segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Brasil está na pré-história da bioética, Hélio Schwartsman, FSP

 Povinho autoritário o nosso. Deu no Datafolha que 56% dos brasileiros são contrários à eutanásia e 60% se opõem ao suicídio assistido. E fica pior: 48% (contra outros 48%) acham que médicos não deveriam poder interromper um tratamento sem chance de cura a pedido do próprio paciente ou de sua família. Vale observar que essa é uma posição que nem os médicos adotam mais. Ao menos desde os anos 1980, firmou-se o consenso bioético de que o paciente competente deve ter autonomia para recusar tratamentos.

Se o Parlamento reflete a vontade do povo —e em algum grau sempre reflete—, é pequena a chance vermos um congressista propor e o Legislativo aprovar em breve uma legislação moderna de morte assistida. A questão é determinar se esse tipo de regramento precisa necessariamente surgir por iniciativa do Congresso ou se pode legitimamente resultar de decisão de corte constitucional. Dos quatro países da América do Sul que avançaram um pouco nessa matéria, em três (Colômbia, Equador e Peru) o processo foi deflagrado pelo Judiciário. Foi só no Uruguai que a legislação veio por projeto do próprio Legislativo.

Mão de profissional com jaleco branco segurando seringa preenchida com líquido transparente e agulha fina. Fundo desfocado sugere ambiente clínico.
Um médico prepara uma seringa com medicamento usado na prática de eutanásia, em um hospital na Bélgica - Simon Wohlfahrt - 1º.fev.24/AFP

A "vox populi" é uma variável fundamental na definição de várias políticas públicas, que vão das prioridades orçamentárias às normas de convívio social, sem mencionar a eleição de governantes, mas não se presta bem a lidar com direitos e garantias fundamentais. É em geral dos preconceitos e apetites da maioria que nós precisamos proteger as minorias. Existe uma esfera da vida que é tão privada que deve ser protegida até da intromissão de legisladores. A autonomia do paciente, inclusive para pôr fim à própria vida, entra aí. Simplesmente não faz sentido delegar à sociedade, isto é, a vizinhos, a decisão sobre se a vida ainda vale a pena ser vivida ou se se tornou um doloroso fardo.

O juiz natural aí só pode ser o próprio indivíduo. Impedir uma pessoa doente de abreviar seu sofrimento ou obrigá-la a estender seu calvário pelo maior tempo possível não é apenas autoritário mas também cruel.

domingo, 16 de agosto de 2026

Sonho americano da MRV chega ao fim e deixa impactos bilionários no grupo -OESP

 

A Resia foi criada em 2012, na Flórida, por empresários  liderados por Rubens Menin, fundador e acionista  da MRV
A Resia foi criada em 2012, na Flórida, por empresários liderados por Rubens Menin, fundador e acionista da MRV Foto: Resia/Divulgação

O balanço da MRV&CO mostrou como saiu cara a empreitada do grupo nos Estados Unidos. Em 2019, o a companhia internacionalizou suas operações, com investimentos pesados, mas o lucro esperado nunca se concretizou. Em vez disso, a conta foi parar no vermelho. E em dólar.

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A MRV&CO - conglomerado de empresas imobiliárias com MRV, Urba, Luggo e Resia - teve prejuízo líquido consolidado de R$ 626,3 milhões no segundo trimestre, conforme balanço divulgado na noite de quarta-feira, 12.

O que mais pesou foi o resultado da Resia, subsidiária que faz a construção de edifícios e a locação dos apartamentos nos EUA. Depois que o condomínio está cheio de inquilinos, a empresa vende o empreendimento inteiro para investidores que buscam dividendos com aluguéis. O objetivo da Resia era ganhar dinheiro com a venda dos imóveis e com a permanência à frente da administração dos apartamentos.

A Resia (antigamente chamada American Housing Solutions, AHS) foi criada em 2012, na Flórida, por um grupo de empresários liderado por Rubens Menin, que também é o fundador e acionista de referência da MRV. Em 2019, o negócio foi comprado pela MRV em troca do compromisso de investimentos na ordem de US$ 230 milhões.

Projeto era considerado ‘chance de ouro’

O plano inicial previa ampliar a produção anual de 700 de apartamentos para até 24 mil ao longo de dez anos, espalhando os projetos pela Flórida, Georgia, Texas e além. Em conversa com investidores na pré-venda para a MRV, Menin classificou o negócio como uma “chance de ouro”, tendo em vista os potenciais ganhos de escala.

