segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Ao confiar mais em balas que em urnas, políticos conservadores se tornam alvo de violência, Angela Alonso, FSP

 A saída acabou sendo mais momentosa que o debate. Foi quando o prefeito chamou na chincha o candidato ao governo do partido adversário. Aconteceu em São Paulo e não esquentou mais porque as respectivas equipes entraram apartando.

Na presidencial, Flávio Bolsonaro decidiu-se por slogan que ressoa o de Lula e alude à arminha do pai: "A esperança virou medo". Medo da criminalidade, que Jair Bolsonaro e seu pupilo Tarcísio de Freitas tinham prometido conter.

Homem de meia-idade com cabelo curto e escuro, veste terno preto e camisa branca, olhando para a frente com expressão neutra. Fundo escuro com pessoa desfocada segurando celular.
Flávio Bolsonaro durante entrevista coletiva em Brasília - Evaristo Sá - 5.ago.26/AFP

Como ficaram na promessa, o tema ficou na agenda e outros se lançam ao posto de solucionador-mor da República. A violência está no programa de Ronaldo Caiado, velho de guerra de 1989, como Lula. Em um de seus arroubos juvenis (já desafiou o Bananinha para luta livre), Kim Kataguiri propôs nada menos que uma bomba atômica.

Flávio B. e Caiado miram a dimensão social e Kataguiri, a Internacional da violência em suas agendas políticas. O entrevero entre Fernando Haddad e Ricardo Nunes alude à outra: a relação violenta dos políticos entre si.

Ataques mortais a políticos por outros políticos ou terceiros incomodados com suas ações é fenômeno internacional e de longa duração. No Brasil, de um janeiro a outro entre 2003 e 2023, houve 1.228 ataques a políticos e ativistas e 760 assassinatos consumados. Políticos são a maior parte desse bolo: 63,1% dos casos. Embora o levantamento para os últimos anos esteja em andamento, o problema não desapareceu.

O candidato que tematiza o medo tem medo ele próprio: segundo a revista Oeste, Flávio B. acumula 2.000 ameaças. Fiel ao pai, adotou colete e foge da Polícia Federal. Recusou esta polícia, mas recorreu à do Senado e triplicou sua segurança.

Não é só na presidencial que a violência se esgueira.

As deputadas Gleice Jane (PT-MS), em Dourados, e Lívia Duarte (PSOL-PA), em Belém, foram ameaçadas de morte, respectivamente, em dezembro de 2025, por Zap, e em fevereiro de 2026, por email. Tampouco é só misoginia. Lívia é a primeira deputada negra da Alepa (Assembleia Legislativa do Estado do Pará), o que, a própria apontou, adenda outra camada.

Mas os homens e os brancos, sendo maioria na política, são também os mais visados. O vereador de São Paulo Adrilles Jorge (União Brasil) registrou ameaça em abril. O deputado Cafu Barreto (PSD-BA) ganhou áudio aterrorizador em Ibititá, na Bahia. No Paraná, o deputado federal Toninho Wandscheer (PP) e seus filhos Alisson, deputado estadual (Solidariedade), e Tiago, secretário municipal de Fazenda Rio Grande, registraram BO em julho.

Nem quem tem arma escapa: a deputada federal Coronel Fernanda (PL-MT) encontrou em sua caixa de entrada, em junho, email com detalhes de sua rotina e a advertência: "Sei onde você mora".

A PF corre atrás. Anunciou operação nacional para assegurar a integridade física dos presidenciáveis, aumentando em cerca de 53% o contingente mobilizado (de 300 para 458 agentes). Mas enxuga gelo.

A variedade de estados atesta que a questão suplanta o nível local, abrange políticos municipais quanto estaduais e ronda a Presidência. Resolver conflitos políticos à bala é fato tão notório quanto nacional.

