quarta-feira, 9 de setembro de 2026

STJ decide futuro das reservas não convencionais de óleo e gás brasileiras, EIXOS

 O Superior Tribunal de Justiça (STJ) julga nesta quarta-feira (9/9) se o fraturamento hidráulico (fracking) pode ser usado para a exploração e produção de reservas não convencionais de petróleo e gás natural no Brasil — e, se puder, sob quais condições.

  • O caso, relatado pelo ministro Afrânio Vilela, entrou na pauta da Primeira Seção do STJ.  
Criticada por ambientalistas pela possibilidade de contaminação do solo e aquíferos, a técnica ajudou a transformar os Estados Unidos no maior produtor do mundo de petróleo e gás a partir da década de 2010. 
  • Também foi responsável pelo boom da produção de petróleo e gás no Canadá e, mais recentemente de gás natural, na província de Vaca Muerta, na Argentina.  
No Brasil, setores do agronegócio também são críticos à atividade. Na véspera do julgamento, a Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás (Abpip) defendeu que a técnica não seja proibida previamente e que eventuais projetos sejam avaliados individualmente, de acordo com critérios técnicos, ambientais e regulatórios.
  • “A posição é de que cabe à ANP e aos órgãos ambientais competentes avaliar e fiscalizar eventual utilização da técnica de acordo com as condições de cada projeto e com a melhor evidência científica disponível”, disse em nota.
  • O IBP também afirma que não há motivos técnicos ou ambientais para proibir a técnica.
É um tema que divide o atual governo: o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD/MG), já criticou publicamente diversas vezes as tentativas de proibir o fracking. Mas, para o Ministério do Meio Ambiente, a técnica não deve ser considerada em uma visão de longo prazo para o país. 
 
Para entender melhor. A atual discussão no STJ ocorre por meio de um Incidente de Assunção de Competência (IAC), instrumento previsto no Código de Processo Civil. 
  • A IAC visa fixar entendimento vinculante sobre questão de direito relevante, com grande impacto social, mas sem repetição em massa.
  • Ou seja, o resultado do julgamento valerá como precedente obrigatório para que a Justiça possa decidir sobre uma série de ações que tramitam no Judiciário brasileiro — e que foram abertas, em boa parte, pelo Ministério Público Federal (MPF).
São três pontos em disputa:
  • se a licitação de áreas com potencial de fracking exige Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS) antes do leilão;
  • se a regulação atual da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) é suficiente; 
  • e se os riscos para aquíferos podem ficar para o licenciamento ambiental de cada projeto — e quem é responsável pela emissão dessas licenças, o Ibama ou os órgãos estaduais. 
Um breve histórico. O caso partiu da 12ª Rodada da ANP, de 2013, que ofertou, na ocasião, blocos com potencial e produção de gás não convencional, na esteira do boom do desenvolvimento do shale gas dos EUA.
  • Em dezembro de 2014, o MPF entrou com ação civil pública contra a agência, a Petrobras, a Petra Energia e a Bayar Empreendimentos para barrar o fracking em cinco blocos da Bacia do Paraná, no oeste paulista;
  • A Justiça Federal deu razão ao MPF em 2017;
  • Em 2019, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) reformou a sentença e liberou os contratos;
  • O TRF-1, julgando blocos da mesma rodada, decidiu o contrário e condicionou a exploração à avaliação ambiental prévia.
  • Foi essa divergência, além do argumento de que aquíferos e biomas não respeitam divisas estaduais, que levou a conversão do caso em IAC, em maio de 2025.

Os pterodátilos contra-atacam- Ruy Castro _FSP

Rio de Janeiro

Tive o prazer de saber por José Eduardo Agualusa de um bem-vindo contra-ataque do analógico a certos flancos da ditadura digital: fotógrafos que voltaram a trabalhar com o velho filme, músicos gravando discos em fita magnética e escritores que —como ele— escrevem à mão e depois passam o texto para o computador. Não é só uma volta ao tempo dos pterodátilos. Os mais jovens talvez gostem de saber que há razões inclusive estéticas para essa recuperação de mídias dadas como extintas.

