domingo, 24 de maio de 2026

Brasil, o país que abre mão do desenvolvimento, Ronaldo Lemos _FSP

 Nosso país dá aulas para o mundo sobre como abrir mão do desenvolvimento. O caso dos minerais críticos é um exemplo. Em 1940, chegou ao Brasil o russo Boris Davidovitch. Seu objetivo era explorar monazita nas areias de Guarapari (ES). Em um ano ele dominaria completamente esse mercado de forma predatória, deixando um rastro de destruição.

Davidovitch destruiu cerca de 70 km de praias, incluindo restingas. Montou uma operação de evasão fiscal em que vendia para si mesmo, jogando o preço e os impostos para valores irrisórios. Foi acusado de subornar juízes e desembargadores, de usar trabalho escravo e de continuar exportando clandestinamente mesmo quando suas atividades foram proibidas.

A imagem mostra uma grande área de mineração, com terrenos expostos e escavados. O solo é predominantemente de cor laranja e marrom, com algumas áreas de vegetação ao redor. Ao fundo, há montanhas e uma paisagem rural, com um céu claro e sem nuvens.
Instalações da mineradora Anglo American na cidade de Barro Alto, em Goiás - Pedro Ladeira - 21.ago.25/Folhapress

Em 1954 o prefeito de Guarapari lhe deu uma bofetada na cara. Seu sucessor declarou: "Nasci e me criei aqui. Nunca vi esse homem fazer qualquer coisa em benefício dessa terra". Em 1956, foi aberta uma CPI onde ele foi intimado a depor.

Tudo isso não serviu para nada. A predação ao Brasil lhe rendeu US$ 227 bilhões. Ele morreu bilionário em Paris em 1960. Após sua morte, seus funcionários enterraram o maquinário da empresa na areia e queimaram todos os documentos.

O que sobrou de monazita extraída em Guarapari foi levada para o bairro do Brooklin em São Paulo, processada pela Orquima e, depois de 1966, pela estatal Nuclemon. Depois da vergonha da monazita, o Brasil finalmente conseguiu dominar boa parte da cadeia de separação das terras raras. Era uma capacidade estratégica rara no mundo naquele momento. Essa capacidade foi desmantelada a partir de 1990 e o que sobrou para o país foram 11 toneladas de resíduo radioativo, apelidado de "Torta 2". Essa "torta" foi enviada para Caldas (MG). E lá se encontra até hoje.

A monazita é uma das principais fontes de terras raras do planeta, incluindo o elemento radioativo tório, usado para fazer urânio-233. O problema é que ao ser exportada de forma bruta, seu valor é de banana: menos de US$ 10 por quilo. Com um mínimo de processamento, que o país não consegue mais fazer, o valor aumenta dez vezes: US$ 100 o quilo. Na sua forma final (óxido de térbio) o valor aumenta para US$ 1.000 o quilo.

Analisar a história da exploração da monazita no Brasil revela o tamanho do descaso do país com o desenvolvimento.

A monazita brasileira é hoje cobiçada no mundo todo por causa das terras raras. Só que, como toda a capacidade de processamento local foi perdida, o valor agregado é todo gerado no exterior. E o mais irônico: após décadas sem vender monazita bruta por conta da vergonha do passado, o Brasil voltar a exportar monazita bruta nesse ano a partir do Rio de Janeiro, repetindo mais uma vez a história.

O país fica com os buracos, e quem a compra e processa fica com os bilhões de valor agregado. Tudo isso poderia não ser assim. O país teve vozes na história que buscaram refundar nossa política mineral, como o almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, o próprio Juscelino Kubitschek ou o professor Diógenes Moura Breda, da Universidade Federal de Uberlândia. Seus artigos recentes demolem a lei sobre terras raras em tramitação no Congresso Nacional, que ele chama de "erro estratégico". Seus escritos merecem atenção.

Privatização da Eletrobras tem R$ 3,7 bi encalhados em fundos para rios e saneamento, FSP

 

Brasília

Mais de R$ 3,7 bilhões da privatização da Eletrobras estão parados em quatro fundos que deveriam ir para projetos de saneamento básico, revitalização de bacias hidrográficas e redução de custos de energia.

Os recursos estão encalhados em fundos alimentados pela Axia Energia —sucessora da estatal—, também responsável pela implementação dos empreendimentos.

A imagem apresenta o logotipo da Eletrobras em um fundo escuro. O logotipo é composto por um símbolo estilizado em forma de gota, com cores verde e azul, ao lado do nome 'Eletrobras' escrito em letras brancas.
O logo da Eletrobras exibido em uma bolsa de valores em Nova York - Brendan McDermid - 9.abr.2019/Reuters

Esses mecanismos foram criados para atender regiões como a Amazônia Legal, Furnas ou a Bacia do Rio São Francisco, e os rios Madeira e Tocantins. Eles começaram a funcionar em 2023, mas na prática estão sem uso.

