domingo, 24 de maio de 2026

Privatização da Eletrobras tem R$ 3,7 bi encalhados em fundos para rios e saneamento, FSP

Brasília

Mais de R$ 3,7 bilhões da privatização da Eletrobras estão parados em quatro fundos que deveriam ir para projetos de saneamento básico, revitalização de bacias hidrográficas e redução de custos de energia.

Os recursos estão encalhados em fundos alimentados pela Axia Energia —sucessora da estatal—, também responsável pela implementação dos empreendimentos.

A imagem apresenta o logotipo da Eletrobras em um fundo escuro. O logotipo é composto por um símbolo estilizado em forma de gota, com cores verde e azul, ao lado do nome 'Eletrobras' escrito em letras brancas.
O logo da Eletrobras exibido em uma bolsa de valores em Nova York - Brendan McDermid - 9.abr.2019/Reuters

Esses mecanismos foram criados para atender regiões como a Amazônia Legal, Furnas ou a Bacia do Rio São Francisco, e os rios Madeira e Tocantins. Eles começaram a funcionar em 2023, mas na prática estão sem uso.

Até agora foram executados pela empresa R$ 662,2 milhões, menos de 20% do total. Apenas 5 dos 247 projetos contemplados pelo mecanismo já foram concluídos até aqui, e mais da metade (145) sequer começou a ser realizado.

Parte do valor pago acaba retornando para a própria Axia, como forma de ressarcimento por tributos como PIS/Cofins ou por serviços administrativos. Esse montante soma R$ 40 milhões.

A empresa registrou um lucro líquido de R$ 3,7 bilhões no primeiro trimestre deste ano.

PUBLICIDADE

Procurada, a companhia disse que a destinação dos recursos "envolve etapas técnicas, ambientais e operacionais que exigem maturação prévia, detalhamento e cumprimento de requisitos legais para viabilizar a contratação e a implantação com segurança".

Segundo a empresa, muitas propostas chegam até ela ainda "em estágio inicial de estruturação", ainda com problemas formais, "o que demanda ajustes e complementações antes do início da execução."

"A Axia Energia tem atuado para dar maior agilidade a esse processo, com estrutura dedicada, equipe especializada, gestão de projetos e acompanhamento permanente", completa a companhia.

O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, que participa da gestão desses recursos, disse que o processo "segue rigorosos critérios técnicos e de conformidade, com aprovação de projetos realizada por comitês interministeriais e monitoramento quinzenal".

"A implementação e o fluxo financeiro ocorrem de forma escalonada, conforme a disponibilização anual dos recursos pela Axia Energia e o cumprimento de normas de compliance nacionais e internacionais para a contratação dos empreendimentos", completou a pasta.

COMO FUNCIONA

A Eletrobras foi privatizada em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro (PL). Ela se tornou uma empresa privada de capital aberto, com controle pulverizado e, em 2025, acabou rebatizada de Axia Energia.

Uma das contrapartidas desse processo foi a criação de quatro fundos, alimentados com repasses anuais da companhia: o da bacia hidrográfica dos rios São Francisco e Parnaíba, o da região de Furnas, o da Amazônia Legal e o de Navegabilidade —voltado a obras de melhorias dos rios Madeira e Tocantins.

O dinheiro alocado nesses mecanismos fica sujeito a rendimentos e tem modelos de gestão diferentes entre si.

O fundo do São Francisco e Parnaíba, por exemplo, já recebeu R$ 1,5 bilhão da Axia, mas até agora executou apenas R$ 54,4 milhões. Ele atende 144 projetos em 740 municípios.

Se somados os rendimentos e descontado o que já foi gasto, o mecanismo acumula um saldo de R$ 1,7 bilhão que ainda não foi destinado a ações de revitalização das bacias hidrográficas mais importantes do Nordeste, com quase 640 mil km².

Quem seleciona os projetos aptos a receber o dinheiro é o governo federal, por meio de um comitê gestor comandado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, mas a implementação dos empreendimentos é de responsabilidade da Axia.