É fácil disparar a câmera do celular e ver se, até sem querer, sai algo que preste. Já a foto em filme obriga o fotógrafo, pelo custo do material, a buscar a expressão, a luz e o enquadramento perfeitos antes de clicar. O mesmo quanto à gravação da música em fita. Sem os recursos que hoje permitem afinar desafinados, dar voz a quem não tem e inventar ídolos incapazes de reproduzir no palco o que sai da mesa de som, os artistas precisam mostrar a que vêm. Quanto a escrever à mão, eu próprio teimo em fazer isso —todo dia.

Fui dos primeiros da minha turma a trocar a máquina de escrever pelo computador, em 1988, e nunca mais olhei para trás. Mas também nunca abandonei a caneta. Nos 19 anos em que ocupo este espaço na Folha, desde 2007 já produzi mais de 3.000 colunas. Todas escritas primeiro à mão, em cadernetas, com a infalível Bic preta, depois transcritas para o computador e, em muitos casos, impressas, rabiscadas e só então, se as acho prontas, enviadas para o jornal.

Escrevo em qualquer lugar —no táxi, na fila do supermercado, na sala de espera do dentista. Acho ótimo. Publicada a coluna, reabro a caderneta e xizo o rascunho de alto a baixo. Não me deixo apanhar de surpresa —se uma caderneta está acabando, já trago outra no bolso, pronta para entrar em campo. E não jogo fora as usadas. Servem para me lembrar o quanto me custaram de queima de massa cinzenta.

Estou me interessando agora pelos lápis, treinando em lhes fazer a ponta com gilete e lambê-la (a ponta, não a gilete) antes de escrever.

Afastamento de Andrei Rodrigues por Mendonça remete a interferências de Bolsonaro na PF, FSP

São Paulo

A decisão do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), de afastar nesta terça-feira (8) Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e o chefe de inteligência do órgão, Leandro Almada, remete às ações tomadas por Jair Bolsonaro, enquanto presidente, sobre a corporação, que viveu sua maior crise durante o governo do ex-mandatário.

Com os votos dos ministros Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, a Segunda Turma do STF formou maioria para referendar a ordem de Mendonça. O ministro Gilmar Mendes fez um pedido de vista, ou seja, de mais tempo para analisar o processo, mas a solicitação não muda o efeito prático do afastamento.

André Mendonça e o então presidente Jair Bolsonaro em abril de 2020, durante a posse de Mendonça como ministro da Justiça - Evaristo Sá - 29.abr.20/AFP

O motivo da decisão foi a produção de um relatório interno da PF usado pelo ministro Alexandre de Moraes para pedir na quinta-feira (3) uma investigação contra o próprio Mendonça por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução do caso do Banco Master e do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

A solicitação de Moraes ocorreu dois dias depois de Mendonça retirar na terça-feira (1º) o sigilo de outro relatório da PF que aponta Moraes como interlocutor de Daniel Vorcaro, dono do Master.

Especialistas ouvidos pela Folha entendem que as investigações sobre Moraes devem seguir, mas afirmam que Mendonça extrapolou suas competências e conduziu as apurações do caso Master de forma problemática ao determinar diretamente à PF a identificação do interlocutor de Vorcaro, sem levar o tema ao plenário do STF.

Demissão de Maurício Valeixo

Em 24 de abril de 2020, o então presidente, Jair Bolsonaro, hoje condenado por tentativa de golpe de Estado e preso, exonerou o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, em um ato que culminou no pedido de demissão de Sergio Moro, então ministro da Justiça que concorre hoje ao Governo do Paraná.