Até agora foram executados pela empresa R$ 662,2 milhões, menos de 20% do total. Apenas 5 dos 247 projetos contemplados pelo mecanismo já foram concluídos até aqui, e mais da metade (145) sequer começou a ser realizado.

Parte do valor pago acaba retornando para a própria Axia, como forma de ressarcimento por tributos como PIS/Cofins ou por serviços administrativos. Esse montante soma R$ 40 milhões.

A empresa registrou um lucro líquido de R$ 3,7 bilhões no primeiro trimestre deste ano.

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Procurada, a companhia disse que a destinação dos recursos "envolve etapas técnicas, ambientais e operacionais que exigem maturação prévia, detalhamento e cumprimento de requisitos legais para viabilizar a contratação e a implantação com segurança".

Segundo a empresa, muitas propostas chegam até ela ainda "em estágio inicial de estruturação", ainda com problemas formais, "o que demanda ajustes e complementações antes do início da execução."

"A Axia Energia tem atuado para dar maior agilidade a esse processo, com estrutura dedicada, equipe especializada, gestão de projetos e acompanhamento permanente", completa a companhia.

O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, que participa da gestão desses recursos, disse que o processo "segue rigorosos critérios técnicos e de conformidade, com aprovação de projetos realizada por comitês interministeriais e monitoramento quinzenal".

"A implementação e o fluxo financeiro ocorrem de forma escalonada, conforme a disponibilização anual dos recursos pela Axia Energia e o cumprimento de normas de compliance nacionais e internacionais para a contratação dos empreendimentos", completou a pasta.

COMO FUNCIONA

A Eletrobras foi privatizada em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro (PL). Ela se tornou uma empresa privada de capital aberto, com controle pulverizado e, em 2025, acabou rebatizada de Axia Energia.

Uma das contrapartidas desse processo foi a criação de quatro fundos, alimentados com repasses anuais da companhia: o da bacia hidrográfica dos rios São Francisco e Parnaíba, o da região de Furnas, o da Amazônia Legal e o de Navegabilidade —voltado a obras de melhorias dos rios Madeira e Tocantins.

O dinheiro alocado nesses mecanismos fica sujeito a rendimentos e tem modelos de gestão diferentes entre si.

O fundo do São Francisco e Parnaíba, por exemplo, já recebeu R$ 1,5 bilhão da Axia, mas até agora executou apenas R$ 54,4 milhões. Ele atende 144 projetos em 740 municípios.

Se somados os rendimentos e descontado o que já foi gasto, o mecanismo acumula um saldo de R$ 1,7 bilhão que ainda não foi destinado a ações de revitalização das bacias hidrográficas mais importantes do Nordeste, com quase 640 mil km².

Quem seleciona os projetos aptos a receber o dinheiro é o governo federal, por meio de um comitê gestor comandado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, mas a implementação dos empreendimentos é de responsabilidade da Axia.

O orçamento total das propostas já validadas pelo Executivo soma mais de R$ 3 bilhões para o fundo do São Francisco. Por outro lado, só R$ 545 milhões já passaram pela etapa de contratação, que é realizada pela empresa e precede a execução.

Em abril, o governo Lula (PT) decidiu cancelar R$ 250 milhões em projetos de saneamento nessa bacia hidrográfica que estavam aprovados, e realocar essa verba para outras áreas, como a revitalização de rios.

A justificativa para a decisão foi de que ela atingiu locais onde o serviço de esgoto havia sido privatizado.

O fundo da Amazônia já recebeu R$ 630 milhões até aqui e executou mais da metade disso, R$ 369 milhões —a maior parte, R$ 224,4 milhões, com a modicidade tarifária do estado do Amapá, ação para reduzir a conta de luz do estado.

Já o fundo para Navegabilidade está praticamente estagnado: nenhum edital foi publicado desde 2023 para seleção de empreendimentos de melhoria dos rios Madeira e São Francisco. O resultado é um acúmulo de R$ 446 milhões estacionados.

Ele só não está absolutamente parado porque registrou uma execução de R$ 6 milhões, mas dos quais R$ 5,9 milhões foram como ressarcimento para a própria Axia —do restante, R$ 50 mil foram para auditorias e R$ 20 mil são referentes a diárias de viagens de um integrante do comitê.

Ou seja, nada foi gasto com projetos de recuperação da navegabilidade dos rios Tocantins ou Madeira.

No caso do fundo do São Francisco, quase um quarto de todo o valor executado foi por ressarcimento à empresa —R$ 12,7 milhões de R$ 54 milhões.

Os mecanismos de transparência também apresentam problemas. Há divergência de dados, por exemplo, entre diferentes páginas que deveriam mostrar a destinação desses recursos.