E não é específico desta conjuntura. A violência contra políticos é tão velha quanto a República: o primeiro civil na Presidência, Prudente de Morais, quase morreu de bala. E atinge a todos os partidos. Contudo, governos de direita abrem mais campo para ocorrências ao liberarem armas ou incentivarem seu uso. No levantamento citado, a média anual de assassinatos políticos mais que dobrou entre o primeiro governo Lula e o de Bolsonaro.

O fenômeno deve muito ao discurso de políticos conservadores de estímulo à resolução direta dos conflitos políticos, desprezando as mediações institucionais. Confiando mais nas balas que nas urnas, são eles próprios, muitas vezes, as vítimas delas.

Assassinatos políticos no Brasil

GovernoAtivistasPolíticosVítimas indiretasTotalQuantidade de anos no cargoMédia de casos por ano
Esquerda
Lula 14046086421,5
Lula 23231063415,8
Dilma 147764127431,8
Dilma 224470711,450,7
Direita
Temer 13202250,383,3
Temer 2459421412,361,3
Bolsonaro721311204451
Total2634459717

Fonte: Banco de Assassinatos Políticos do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). A diferença do total de assassinatos (760 e 717) se deve aos casos sem informação precisa do mês em que foram cometidos.

Com dívida de R$ 17,3 bi, Grupo Casas Bahia pede recuperação judicial, FSP

 Maeli Prado

São Paulo

O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais na Justiça de São Paulo no final da noite deste domingo (16), e declarou uma dívida de R$ 17,3 bilhões.

O pedido engloba dez empresas da holding, entre elas a dona das marcas Casas Bahia e Ponto Frio, o e-commerce Extra.com e a fabricante de móveis Bartira, além de subsidiárias de logística e tecnologia.

Das dívidas, R$ 16,4 bilhões são com credores quirografários (ou seja, sem garantia), R$ 754 milhões de credores trabalhistas e R$ 154 milhões com microempresas e empresas de pequeno porte.

O grupo informa no pedido a demissão de cerca de 3.000 funcionários, de 30.117 colaboradores que possui, e o fechamento de quase 300 lojas —segundo o documento, a Casas Bahia possui mais de 700 lojas físicas, e o Ponto Frio, mais de 65.

A petição vem cerca de dois anos após a varejista homologar uma recuperação extrajudicial que reestruturou R$ 4,8 bilhões em dívidas financeiras em abril de 2024, da qual saiu três meses depois.

No documento enviado à Justiça, a companhia aponta que a crise está relacionada aos pesados investimentos em tecnologia, logística e lojas digitais iniciados em 2019, somados aos choques da pandemia, que paralisaram as lojas físicas.

Perto da abertura do mercado, as ações das Casas Bahia (BHIA3) despencavam 31,81%, cotadas a R$ 0,45.

Homem e mulher analisam cafeteira em loja com várias prateleiras cheias de eletrodomésticos e etiquetas de preços visíveis, incluindo uma placa amarela com preço R$ 249,00.
Clientes em megaloja da Casas Bahia durante preparativos para a Black Friday de 2025 - Felipe Iruatã - 27.nov.25/Folhapress

Segundo a petição, embora o plano de digitalização tenha começado quando a Selic estava na mínima histórica de 2% ao ano, entre o final de 2020 e o início de 2021, o salto do juros até o patamar de 15% ao ano desorganizou a estrutura financeira da companhia.

Ainda de acordo com o pedido de recuperação judicial, o modelo da varejista é altamente dependente de capital de giro, financiamento a estoques, operações de risco sacado com fornecedores e do crédito direto ao consumidor.

Com a escalada dos juros e da inflação, houve encarecimento do crédito, compressão da renda das famílias de menor poder aquisitivo e avanço da inadimplência nos carnês e cartões, além de um aumento expressivo da concorrência de plataformas digitais, diz a petição.

O documento aponta que que as iniciativas do chamado Plano de Transformação, iniciado em 2023 com corte de despesas, redução de estoques e fechamento de 55 lojas deficitárias, geraram alívio apenas pontual.