O orçamento total das propostas já validadas pelo Executivo soma mais de R$ 3 bilhões para o fundo do São Francisco. Por outro lado, só R$ 545 milhões já passaram pela etapa de contratação, que é realizada pela empresa e precede a execução.

Em abril, o governo Lula (PT) decidiu cancelar R$ 250 milhões em projetos de saneamento nessa bacia hidrográfica que estavam aprovados, e realocar essa verba para outras áreas, como a revitalização de rios.

A justificativa para a decisão foi de que ela atingiu locais onde o serviço de esgoto havia sido privatizado.

O fundo da Amazônia já recebeu R$ 630 milhões até aqui e executou mais da metade disso, R$ 369 milhões —a maior parte, R$ 224,4 milhões, com a modicidade tarifária do estado do Amapá, ação para reduzir a conta de luz do estado.

Já o fundo para Navegabilidade está praticamente estagnado: nenhum edital foi publicado desde 2023 para seleção de empreendimentos de melhoria dos rios Madeira e São Francisco. O resultado é um acúmulo de R$ 446 milhões estacionados.

Ele só não está absolutamente parado porque registrou uma execução de R$ 6 milhões, mas dos quais R$ 5,9 milhões foram como ressarcimento para a própria Axia —do restante, R$ 50 mil foram para auditorias e R$ 20 mil são referentes a diárias de viagens de um integrante do comitê.

Ou seja, nada foi gasto com projetos de recuperação da navegabilidade dos rios Tocantins ou Madeira.

No caso do fundo do São Francisco, quase um quarto de todo o valor executado foi por ressarcimento à empresa —R$ 12,7 milhões de R$ 54 milhões.

Os mecanismos de transparência também apresentam problemas. Há divergência de dados, por exemplo, entre diferentes páginas que deveriam mostrar a destinação desses recursos.

No site oficial da Axia, consta que foram executados R$ 369 milhões do fundo da Amazônia Legal.

Já em outra plataforma (um PowerBI, também administrado pela empresa, mas com fontes de dados diferentes), consta uma realização de apenas R$ 1,3 milhão.

Para os cálculos desta reportagem, a Folha decidiu usar o maior valor, por constar na tabela de prestação de contas junto com a relação de todos os projetos contemplados com os pagamentos.

A Axia foi reiteradamente questionada, desde a última segunda (18), sobre as divergências. Ela respondeu apenas de forma genérica.

Efêmeros, mas eternos, Ruy Castro ,FSP

 Eu sei, é besteira lutar contra a tecnologia —por que andar a pé se inventaram a roda?, dirão alguns—, mas não somos obrigados a aplaudir tudo, somos? Uma das coisas que a tecnologia aposentou há tempos, e de que poucos se deram conta, foram os flyers, aqueles volantes impressos anunciando o lançamento de um filme, a abertura de uma exposição, a estreia de uma peça. Eram panfletos coloridos que nos chegavam às mãos, cumpriam sua humilde função de nos informar e, em seguida, eram deixados de lado, esquecidos, jogados fora. Às vezes, anos depois, alguns ressurgiam dentro de um livro ou gaveta, e despertavam boas lembranças.

Os flyers eram pôsteres em miniatura. Reproduziam a programação visual do evento ou do objeto que anunciavam. Sua variedade gráfica era um show. Havia-os de inúmeros estilos, designs, cores, fontes, letterings, tudo no formato perfeito de um cartão-postal. Não quer dizer que, hoje, tenham deixado de existir. Continuam a ser produzidos, só que para o celular ou para o computador, chamados de "cards", e, assim que lidos, desaparecem no turbilhão de mensagens recebidas. Se, em papel, já eram uma mídia efêmera, agora nascem e morrem no espaço e quase ao mesmo tempo.

Há muitos livros ilustrados, luxuosos, pesados, de coffee table, dedicados aos pôsters. Aos flyers, nunca vi nenhum. E, se já tiverem sido feitos, qual foi o critério para selecioná-los? Por país, por época, por especialidade? Eu escolheria todas essas possibilidades.

