sábado, 6 de junho de 2026

ONS aciona plano emergencial inédito para cortar geração por excesso de energia, FSP

 André Borges

Brasília

O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) acionou pela primeira vez um plano emergencial criado para reduzir a geração de energia do país, devido ao excesso de oferta de eletricidade previsto para este domingo (7).

A medida foi tomada para evitar possíveis riscos de desequilíbrio no sistema elétrico, diante da previsão de oferta de energia muito maior que a demanda. Isso pode acabar derrubando a transmissão e causando apagões.

A imagem mostra uma fileira de painéis solares inclinados em um campo verde. O céu está claro com algumas nuvens, e a luz do sol ilumina os painéis, que estão posicionados em um ângulo para maximizar a captação de luz solar.
Operador prevê excesso de geração de energia e baixo consumo, o que deve resultar em desligamento de solares por distribuidoras - Divulgação/EDP

Essa é a primeira vez que o operador precisa recorrer ao mecanismo, desde que a regra foi aprovada pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) em novembro de 2025.

O sistema elétrico precisa manter equilíbrio permanente entre a energia produzida e consumida. Quando a geração fica muito acima da demanda, aumenta o risco de desligamento automático de equipamentos.

Em nota divulgada neste sábado (6), o ONS informou que a previsão para domingo aponta uma carga reduzida, ou seja, baixo consumo de energia. O Operador determinou inicialmente a redução da geração das usinas que estão sob sua coordenação direta. Essa medida não foi suficiente para eliminar o risco, o que levou ao acionamento do plano emergencial.

Por isso, foi necessário acionar o "Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição", que deve cortar, principalmente, a geração entregue por usinas solares de pequenos e microgeradores, que não têm conexão gerenciada pelo ONS.

"O ONS seguirá acompanhando e coordenando ações no SIN, fazendo a gestão dos recursos disponíveis, de acordo com a demanda da sociedade em comunicação direta com os agentes do setor. Segue também atento a nova realidade eletroenergética e trabalhando para garantir a segurança e a eficiência do sistema, de acordo com os procedimentos de rede vigentes", declarou o órgão.

O Operador já realiza cortes de geração há anos, seja de eólicas ou grandes usinas solares. O que nunca havia ocorrido era a necessidade de utilizar esse novo instrumento regulatório para alcançar pequenos geradores conectados às redes das distribuidoras.

A nova regra foi criada após uma série de alertas do próprio ONS sobre o aumento do risco de excedentes de energia em períodos de baixa carga.

O procedimento segue etapas definidas. O ONS monitora as condições do sistema com antecedência de até sete dias e pode emitir alertas preliminares às distribuidoras. Na véspera da operação, confirma se a restrição será necessária e informa o montante de energia que deverá ser reduzido. As distribuidoras comunicam os geradores afetados.

O ONS não escolhe diretamente quais usinas serão desligadas. Essa tarefa cabe às distribuidoras. A metodologia prevê a seleção de usinas com maior previsão de geração naquele período e um sistema de rodízio, para evitar que os cortes recaiam sempre sobre os mesmos geradores.

A geração solar é o principal alvo porque o problema aparece justamente nos horários de maior produção fotovoltaica, normalmente entre o fim da manhã e o meio da tarde. Em um domingo ensolarado, com baixa atividade econômica e consumo reduzido, as usinas solares tendem a produzir grandes volumes de energia exatamente quando o sistema menos precisa dela.

Além destas, podem ser desligadas pequenas centrais hidrelétricas, usinas a biomassa e parques eólicos de menor porte.

Fachin cria grupo de trabalho para fazer pente-fino nos penduricalhos, FSP

 Em março, o plenário do STF estabeleceu um limite de penduricalhos. Pela decisão da Corte, os pagamentos indenizatórios não podem ultrapassar 70% do salário dos magistrados.

O grupo de trabalho criado por um Fachin deve ser instaurado de fato na próxima semana. Ele é composto por cinco secretários e juízes do CNJ, com convidados do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público), da DPU (Defensoria Pública da União), do Senado, da Câmara dos Deputados e do TCU (Tribunal de Contas da União).