MEDIDAS DE URGÊNCIA

Na petição inicial, a Casas Bahia solicita uma série de medidas de urgência para evitar a paralisação imediata das operações.

A maior preocupação do grupo reside no risco de vencimento antecipado de mais de R$ 10 bilhões em contratos financeiros e comerciais. A empresa afirma que, caso os bancos retenham as garantias de cartão de crédito e Pix, até 60% da entrada mensal de caixa seria drenada imediatamente, inviabilizando o negócio.

A rede pede a suspensão imediata de execuções por 180 dias, vedação ao vencimento antecipado de contratos comerciais e manutenção do fluxo regular de recebíveis, impedindo retenções por parte de bancos credores.

Pede também a obrigatoriedade da entrega de mercadorias já compradas que estejam em trânsito com fornecedores e a liberação de mais de R$ 750 milhões em depósitos de recursos trabalhistas feitos em ações anteriores ao pedido para reforçar o caixa operacional.

PREJUÍZO DE R$ 10 BI

Neste domingo, a rede anunciou um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no trimestre, ante perda de R$ 555 milhões em igual período do ano passado. Com isso, o patrimônio líquido da Casas Bahia está negativo em R$ 8,1 bilhões. Isso significa que, se a varejista vender tudo aquilo que possui em bens e direitos a receber, ainda faltarão bilhões para pagar credores.

O valor de mercado da varejista em Bolsa é de R$ 660 milhões. A Casas Bahia não é mais controlada pela família Klein. Hoje a empresa possui como acionista de referência a gestora Mapa Capital, que assumiu 85,5% do capital da companhia em agosto do ano passado.

Com o prejuízo informado neste domingo, a Casas Bahia registra o seu oitavo trimestre seguido de perdas.

Desde a última vez que reportou lucro, no segundo trimestre de 2024, mesmo período em que entrou em recuperação extrajudicial, a varejista acumula resultados negativos que foram aumentando de tamanho.

Se entre o terceiro trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025 a companhia apresentava prejuízos de centenas de milhões de reais, o rombo escalou e ultrapassou R$ 1 bilhão nos períodos que se seguiram, escancarando a crise financeira da empresa.

Ex-vendedor de frutas cria tecnologia para coletar resíduos de rios e de areia das praias, FSP

 Fernanda Mena

São Paulo

Centenas de capacetes, um sofá, uma porta de geladeira e dezenas de televisores de tubo. Esses são alguns dos resíduos mais esquisitos que as águas do rio Atuba, na região metropolitana de Curitiba (PR), levaram até a barreira criada há dez anos por Diego Saldanha na tentativa de impedir que tudo aquilo seguisse o curso até desaguar no Iguaçu e suas famosas cataratas.

"Eu morei a vida toda à beira do rio Atuba. Há 30 anos, ele era limpo. Eu nadava e pescava ali. Hoje, o rio está sujo e poluído", diz o paranaense que queria "trazer uma vida melhor para o rio".

O que começou em 2016 de forma improvisada para capturar resíduos dos rios hoje é um sistema batizado de ecobarreira e composto por uma balsa flutuante atravessada de uma margem a outra do rio equipada com esteira transportadora e um pequeno galpão para receber e triar resíduos. E Saldanha estima que já tenha retirado mais de 40 toneladas de materiais do Atuba.

Homem usando botas de borracha e luvas está em um rio raso, segurando uma rede de pesca. Ele está atrás de uma barreira flutuante branca que se estende pelo rio, cercada por vegetação densa nas margens.
O paranaense Diego Saldanha era vendedor de frutas quando resolveu experimentar um sistema para reter os resíduos do rio perto da sua casa. Criou a ecobarreira, hoje em outros sete pontos do país, e, anos depois, a ecopeneira, para peneirar resíduos das areias das praias - Divulgação

Também se desdobrou em uma estrutura metálica que pode ser arrastada pelas areias das praias para peneirar as tampinhas, bitucas e outras sujeiras, batizada de ecopeneira. A ferramenta, criada em 2023, vendeu cerca de R$ 1,1 milhão desde então.