Moro, no discurso em que anunciou que deixaria o Ministério da Justiça, criticou a insistência de Bolsonaro para trocar o comando da PF sem apresentar razões concretas. O ex-juiz afirmou ainda que o então presidente queria ter acesso a informações e relatórios confidenciais de inteligência do órgão.

As declarações do ex-ministro levaram a uma investigação para apurar se o então presidente tentou interferir na autonomia da corporação. Em depoimento prestado a este inquérito, Valeixo afirmou que foi exonerado porque o então mandatário queria um diretor-geral com quem tivesse mais afinidade.

Bolsonaro tentou escolher Alexandre Ramagem —condenado pelo STF a 16 anos e um mês de prisão em setembro de 2025 por participar da tentativa de golpe de Estado, hoje foragido nos Estados Unidos—, mas a nomeação foi barrada pelo ministro Alexandre de Moraes.

Assim, Rolando de Souza se tornou o sucessor de Valeixo e trocou o superintendente da PF do Rio de Janeiro em maio de 2020.

Interferência na PF do Rio de Janeiro

Bolsonaro ensaiou uma mudança no comando da corporação em diversas ocasiões antes da exoneração de Valeixo, sempre como resposta à abertura e ao avanço de investigações contra pessoas de seu entorno —incluindo os inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos.

Em um dos episódios, em agosto de 2019, o então mandatário anunciou a troca do superintendente do órgão no Rio de Janeiro por questões de gestão e produtividade. Bolsonaro foi rebatido pela própria corporação, que afirmou que a mudança de comando já era discutida e não estaria relacionada ao desempenho do superintendente.

À época, a PF do Rio já passava por um momento instável após vir à tona o esquema das rachadinhas envolvendo Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro —primogênito de Bolsonaro e hoje candidato à Presidência pelo PL— na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro).

Do que Flávio Bolsonaro era acusado?

Flávio era suspeito de liderar uma organização criminosa para coagir funcionários de seu gabinete a devolver parte dos salários e utilizar os valores em benefício próprio. O esquema, chamado de rachadinha, seria operado por Queiroz. Em 2020, o presidenciável foi formalmente denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ).

Flávio, "filho 01" de Bolsonaro, foi deputado estadual de fevereiro de 2003 a janeiro de 2019 —em 2018, foi eleito ao cargo que ocupa até hoje, de senador. O caso não estava com a PF, mas o órgão era responsável por apurações sobre corrupção na Alerj que envolviam personagens em comum.

As investigações sobre rachadinha no gabinete de Flávio foram encerradas após o STF e o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anularem em 2021 as provas coletadas, sem que um processo criminal fosse aberto. O caso terminou, porém, com perguntas não respondidas sobre as movimentações financeiras de Flávio.

Bolsonaro admite intervenção durante reunião

Ainda em maio de 2020, veio à tona a gravação da reunião ministerial de 22 de abril do mesmo ano, na qual Bolsonaro vinculou a mudança do superintendente da PF no Rio à proteção de sua família.

"Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar f* minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança da ponta de linha que pertence à estrutura. Vai trocar; se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira", disse o então presidente dois dias antes de exonerar Valeixo.

A PF teve quatro diretores-gerais durante a gestão Bolsonaro: Maurício Valeixo (janeiro de 2019 a abril de 2020), Rolando de Souza (maio de 2020 a abril de 2021), Paulo Maiurino (abril de 2021 a fevereiro de 2022) e Márcio Nunes de Oliveira (fevereiro a dezembro de 2022).

Indicação de Bolsonaro ao STF

André Mendonça foi ministro da Justiça após a saída de Sergio Moro, cargo que ocupou até março de 2021 para atuar na AGU (Advocacia-Geral da União). Foi indicado ao STF por Bolsonaro em 2021, para substituir o ex-ministro Marco Aurélio de Mello.

À época, Bolsonaro afirmou que, com a aprovação de Mendonça ao STF pelo Senado, ele realizou seu compromisso de levar um nome "terrivelmente evangélico" à corte.