros itens de nossa propriedade de maneira nenhuma são típicos da classe superior.
Nossa situação ilustra um fato profundo e no entanto frequentemente ignorado nos EUA, no Brasil e em outros países: o fato de na família haver duas pessoas que contribuem para a renda e a elevação do custo de vida em relação aos ganhos.
Imigrante, tapeceiro, sem curso secundário, nos anos 40 e 50 meu avô materno sustentava uma família de quatro pessoas com seu salário. Minha avó era dona de casa. Meus pais não cursaram uma universidade, e era meu pai quem sustentava em geral a família. Eles eram proprietários de casas sem, no entanto, jamais precisarem fazer uma hipoteca.
Eu tenho um doutorado, e minha esposa um mestrado. Com sorte, conseguiremos pagar toda a dívida hipotecária contraída para a compra da nossa casa até nos aposentarmos, daqui a uns dez, quinze anos. E, pelo fato de ambos trabalharmos, temos mais despesas relacionadas ao nosso emprego (um segundo carro e uma apólice de seguro, por exemplo).
Milhões de americanos têm histórias semelhantes à nossa.
Outros fatores corroeram a classe média: a drástica queda da filiação a sindicatos, o aumento do custo dos estudos universitários e o desaparecimento das aposentadorias privadas garantidas, substituídas em muitos casos por fundos de aposentadoria voluntários para os quais as empresas e os empregados contribuem, mas que não rendem o equivalente às aposentadorias antigas da previdência privada.
O estresse produzido pela polarização econômica, associado a outros fatores, pode literalmente estar encurtando a vida dos americanos. As pesquisas mais recentes indicam que a expectativa de vida dos americanos parou de crescer pela primeira vez desde que as estatísticas começaram a medi-la, no final dos anos 60. Embora a taxa de mortalidade de alguns grupos, como negros e latinos de meia idade, continue decrescendo, a dos brancos de meia idade aumentou no período de 1999 a 2013, segundo estudo realizado por dois acadêmicos da Universidade Princeton.
Parte dos alicerces da população americana – os brancos constituem o grupo maior na classe média – está morrendo envenenada por drogas e álcool, de suicídio e de doenças hepáticas crônicas como a cirrose, afirma o estudo. O documento registrou também um aumento da insalubridade entre os brancos de meia idade: “Eles relatam o declínio da saúde, da saúde mental e da capacidade de realizar as atividades da vida diária, o aumento de dores crônicas e a incapacidade de trabalhar, bem como a deterioração das funções hepáticas medida clinicamente; tudo isso aponta para um crescente sofrimento dessa população”. De fato, relatos da mídia indicam que o aumento do uso de heroína e da oxicodona, medicamento com efeito de narcótico, aumentou entre os brancos mais afetados pela crise econômica.
O estudo de Princeton calculou que, nesse período, morreu aproximadamente meio milhão de brancos de meia idade, cifra comparável ao total de americanos que morreram de aids.
Com o surgimento do movimento Black Lives Matter (A vida dos negros é importante) na esteira das mortes de afro-americanos provocadas pela polícia às quais está sendo dada muita publicidade, uma matéria divulgada por uma emissora no dia 16 de dezembro destaca o desespero contido nos dados de Princeton: “Há mais homens brancos de meia idade que morrem em tentativas de suicídio por arma de fogo do que homens de cor assassinados com armas de fogo”. Essa terrível situação levou muitos americanos a buscar esperança no discurso populista de Donald Trump e Bernie Sanders, pré-candidatos às primárias presidenciais americanas.
O declínio da classe média americana é um alerta a todas as sociedades. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
KENNETH SERBIN PROFESSOR TITULAR DE HISTÓRIA NA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO

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