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Em 2022, a MRV&CO chegou a contratar o BTG Pactual e o Bank Of America (BofA) para buscar sócios com intuito de ajudar a financiar o plano de expansão da Resia, mas o processo acabou paralisado alguns meses depois. A inflação e os juros começaram a subir nos EUA, desestimulando investidores.

Sem sócios, a Resia passou a financiar seus projetos com a tomada de dívida e com a expectativa de venda futura dos empreendimentos que estavam em obras. Confiante no negócio, o grupo abriu em 2023 uma fábrica própria de pré-moldados, como banheiros, cozinhas e lavanderias, para instalação diretamente nos canteiros de obras. É o tipo de investimento que exige um grande número de obras para valer a pena.

Mas então os problemas se acumularam. A inflação e os juros nos EUA seguiram altos, enquanto a Resia errou a mão em alguns projetos. Houve casos em que a companhia demorou para achar inquilinos, pois os prédios foram erguidos em locais onde já havia muita oferta de moradias. Isso fez o aluguel ficar abaixo do previsto, assim como o preço final de venda, que também demorou mais a sair. A dívida da Resia cresceu até chegar a um nível insustentável, marcando US$ 745 milhões no fim de 2024 - algo como R$ 4 bilhões.

Em 2025, o grupo começou a liquidar ativos

Então, a MRV&CO começou a recuar no sonho americano. O grupo decidiu reduzir os lançamentos, acelerar a venda dos empreendimentos e se desfazer de mais da metade do seu estoque de terrenos nos EUA. Mas o mercado norte-americano seguiu adverso, com pouco apetite de investidores por esse tipo de negócio. Em 2025, o grupo comandado pela família Menin começou a liquidar os ativos para gerar caixa e enfrentar a dívida. Ainda havia esperança em voltar a investir na Resia em algum momento no futuro. Já em 2026, veio a decisão de fechar as portas de vez.

No ano passado, o grupo perdeu US$ 144 milhões com baixa contábil (impairment, ou venda abaixo do valor patrimonial) e neste mês, reportou outra perda do mesmo tipo, no valor de US$ 110 milhões. Somando as duas, o prejuízo com a empreitada nos EUA gira na ordem de R$ 1,3 bilhão a R$ 1,4 bilhão.

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“Priorizamos caixa em relação ao valor do ativo”, explicou o copresidente da MRV&CO, Rafael Menin, em teleconferência com investidores e analistas nesta quinta-feira, 13. “Deixamos dinheiro na mesa, mas teremos geração de caixa”, defendeu. Só neste ano, as vendas de ativos da Resia levantaram US$ 400 milhões, o que vai se traduzir em cerca de R$ 1,5 bilhão para o caixa da MRV&CO (descontando despesas). Com isso, a dívida líquida do grupo vai baixar de R$ 5,9 bilhões para R$ 4,6 bilhões.

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“Vendemos em condições de mercado piores do que o imaginado. Não conseguimos recuperar valores com juros e despesas de projetos. Mas o racional aqui é ser bastante pragmático, optando por desalavancar mais rápido”, afirmou o diretor Financeiro e de Relações com Investidores da MRV&CO, Ricardo Paixão, em entrevista.

Ainda há imóveis para vender

Pela frente, a Resia tem ativos remanescentes para venda avaliados no balanço em US$ 370 milhões. Entram aí um último empreendimento próprio (Golden Glades, em Miami), terrenos, participações e a fábrica de pré-moldados. As vendas devem se estender até 2028. Alguns ativos podem ser vendidos abaixo do valor patrimonial, enquanto outros podem gerar algum lucro, segundo a direção. “Continuamos na linha de buscar uma forte venda de ativos para reduzir o impacto no balanço, até chegar num ponto em que a operação [Resia] será descontinuada”, acrescentou Paixão.

Antes da Resia, a MRV chegou a valer R$ 9 bilhões na Bolsa, em 2019. Hoje, seu valor de mercado está em R$ 2,7 bilhões.

A principal divisão de negócios do grupo continua sendo a MRV, especializada em moradias populares, dentro do Minha Casa Minha Vida (MCMV). A empresa teve lucro líquido ajustado de R$ 155 milhões no segundo trimestre, alta de 28,2% ante o mesmo período do ano passado. A MRV tem mostrado aumento das vendas de imóveis, melhora da margem e evolução das obras. A produção anual está em torno de 40 mil apartamentos, espalhada por 90 cidades.

Energia solar supera marco global e acelera expansão -FSP

 A rápida expansão da energia solar é uma das maiores histórias do século 21. Depois de superar a marca de 100 gigawatts em 2012, o mundo levou 10 anos para instalar um terawatt de capacidade solar. A instalação de mais um terawatt —suficiente para atender a toda a demanda de eletricidade dos Estados Unidos em seu pico— levou menos de três anos. Menos de dois anos depois, em 2026 —o momento exato é motivo de debate entre analistas—, o patamar de três terawatts foi alcançado.