Dez anos atrás, quando começou o protótipo da ecobarreira, trabalhava como vendedor de frutas nos semáforos de Curitiba. Usou o que tinha à mão: tambores de 20 litros envolvidos por redes de proteção, amarrados uns aos outros e atravessados de uma margem à outra do Atuba.

A estrutura inicial retinha pouco lixo, mas o suficiente para convencê-lo do potencial da sua invenção. "Vi que ficou legal, que era possível evoluir a ideia e comecei a divulgar isso nas minhas redes sociais, porque tinha feito tudo por conta própria", diz. "Encontrei alcance e apoio."

Seu experimento, no entanto, não foi bem recebido por todos. "Me chamaram de louco. E fui até denunciado por vizinhos", lembra ele sobre o episódio que lhe rendeu uma visita da polícia ambiental, que posou para uma selfie antes de fechar a ocorrência.

"No fim, isso me ajudou. Ganhei 2,5 milhões de visualizações", brinca. Com a visibilidade, o projeto virou negócio, e Saldanha, um empreendedor ambiental. Hoje, ele diz que a atividade mudou sua vida em todos os sentidos. "Eu me sinto muito bem limpando o rio. Consegui trazer um conforto para a família, tudo por acreditar num sonho que, no início, muita gente não acreditava."

Segundo Saldanha, a quantidade de lixo capturada pela ecobarreira varia de acordo com o rio e com a época do ano. No Atuba, ele calcula retirar de 2 a 3 toneladas por ano. "Em alguns outros rios, pode ser isso por mês, em especial em rios urbanos, que concentram mais resíduo", afirma.

Ainda que a pesca e o transporte marítimo sejam responsáveis por parte do lixo que vai parar nos oceanos, são os rios os maiores emissores de resíduos nos mares. Eles carregam até o mar o lixo descartado de forma inadequada —às vezes há centenas de quilômetros de distância da linha costeira.

A ideia já foi replicada em outros lugares. Saldanha cita uma instalação no riacho Salgadinho, em Maceió, (AL) que deságua no mar e onde a barreira funciona como uma espécie de cinturão de proteção para reduzir a chegada de resíduos ao oceano. Também levou o modelo para igarapés de Belém (PA) durante a COP30, e a Matinhos, no litoral do Paraná.

Saldanha, que só conhecia as margens do Atuba e do Iguaçu, viajou por vários rios do Brasil. "Conheci a foz do Amazonas, a usina de Itaipu e o rio Madeira", conta ele, que também passou a percorrer o litoral brasileiro em ações ambientais em parceria com marcas como Havaianas e Sprite em que usa a ecopeneira que desenvolveu.

Homem de camiseta branca e bermuda preta usa um rolo grande para alisar a areia clara de uma praia durante o dia. Ao fundo, mar azul e vegetação verde sob céu claro.
O empreendedor ambiental Diego Saldanha utiliza a ecopeneira que criou para limpar resíduos das areias das praias - Divulgação

Saldanha conta que sempre passa o fim de ano no litoral e fica incomodado com a quantidade de lixo deixada na areia depois das festas da virada. Conheceu um equipamento deste tipo num evento ambiental no Marrocos, e adaptou o modelo na volta ao Brasil.

Feita de aço galvanizado, ela é empurrada como um arado, e peneira a areia, retendo resíduos pequenos, como canudos, sachês, tampinhas de metal e de plástico. "Já encontrei agulhas e muito caco de vidro também."

A procura pelo equipamento fez o inventor transformar a adaptação em outro produto comercial. Há modelos de cerca de R$ 800 e versões com rodas, para facilitar o deslocamento, por cerca de R$ 1.200.