No site oficial da Axia, consta que foram executados R$ 369 milhões do fundo da Amazônia Legal.

Já em outra plataforma (um PowerBI, também administrado pela empresa, mas com fontes de dados diferentes), consta uma realização de apenas R$ 1,3 milhão.

Para os cálculos desta reportagem, a Folha decidiu usar o maior valor, por constar na tabela de prestação de contas junto com a relação de todos os projetos contemplados com os pagamentos.

A Axia foi reiteradamente questionada, desde a última segunda (18), sobre as divergências. Ela respondeu apenas de forma genérica.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Escolhas políticas de Neymar são irrelevantes quando o assunto é ganhar ou perder, João Pereira Coutinho - FSP

 Mérito é palavra feia nas sociedades igualitárias em que vivemos. Como falar de mérito quando cada indivíduo é um caso à parte, com sua história de vida, sua família, sua educação e seus contatos?

O esforço conta. Mas, em certos contextos, conta menos do que imagina a meritocracia. Quem nasce pobre, sem saúde, sem pais presentes, sem grandes possibilidades de ascensão social, já parte vários quilômetros atrás na corrida até a meta.

Concordo com o argumento, até certo ponto. Mas abro uma exceção: o futebol. Nas outras atividades, a biografia e a sorte podem ter a palavra decisiva. No futebol, ambas se reduzem ao essencial: mérito ou falta dele.

Existem "nepo babies" em todas as áreas: empresários filhos de empresários, jornalistas filhos de jornalistas, advogados filhos de advogados e por aí vai. Mas jogadores filhos de jogadores só sobrevivem na competição selvagem do gramado se tiverem talento para mostrar.

O levantador Bruninho, multicampeão com a seleção brasileira, filho dos ex-jogadores Vera Mossa e Bernardinho (este atual treinador da seleção masculina) - Mauro Pimentel - 23.mai.24/AFP

Nunca vi um técnico escalar o próprio filho para o time titular se o filho tem dois pés esquerdos. O time, a torcida, a mídia e o resultado do jogo acabariam com as duas carreiras.

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Infelizmente, a "hiperpolítica" já invadiu o último reduto da mais pura excelência humana. Devo esse termo ao filósofo Anton Jäger, em ensaio com esse título, que assim descreve o mundo em que vivemos desde 2016: tudo é política, mesmo o que não é. Tudo é protesto, indignação viral, luta fratricida –e virtual. Um excesso de ruído que dura pouco e rapidamente se converte em nada para ser tomado por novo protesto, nova indignação, nova luta.

Neymar durante conversa virtual com o candidato Bolsonaro, entre o primeiro e o segundo turno da eleição de 2022 - 22.out.22/@Jair Bolsonaro no Youtube

Eu mesmo assisti a isso na minha recente passagem pelo Brasil. Há Copa do Mundo no próximo mês? O país não está excitado. Nem otimista. Falar do hexa é quase um insulto para os brasileiros, que já preveem derrotas históricas contra Marrocos, Haiti e Escócia.

Como português, posso compreender a ansiedade com Marrocos: histórica e futebolisticamente, daquelas bandas nunca veio coisa boa. Até um rei lusitano ficou por lá, numa batalha traumática que nos custou a independência para a Espanha no século 16. Mas prudência não é o mesmo que desistência antes de o torneio começar.

Só um nome, porém, anima metade dos torcedores: Neymar. Curiosamente, é o mesmo nome que deprime ainda mais a outra metade. Como se explica essa polarização afetiva em torno do jogador?

Com a própria polarização política, como mostrou uma pesquisa repercutida pela revista Veja. A maioria à direita apoia a escolha de Carlo Ancelotti de levar Neymar para a Copa. A maioria à esquerda se opõe: não por razões técnicas ou táticas; as razões são ideológicas. Um apoiador de Bolsonaro não deveria vestir a camisa da seleção.

Eu rio. A única questão que deveria mover os brasileiros era saber se o jogador está apto a contribuir para as vitórias. Nada mais. Suas escolhas políticas, gastronômicas, musicais ou íntimas seriam irrelevantes quando o assunto é mais básico: ganhar ou perder.

Imagem de Neymar durante a convocação para a Copa de 2026 - 18.mai.26/Reuters

Mas a "hiperpolítica" não perdoa, derrubando até a lógica meritocrática que fazia do futebol um reino de justiça à parte. O que me leva a perguntar: o que seria da seleção brasileira se os seus jogadores tivessem de passar primeiro por um teste de pureza ideológica?

E o que teria sido do Brasil se esse teste já existisse em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002?

A essas perguntas eu respondo: nem penta, nem hexa. Apenas uma bela medalha de participação –com certificado de bom comportamento político.