Ninguém realmente percebeu.

E isso faz sentido. Para a maioria das pessoas, a expansão da energia solar não é percebida por meio de números, mas de outras formas. "Pegue um trem para qualquer lugar, digamos, no Reino Unido, e provavelmente verá painéis solares", afirmou Lara Hayim, chefe de pesquisa sobre energia solar da BloombergNEF.

Painéis solares organizados em fileiras retas em área aberta, com cinco turbinas eólicas ao fundo em campo verde sob céu azul com nuvens.
Torres eólicas de geração de energia e painéis solares no cerrado da Bahia e de Pernambuco - Rubens Cavallari -02.jun.26/Folhapress

Esse sinal visual só tende a ficar mais evidente. As projeções são tão otimistas em relação à energia solar que, em poucos anos, o marco de 3 terawatts parecerá quase insignificante. A BNEF prevê que o mundo instalará mais de 9 terawatts de capacidade solar até 2036.

Mas, ao examinar os dados um pouco mais a fundo, surgem histórias interessantes. O primeiro terawatt resultou, sobretudo, de países ricos subsidiando a instalação de sistemas solares, enquanto a China e os países pobres ainda consideravam a energia fotovoltaica cara demais. Esse cenário mudou com o segundo e o terceiro terawatts, quando a China assumiu o protagonismo dos países ricos.

O resultado é que, embora o mundo tenha ampliado a capacidade solar em ritmo acelerado, a parcela das instalações destinada aos países pobres permaneceu estagnada desde 2020. A China foi claramente o principal motor dessa expansão mundial, disse Hayim. Mas, ao separar os números, "agora também é possível observar uma explosão da energia solar em outros países".

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Nos últimos anos, países como Paquistão, Nigéria e Filipinas registraram um aumento extraordinário da capacidade solar instalada em telhados. Alguns mercados menores, como Cuba e Líbano, também apresentaram rápida adoção. Por isso, o número de países com ao menos 1 gigawatt de capacidade solar instalada chegou a 74 no ano passado, ante 42 em 2020.

A expansão da energia solar na China ocorreu em ritmo mais rápido do que a implantação da infraestrutura de apoio, como linhas de transmissão e baterias. Isso está levando a mais cortes na produção solar durante os horários de pico e, consequentemente, ao desperdício de recursos. Por isso, analistas esperam uma desaceleração das instalações na China. Em seu mais recente plano quinquenal, o país anunciou uma série de medidas para aumentar em mais de 50% o consumo de energia renovável, em vez da produção.

A BloombergNEF prevê que a participação dos países pobres nas instalações solares voltará a crescer a partir deste ano. A maioria dos países em desenvolvimento parte de níveis muito baixos de penetração da energia solar na rede e não atingirá os limites que a China e outros grandes adotantes enfrentam atualmente. Até 2036, mais de um quarto de toda a capacidade solar instalada estará em países em desenvolvimento, enquanto a participação dos países ricos cairá para cerca de 20%.

A expansão da energia solar ocorreu à medida que os países superaram problemas locais, desde a falta de trabalhadores qualificados até os desafios de administrar uma rede com fontes renováveis intermitentes. Ainda assim, Hayim afirma que a principal limitação para os países em desenvolvimento continua sendo a falta de acesso a financiamento.

Existe, porém, um limite máximo teórico para a quantidade de energia solar que pode ser acrescentada à rede. Isso ocorre porque, quando a energia solar já supre toda a demanda durante o dia, adicionar mais capacidade perde valor. Países como a Austrália e regiões como a Califórnia, que apresentam alguns dos maiores níveis de penetração da energia solar, registram preços negativos de eletricidade durante o dia, sinalizando que há energia solar em excesso na rede.

As baterias de íons de lítio podem ajudar a prolongar por algum tempo a expansão da energia solar, armazenando o excedente de eletricidade durante o dia e liberando-o mais tarde, à noite. Foi isso que formuladores de políticas públicas australianos ajudaram a incentivar por meio de subsídios para baterias residenciais. E é também o que começa a ocorrer, independentemente do apoio governamental, em países em desenvolvimento como Paquistão e Filipinas, onde uma explosão no uso de baterias sucede à da energia solar.

Sem armazenamento de energia em baterias, é improvável que a revolução solar continue. "Sem armazenamento de energia suficiente, não é possível maximizar o potencial da energia solar", afirmou Hayim.