domingo, 16 de agosto de 2026

Coitado do Flávio Dino, Elio Gaspari, FSP

 Depois que a casa caiu, a decisão de se vasculhar equipamentos eletrônicos de jornalistas parece ser de responsabilidade difusa. O ministro Flávio Dino, do STF, disse que está sofrendo "agressões e injustiças" ao ser vinculado à ilegalidade essencial do procedimento. O artigo 5º, no seu inciso 14, diz que "é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional". Pode ser um exagero, mas está lá.

Na tipologia dos comportamentos, existe a figura do coitadinho profissional. Seja qual for a conduta criticada, tudo resulta da má-fé do outro. Dino entrou num enredo da política maranhense criando um problema federal, constitucional, porque achou que podia defender-se valendo-se de uma arma eficaz, porém tóxica. O mais incrível é que funcionou por cinco meses e, se a irmandade do Supremo não acordar, acaba associado a coitadinhos profissionais de todas as espécies. A decisão irá ao plenário do tribunal.

Homem de meia-idade com óculos, terno e gravata azul e verde, veste toga preta e está em ambiente institucional. Ao fundo, há uma bandeira do Brasil e um grande brasão dourado na parede.
O ministro do STF Flávio Dino - Gabriela Biló - 25.fev.26/Folhapress

Aos fatos:

Na política maranhense, há de tudo. Dino tem 37 anos de vida pública honrada e é perseguido por um blogueiro. No início deste ano, o blogueiro Luís Pablo noticiou que Dino e familiares seus usavam uma caminhonete blindada do Tribunal de Justiça maranhense em suas movimentações.

No dia 4 de março, o ministro Alexandre de Moraes atendeu a um pedido da Polícia Federal, acompanhado pelo Ministério Público, e determinou a apreensão de celulares, computadores, tablets, documentos e outros dispositivos eletrônicos que possam auxiliar na investigação. A decisão também permitia a análise do conteúdo armazenado nos aparelhos, inclusive dados guardados em serviços de armazenamento em nuvem.

À época, a decisão foi condenada por entidades jornalísticas. Palavras ao vento, estava aberto o precedente. A apreensão desses equipamentos de qualquer jornalista expõe suas conexões e, com isso, suas fontes.

Passaram-se seis meses e a diligência deu o resultado desejado e previsto. A proteção constitucional do sigilo da fonte foi para o espaço. Era o que a PF, o Ministério Público, Moraes e Dino queriam.

A fonte seria Raimundo Cutrim, ex-secretário de Governo do Maranhão. Cutrim está em prisão domiciliar determinada por Flávio Dino desde julho, por causa de outras atividades. As quizilas da política maranhense têm de tudo, nunca precisaram atropelar a Constituição por decisão monocrática de um ministro do Supremo.

Seu advogado pergunta: "Investigam um jornalista que faz denúncia, investiga o advogado que o orienta, a fonte... e não investigam a denúncia? É muito estranho". Põe estranho nisso.

A essa altura, Dino explica que nunca usou veículos do Tribunal de Justiça de forma irregular, pois um convênio dá transporte e segurança aos ministros do STF em trânsito pelo Estado. Tudo nos conformes. O problema de Pindorama está nos conformes dos hierarcas. No Império, nos conformes, magistrados conseguiam para seus serviços negros contrabandeados que, pela lei, seriam libertos. Tudo legal.

Há meses, o distinto público é bombardeado por notícias dando conta de que o Supremo Tribunal Federal combate os penduricalhos da magistratura. As associações de juízes sustentam que cada um deles é legal, e é. Semelhante bizarrice tem a mesma origem que a decisão de apreender equipamentos de jornalistas.

Do folclore maranhense

O cacique maranhense Vitorino Freire (1908-1977) odiava José Sarney e era um arsenal de frases e piadas. Foi ele quem levou para o anedotário político a expressão que "jabuti não sobe em árvore, alguém pôs ele lá".

Hoje ele é nome de município, porém pouco lembrado. Para se ter uma ideia do seu estilo, aqui vai um.