De acordo com a portaria, ao final dos trabalhos o grupo apresentará normas e propostas, inclusive legislativas. Ou seja, apesar do apelo popular para o fim dos penduricalhos, projetos sobre o tema só devem ser apresentados após as eleições e analisados pela próxima leva de deputados e senadores eleitos este ano.

O mapa dos penduricalhos, porém, ficará pronto em até dois meses, segundo a portaria publicada por Fachin.


Pra ver o Sena tem que ir a Paris, Antonio Prata - FSP

 Antonio Prata

Desde que surgiu o ChatGPT, a questão é repetida: será que as máquinas aprenderão a contar boas histórias? Produzirão contos, crônicas, romances, poemas, peças, roteiros de filmes e séries com profundidade, graça, beleza? Na mesma seara, em entrevistas com escritores virou pergunta obrigatória "Você usa IA no seu trabalho?".

Outro dia, num bar, um cara queria me convencer que se eu criasse os personagens, uma trama e pedisse pra uma dessas ferramentas misturar, sairiam ótimas cenas. Ele não entendia por que eu insistia no método anacrônico de buscar ideias dentro da minha cabeça.

Grande parte da graça de escrever está em descobrir sobre o que estamos escrevendo. Na maior parte das vezes as histórias não brotam prontas na cabeça de um escritor. O que aparece é uma imagem. Uma frase. Uma cena. Um fiozinho que o inconsciente lança do fundo de suas Fossas Marianas e que devemos puxar, até desenrolar todo o novelo. O cerne deste ofício é o processo, não uma noite de autógrafos ou uma estreia na TV.

Pessoa vestindo terno sentada em cadeira atrás de mesa com laptop, com água cobrindo o chão ao redor. Fundo apresenta cores vibrantes em tons de vermelho, amarelo e verde.
Adams Carvalho/Folhapress

Um belo dia surgiu na cabeça do escritor mineiro Campos de Carvalho um título: "A lua vem da Ásia". Ele não tinha a menor ideia do que significava. Sentou-se à máquina de escrever e depois de meses investigando apenas com as duas mãos e o sentimento do mundo, como diria um conterrâneo seu, terminou a história que começa assim: "Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa —e qual defesa seria mais legítima?— logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo."

William Faulkner escreveu "O Som e a Fúria" quando lhe veio a imagem de uma menina com a calcinha enlameada, em cima de uma árvore, olhando por uma janela para dentro de uma casa. Quem era a menina? Por que a calcinha estava enlameada? O que havia na sala? Foram essas perguntas que levaram à criação de um dos maiores romances do século 20.

Gabriel García Márquez sentiu o cheiro das goiabas caídas num quintal ao retornar à sua cidade, Aracataca, depois de anos distante. O turbilhão de memórias de infância que o arrebatou viria a dar em "Cem anos de solidão".

Se alguém escolheu escrever como ofício, deve-se desconfiar que algum prazer (ou ao menos, vá lá, algum sentido) tire da labuta —por mais difícil que ela seja. O trabalho, quando fruto de uma vocação e não da mera necessidade de subsistência, é um dos motivos que nos fazem querer sair da cama, toda manhã. Colocá-lo, não só nas letras, mas em todas as áreas, nas mãos do computador, é um caminho para a humanidade se alienar ainda mais de uma existência que já não anda, digamos assim, num patamar Dalai Lama de mindfulness.

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Espero o dia que o Google ou a Meta promoverão lentes de contato com uma realidade virtual que te garantirá sexo sem ter que tocar em ninguém. A tecnologia —pensemos no trampolim, no cavaquinho, na churrasqueira e na ultrassonografia— deveria estar a serviço da vida, nos ajudando a vivê-la mais plenamente, não a relegá-la a segundo plano, enquanto microchips, Sam Altman e Mark Zuckerberg gozam pela (e da) gente.