sábado, 6 de junho de 2026

Formação do Parlamento é tarefa da sociedade, Dora Kramer - FSP

 O crescimento do poder do Parlamento não serviu só para inverter o equilíbrio de forças entre Executivo e Legislativo. Servirá nesta eleição para dar chance ao eleitorado de desmentir a escrita de que o próximo Congresso será sempre pior que o anterior.

Para isso é preciso observar alguns pré-requisitos na escolha de deputados e senadores. Renúncia ao pertencimento a bolhas ideológicas é um deles, mas há outros: atenção máxima ao cardápio de candidatos, prioridade semelhante à dada aos postulantes à Presidência e abandono de badulaques tais como carisma e venda de terrenos na Lua.

Conta também para um Legislativo alinhado às regras do presidencialismo a conjugação de parlamentares à opção por um candidato a presidente que tenha com eles identificação programática —de novo, não necessariamente ideológica— que facilite o ato de governar.

Edifício do Congresso Nacional com duas torres altas ao centro, cúpula hemisférica à esquerda e estrutura em forma de prato à direita, refletidos em espelho d'água à frente, sob céu azul claro.
Vista da fachada do Congresso Nacional, em Brasília (DF) - Pedro Ladeira - 5.jul.24/Folhapress

Não se trata de interditar o essencial ofício da oposição, mas de distinguir os papéis dos Poderes, seus deveres e direitos, no sistema presidencialista. Há dúvida sobre o interesse dos beneficiários da atual distorção de explicar que se eles querem exercer o controle do Orçamento devem ter também responsabilidade na execução das políticas públicas.

Sem essa atribuição clara de prerrogativas, vamos continuar na toada em que o Congresso dita ações do governo sem ter responsabilidade sobre as consequências. Situação muito confortável para o Parlamento, mas de evidente distorção institucional. Urgente, portanto, que se corrija a deformação.

Se não for pela mudança de sistema —duas vezes recusada em plebiscito—, que seja pelo voto consciente. Convencida de que a eleição de congressistas influi no ato de governar, altera decisões, prospera ou interdita decisões, a população tem a chance de dar o seu jeito.

E qual seria o melhor jeito? Decerto prestar atenção, empregar rigoroso escrutínio ao que dizem candidatos sobre a utilidade que pretendem dar aos futuros mandatos e questioná-los sobre o que acreditam ser o papel do Congresso.


Mais desigual e mais feliz do mundo, qual é o segredo do Brasil?, Laura Müller Machado- FSP

 O Brasil ocupa a quinta posição entre 216 países e territórios em desigualdade de renda, segundo o Relatório da Desigualdade Global divulgado em 2025 pelo WIL (World Inequality Lab), grupo de pesquisadores liderado pelo economista francês Thomas Piketty.

O dado mais recente do governo brasileiro, divulgado pelo IBGE neste ano, indica que o Brasil teve um aumento de 1,3% no Gini, indicador utilizado para medir desigualdade, de 2024 para 2025. Somos um dos países mais desiguais do mundo e não temos sinais de que iremos sair dessa posição, ocupada há muitas décadas.

Vista aérea mostra favela com casas pequenas e amontoadas cercada por prédios residenciais altos e modernos ao fundo, sob céu claro.
Vista aérea panorâmica da comunidade de Paraisópolis, localizada na zona sul da cidade de São Paulo, mostra contraste entre o adensamento habitacional da periferia e os edifícios de alto padrão ao fundo - Folhapress

Um estudo publicado no Journal of Economic Inequality em janeiro deste ano apresenta a relação entre a percepção da desigualdade de renda e o bem-estar subjetivo. Utilizando dados de 33 países da Pesquisa Vida em Transição de 2016, que inclui informações sobre as mudanças na desigualdade percebida pelos indivíduos, o estudo mostra que essa percepção é importante para a satisfação com a vida.

Indivíduos que acreditam que a desigualdade aumentou estão, em média, 8% menos satisfeitos com suas vidas na comparação com os que não percebem o aumento dela. Talvez o mais surpreendente da pesquisa seja que levar em conta os níveis e mudanças factuais de desigualdade não altera esse resultado, ou seja, as percepções são mais importantes para a satisfação do que a desigualdade real. O que esse resultado gera de reflexão sobre o Brasil, um dos mais desiguais, de fato, do mundo?

Caso a percepção sobre desigualdade dos brasileiros fosse idêntica à desigualdade factual, ou seja, caso nossa sociedade percebesse o Brasil como ele é, não seria surpreendente esperar que estivéssemos muito tristes. Afinal, um bem-estar baixo por conta de uma altíssima disparidade econômica interna, que salta aos olhos do restante do mundo, é uma hipótese razoável. No entanto, não parece ser o que acontece.