Certo dia, Vitorino visitou o ministro do Exército, general Sylvio Frota, com um pote de doce e disse: "General, aqui vai um doce de jaca lá do Maranhão, sugiro que o deixe na sua sala de jantar, num lugar bem visível, porque o Sarney anda dizendo que o senhor é diabético".

Frota não era diabético, nem Sarney dizia que era.

Em 1968, depois da edição do AI-5, Vitorino e outros 20 senadores protestaram num telegrama ao presidente Costa e Silva.

A iniciativa caiu mal, e 34 assinaram uma carta ao presidente Médici louvando a edição do ato.

Sete assinaram os dois, inclusive Vitorino.

Médici guardou poucos papéis, entre eles esses dois documentos.

Fake news e o STF

A decisão do ministro Edson Fachin de levar ao plenário a decisão monocrática de apreender celulares, computadores e tablets de um blogueiro será um teste de vida ou morte para o inquérito das fake news.

Sob o controle do ministro Alexandre de Moraes, essa sucessão de devassas já completou sete anos e, se ninguém se incomodar, chegará aos dez.

O sigilo da fonte e Trump

Donald Trump aborreceu-se porque repórteres noticiaram que sua segurança detectou falhas na segurança no Boeing de US$ 400 milhões que ele ganhou da família real do Qatar. Queria saber as fontes, interrogou repórteres e seus familiares, mas não recorreu à apreensão de seus equipamentos. A Constituição americana não assegura o sigilo das fontes, assegura a liberdade de expressão e, com ela, põe fora da lei as tentativas de inibi-la.

No Brasil, por decisão monocrática do ministro Alexandre de Moraes, a Constituição blindou o sigilo da fonte, mas ele liberou o conteúdo de equipamentos eletrônicos de jornalistas. Deu no que deu.

Num caso de choque em torno das fontes de uma reportagem de Judith Miller, do New York Times, ela ficou 85 dias na cadeia.

Em 2003, Miller escreveu que a ditadura iraquiana de Saddam Hussein tinha um arsenal de armas químicas e de destruição em massa. Fonte? Zero. O caso foi investigado e Miller recusou-se a revelá-la. Ela também não identificou quem lhe passou o nome de uma agente clandestina da Central Intelligence Agency. A fonte teria cometido um crime.

Miller teve ampla solidariedade e o apoio do publisher do Times.

As armas químicas e de destruição em massa eram uma invenção de Ahmad Chalabi, ex-ministro, dissidente iraquiano no exterior e fonte de Judith Miller.

O Times reconheceu que algumas de suas reportagens estavam erradas e livrou-se dela em 2005.

Jornalista premiada, sua cobertura das armas de Saddam deu-lhe o estrelato e o declínio.

Cruz eleitoral

Pela primeira vez em 30 anos, a importação de calçados superou a exportação. Virou pó um quarto da receita vinda dos calçados vendidos para os estados.

Os candidatos da bancada brasileira de Donald Trump ganharam mais um peso para carregar em outubro.

Alstom investe R$ 130 mi em 5 anos para ampliar produção de trens em SP - FSP

 Marcelo Toledo

Ribeirão Preto

A fabricação dos 22 trens previstos em contrato para a linha 6-laranja do Metrô de São Paulo gerou cerca de 5.000 empregos, envolveu 120 fornecedores ferroviários no país e faz parte de um movimento da Alstom nos últimos anos para ampliar a produção de trens em sua planta no Vale do Paraíba, interior paulista.

A afirmação é da executiva Suely Sola, diretora geral da Alstom Brasil, que disse que o retrato da indústria em Taubaté é resultado de um investimento de R$ 130 milhões nos últimos cinco anos para atender os mercados interno e externo. Segundo ela, produzir para outros países é questão de sobrevivência para o setor ferroviário.