Por acaso, e sem nenhuma intenção definida —apenas os achava bonitos e tinha pena de atirá-los fora—, dediquei-me nos últimos 30 anos a jogar numa caixa os flyers que recebia. Lotada aquela, providenciei outra. E outra. Há dias, vasculhando um armário, achei aquelas caixas com pilhas de flyers. Anunciavam livros, filmes, peças, shows, coquetéis, exposições e palestras que, nesses anos todos, já foram para o limbo.

Ou não. Revolvendo-os ao acaso naquelas caixas, era como se descobrisse uma eternidade em sua arte tão humilde e tão útil.

Apanhado de antigos flyers anunciando eventos artísticos e literários no Rio - Heloisa Seixas

Rainha da dependência química nos EUA se rende a psicodélicos, Marcelo Leite, FSP

 "Se eu não posso mudar minhas visões baseada em evidências, por que raios então fazer ciência?" Eis uma frase que jamais se ouviria no governo Jair Bolsonaro. Em meio ao descaso homicida com a pandemia, ninguém na Esplanada fazia ciência, estavam ocupados em desacreditar vacinas, vender cloroquina e dar um golpe.

Não que Donald Trump se saia pior em desumanidade, mas ao menos com terapias psicodélicas ocorre algum avanço por lá. Evidência disso é o cavalo de pau da autora daquela sentença, a médica conservadora Nora Volkow, que dirige o Instituto Nacional de Abuso de Drogas (Nida) dos EUA desde 2003.

Há dois anos, ela dizia ao boletim de saúde Stat ser improvável que o psicodélico ibogaína viesse a ser aprovado para dependência. Agora ela destaca que o composto da planta africana Tabernanthe iboga "está entre [os psicodélicos] mais poderosos em teste para psicoterapêutica", como relata o boletim Psychedelic Alpha, que publicou a palestra e uma entrevista com o editor Josh Hardman.

Nora Volkow dirige o Instituto Nacional de Abuso de Drogas (Nida) dos EUA - Hailey Sadler - 19.mar.24/NYT

A declaração de apoio partiu dela em palestra na reunião anual da Associação Psiquiátrica Americana (APA), realizada em São Francisco de 16 a 20 de maio. Um mês antes, Trump havia assinado ordem executiva mandando acelerar a pesquisa clínica com psicodélicos, com destaque para a ibogaína.

"Se você me dissesse anos atrás que eu estaria falando sobre psicodélicos [na reunião da APA], jamais acreditaria", disse Volkow ao abrir sua fala. "Nem nos meus sonhos mais loucos imaginaria estar aqui, incentivando todos a aprenderem por que essas substâncias são tão potencialmente interessantes para a psiquiatria."

A médica tem ligação peculiar com o México, país aonde vão veteranos de guerra dos EUA em busca de ibogaína para transtorno de estresse pós-traumático. Ela cresceu em Coyoacán, na casa em que foi assassinado Leon Trótski, seu bisavô, em 1940.

Volkow se abalou até Cancún, onde visitou a clínica Transcend, segundo ela um dos centros com maior reputação no uso de ibogaína. "Conheci pacientes lá que diziam ter sido curados, supostamente, de sua depressão e dependência. Fiquei impressionada com a forma como eles conduziam as coisas farmacologicamente, com a supervisão, a triagem dos pacientes e a maneira como realizavam a intervenção."

A czarina do Nida não se deixa entusiasmar, porém, com relatos anedóticos. Ela se apoia em dados, como os projetados em slides durante a palestra sobre longa abstinência de dependentes de álcool e tabaco após dose de psilocibina.

Ela não descarta efeito placebo nos bons resultados com psicodélicos. Diz ser óbvio que expectativas podem ser poderosas. No entanto: "Se um placebo produz aumento de 90% na satisfação com a vida, gostaria de saber o que torna esse placebo tão impactante!"

Espera-se a mesma curiosidade de psiquiatras brasileiros...

"Realmente compete a todos nós reconhecer que psicodélicos, embora antigos, representam uma classe de medicamentos completamente nova e transformadora na psiquiatria. Eles nos dão a oportunidade de revisitar o que já sabemos há muito sobre a importância da psicoterapia, mas de uma forma que pode ser acelerada e aprofundada."