O World Values Survey (WVS) é um projeto de pesquisa global que explora os valores e crenças das pessoas desde 1981. Na sétima e última onda da pesquisa (2017–2022), os brasileiros relataram níveis expressivos de bem-estar subjetivo; tipicamente, entre 80% e 90% dos entrevistados se identificaram como "muito felizes" ou "bastante felizes".

Outras pesquisas mais recentes, como o World Happiness Report, também mostram o Brasil entre as posições mais altas, sendo a Finlândia, a Islândia e a Dinamarca os grandes destaques.

Parece desafiador tentar relacionar esses três resultados: somos um dos países mais desiguais do mundo, a percepção da desigualdade é muito importante para o bem-estar e temos altos indicadores de bem-estar. Quais seriam as possíveis explicações para essa tríade intrigante?

Uma hipótese é que o Brasil talvez tenha algo diferente, as praias, o Carnaval ou outra coisa, que diminua o impacto da enorme desigualdade no bem-estar. Ou seja, o estudo do Journal of Economic Inequality não se aplicaria ao Brasil.

Outra hipótese é que a percepção sobre a desigualdade dos brasileiros esteja muito distante da realidade. Talvez não nos demos conta de que a concentração de renda no topo da pirâmide brasileira é enorme, com os 10% mais ricos detendo cerca de 40% a 64% da renda nacional, dependendo da fonte dos dados. Qual será o elemento e o segredo que nos faz ter tanta alegria e desigualdade convivendo lado a lado?

ONS aciona plano emergencial inédito para cortar geração por excesso de energia, FSP

 André Borges

Brasília

O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) acionou pela primeira vez um plano emergencial criado para reduzir a geração de energia do país, devido ao excesso de oferta de eletricidade previsto para este domingo (7).

A medida foi tomada para evitar possíveis riscos de desequilíbrio no sistema elétrico, diante da previsão de oferta de energia muito maior que a demanda. Isso pode acabar derrubando a transmissão e causando apagões.

A imagem mostra uma fileira de painéis solares inclinados em um campo verde. O céu está claro com algumas nuvens, e a luz do sol ilumina os painéis, que estão posicionados em um ângulo para maximizar a captação de luz solar.
Operador prevê excesso de geração de energia e baixo consumo, o que deve resultar em desligamento de solares por distribuidoras - Divulgação/EDP

Essa é a primeira vez que o operador precisa recorrer ao mecanismo, desde que a regra foi aprovada pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) em novembro de 2025.

O sistema elétrico precisa manter equilíbrio permanente entre a energia produzida e consumida. Quando a geração fica muito acima da demanda, aumenta o risco de desligamento automático de equipamentos.

Em nota divulgada neste sábado (6), o ONS informou que a previsão para domingo aponta uma carga reduzida, ou seja, baixo consumo de energia. O Operador determinou inicialmente a redução da geração das usinas que estão sob sua coordenação direta. Essa medida não foi suficiente para eliminar o risco, o que levou ao acionamento do plano emergencial.

Por isso, foi necessário acionar o "Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição", que deve cortar, principalmente, a geração entregue por usinas solares de pequenos e microgeradores, que não têm conexão gerenciada pelo ONS.

"O ONS seguirá acompanhando e coordenando ações no SIN, fazendo a gestão dos recursos disponíveis, de acordo com a demanda da sociedade em comunicação direta com os agentes do setor. Segue também atento a nova realidade eletroenergética e trabalhando para garantir a segurança e a eficiência do sistema, de acordo com os procedimentos de rede vigentes", declarou o órgão.

O Operador já realiza cortes de geração há anos, seja de eólicas ou grandes usinas solares. O que nunca havia ocorrido era a necessidade de utilizar esse novo instrumento regulatório para alcançar pequenos geradores conectados às redes das distribuidoras.

A nova regra foi criada após uma série de alertas do próprio ONS sobre o aumento do risco de excedentes de energia em períodos de baixa carga.

O procedimento segue etapas definidas. O ONS monitora as condições do sistema com antecedência de até sete dias e pode emitir alertas preliminares às distribuidoras. Na véspera da operação, confirma se a restrição será necessária e informa o montante de energia que deverá ser reduzido. As distribuidoras comunicam os geradores afetados.

O ONS não escolhe diretamente quais usinas serão desligadas. Essa tarefa cabe às distribuidoras. A metodologia prevê a seleção de usinas com maior previsão de geração naquele período e um sistema de rodízio, para evitar que os cortes recaiam sempre sobre os mesmos geradores.

A geração solar é o principal alvo porque o problema aparece justamente nos horários de maior produção fotovoltaica, normalmente entre o fim da manhã e o meio da tarde. Em um domingo ensolarado, com baixa atividade econômica e consumo reduzido, as usinas solares tendem a produzir grandes volumes de energia exatamente quando o sistema menos precisa dela.

Além destas, podem ser desligadas pequenas centrais hidrelétricas, usinas a biomassa e parques eólicos de menor porte.