Trem de metrô com frente aerodinâmica laranja e laterais metálicas estacionado em trilhos dentro de galpão industrial. Estrutura metálica e iluminação do depósito são visíveis ao fundo.
Trem da Alstom fabricado em Taubaté, no Vale do Paraíba, para a linha 6-laranja do Metrô de São Paulo - Divulgação/Alstom

Inaugurada em 2015, a fábrica conta em sua carteira com mais de 170 trens entregues (940 carros de passageiros) nos últimos três anos, para projetos nacionais e internacionais, entre eles para atender pedidos de Chile, Romênia e Taiwan.

Do total previsto para a linha 6, 14 trens já foram entregues, o mais recente deles nesta sexta-feira (14), com capacidade para transportar até 2.044 passageiros por trem.

A composição, que foi entregue no Pátio Morro Grande, na zona norte da capital, poderá atingir até 80 quilômetros por hora e é dotada de tecnologia que permitirá intervalos de cerca de dois minutos entre os trens em horários de pico.

"[Temos] Quatro trens em operação, que são dois que fazem a operação e tem dois de backup. Estamos trabalhando com o cronograma oficial da linha, a gente tinha previsão de entrega de 11 trens até setembro, que é o primeiro marco. Os demais trens até o final do ano", disse Suely.

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Segundo ela, pouco antes da pandemia de Covid-19 a fábrica em Taubaté começou a ser preparada para ser uma fábrica de trens, tanto de subúrbio quanto de metrô, e não de VLTs (Veículos Leves sobre Trilhos) —são da empresa os trens do VLT Carioca, entregues para os Jogos Olímpicos de 2016.

Desde então, atendeu projetos das linhas 8 e 9 e outros fora do Brasil, como em Bucareste, capital da Romênia, e se preparou gradativamente ampliando a planta, conforme a executiva.

"Quando você olha para a mobilidade, os projetos de mobilidade no Brasil, você vai ver que tem as altas fases e os vales incríveis. Então, se a gente não tivesse desenvolvido essa estratégia de fornecer também para fora, a gente também já teria morrido, como muitas empresas que vieram e saíram. Vieram e saíram. Por quê? Elas vieram para fabricar para o Brasil, para o mercado local, nacional. Mas isso não se sustentava. Pode até ser que de hoje em diante se sustente, vamos acreditar que sim. Mas para nós, todos os vales que nós tivemos, o que nós fizemos? A gente pôde exportar conhecimento, fornecendo toda engenharia de sinalização para projetos fora do Brasil", disse.

As indústrias ferroviárias instaladas no país projetam fechar o ano tendo produzido mais locomotivas, vagões e carros de passageiros, mas afirmam que o desempenho poderia ser melhor se houvesse igualdade de condições em relação à concorrência da China.

A projeção da Abifer (Associação Brasileira da Indústria Ferroviária) indica que serão fabricadas 72 locomotivas, 1.900 vagões de carga e 193 carros de passageiros em 2026, ante 66 locomotivas, 1.700 vagões e 122 carros do ano passado.

Suely disse que o mercado nacional deseja que as condições "sejam justas" para todos os envolvidos nas oportunidades.

A primeira fase da linha 6, com oito estações, estava prevista para abrir apenas em outubro. No entanto a inauguração de seis delas foi antecipada para o dia 2 de julho —assim, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) participou da cerimônia, dentro do prazo permitido pela legislação eleitoral, que veta a presença de candidatos em eventos do tipo desde 4 de julho.

A previsão do governo estadual é que a linha 6 transporte cerca de 633 mil passageiros por dia quando estiver em plena operação e que o ramal reduza de uma hora e meia para 23 minutos o tempo de deslocamento entre a Brasilândia e a estação São Joaquim.

De acordo com a concessionária Linha Uni, responsável pela construção e operação do ramal, foram transportados 42.239 passageiros entre 3 e 31 de julho, média de 2.223 por dia.

A estação de maior movimento foi a João Paulo 1º, na Brasilândia (zona norte), com média de 10.861 passageiros no dia, seguida por Sesc-Pompeia (7.398), Água Branca (6.717), Freguesia do Ó (6.373), Santa Marina (5.729) e Perdizes (5.161).

Quando estiver concluída, a linha 6-laranja terá 15,3 quilômetros de extensão e 15 estações.